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sexta-feira, dezembro 29, 2023

Sobre as ruínas...

Não a quis ver no caixão.

Não vejo ninguém, olho para o lado. De que nos serve contemplar ruínas abandonadas, casas vazias que são os corpos mortos?

Escombros do cataclismo que é morrer.

Esses escombros que serão incinerados ou enterrados e quem sabe, esquecidos num canto da terra para a arqueologia um dia tentar nos perceber.

É o nada. Contemplamos uma caixa de madeira enquanto fitamos os bicos dos sapatos por engraxar tentando não olhar ninguém de frente e escancarar a nossa desadequação ao momento.

Quando não sabemos como chorar nem responder às ladainhas da missa. Ou quando não conhecemos as pessoas que chegam a nós cheios de sentimentos, ou quando engolimos as palavras cheias de segundas intenções das famílias desavindas. Nesses momentos olhamos para os pés e tentamos descobrir o que fazer com as mãos na esperança de encontrar algum tipo de dignidade na postura. Perdemos todos de maneiras diferentes.

E quando tudo isso passou, nem já a ruína existe, foi transformada em cinzas, tudo deixa de ser sobre quem cessou de ser e passa a ser sobre nós, a nossa perda.

Sobre o que teríamos feito diferente, onde lhes falhamos, o que não lhes demos por exaustão ou simples egoísmo ou todas as outras pequenas coisas que nos travessaram a vivência.

Ficamos a contemplar os nossos corpos, casas vivas, orgânicas, algumas ainda em construção, outras em declínio, mas vivas e imaginamos que um dia seremos nós ruínas depositadas numa caixa de madeira para outros contemplarem.

Questionamos quem somos, que vida estamos a viver, é a melhor que poderia ser?

Noutros momentos afundamo-nos no absurdo disso tudo… o que interessa se seremos ruínas um dia?

Depois disso faremos o esforço de perceber qual foi a última coisa que fizemos que foi realmente significativa por quem faleceu, o que lhe dissemos, quem foi para nós, quem fomos para eles e que falta nos fará.

E quem somos se as respostas são ambíguas, e há vazio no lugar de grandes histórias partilhadas, de mentoria. Que sobra se sabemos que não nos teríamos escolhido?  E ainda assim partilhamos uma vida.

Um dia serei ruínas, uma casa vazia pronta a incinerar. Não ficarei sequer para estudo da arqueologia.

Alguém fará disso um momento sobre a sua perda, ou não.

Morrer parece ser um caminho que se faz sozinho.






quarta-feira, novembro 24, 2021

Millennials...


Às vezes avalio a Vida e sinto-a como alguém que chegou tarde à festa. A festa foi linda, ainda a podemos sentir. Molhar os lábios no vinho fresco, pisar a pista de dança e sentir a brisa da noite. A festa foi linda, mas rapidamente se acenderam as luzes e ficaram para trás apenas os despojos. E nós, acordámos no outro dia entorpecidos por uma ressaca de pouca, mas má bebida.  Confusos porque perdemos algo que não chegámos a ter e a festa não se repetirá.
Como as promessas incumpridas, adiadas e depois esquecidas. A vida para a minha geração, é isso. Uma chegada tardia à festa e ainda temos o lixo por despejar.

Lembro-me de se adolescente e imaginar a vida adulta. Iríamos ser pessoas frugrais cujas compras de fim de dia se resumiriam a uma garrafa de vinho e a um queijo e que depois do after work voltaríamos para casa com fatos envoltos em plástico de lavandaria. Iríamos correr o tempo todo entre malas meio feitas, viajar. Ascender.
O depois seria sempre melhor que o agora.
A sorte protege os audazes e todas as merdas que disseram quem nasceu nos anos 80...

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

Na hora...

Lembro-me do caminho de terra até ao monte, as ervas pelo carreiro do meio e os campos lavrados. As casas sempre modestas e inacabadas e os rostos das pessoas que já tinham longas vidas.

Lembro do curral, das ovelhas e das vacas. Do leite quente acabado de ordenhar, peganhento e coalhado, gorduroso, impossível para quem cresceu a beber o leite do Treta Pak.

As galinhas que andavam por ali desgarradas, os gatos ramelosos, o milho, as batatas doces, as couves e as melâncias no verão.

