quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Sentimento de Possibilidade...

A primeira vez é sempre difícil, não me enganem. Ninguém gosta de ter mãos suadas e de se sentir desadequado. De não conseguir ler expressões em rostos que não conhece, de não saber, não conhecer, não pertencer.
A primeira vez de algo é difícil. Eu gostava de me deitar agora e só acordar para o mês que vem, porque há uma série de primeiras coisas por fazer, o conforto dos dias perde-se.

Sim. a primeira vez também é excitante, porque é novo, porque é desconhecido, mas tal como dois amantes que não sabem bem o que fazer consigo mesmos naquele jogo, a primeira vez é melhor imaginada do que vivida. Venham as segundas vezes, a meia dúzia. Somos bons naquilo que conhecemos...no resto às vezes temos sorte.

Ao longo dos anos a primeira vez conseguiu evoluir do pânico para o simples desconforto. Tantas salas de aula depois, tantas apresentações ao jeito de alcoólicos anónimos, "olá, eu sou a Angie, venho de Portalegre, quero salvar o mundo...", tantas vezes a ouvir uma voz em segundo plano, sempre esganiçada, sempre menos confiante do que era necessário, saío sempre com a sensação de que havia mais para dizer, "Oh porra, como não me lembrei disto!"

30 anos de primeiras vezes depois, acho que a de hoje correu bem.

Não sou um ser muito social, não sou fã de pessoas à primeira vista. Sou desajeitada, tenho pouca noção espacial e nunca sei qual é o comportamento adequado. Esse código de cumprimentos, e beijos e apertos de mão. E os homens que abrem portas para passar, entro primeiro?

Não, não sou muito social. Deixo cair coisas, tropeço nos fios, fico minutos a pensar noutra coisa. Levo tempo a sentir-me confortável com as pessoas, a dizer baboseiras, a rir sem sentido, a ter um olhar directo e franco. Vou sentir-me desadequada meses. 

No entanto as primeiras vezes são boas, são sempre cheias de sentido de possibilidade. 
E hoje, do pouco que fiz ouvi um "muito bom mesmo". 
Vim embora a sentir-me desadequada... mas cheia desse sentido único de possibilidade.
Amanhã, na segunda vez só poderá ser melhor...

domingo, fevereiro 09, 2014

Borboletas na barriga...


Sentou-se à beira do muro e olhou a planície que se estendia a seus pés. Um imenso mar de verdes, casas perdidas e caminhos abandonados.
Respirou. Lembrava-se de toda uma vida que não tinha vivido ali. De como ela tinha sido, essa semente que se formou no seu ser mas não germinou, morreu antes de crescer.
Lembra-se nesta nostalgia do vazio, porque uma coisa que não existiu não ocupa lugar, mas havia um lugar no seu ser que era daquela vida. De todos os sítios onde deveria ter ido, dos dias e dos anos, das vezes que deram as mãos e dos olhares cúmplices.  Sente o ter envelhecido ali, as vezes que foi feliz e os lutos, os dias cheios de sol ou os invernos longos.
Uma vida inteira vivida ali. Uma vida que não existiu.
Sente essa falta… saudades do que ficou por fazer.

***

Às vezes sente-se completamente atropelada pela vida. Com se fosse jogada pela janela do comboio a alta velocidade e planasse durante muito tempo antes de cair, antes de aterrar na realidade. E enquanto é jogada nesse mar de vento e rebola sem reacção, coisas boas acontecem, e passam e são só meras imagens perdidas na euforia dos dias. Às vezes gostava de ser jogada pela janela, mas em câmara lenta para poder filmar, avaliar, saborear a vida sem que se seguisse sempre essa sensação de perda. Há dias que são tão altos, que todos os outros a seguir só podem ser uma enorme ressaca emocional.

***

A perspectiva é boa, é de mudança. A mudança é boa. É aguardada. A mudança mete medo, e dá má digestão e tira-nos o sono de noite.
A mudança mete medo, mesmo quando é tão desejada.
Está com medo, sente que é capaz da mudança, depois duvida, depois desespera, depois acha que não. Depois respira, a mudança é boa, ela é capaz da mudança. Ela desejou-a.
As borboletas na barriga são agridoce. É bom, mas é assustador.

***

O céu resolveu cair em forma de água, numa chuva perene, num vento rígido com um frio cruel.
Os dias são mais fáceis quando faz sol, quando são grandes. A mudança merece dias de sol. A mudança precisa de dias de sol. Mas ninguém lhe disse que ia ser fácil, e sofrendo o mundo deste mal de inverno também a sua mudança sofrerá. De dias frios e cinzentos, de corredores vazios, de caras novas, de sensação de inaptidão, de dificuldade em se relacionar.
Sofrerá de ruas com outros nomes e rostos estranhos por debaixo da chuva, de sapatos molhados, de roupa desadequada para a intempérie e compras e um mundo inteiro por organizar.

***

Depois de muito tempo enregelada pelo vento de norte velando aquela vida não vivida fechou os olhos e deixou-a ir, o vazio a deixar de ter peso ao sair de si.
Não podia salvá-la, nem resgata-la desse outro tempo que já passou.
Basta-lhe a mudança. Imaginar toda uma vida num outro sítio. Viver toda essa vida.

Mudar e viver. 
Ainda que se assuste, e tenha dores de barriga.

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Sempre os dias...


Amanhã é o último dia. Da década, dessa grande ilusão de se ser jovem eternamente, de se poder fugir do tempo, de ainda ter todo o tempo para fugir.

***

As datas, deviam ser apenas dias. Mas não são. Enquanto fazem sentido são coisas plenas de alegria, são dias que amanhecem de sorriso aberto, são horas ternas em câmara lenta, são uma sensação morna na pele.
Quando não fazem mais sentido são vazios imensos, sombras que existem e sol nenhum consegue clarear. Hoje era uma data. Hoje foi uma sombra vazia.

