quarta-feira, março 26, 2014

Será que quero mesmo voltar a estudar Jornalismo?



Quanto mais leio sobre jornalismo e jornalistas...mais me convenço que devia ter tirado um curso de agricultura, é que as couves podem ter coração, mas não chegam a ter umbigo...

Não há no mundo profissional classe operária mais incapaz de se distanciar de si mesmo, de se relativizar.
Os jornalistas deste mundo passam mais tempo a debater-se do que a debater os problemas que se passam lá fora. 

Depois correm rios de tinta (espera…acabou a tinta, agora são só zeros e uns!) por causa do comentário de domingo e da conduta do Rodrigo dos Santos ou por causa da reportagem sobre o Tipo do Kit e das Marés Vivas que vêm a Portugal. A esta última chama-se “infotainment”, goste-se ou não, que há para debater sobre isso?

No entanto é irresistível empolar discussões, dá-nos um sentimento de importância.

Porque num mundo onde o papel do jornalista se vem desvanecendo, gastas que estão as páginas de jornal que já nem para enrolar peixe servem, nesse mundo de jornalistas sentados, de pessoas pouco curiosas, de histórias copiadas e embaladas como numa linha de montagem. O jornalista não é mais um Ser importante. É um tipo sentado na linha de produção, que pica o ponto para entrar, que tem de mostrar produtividade. É um tipo como os outros, e não precisamos de muitos anos na escola para fazer copy/past e interpretar o corretor de erros do word.

Quando iniciei o Doutoramento no ano passado, ia cheia de perguntas e queria muito encontrar respostas. Depois percebi que num programa de doutoramento em Ciências Sociais é suposto encontrar mais perguntas e coloca-las a um nível filosófico que transcende a interpretação do dia a dia e se situa no éter das questões eternamente por responder.

A pouco mais de um mês de decidir se quero fazer o reingresso no Doutoramento, de decidir se devo pedir aos senhores para me aceitarem de volta, debato-me com esta questão. Quero mesmo voltar a estudar jornalismo?

Quero mesmo pegar no trabalho académico de toda a minha vida adulta e voltar?
Continuo entusiasmada com os modelos de negócio para os News Media e continuo a achar fascinante a entrada nesse admirável mundo novo? 

Tenho o que é necessário, gosto mesmo disto?

Ou é uma paixão platónica…daquelas que nutrimos ao longe….destinada a nunca ser consumada?



sexta-feira, março 21, 2014

“Frankly My dear... I don´t Give a Damn”


Lembro-me de que quando era pequena achava que a vida das pessoas não existia para além de mim. Um dia, numa das muitas vezes que o meu pai me foi buscar a casa da mãe, numa dessas viagens que começavam comigo a soluçar colada ao vidro do carro, vi-as a desaparecer no afunilar de uma rua. As suas vidas ficavam então inanimadas, inexistentes. Todos os seres funcionavam como figurantes do palco que era a minha existência. 

A fase egocêntrica. Eu no centro do mundo, o mundo dos outros a confluir no meu. Isso aconteceu quando eu tinha seis anos. 

 *** 

Enquanto crescemos apercebemo-nos da nossa insignificância no girar do mundo. Se eu desaparecesse todos os outros seres continuariam a respirar. A viver, não seriam inertes nem incapazes, a minha existência é tão só uma figuração na vida dos outros. 

O meu mundo, uma irrelevância. A inversão do princípio da nosso existência é um processo lento e doloroso. Escusamos-mos a aceitar que não somos especiais, nem únicos, nem sequer necessários. Somos peças. Somos até, salvo raras excepções, peças desnecessárias. 

Como formigas num formigueiro. Soldados, mantendo a engrenagem viva, ocupando espaço. Sendo um escudo. 

***

Quando eu digo que não gosto muito de pessoas, sei que às vezes sou mal interpretada. Adoro pessoas, as minhas pessoas. 

Depois há um mundo de pessoas que são um mar de angústia, de frustração de incógnitas e preocupações. As pessoas, na generalidade, as pessoas desconhecidas são más notícias. São difíceis de ler impossíveis de antecipar. 

As pessoas têm razões que a própria razão desconhece. As pessoas são difíceis. Às vezes gostava de ter de novo seis anos, gostava que a vida das outras pessoas se eclipsa-se no virar da esquina. Gostava de não ter de pensar no que elas vão a pensar para casa. O egocentrismo da infância, era então uma santa ignorância. 

*** 

E um dia estamos tão cansados desse jogo de leituras, de rostos e expressões. De expectativas. Das nossas por cumprir, das dos outros incumpridas. 

De nós esperando, dos outros à espera. Cansados de achar coisas, de esperar, as expectativas matam-me. 

Que só nos apetece dizer “Frankly my dear, I don´t give a damn”. 

E ansiar ser capaz de deixar de me importar de vez…

quarta-feira, março 19, 2014

A beleza...

A beleza de uma tarde de sol e vento fraco, apenas uma brisa.

Do silêncio dos sítios que vivem e respiram. Com gente dentro, e um mundo inteiro lá fora.
A beleza dos sons, dos que sobressaem do silêncio em harmonias perfeitas. Capazes de nos emocionar, de nos enraivecer ou de nos fazer sonhar.
A beleza dos sabores crescendo-nos na boca. Desdobrando-se em notas e memórias.
A beleza de palavras conjugadas da forma certa, expressando na plenitude o nosso ser.