O rosto das pessoas cristalizado em memórias, como daguerreótipos, imagens pouco definidas e longínquas.

O cheiro do verão.

Memórias, o lugar das pessoas na nossa vida, na hora da sua morte.
Qual será o nosso lugar nessa hora?

terça-feira, fevereiro 02, 2021

Os dias...

Os dias estão maiores já se nota. As luzes espalhadas pelo caminho acendem-se ainda de dia como se estivessem mal sincronizadas. Saio e ainda se vê o caminho de terra batida, levo os olhos a esse chão, essa obra inacabada. Ora seco, ora encharcado, transformado num lamaçal. Cada buraco que não o era no dia anterior, a terra pisada, as pegadas.

Minhas ainda? Haverá mais ténis Nike 38,5 por aqui? E os rodados dos carros, dos tratores, as pegadas de animais indefinidos, que fazem todos eles por aqui? Há casas fechadas, terrenos agrícolas, sobreiros sós. As cegonhas, o burro e a horda de cães que se agita em quintais aleatórios ao som do meu passo.

Cheira a madeira no momento da queima, notas fortes como a espinha dorsal de um perfume. Cedro, pinho, terra e silêncio, tudo embrulhado na maldita humidade de um inverno que não se decide a ser frio e chuvoso e de tempestade, escolheu ser limbo.


Sempre pintaram o inferno como um sítio em chamas, não creio. O fim dos tempos será cinzento e húmido. Sem tréguas ou um raio de sol, só nós de roupa encharcada colada ao corpo, ténis sujos de lama a tremelicar de frio. 


segunda-feira, fevereiro 01, 2021

Trivialidades...

O mundo deve estar louco, acendi a luz e ando a matar melgas em fevereiro. O que me dá nos nervos os zumbidos a cortar o silêncio da madrugada, as melgas e o cão que depois de velho entrou no cio.

Nos cantos das paredes junto ao tecto cresce a olhos vistos uma mancha de humidade, uma mancha inofensiva, mas ofensiva para o meu sentido do mundo. O cinzento das paredes que nunca mais será exatamente aquele que eu escolhi, a mancha penetrando nos meus quadros. 


Nada mais parece estar no lugar. Não chove, apenas vivemos envoltos neste mar de dias cinzentos, peganhentos de saturação de água no ar. 


As laranjas caiem espontâneas para o chão, a roupa não enxuga e entretanto estamos em fevereiro, a pensar trivialidades. Onze meses de trivialidades. Já vi formigas no quintal, como se lida com formigas no inverno? Como se fosse normal?


E o raio da televisão que continua a vomitar tragédia, e nós cansados já não vemos números. Pensamos no que vamos almoçar amanhã, sim, fazer almoço é algo que tem de ser pensado. As compras feitas antes. Por agora já nos devíamos ter habituado a fazer um menu, acabar de vez com essa coisa da espontaneidade.


Estava a remexer nas bainhas da blusa, a puxar fios com as unhas mal limadas que os tempos não me deixam ir arranjar e estava a pensar que já passamos da vida adiada. Adiada parece que vamos partir de onde parámos e continuarmos a ser quem éramos antes dos traumas e dos cabelos brancos do último ano. Não, isto parece-se mais com um assalto, uma vida roubada. E nós de luto, sem saber ainda como a chorar.


domingo, janeiro 14, 2018

A terceira década...





Lembro-me de desejar tão fortemente ser adulta, da liberdade que achei que isso ia ser. Da certeza que traria a todas as decisões, das certezas. Ser adulto seria ter certezas, de quem somos, para onde vamos de tudo o que é suposto fazer a seguir.
Acontece que ser adulto é a mesma confusão que era ser adolescente. Talvez pior, porque quando somos adultos, é suposto saber. Eu não sei.
É uma merda!