***

Lembro-me do dia em que fiz 20 anos, do frio de Fevereiro, das coisas que vestia na altura, dos sítios onde ia, da cama onde dormia e das minhas inquietações. Lembro-me que fazer 20 anos foi como acordar numa manha de verão, com cheiro a mar num dia que prometia, num dia desses de grandes vontades em que tudo pode acontecer. Fazer 20 anos, ser tão jovem e viver tão apaixonada, fazer 20 anos era como poder fazer tudo ainda.

***

Não sei porque é tão perturbante essa barreira psicológica. Os 30. Nada mudou, nem um risco novo no rosto, nem uma perda de energia. O espelho reflecte da mesma forma um corpo inteiro, numa mente mais complexa, numa vontade renovada de viver. E no entanto, atravessar essa linha invisível é de alguma maneira dilacerante, como ter dores de crescimento, aceitá-las para além do mito. Um dia fazemos 20 e num sopro fazemos 30 e nesse espaço de tempo o que nos aconteceu?

***


Amanhã é o último dia. Ou o dia antes do primeiro do resto da minha vida. Ele pode ser triste e melancólico ou feliz e esperançoso. Mas é um último dia. 

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

"Should I..."


Às vezes confronto-me com a ideia de que não faço a mínima ideia do que estou a fazer, nem do que quero fazer, nem de onde é suposto ir a seguir.
Do que é suposto ser ou fazer para além de estar viva. Do que é suposto pensar em dias de chuva, no silêncio da escuridão... O que é suposto fazer ou ser? Não faço a menor ideia...

quinta-feira, janeiro 30, 2014

Das relações e outras ralações…


Não tenho bons exemplos. Nunca tive, os casais da minha vida não se aturam nem se aguentam, talvez seja porque existo eu. Mas perduram firmes e hirtos, como um monumento porque há coisas na vida que não podem acabar, mesmo que a sua existência seja metaforicamente um fim de vida.

Deparo-me então com essa perplexidade, muitas das pessoas que conheço vivem de alguma forma relações contrariadas. Porque o amor morreu há demasiado tempo, porque a concepção de fidelidade varia conforme o interlocutor, porque de tudo o que podem fazer no mundo estão a fazer qualquer outra coisa, porque não são um, mas são dois. Mas os dois…na verdade não dão um que valha a pena.

Chega então aquela fase que apetece ser mesmo cínica com essa coisa do amor. Do imaginário Romeu e Julieta e do arrebatamento apaixonado das histórias dos filmes… afinal, parece que já não se morre de amores, mas os amores fazem muita gente enterrar-se em vida.

Lembram-se das paixões da adolescência, de como estávamos sempre às portas da tormenta, das cartas e bilhetinhos, de todas as oportunidades para nos confinarmos no mesmo espaço e respirar o mesmo ar? Que se passa entretanto?

Quando é que pessoas que sonharam juntas passam a ser mortos-vivos olhando o prato de sopa? E quando é que passa a ser aceitável mentir, trair, enganar e voltar para casa de cara lavada?

Se fosse noutros tempos revoltar-me-ia.

Assim, apetece-me só ser cínica.

Ainda que tenha um coração de menina, ainda que sonhe acordada, ainda que no meu íntimo deseje que tudo isso seja mentira, e as pessoas se amem e se apaixonem e fiquem transtornadas, e mudem as suas vidas…


Porque eu sei que é possível, mesmo que tenha um fim. E antes um fim, triste e devastador, que uma não vida.

sábado, janeiro 25, 2014

A arte de ouvir...

As Pessoas falam. Às vezes de coisas simples, de trivialidades, sobre o tempo. Outras vezes despejam os restos da sua alma magoada nos nossos ouvidos.
Percebi ao longo dos anos que a maior partes das vezes, as Pessoas não querem conversar, querem falar.
Ser ouvidas numa última esperança que a sua ladainha interior tenha um rosto.
Há coisas que só se tornam reais quando tomam a forma de palavras, ditas ... Ouvidas.
Falar é então um acto solitário, um monólogo em que o outro é a plateia. Em vez de palmas incentiva com monossílabos, expressões indignadas, risos de alegria.
Mas é tudo. Podes até tentar introduzir debate, ideias, desconstruir a situação. Mas não há espaço, as Pessoas não querem conversa. Querem ouvir-se. Querem que tu as ouças. E num acto de compaixão ouves, mesmo que seja uma experiência extra- corporal, mesmo que estejas a ouvir um piano imaginário em segundo plano. Ouves.
E às vezes, essa disponibilidade, ouvir, pode salvar-lhes o dia.

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Sinto que são cada vez mais como crianças. Mas crianças com memórias.
As memórias perdidas no vácuo do tempo, repetindo-se num eterno retorno de momentos vividos, quando não se criam novas memórias, não se vivem novas sensações, são corrosivas, transformam-se numa adição.
Nos dias livres de encargos, de hobbies, vivendo um mundo interior incapaz de preencher o propósito de uma vida, tornam-se então crianças que perguntam o porquê de tudo quanto é novo, renegam o desconforto de um mundo desconhecido, esta modernidade criada sem o seu consentimento.
São crianças, dessas que não podemos contrariar, endossadas pela experiência de vida, cheios da verdade que nós só daqui a uns anos poderemos alcançar. Mas crianças, ironia última da existência, regredimos lentamente até à obscuridade de onde viemos.

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"Senta-te e ouve. Porque vês, ali naquele lado do campo ainda não há água, mas costumava haver. Entrava de mansinho pela lezíria acima, o Tejo falava. Na crueldades do inverno, chovia... Um ano choveu sete semanas sem parar. E o Tejo falava com o campo, acariciando-o antes de o tomar.
Vínhamos a pé, lá de longe bem sabes, juntos em rancho pela madrugada. Aqui neste lado, olha a quinta caída a miséria que era. - Mais miseráveis somos agora, olha a quinta caída. - Aqui as mulheres arregaçavam as mangas a apanhar vides, tinhas de trabalhar, num rancho ninguém quer ficar para trás, não ficavas, mesmo que as bolhas te rebentassem nas mãos e os pés negros de frio se isolassem do teu corpo submersos na água presa nos regos das vinhas. Vocês sabem pouco nestes dias, a fome. E os dias sem descanso, de sol a sol, ainda que o sol fosse fraco e o gelo não derretesse nunca debaixo dos nossos pés. Sabem cada vez menos vocês nestes dias."

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É tudo difícil de imaginar no conforto dos tempos, ali prostrados a beira da estrada meio esburacada do caminho do campo. Ao longe o sol sorri à cidade alta, as portas do sol, na planície o vento sopra forte por debaixo de um céu negro e acima da terra ensopada.
Mas aproveita o silêncio, se fechares os olhos e ouvires o correr do rio, se prestares atenção ao silencio ensurdecedor do campo podes vê-los por ali, dedicados as suas tarefas, carregado o fardo pesado.
E sente, nesse silêncio o vibrar do chão ao passo dos cavalos na terra batida. Nesse silêncio dos sítios inertes onde já houve vida. As casas caídas, os quintais abandonados, os que restam enterrados em vida.
Repete-te: "Sabem cada vez menos, vocês por estes dias."

quarta-feira, janeiro 22, 2014

O fim das coisas...


Quando começamos algo, em geral, não lhe antevemos o fim. Não programamos a nossa vida para a obsolescência, o casamento é para a vida, os projectos para darem certo, as escolhas certezas. Somos optimistas e inocentes na mesma medida, e só por isso nos permitimos a tantos mergulhos no escuro.

Só por isso corremos tantos riscos que não são calculados, porque a Lei de Murphy não se aplica a começos, ela só se comprova no fim.

                                                           "........"

Nesse momento em que comprovamos que tudo o que podia correr mal, correu mesmo e olhamos para trás, um simples relance, conseguimos ver que a final, os sinais sempre estiveram lá, nós simplesmente nos recusamos a ver. Essa voz silenciosa no fundo do nosso peito, não é consciência, não é medo. Na maior parte das vezes é pura intuição. Porra, porque não nos ouvimos mais? Porque não nos retiramos em curas de silêncio?

                                                           "........"

Porque a vida perderia a graça sem a incidência de erro? Porque precisamos de experiência e vivências, e comunhão com os outros? Simplesmente porque é isso, estar vivo.
Não há respostas a tantas perguntas, e ás tantas perguntas que ainda estão por fazer. E como num exercício académico bafiento e ultrapassado, as perguntas criam mais perguntas e não soluções, não exercícios práticos de resolução.
Parece-me, que teremos de passar pela vida apenas questionando os silêncios constrangedores, as situações desajeitadas e todas as outras hipóteses presentes no momento que não conseguimos entender.
                           
                                                           "........"

Deu errado então. Ou deu certo de tantos outros pontos de vista. Mas o começo chegou finalmente ao fim. Encerrado. Com tantos outros pontos de chegada diferentes do sonho americano, da vida construída e ganha à força de trabalho, o alpendre e a cadeira de baloiço em tardes quente de verão.
Talvez não seja esse o tipo de pessoas que somos. O nosso alpendre não acaba num relvado fresco, Céus, quem tem paciência para o regar?! 

                                                           "........"

Encaremos então o fim das coisas. Como a morte natural, o limiar da vida, a recusa de eternidade das ideias. O fim das coisas, de qualquer coisa, é tangível, identificável, acontece.
E depois de refeitos, de encaixado o vazio nos nossos dias, de lutos apaziguados e de lágrimas secas.
O fim das coisas, quando compreendido. Pode ser O começo de tantas outras vidas.

                                                           "........"

Sejamos Optimistas e inocentes na mesma medida...


segunda-feira, dezembro 30, 2013

O ano do meu descontentamento...


Quando existe uma ruptura na nossa vida e ela se dá sem aviso nem protecção, pensamos que após um determinado tempo de luto interior as coisas se vão recompor, tudo será melhor. Passou a tempestade.

Mas não encontramos a bonança, porque a tempestade foi devastadora, arrasou tudo até às fundações. Deixou pouco mais que destroços de nós mesmos e é com esses destroços que temos de começar a construir coisas.

Sonhos, caminhos. E a reconstrução principal, o nosso eu. Reposicionar-nos perante a vida, rever comportamentos, aprender lições e sobretudo, achar de novo a paixão de viver não é fácil. Ai sim, está a tormenta, esse é a subida íngreme no caminho. E podia ser logo, ou pode durar tanto tempo, que o luto já se esfumou, que todas as pazes com a vida estão feitas, nada mais há a afirmar. E ainda assim, a paixão de viver não nos arrebatou.

2013 não foi um bom ano. Um parte de mim acha-me injusta. Viajei, participei em projectos bons, tivemos sucesso no que quisemos fazer. A saúde acompanhou-me na maior parte do tempo, e fui livre. Tão livre quanto a minha carteira me permitiu. Livre de ir onde quis, de conhecer, de experimentar.

Infelizmente a minha carteira é menos livre que eu e a minha mente corre bem mais que as minhas pernas...

Mas 2013 não foi um bom ano porque lhe faltou paixão e sentido.
Foi um ano adiado, de suspense. De vontade de partir e nenhuma capacidade para o realizar.

De busca inconsequente e também de muitas amarras que parecem só agora começar a se soltar.

A minha vida, independentemente desta aura de pessimismo nacional, foi ela uma crise. 
Uma enorme crise existencial.

Nunca me foi difícil viver os anos na segurança das coisas certas, muitos menos na espontaneidade da adolescência. E ela dura, dura... dura muito para lá dos vinte.

O ano em que se tem 29 anos é duro, porque por mais que a idade seja um estado de espírito e o nosso corpo se comporte de forma jovial em breve teremos 30. Devíamos ter vivido coisas, devíamos estar mais além. E não estamos. Temos de aprender a digerir isso.

Ter 29 anos e estar completamente desapaixonada pela a vida em geral é aterrador.

Imagino então que 2014 possa ser o começo de uma nova caminhada. Não faço pedidos, nem preces nem desejo mais do que a vida me pode dar.