***

O cinismo pós-adolescente que ainda não é adulto é endémico e preenche todos os espaços vazios entre as nossas células, não nos deixa mais respirar.
Primeiro acaba-se Deus, depois foge-nos o Amor e um dia acordamos a desejar intensamente apenas nos alimentar-nos de raízes e viver descalços numa cabana de apenas uma divisão com uma única porta que abra para o lado do mar.
Num mundo de apaixonados, ser cínica da vida é um acto solitário. Há pessoas apaixonadas pelo seu trabalho de tal forma que não têm vida, há outros cuja vida é tão apaixonante que não chegam a ter um trabalho e pelo o meio há outros que se apaixonam de morte por projeções, personagens ou coisas que encontram pelo caminho. São normalmente sombras adultas de adolescentes ainda em formação e as paixões são tão intensas e mediatizadas como só a Era do Ego nos permite. Todos nós, exercitando o livre arbítrio, tão adolescente como outrora, tão à deriva de motivos, a acordar todos os dias pela manhã, a fazer a comutação entre a cama e essa abreviação de vida, as horas vendidas, o trabalho. E se em nada disso se consegue encontrar sentido, onde ele estará?

***

A crer que em qualquer virar da esquina encontramos o absurdo, já dizia Camus, que nada disto se justifica para além das trocas da aleatoriedade, que quem ardeu nos fogos estava só na hora errada no sitio mal escolhido, que quem fica enterrado nas lamas das cheias simplesmente exerceu mal o poder de escolha e devia ter ido ao cinema em vez de ficar em casa, a acharmos que nada do que façamos nos vai salvar da roleta russa da vida, para quê tanto desperdício de energia?
E ainda assim, não nos conformamos, qual é o sentido?

***

Agora que era suposto sermos adultos e o mundo não é mais o mesmo o que fazemos? O ano que vem não é de crescimento, nas noticias os Reis do mundo medem-se, “o meu botão é maior que o teu”, os ursos polares vagueiam esfomeados em cubos de gelo derretidos, o inverno enjoa-nos de gelado num mundo supostamente aquecido. A comida não tem sabor, ou tem? Será dos aditivos de combustível? Ou das mutações transgénicas? Quem sabe se é da vida que se esvaí antes mesmo de o ter sido confinada em cubículos escuros e sem ar. Entretanto, enquanto escolhemos entre o bife de vaca marinado em antibióticos ou um estilo de vida biológico que nunca vamos conseguir pagar, afogamo-nos na anemia da vida, esse sangramento grave e perene. “É falta de ferro menina, coma um bife.”. Ou é só falta de vida, que de tanto ferro mal tratado jaz enferrujada?


***
Seremos então adultos daqui a dez anos? Outra década, diz que quem entra nos “entas” já não volta para trás. Teremos certezas? Porque os trinta são os novos vinte e quem sabe, quando formos todos descontinuados por um qualquer programa informático e os zeros e uns fizerem tudo por nós, quem sabe se por essa altura sentados de frente para um sol poente por cima do mar possamos pensar-nos de uma vez por todas. Ou não, é o absurdo.

Dizia o poeta que “boa é a vida”, de facto...valha-nos o vinho!


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domingo, maio 15, 2016

HOME



E se de repente se juntassem todas as casas que habito
Em salas seguidas, de janelas abertas e brisa nos cortinados
Cada canto recriado, cada memória, o cheiro… até o sinto
Eu vagueando por ali, contando a vida num livro de recados

Quantas portas seria preciso atravessar
As salas, as cozinhas, os alpendres sobre ao jardim
Os quartos dormindo na bruma, os lençóis por mudar
Espaços que habito... onde vivem os pedaços de mim

Tantas as casas, o cheiro impregnado
As pessoas, o comer nos tachos, os gatos
Se elas se alinhassem, os espaços lado a lado
Habito tantas casas, vou comendo em tantos pratos...

E se de repente se tornassem todas numa
uma grande casa, viva... a respirar
eu vagueando leve como uma espuma
habitando...o espaço etéreo...o Lar.

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Notas de 2016 I


"Acordar para mim não é um simples ato da vida. É como se um tornado me roubasse ao mundo dos sonhos e me cuspisse na realidade. Uma violência, todos os dias. Levantar-me e ir correr, faz-me sentir como um borrego acabado de nascer, que ainda cambaleante se levanta e dá uma volta à mãe. Inicio o dia a nascer, todos os dias, com enorme violência.Não é por isso mau feitio ou indisposição. O que me acontece pela manhã é uma exaustão momentânea, como se eu estivesse a digerir toda esta nova informação, a luz do dia o espanto de estar viva."

 IN Angie Notes

domingo, outubro 04, 2015

Metades...