Eu sei que tenho as ferramentas... só ainda não sei onde as usar.

Só ambiciono que 2014 seja o ano do descobrimento. Que ter 30, seja melhor que ter 20. Ainda que sem a casa e o carro dos sonhos, nem o emprego estimulante, nem alguém apaixonado...sendo, na amplitude dos dias EU. Cada vez mais um EU uno e completo, confiante.

Um EU em que eu posso confiar.

P.S. Feliz Ano Novo.

sábado, dezembro 28, 2013

O Corpo…


Imagino o corpo como uma máquina perfeitamente oleada, a trabalhar em perfeita harmonia e equilíbrio, num balanço justo entre o esforço e a sua compensação.

E ainda assim uma máquina que falha e que precisa de ser constantemente afinada, estimulada e calibrada. Uma máquina que nos surpreende uns dias por ser capaz de muito mais, nos desaponta noutros por falhar sem razão.

Como todas as máquinas deteriora-se mais quando está parada. Se uma peça está no sítio errado e não a acertamos ela faz cama e perpetua-se numa calcificação defeituosa.

Se lhe damos o combustível errado ela entope-se, incha, rejeita até que explode.

Essa máquina, o nosso corpo responde constantemente, carrega-nos. Mas exige.

Alguns de nós carregamos máquinas perfeitas que só pedem o manuseamento cuidado. Outros nasceram em máquinas defeituosas, dessas que apesar de trabalharem incessantemente o fazem de forma ensurdecedora, quebrando com trejeitos desiguais, como se algo não estivesse no sítio.

De uma forma ou de outra, essa máquina que bombeia a nossa alma pelas veias, o espelho de quem somos é perfeita. Espanta-me todos os dias!

Mesmo quando me falha. Mesmo quando não me acompanha, mesmo quando na máquina habitada por mim, não me encontro eu.


Num corpo vive a alma. Tratemo-lo como se tratam as mentes…

sábado, dezembro 14, 2013

Crenças...

Nunca tive uma educação religiosa. Filha que sou de uma relação extra-conjungal mal vista na "aldeia" a meio dos anos 80, os meus pais excusaram-se de me batizar.

Durante a escola, o meu pai achou que eu não devia fazer a educação moral e nunca, na minha casa, se teve ritos ou crenças para lá do senso comum de uma educação ocidental.

Posso enumerar pelos dedos das mãos as cerimonias religiosas a que assisti. Três casamentos, dois funerais, uma missa de 7°dia, um batizado e a minha própria queima das fitas.

Crescer nessa total ausência de credo é ao mesmo tempo libertador e absurdo, porque crer em algo trás um certo conforto à alma, acrescenta-lhe sentido. Justificar o mal que nos acontece com os designios de Deus, com o plano superior e o de bom, como uma benção divina providência justificação ao absurdo da existência. 

Por outro lado, a iliteracia religiosa sobressai nesses momentos aos quais devemos comungar com os outros. O não saber qual a resposta à ladainha da missa mantêm-me de boca fechada desfarçando um certo embaraço, porque provavelmente fiz os gestos ao contrário, porque devemos impor respeito nos momentos de fé. Aquilo deve dizer algo, deve ser emocionante, espiritual e o meu ar de ser ausente não se compadece. Apenas ai existo questionando-me sobre o que será suposto sentir.

Quando não pertences, olhas para baixo, focas os pés, meditas. Como qualquer provação eventualmente chegará ao fim. A ignorância é então o meu estado de graça.

O que não quer dizer que não tenha fé. Toda a nossa educação é de alguma forma reliogiosa. O nosso conceito de culpa e de pecado. Contínuo a lembrar a Santa Bárbara quando faz trovões.

Sinto de alguma forma respeito pelos templos, pelos espaços, mesmo que desconfie das instituições. Acendo velas em Fátima, de forma desprendida. Imagino que se pedir, há uma qualquer probabilidade de ser ouvida.

Questiono-me muitas vezes se essa ileteracia me exclui. Se posso ser ouvida se não faço parte. Se faz sequer sentido pedir. Ou se posso acreditar que a sugestão do pedido em conjunto com essa força do desejo nos pode simplesmente sugestionar e impulsionar a ser mais positivos, que a crença de que temos ajuda dívina nos permite fazer coisas acontecer.

Todas essas questões são inócuas a maior parte do tempo. Não nos surgem num domingo de manhã em que em vez de ir à missa dormimos até à hora do brunch, nem nos atormentam quando escolhemos o bife para o almoço numa sexta—feira Santa.

Essas questões vagueiam em nós apenas nos momentos de perda, de dúvida ou grande desilusão. Quando precisamos de explicações, ou quando confrontados com a falta de sentido, com o vazio, nos olhamos e pensamos que precisávamos de crer em algo, ter fé.

Toda esta conversa porque me é difícil, mesmo com o respeito que tenho pelos espaços, perceber, aceitar e até mesmo sentir essa conexão espiritual com símbolos presentes. Com as caixas das esmolas ou com as vias sacras manchadas dos que passam de joelhos. Com as croas de ouro no topo de Torres ou com o ar magistral, tão imponente como opressivo de toda a construção.

Impõe-se depois o folclore de lembranças, de cores garridas em objectos "kistch" daqueles que sempre se viu perdidos pelos móveis em cima de naperons rendados. Desses que jurámos que nunca os iríamos ter.

Nessa mescla de contradições, entre a necessidade básica de apaziguar as dúvidas da existência e todo um pensamento abstracto perante as crenças e as religiões, onde fica a nossa fé? Para onde a dirigimos?

Aceitamos que a temos, ou vivemos num ligeiro cinismo descrente?
Tornamos-nos por fim subscritores das teorias do absurdo e da aleatoriedade da vida?

Ou cremos no sentido?

Aceitamos por fim uma explicação,  porque sim, é mais confortável crer...?

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Escolher…

Se houvesse uma questão filosófica a atormentar a minha alma seria essa relação estranha entre a linha contínua e única do tempo e a multiplicidade de escolhas que se nos põem na vida.

Porque quando escolhemos um caminho, há um sem número de outras coisas que não vamos poder fazer, vidas que não viveremos e cada momento de sim, ou não, tem tanto de impulsionador da vida como de castrador de tantas outras possibilidades que ficaram irremediavelmente perdidas.

Em certos momentos as escolhas são fáceis, porque são óbvias. Regulares.

Noutros, tornam-se numa espécie de sítio nubloso, onde é suposto se acertar no alvo meio às escuras.

E depois de a pedra ter sido atirada é tão difícil voltar atrás, estamos constantemente dando saltos de fé. 

Quando decidimos onde vamos viver, quando aceitamos este ou aquele trabalho, até mesmo quando em momentos equívocos de paixão escolhemos com quem passar a nossa vida.

Momentos de sim, não. De escolhas desembestadas ou de ponderações demoradas, as escolhas, quando nos deparamos com elas, são momentos de esperança angustiada.

Desejamos até que alguém venha e escolha por nós. “Ei, alguém dá uma mãozinha a decidir aqui?”

Ficamos ou vamos? Começamos, acabamos? Decidimos por fim? Aceitamos menos? Queremos muito mais?

Colocamos-se nessa situação de perigo, não saímos da zona de segurança?

Ou o que gostávamos era de fazer tudo isso, voltar ao princípio e recomeçar?

Num tempo em que as vidas são cada vez mais móveis, apesar de pesadas, como se planeia o futuro?

Quais os desejos de ano novo se não sabemos bem a onde queremos estar?

A reflexão gera-se então em torno da nossa responsabilidade perante as escolhas que fazemos sozinhos ou influenciados pelos que nos rodeiam. Quer sejam escolhas que refletem quem somos, ou que apenas nos salvem da situação, escolhas são momentos, mas são momentos irremediáveis.

Podemos viver à deriva e esperar que as escolhas se façam por si, que sejam fruto da oportunidade, do destino. Mas até isso é uma escolha.

2013 entra agora na recta final, assim como a década dos 20’s. Nunca as escolhas foram mais difíceis, embora eu tenha hoje muito mais ferramentas para escolher. Embora eu seja hoje mais confiante, mais educada e pretensiosamente mais experiente.

Era expectável que o tempo tornasse a escolha mais fácil, mais óbvia.  E  o futuro se desenhasse por si.
Na minha mente, brilha ainda uma inquietação adolescente que diz que tenho todo o tempo de mundo para fazer tudo, sem escolhas.

E não é isso que todos queremos?

Ter tudo!





quarta-feira, dezembro 04, 2013

Estes dias...


Penteia-te e mete os brincos. Não cirandes o dia inteiro de pijama pela casa. Passa da cama para o sofá com alguma dignidade. Veste-te como se fosses de facto a algum lado.

Sai e bebe café. Lê os jornais. Cumprimenta as pessoas em quem tropeças na rua como se estivesses num tempo livre, e não demasiado livre das restrições do tempo.

Passa um a hora por dia a enviar currículos para emails entupidos e a magicar soluções de vida descabidas.

Não te lamentes, não tenhas pena de ti. O mundo não precisa de mais vítimas.

Encara a crise pessoal como uma oportunidade. Reavalia-te todos os dias, agradece o que não te falta.

Não vagueis sem rumo – passeia.

Não poupes – torna-te sustentável.

Não desejes o que não podes ter – conforma-te.

Não olhes para o passado – não há culpados.

Foca-te em pequenas tarefas – mexe-te.

Não leias livros de auto-ajuda. Enjoa tanta conversa positivista.

Desiste de procurar aquilo que apenas se encontra.

Tem fé. Não sejas cínica.

Aceita a perda de controlo, a falta de plano, a imprevisibilidade dos dias.

Cria essência da inutilidade das horas, das conversas vazias e da virtualidade das coisas.

Encara o mundo em mudança, aceita mudar com ele.

Aceita.

Corre e prepara-te.


Podes tropeçar em algo que necessites de correr para apanhar…

terça-feira, novembro 26, 2013

O "urbanicidio"…


As cidades são como corações que batem, a ritmos compassados, alimentados por artérias vivas que trazem e levam, as alimentam e as mantêm vivas.

Quando aos poucos essas artérias são cortadas, como um coração mirrado em agonia, com falta de ar, as cidades param, hesitam, depois diminuem e obscuramente transformam-se em sombras de si, vegetando entre escombros até que morrem.

Devem ter morrido tantas, soterradas pelas cinzas de vulcões, abandonadas por habitantes escorraçados por epidemias, outras tantas sucumbiram à irrelevância dos seus caminhos. Outras morreram de mortes naturais, depois de levadas pelo tempo. Outras ainda, periclitantes estão a ser assassinadas nos nossos dias.

O assassino é meticuloso e tem tempo. Corta uma artéria de cada vez. A cidade ressente-se mas reorganiza-se com o ar diminuído, abranda. Reajusta-se. Até que entra em falência respiratória, não consegue mais subir degraus. Órgãos seus morrem de asfixia.

Espalham-se os órgãos devolutos. As casas vazias. A irrelevância torna-se evidente.

E com a cidade morremos nós, pequenas células. Abandonadas à sorte de um território vazio. De esperança nula.

O crime nesta cidade é de primeiro grau com premeditação agravada. Devia ser caso de estudo. Deviam escrever teses a ensinar como matar uma cidade em menos de uma década. Como mandar todos os que se importavam embora, como agarrar numa comunidade criativa, esperançada e pulsante, orgulhosa do seu espaço e asfixia-la até ao estado vegetativo.

Escrevam. E chamem-lhe Portalegre. 

quarta-feira, novembro 20, 2013

Dos grandes momentos e outras memórias...



Em Maio de 2008 eu tinha todo o tempo do mundo. Tinha todas as primeiras vezes para desfrutar, o mundo podia ainda ser meu. E foi. 

Numa noite única na aula Magna foi muito meu. Garcia Marques disse que não interessa o que vives, mas como te lembras do que vives para contar.