Não quero encontrar a outra metade
vivo-me por inteiro, um todo
efervescente, vivo de vontade
há dias que podia engolir o mundo

Queria sentir e partilhar
dançar de olhos fechados no escuro
arder nas palavras sem precisar de as falar
ter noutro corpo um lugar seguro

E rir, sem jeito nem razão
receber sem pedir, afogar-me no prazer de dar
outro todo comigo em rota de colisão
acidentando-nos até o tempo acabar....




quarta-feira, setembro 23, 2015

Mar

Já não é o mesmo mar
esse que hoje senti
onde me deixei afundar
não chegou bem a mim

Ainda que o sol esteja quente
e o estio mal acabado
é qualquer coisa que se sente
não é o mesmo mar salgado

Vem num arrepio
sente-se na pele
este é um mar frio
sinto já saudades dele

Não é o mesmo mar...
que não nos afogue essas ideias
algures... o verão estará só a começar
aqui mergulhamos em nostalgias...










quarta-feira, setembro 16, 2015

De morrer...


Medo...só de ter uma morte desgraçada
que me exploda a cabeça
e eu não consiga pensar em nada
que me prendam as pernas, fique tropeça

Que me afogue nos meus pulmões
sem coração para respirar
que nem consiga maldizer com palavrões
tamanha falta de ar

Medo...só que a vida tenha sido miserável
que não se me fulmine de vez a alma
e eu fique nesse estado inimaginável
um vegetal secando com calma

Medo..só de não me poder valer
de habitar um corpo que não é meu
dele me abandonar, deixar-se morrer
castigar-me...diluindo o eu

Ficar desalojada
essa desencarnação
O meu corpo, casa ocupada...
pensa ao ritmo que bate o coração...



terça-feira, agosto 25, 2015

A casa imaginada...


Vivo numa casa imaginada
cujas paredes vou moldando
não tem telhado, nem chão...nada
e da janela vê-se um mundo que estou pintando

Não tem cheiro seu
cheira a todas as casas onde vivi
a um canto solarengo de céu
ás vezes quase que cheira a mim

Na rua uma loja com maças
um café de esquina
onde me sentar pelas manhãs
bebendo canecas de cafeina

Um bom dia sorrindo
uma porta familiar
um cão correndo
um sitio onde descansar

A casa imaginada
todas as casas onde vivi
uma casa inventada
que só existe dentro de mim.

Uma casa que é errante
que está em todo o lado
como um mau amante
tudo é apenas imaginado...



segunda-feira, agosto 17, 2015

Os dias...



Os dias...vividos em espanto
o oxigênio extinguindo-se... acabando
o tempo que se perde...tanto
Roçando-nos na pele...queimando

Os dias, que esperamos deles?
das horas, dos minutos contados?
essa sensação de perda na pele
esse mar de sonhos inquinados

E de novo os dias incessantes
manhã, tarde, noite, madrugada...
nós perdidos a vive-los errantes
mas sem os dias...não nos sobra nada...

quinta-feira, agosto 06, 2015

As ondas...


Mergulhar nessa parede de água violenta
no liquido primordial, não ter peso
o coração batendo de forma lenta
soltando na mente tudo em que penso

E por momentos essa aflição
a extinção da vida na falta de ar
o abandono, a lentidão
a paz do silêncio no mar

As ondas crescendo da caricia
até à violência, batendo
no nosso corpo frágil e sem malicia
que com gozo ao perigo vai cedendo

As ondas brilhando ao sol
pratas, brancos, ouro nas areias
e o corpo batido, como que fugindo do anzol
perde-se no azul, onde não há coisas feias

E nas ondas, nessa falta de ar
o coração agora batendo com aflição
morre-se e nasce-se...essa sensação...
rolando na maré com ânsia de respirar.




segunda-feira, agosto 03, 2015

Agosto...



Será que vivemos outro Agosto?
Que a história se escreve
que se esgota o desgosto
num qualquer vinho que se bebe...

Será que ainda vamos cá estar?
sem respostas, só duvidando
sem vontade nem forma de perguntar
com o silêncio nos enganando...

Vivemos outro Agosto?
Consegues imaginar?
A este sinto-lhe o gosto
Que estarás tu a pensar....

Uma mala...



Queria  que vida coubesse toda numa mala
leve, mas sem fundo
Que desse para agarrar e levá-la
Sair sem raízes para o mundo

Ser a única bagagem
Uma mala que eu pudesse carregar
Sem plano nem mapa, só coragem
Sem casa para onde telefonar

Uma vida dessas leves
Sem problemas nem resoluções
Noites longas e dias breves
Sem expectativas nem ilusões.

Uma mala só de histórias
Sem trabalhos nem ralações
Uma mala de boas memórias
Existir nos dias, não ter preocupações....


terça-feira, julho 28, 2015

O cansaço...

O cansaço dos dias acumulando-se nos pés.
As noites pouco dormidas
Os dias corridos e acabados no limite da fé.
O cansaço destas vidas.

Os dias que não podem ser um qualquer dia
Essa ilusão de significado
Das horas, de estimulo perpétuo
O cansaço acumulado sobre essa ideia de alegria.

E o vazio do cansaço, que não nos deixa sossegar
A negação da procrastinação
A repulsa do inútil, do tempo perdido a pensar
O cansaço vivido na negação.

Um dia que é um dia qualquer
O cansaço assim sendo desperdiçado
E nós gastando a vida sem saber....
Um dia que não foi O dia... acabado.







quarta-feira, julho 08, 2015

Os tempos que vivemos...


O meu pai sempre me disse que a geração dele tinha sido privilegiada pelos tempos.

Nascido em 1942 era ainda um bebé de fraldas quando acabou a segunda guerra mundial. Caminhou descalço para a escola e viu o advento da televisão, primeiro a preto e branco no café da terra e depois a cores e depois na casa de todos.

Viu os carros a começar a circular pelas estradas esburacadas de macadame e os aviões a aterrar quando viajar era um luxo impensável.

Passou da salgadeira para os frigoríficos, do tanque para as maquinas de lavar, das cabanas para as casas compradas pelo banco e vendidas, 20 anos depois, pelo triplo.

O meu pai viu o mundo prosperar. E há duas décadas que me diz que isto vai rebentar. Sempre me disse, "Ângela, nunca o mundo viveu tantos anos de paz,"

Eu sempre tive mais em que pensar...

***


Um dia destes, numa manhã calma de semana entra-me duas clientes, munidas de mala Louis Vuitton e um aparato de indumentária digna de um qualquer vídeoclipp de Rap dos States. Entram-me pela loja e gastam em 15 minutos 1800€ em 6 garrafas de vinho. Pagam em notas lambidas à minha frente. 

Acho bem. Eu só tenho trabalho porque há pessoas que podem gastar dinheiro à bruta em coisas sem sentido.

Não é isso que me choca. O que me choca é que haja quem beba ao almoço garrafas de vinho que custam metade do meu ordenado como se fosse um copo de água, e que as comprem à dúzia com a mesma displicência com que eu vou ao supermercado comprar um pack de cervejas. Com menos, que eu regateio nas prateleiras o preço.

A riqueza extrema não me afeta per si. O que a torna obscena é a pobreza de todos os outros. É a sua existência isolada e principalmente o fosso, sem ponte, que existe entre os que tem demais e os que cada vez têm menos.

As minha ideias de esquerda perderam-se há muito. Percebi ao longo dos anos que o cool de ser de esquerda se esgota na discussão dos costumes, Sou de esquerda sempre que se fala em aborto, em legalização de drogas ou de qualquer tipo de escolha pessoal. A minha geração não tinha mais pelo que lutar e essas foram as nossas lutas. As propinas, os charros e outras quantas liberdades sociais.
Mas quando cresces, pagas impostos, e vês as merdas que por ai acontecem endureces um pouco a forma de encarar o dito estado social.
No entanto, quando alguém gasta em 6 garrafas de vinho aquilo que eu valho em 3 meses de trabalho algum desse espirito reacionário acorda, porra, que mundo é este?!

***

Hoje na rádio ouvi que regredimos em termos de poder de compra 25 anos, estávamos ao nível de 1990.

O terrível que é andar para trás... lembro da emoção da entrada do euro em 2001. Do admirável mundo novo e de toda a minha adolescência completamente despreocupada em relação ao dinheiro. O melhor estava para vir. Desde que pude trabalhei no Verão, assim que pude fui autônoma e sempre me sustentei com vagar.