E dessa noite, os The National, Matt Berninger meio ébrio na palco e uma sala a abarrotar de "goupies indie coiso" de letras decoradas e prontos a fazer coro, eu lembro momentos épicos.

Épicos de comunhão entre o público e a sua banda de referencia. Épicos entre mim e os que estavam comigo. 

2008 foi um ano feliz. Havia aquilo que Michael Cunningham nomeia em "As Horas", o Senso de possibilidade. Quando, num momento da tua vida ainda tudo pode realmente acontecer e isso aborda o teu ser de uma forma realmente positiva.

A Aula Magna foi isso, um senso imenso de possibilidade, o primeiro concerto realmente ansiado, uma peregrinação.

O espaço colegial, o sentimento de proximidade de todos os que lá estavam e um espectáculo intimo, frenético e algo alcoolizado fizeram do concerto dos The National memorável.

Muito se escreveu nos dias seguintes, "o melhor do ano", a banda de "uma geração" ou "não foi isso tudo de especial". 

Não sei o que foi. Não sei se foi tudo isso de bom, se teve tantas falhas. Sei do que me lembro para contar.

E a Aula Magna foi na data, o concerto da minha vida.

P.S. Amanhã, mais de 5 anos passados e 2 álbuns depois é noite de The National, Não espero reviver aquele Maio, mas espero viver novas histórias...espero viver para contá-las.

domingo, novembro 17, 2013

Das desistências e outras derrotas.


Nunca fui de desistir de coisas, nem de falhar. Sempre me tive por ser rija, de ter fibra. Nunca fui muito menina, nunca deixei de tomar banho porque não há gás, de deixar de fazer porque é difícil e a minha resistência à dor pode ser épica.

Foi educada nesse binómio de acção – consequência e num outro, sacrifício – recompensa. Por isso, quando algo vale realmente a pena serra-se os dentes e luta-se. Quer seja a prova de domingo, ou um projecto imenso de vida.

Esse equilíbrio ténue entre o que estamos dispostos a fazer e o que sonhamos alcançar coordena a vida, esticamos a corda porque acreditamos que dias melhores virão. Trabalhamos em condições precárias porque algures lá à frente vai valer a pena. Essa esperança inocente faz o mundo avançar.

Mas é também um principio castrador, porque nos impõe um esforço por vezes desumano, porque esticamos mais e mais correndo atrás de uma miragem, porque ser rijo é ser também inflexível é ter dificuldade em voltar, em desistir, em mudar e em admitir que fizemos um longo caminho em vão.

Descobriu-se nos últimos anos o novo dogma, “tens de sair da tua zona de conforto”. E saímos, empurramo-nos constantemente para precipícios porque se não sairmos nada vai acontecer. E caímos muitas vezes sem pára-quedas, porque 90% das vezes que saímos da zona de conforto caímos realmente num desconforto imenso e voltamos feridos para casa.

Perguntamo-nos por essa altura se vale a pena. O esforço, a disponibilidade, a teimosia e um dia deixa de valer. E quando é claro e simples, esse conceito: Não vale a pena. Permitimo-nos desistir.

É um momento libertador. De uma leveza suprema. Nesse preciso instante em que numa qualquer rua atolada de gente de passo apressado e rosto vazio nos permitimos a uma longa gargalhada, a um choro compulsivo e a dizer em voz alta: “não vale a pena, vou simplesmente desistir.”

Converter a desistência em algo diferente de uma derrota massiva é outro caminho.


Não deixar a desistência definir o resto dos nossos dias uma luta interior.
Mas se não vale a pena, libertemo-nos. Permito-me desistir.

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Descobri algures no tempo que é possível ter-se perfeita consciência da depressão, senti-la a chegar nas noites mal dormidas, na apatia geral dos dias. O sintoma geral do "não vou beber um copo, porque não vale a ressaca", quando todas as tarefas passam a ser feitas em piloto automático e o comer sabe todo ao mesmo. Porque é igual, existe-se. Mas não para além de um corpo que respira. A nossa mente às vezes escolhe encolher-se, esvaziar-se ausentando-se de nós.

Não assumimos a depressão, porque somo rijos, porque obviamente estamos muito para lá. A consciência da sua existência, a procrastinação que se instala confortável nos nossos dias tudo isso a acontecer na clarividência de que ser triste, desistir, ser completamente abalroado pela vida é para os fracos.

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Chega então o momento em que o mundo em geral sabe mais do que nós sobre como resolver a nossa questão. E enchem-nos de mensagens positivistas, de incentivos bem intencionados e nos exortam a sair da apatia, a ser melhor.

Segue-se o momento em que não percebemos a linha entre a boa intenção e o atestado de inaptidão. É tão difícil lidar com o luto dos outros, ter a palavra certa.

Não aceitamos muitas vezes o fraquejar dos que nos rodeiam. Não é suposto sermos todos fortes?

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Resume-se a isso então. Estou desanimada. Já fiz o que tinha a fazer e vou desistir.
Não gosto, não quero, não vale a pena.

Espero dedicar-me a existir no espectro do autismo social nos próximos tempos, até que tropece numa missão de vida e decida se quero salvar baleias na Nova Zelândia ou pedir ao sapateiro do fundo da rua que me ensine a cozer sapatos.

Porque não temos de viver vidas desapaixonadas...
Mas as paixões são lixadas.

Não se procuram, encontram-se. Seja ela de que tipo for.




segunda-feira, outubro 28, 2013

Ode ao inútil...

Sou contemporânea da inutilidade. Dos dias sem rumo, das tarefas sem frutos, do mundo invisível.
De todas essas coisas de que nos ocupamos mas não podemos tocar. 
Os dias de labor que não se materializam, não se apalpam nem se vêem. O pensar.

O inútil das coisas que sabemos quando nos deparamos com um mundo que não quer saber de nada.
O inútil que é conhecer a beleza das coisas e ter de viver na fealdade.

O desperdício. O tempo perdido, a inutilidade.
De todos esses anos a imaginar futuros e a preparar caminhos, quando percebemos que a estrada estava à partida fechada. As batalhas, perdidas antes de começarem, inúteis e no entanto nós saímos para batalhar. 

Percebemos então a singularidade do nossa posição. A inutilidade de tudo isto.
No dia que aceitarmos a inutilidade da existência, talvez deixemos de nos preocupar com a relevância da vida e começar finalmente a existir.
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Não saber o que fazer é um vasto campo pantanoso onde nos enterramos todos os dias um pouco mais. Esperneamos porque queremos sair, mas é o nosso próprio espernear que nos afunda. Como se morrêssemos de vagar por não saber o que fazer e morrêssemos depressa exaustos de procurar.

Um dia iniciamos um caminho numa campo de estudo, numa área que achamos que pode ser a nossa vida. Apaixonamos-nos, damos tudo num romance que se espera dure para sempre. Nos faça felizes, nos ajude a crescer. Esperamos coisas desse campo, esperamos poder dar, ajudar a evoluir, fazer bodas de prata e de diamante professando a profissão. Uma vida.

E depois num outro dia, anos mais tarde acordamos de coração partido. Fomos abandonados. Ou enganados, ou tudo junto e aquela coisa que nutrimos durante tantos anos já não é nada do que conhecíamos. Não se transformou no que esperávamos. 

De luto, pensamos: talvez seja a hora de nos divorciarmos.

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Ai a inutilidade de tudo é evidente.
Se tudo o que sabemos não nos serve. Que nos sobra?
Quem somos? O que é suposto fazer a seguir?

Como, a seguir a um divorcio litigioso nos apaixonamos outra vez?
Vamos a tempo de recuperar os anos perdidos? 
Vamos a tempo de recomeçar? De ser realmente bons em qualquer outra coisa?
Podemos sonhar? Podemos não ser divorciados na carteira profissional?

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Há uma elite de privilegiados que diz fazer o que gosta. Aqueles que não trabalham um dia na vida como diria Confúcio.

Depois há os que trabalham porque têm de viver. Camus disse que é uma espécie de Snobismo espiritual pensar que podemos ser felizes sem dinheiro. Há quem seja, mas queremos mesmo nós viver sem dinheiro? Faz-me diferença não aceder a coisas? Ao belo? Ao saudável? Ao divertido? A cultura? Não queremos nós que as montras se materializem nas nossas vidas, com coisas bonitas?

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Ainda na inutilidade das coisas, e depois de tantos anos de amor e uma cabana eu e o jornalismo estamos em crise. Existencial. Comunicamos pouco, escrevemos menos. Houve tempos que eu achei que o podia fazer feliz.

Houve um tempo em que ele teria-me feito muito feliz...
A cabana está podre.
O amor... sendo intemporal e inalienável de mim ... é inútil...

Podemos sobreviver à simples constatação da inutilidade das coisas?












domingo, outubro 20, 2013

Casa...

Nunca tive casa. Tive casas. Sítios espontâneos onde era suposto existir.
Escovas de dentes perpétuas num copo abandonado, gavetas meio vazias e um espaço que eu deveria ocupar a tempo inteiro, no qual não comparecia. 

Temporariamente definitivo. A casa do pai e a casa da mãe. Como realidades paralelas, muito para além das distâncias que as separam. Muito para além dos seus significados. Casas, dimensões. Sítios diferentes. Existências distintas, uma sensação inesgotável de não pertencer. 

Não se esgotou ai. Houve um momento em que tinha cinco escovas de dentes activas. Em vários pontos do país, nessas casas que eram todas a minha. A da mãe, a do pai, a da irmã, a do namorado, a minha… Sítios. Frios, com cheiros. Com rotinas e almas. Pessoas. Casas, dos outros. Que deviam ser um pouco minhas.

Quando se está em todo o lado, não se está realmente em lado nenhum. Quando se é nómada a nossa casa segue atrás de nós, num qualquer pacote reduzido de pequenos objetos transportáveis. 

Num portefólio infindável de caras que não conseguimos fixar. De vidas que correm, imparáveis e que nós não conseguimos acompanhar. 

E no entanto, o desejo de ter uma casa é ensurdecedor. E quanto mais o tempo passa, e as casas se multiplicam, mais o silêncio das paredes vazias grita. 

Não somos realmente de sítio nenhum se não temos casa. Somos múltiplos se tivermos muitas casas, mas somos completamente sós se acharmos que podemos viver em todas elas. Não podemos. Podemos ter uma casa. Um sítio, todos os outros são adereços. Passagens. 

Depois de tantos anos, tantas casas. Não tenho casa. Nem a minha se sente minha quando aqui estou… Por isso é fácil, fazer a mala e ir. Reduzir o quotidiano ao indispensável e empacotar. Não devia. Mas é. 

Numa certa apatia. 

Se casa é onde o nosso coração está…encontro-me algo sem abrigo neste momento…

segunda-feira, outubro 07, 2013

Dos objectivos pessoais e outras corridas...

Gosto de correr. Não gostava, não gostava de nada que implicasse um grande esforço. Foi uma educação necessária, trabalha-se o corpo, mas em primeiro lugar educa-se a mente para o esforço, para a resistência à dor. Foca-se as forças em objectivos. Aprende-se na paciência do esforço e da recompensa. E essa educação vai muito para além da corrida, espalha-se nas nossas vidas.

Não sou uma grande atleta cheia de possibilidades por cumprir. Fiz as pazes com isso depressa, aceito as minhas limitações e principalmente compreendo que a recompensa surge de um trabalho longo, pesado e de um comprometimento com a causa que nem sempre estou disponível a fazer.

Essa aceitação poupou-me a muitas frustrações e fez de mim a minha única adversária. O meu tempo, as minhas possibilidades, a minha vontade, eu e tudo aquilo que eu conseguir perante mim.

Parto para cada prova com essa certeza que vou fazer o melhor com aquilo que tenho. E acabo sempre com grande satisfação por ter simplesmente chegado ao fim.