E hoje, 14 anos depois sou muito menos capaz de o fazer do que quanto tinha 17...

*** 

A meio dos anos 2000 participei em intercâmbios, viajei. Eramos cidadãos Europeus - outro admirável mundo novo.

Conectávamos com os outros, com culturas e modos de vida. A multiculturalidade demandava que socializássemos com pessoas diferentes. Com os muçulmanos da Turquia que queriam entrar da mesma forma que socializamos com a malta mais barulhenta da Europa que vinha de Itália ou com os soldadinhos de chumbo da Polônia. Desfazer estes esterótipos era a ordem  do dia e dos milhares de euros gastos nas férias pagas.
E desfizemos. Arranjamos amigos para a vida, sentimos-se próximos.

E como nos sentimos agora que queremos expulsar os Gregos?
Que vamos sentir quando decidirem nos expulsar a nós?

Que sentimos realmente em relação a isto tudo?

Mal leio noticias, não percebo nada de mercados de divida e cada vez me esforço mais para manter a minha mente num qualquer nível avançado de ignorância.

Mas deu-me vontade de chorar quando recebi o alerta do voto maioritário no Não na Grécia no telemóvel. Não porque discorde deles... mas porque lhes entendo a dimensão histórica. Porque um dia nos havemos de lembrar desse momento.

Não vejo televisão, não compro jornais e leio de enviesado as Newsletters que recebo.
Nunca pensei, em algum momento da minha vida - acadêmica até - ter medo das noticias.
As noticias, a verdade. Um dia achei que ia fazer mesmo isso....

O melhor afinal já tinha passado.

***


O fosso entre os pobres e ricos é estrutural, Nunca antes na história ele despareceu realmente. Talvez nos anos pós-guerra nuns Estados Unidos a florescer no baby boom e no sonho americano, da casa com alpendre e balouço oscilando ao sol enquanto espera o Ford que há-de chegar do trabalho.

Não me queixo dessa ilusão. A minha educação burguesa preparou-se para trabalhar. Nunca faltou nada, sempre fui privilegiada - e continuo a ser das mais variadas formas - mas sempre soube que isso tinha contrapartidas.

A unica coisa que me queixo a sério desta vida, não é o quanto trabalho, mas o tão pouco o meu trabalho vale.

Mais valia termos sido sempre pobres.

Uma vez que vimos a beleza, nada do que é feio nos basta...

Há dias, que nem o mito de Sísifo nos consola...












quarta-feira, junho 24, 2015

Histórias da Cidade I



Os dias longos do inicio de verão tinham esse dom de a deixar bem disposta. Sair do trabalho com luz, sentir as ruas vibrantes da cidade ainda cheias de um dia que teima em não acabar. Apinhadas de gente, de táxis, de eléctricos e os seus sons metálicos, de tuk-tuks e outras invenções com motores berrantes todos fundindo-se nos sons das esplanadas e com as gaivotas guinchando junto ao rio.

Atravessava o Terreiro do Paço vinda da Rua da Prata e sentia-se sempre engolida por todo aquele espaço em frente ao rio, pela amplitude dos sons e a ligeira sensação trepidante debaixo dos pés a cada novo carro rolando nos paralelos. 

Desistiu mais uma vez do elétrico, o 15E ia demorar mais 6 minutos a chegar a mais uma paragem no seu caminho até Algés, era o que informava o monitor, e a paragem estava cheia de gente, respirou fundo e seguiu a pé.

Entre o cais das colunas e o cais do Sodré vivem-se fins de tarde pachorrentos, esponjados  pela praia de cimento.

Os cheiros do rio, os tabacos, os carros apressados e uma promessa de mar que vem de longe criam um odor exótico que só se entende ouvindo a mescla de línguas que sobrevivem abafadas pelo rolar dos carros nos ripados de madeira e aço por cima do rio.

Ia de passo largo pensando nisso tudo e no comboio que tinha de apanhar. Ia contando as luzes que se acendiam na outra margem, invejando os ténis da miuda sentada no muro, rindo das tentativas de tirar fotografias dos desconhecidos, agoniando-se com o vinho de pacote partilhado pelo casal junto à água, pensando em  nada.

Avançando pelos sinais de perigo avisando que se pode escorregar e cair ao rio até ao pequeno largo onde um pequeno grupo se prepara para tocar.