Mas os tempos existem, os percursos mais ou menos difíceis e a competição, mesmo que interior é inata. Por isso estabelecer objectivos é algo que também eu faço. Tento fazê-lo de forma realista, mas faço e fico genuinamente feliz por os cumprir.

Ontem fiz a minha quarta 1/2 maratona e tinha um objectivo claro, baixar para a 1h50m. Sem pressões, sem tragédias pessoais se não conseguisse. Mas queria muito fazê-lo e fiz. E estou genuinamente feliz com isso.

Fiquei tentada a abandonar o objectivo ainda antes da partida. Demasiada gente, pouco espaço para progressão. mas partimos bem posicionados. Inicialmente ia fazer a prova com uma "lebre", mas tornou-se impossível seguir alguém nos primeiros minutos tal era a confusão.

Fiquei portanto sozinha. Eu e eu mesma a olhar para um relógio cruel sempre a debitar minutos e poucos quilómetros a passar.

Os primeiros 12kms não tiveram história. feitos numa hora e poucos segundos, era o plano e o plano cumpriu-se.

Por volta do 14kms houve a primeira quebra. A psicológica, aquela incerteza no objectivo, um desacelerar do ritmo e o primeiro fraquejar de pernas. Houve ai muita conversa interior, muito "PEP Talk", muito "vais conseguir, não desistas". Depois entra-se na fase, "ok, também se não conseguires não tem problema, há outras provas" enquanto se vai recuperando lentamente até à próxima quebra. E ela chega, chegou pelos 17kms, pernas pesadas, corpo dormente, passada curta.

O calor do asfalto a queimar. Cada vez mais espaço para correr e os quilómetros a contar. E o raio do tempo que não para.

Ainda assim, ao 18kms a lutar contra a quebra massiva, olhei o relógio e acreditei. Um "feeling" e quando se acredita surge mais, muito mais força que vem não sei bem de onde, muito mais resistência à dor, muito mais determinação para o "tem de ser e é hoje!".

Cheguei em cima da 1h49m06. E vinha extasiada. Com vontade de chorar com a emoção de ter conseguido.

1h49m06s não é extraordinário para o mundo em geral, mas é o melhor que eu pude fazer até hoje. É EXTRAORDINÁRIO para mim.

Uma muito pequena vitória que me faz acreditar que tal como na corrida, podemos educar-nos para as pequenas batalhas que travamos na vida. Até que vamos ser fortes para enfrentar as grandes!

P.S: Um obrigada pelo apoio de todos. Em especial da Alcateia ACP. É tudo mais fácil quando fazemos parte de algo, e é bom fazer parte da Alcateia :)

"The only real progress lies in learning to be wrong all alone." - Albert Camus


Crescemos sempre acompanhados. Amparados por todas essas pessoas que destingem por nós o bem e o mal.

Todas essas pessoas que nos apontam caminhos e nos primeiros anos escolhem por nós. Coisas pequenas -o que fazer, quando comer, onde ir, com quem conviver. Coisas grandes - o nosso destino, onde vivemos, que tipo de educação teremos e desenham por nós a pessoa que havemos de ser.

Todos eles a apontar o nosso erro. Os erros são por isso coisas que os outros encontram em nós. Defeitos de fabrico, pequenas falhas de educação, grandes desvios de personalidade. Erros, são coisas que os outros descobrem. Anuímos perante isso. Somos educados para a culpa. O erro é culpa que vem do exterior.

Crescer é interiorizar o erro. Descobri-lo, admiti-lo e viver.

E esse processo é tremendo e violento. Vem com o medo.

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Diz que os 30 são os novos 20. Parece óbvio. Somos adolescente inconsequentes mais cedo, adultos mais tarde e a deriva intensifica-se.

Falta cerca de 4 meses para fazer 30 anos e quando olho para trás vejo uma década ambígua. Talvez não seja perdida, talvez tenha sido essencial.

Mas a poucos dias de começar mais uma etapa escolar aqui estou eu. À beira de uma nova década, temendo os primeiros dias de aulas com o desconforto do confronto com pessoas desconhecidas. Com as apresentações ao estilo grupo de ajuda, currículos e egos a encher a sala.

Salas, corredores e pessoas para fixar. Uma vida nova para além da vida. Desprovida de sentido e assustadoramente na deriva.

Porque na minha outra década - a passada - era suposto ser isso, era suposto estar nesse entre e sai de salas com cadeiras desconfortáveis, nesta década...ainda não sei onde é suposto estar.

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Sinto a década a acabar nesse salto de fé. De que o caminho se faz caminhando e que de alguma forma, no fim, o absurdo de cada momento vivido, tudo fará um grande sentido. Porque não faz por enquanto.

Nada faz num mundo em que os pressupostos iniciais foram alterados. Num jogo cujas regras mudaram a meio e não nos foi permitido sair. 

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Borboletas na barriga e dúvidas...
O tempo...e essa impossibilidade de o refazer...
Abrir o coração ao erro, aceitá-lo. Descobri-lo sozinha e pacificá-lo no meu ser.
Crescer.

Espremido o tempo...somos tantos e estamos tão completamente sós....


terça-feira, outubro 01, 2013

"Lembra-te de esquecer." - Kant


"Devia ser algo fácil. Esquecer. Pôr pedras em cima de assuntos, enterrá-los e não lhes mexer. Esperar que se transformassem em simples fósseis, difíceis de analisar, impossíveis de datar e que contassem apenas partes simpáticas da história.

Mas somos poços infindáveis, onde os pensamentos vagueiam, vão e voltam e nos inundam, nos afogam por vezes. Há dias que morremos várias vezes afogados nesse poço de situações. Ressuscitamos apenas para poder morrer mais uma vez.

O esquecimento, essa variável do tempo, devia ser uma função automática, programada nos genes, intrínseca a todos nós, porque se o tempo não anda para trás, porque se só o podemos viver uma vez, errar a escolha uma vez, sem hipótese de correcção...esquecer de forma natural seria mais que um paliativo, seria a cura do de todo o mal."