A guitarra de blues soa ainda no ensaio dos acordes e à sua passagem a bateria começa a bater ritmada marcando-lhe os passos.

Juntos aos muros do rio as pessoas juntam-se nas mesas de esplanada e nas cadeiras de lona existindo de forma despreocupada.

Sentiu-se por momentos muito viva, como se tudo aquele cenário lhe pertencesse, como se não fosse a sair do trabalho para apanhar o comboio suburbano a caminho de casa onde chegará demasiado tarde para jantar.

No ritmo dessa bateria, desse espirito jovem brilhando à beira rio os seus anos deixaram de contar e o seu passo ganhou um porte de confiança, como se fosse apanhar uma carruagem dourada a caminho de um futuro excitante pelo o qual mal pudesse esperar.

O ar cheirava a limas e a hortelã e os copos bonitos passavam nas mãos dos que se iam sentar nas cadeiras de lona com vista para o desaguar do rio no mar.

Nesse momento de mindfullness, essa conjugação de cheiros, de sons e de fantasia, a vida pareceu-lhe ser tudo o que podia ser.

Com os passar dos metros o ritmo da bateria tornou-se distante até ser indistinto dos sons da cidade. Parou no fim do passeio junto a uma sarjeta suja para deixar passar o autocarro que se apressava para o Restelo e ouviu distinto o soar dos avisos da estação. Saiu de letargia, correu e tropeçou no velho à estrada da estação, deixou-o a protestar para num passe de mágica entrar por portas que se começavam já a fechar.

Encontrou lugar sentada e respirou fundo enquanto na outra margem a luz do dia se substituía pelas luzes da noite.

Apanhara a carruagem certa, e ainda assim esta chegaria demasiado tarde para jantar.



terça-feira, abril 28, 2015

A Liberdade...e o meu gato.



O meu Gato fixava longamente a rua que ficava para lá da janela fechada. Na rua, na terra desconhecida chilreavam pássaros que saltavam da ameixeira para o limoeiro sem lhe ligar.
Ao fim da tarde, à hora do comer, saiam dos buracos, do meio das laranjeiras, dos quintais dos vizinhos, os gatos despenteados a que damos sustento, gatos vadios, que se punham a fitar o meu gato, deitados de ar satisfeito no meio do terreno, e o meu inerte olhava-os de volta pelo vidro.
Na rua, há o gato preto. O gato preto não gosta do meu. É velho e matreiro e sai nas janeiras para as gatas voltando escanzelado e ferido. Não gosta do meu e assim que pode deu-lhe uma tareia à altura.
Lá fora há perigo, e ainda assim, o meu gato perdido nas nostalgias do mundo desconhecido perdia as tardes imaginando como seria.

***

Pensei então que não há nada mais transversal à vida do que essa necessidade, esse instinto de liberdade.
Na rua há fome, na rua há insegurança, há perigos e outros gatos pouco amistosos, na rua há frio em contraponto á manta fofa do sofá, há chuva sem abrigo. Há incerteza e aventura.

Em casa há proteção.
Mas nessa senda por onde corre o nosso instinto, antes a liberdade cravada de fome e frio, do que a insipidez da vida passada atrás do vidro.

***

O gato aprendeu então a fazer deslizar a janela entreaberta, encolheu-se e passou. Colocou os pés na terra, explorou o quintal, o nosso, depois o do vizinho. Voltou é certo, mas não voltou para ser fechado, voltou para ter a liberdade de sair quando quiser, não lhe abrimos a porta, ele desliza a janela, ele sai sozinho.


***

Algo maravilhoso é essa coisa, esse livre arbítrio. Uma escolha pensada, a auto-exposição ao perigo. O certo é que quando confrontados, não nos falte a coragem, antes preferimos ser livres do que viver protegidos.

E como diria Camus, "A liberdade mais não é que uma oportunidade para sermos melhores", deixemos-se de coisas, nada é mais valioso do que sermos livres.


P.S. 41 anos depois do 25 de Abril ainda ouço por ai saudosistas da outra Era. Dantes desgostava-me a ignorância, de forma penosa. Hoje, enche-me de ira, porque uma grande parte da ignorância é voluntária, pior que não saber, é não querer saber...