A beleza das coisas mais simples que podemos ser…
Estou fascinada pela beleza das pequenas coisas...

segunda-feira, março 17, 2014

"There is no love of life without despair of life." Camus, A,


Há dias em que parece que o mundo nos dragou a alma, chegamos a casa vazios. Questionando, uma e outra razão. Desejando coisas que não podemos ter, desejando respostas, certezas, indicações e uma via aberta para a vida. Há dias em que nos deparamos connosco. E apesar de termos a certeza que estamos a fazer o melhor que podemos, temos a certeza que não sabemos o que estamos aqui a fazer.


***

Sai para a rua e respirei. Ar frio e vivo a encher-me os pulmões, quase a queimar de vida.  Essa necessidade eléctrica de me mexer, essa energia pouco positiva a transbordar, a querer sair e abandonar-me.
Esse momento de conexão, em que as imagens e os dias se rebobinam na nossa mente ao ritmo da passada, cadenciando com o baque das pedras da calçada. Um e outro assunto a ser arrumado no seu respectivo lugar. Problemas a surgirem e a fugirem de nós. Correr e pensar.
Pensar enquanto o frio da noite substitui o frio do dia. Enquanto os cheiros da escuridão se instalam e se sobrepõe aos cheiros do movimento.
E sinto-o, um coração que bate e se esforça e se supera. Sinto que tenho sangue nas veias e que o posso fazer circular.
Sai para a rua e respirei, respirei fundo.  
É como sentar e pensar. Sentamos e pensamos cada vez menos.
Vivemos nesse ritmo de coisas a sucederem-se sem parar. A entrar e a sair de casas, de sítios, de peças de roupa.
A nossa vida invadida pela vida de outros. Todas as versões de nós a existirem ao mesmo tempo, a trabalharem, a viverem. Todas, ao mesmo tempo. Nem uma a parar para pensar. 


                                                                                 ***

"Porque estás aqui comigo?" - perguntou-lhe olhando-o nos olhos, num tom desafiador
"Olha para ti, podes estar com quem quiseres, podes escolher. És bonito, és charmoso. És relativamente jovem e desimpedido. Porquê comigo?
Eu que sou um significante nada. Que não sou bonita nem feia. Nem alta nem baixa. Que falo baixo e me fica tanto por dizer.
Logo eu, a desenquadrada, eternamente deslocada onde quer que esteja. Eu? Que nem sou assim fã de pessoas e só agora estou a aprender a viver. Questiono-me e espanto-me. Queria saber."

***

Inquieta-me as pessoas. O vazio que lhes vejo, o mar de inquietações. Imagino o seu interior debatendo-se com o dia a dia, incessantemente sem parar, sem momentos de silêncio, sem se sentarem para pensar.
Inquieta-me o escuro, essa vontade que me surge de as salvar, de as retirar da inercia da vida, desse quotidiano que achamos que temos de viver. Inquieta-me que me inquiete.
Porque revejo os pequenos nadas nas duvidas da sua existência. Da minha própria existência e insatisfação.
Como Sissifo, carregando a pedra pesada que é a nossa mente, ela sempre rolando, recuando, dizendo-nos que não.

***
Que andam as pessoas a fazer? Porque escolhemos o que escolhemos, porque o fazemos?
Continuamos no absurdo da vida?
E essa ausência de explicação... a incerteza. É incessante. As duvidas, o desconforto. Deviam ser boas, deviam ser motivantes. As dúvidas lançaram homens ao mar e descobriram novos mundos.
Estaremos acomodados no dia que descobrirmos todas as certezas.
As dúvidas são inquietação.
A inquietação é criadora.
Criamos inquietos.
Vivemos. Inquietos e cheios de dúvidas.
Estamos vivos.
(Mesmo sem saber o que estamos aqui a fazer.)





segunda-feira, março 10, 2014

A Síndrome da solidão.

Eu vivo sozinha. Esta é a minha casa. Ninguém me chateia eu não chateio ninguém. A minha família vive noutras cidades, ao longo dos anos os amigos mais chegadas foram indo embora, cada um para a sua vida, dispersando pelo mundo.

Embora eu conheça muita gente e tenha muitos e bons amigos, estou, na prática, sozinha. Aqui, em Portalegre ou em qualquer outro lado do mundo.

Isso não é um problema na maior parte do tempo. Sempre fui muito autónoma, há poucas coisas na vida que eu faço com os outros que não posso fazer sozinha, não morro de solidão, nem me aborreço, considero que tenho recursos e uma vida interior capaz de me entreter por muitos e bons dias.

Treino sozinha com a mesma vontade com que vou ao estádio treinar com a equipa, cozinho para mim como se tivesse de alimentar a família, saio e passeio, não fico em casa só porque não tenho com quem ir.
Não sou uma solitária, tenho amigos, convido-os a vir a minha casa, combino cafés, saímos para beber um copo, vamos a consertos. Eu vivo com outros, eles só não vivem na minha casa.
Eu vivo sozinha. [Ponto] Isso não é um problema para mim, parece às vezes ser para os outros.

Esta conversa porque no outro dia parti a cabeça, fiquei atordoada e não havia lá em casa  ninguém para ver se era grave, para me amparar na queda. Eu tenho dois telemóveis e três dispositivos ligados em permanência à internet, nunca estás virtualmente só, mas depois precisas de ir perguntar à farmácia do lado se se vê o cérebro ou se podes ir treinar.  Tudo bem, é o preço a pagar, como tudo na vida há prós e contras. Eu sei os contras, há que os contornar.

Mas isto deve ser socialmente estranho, digo. Se não, pelos vistos é algo que merece uma certa compaixão, porque “coitadinha, não tem ninguém que a venha cá buscar? Uma menina tão bonita…aiii diga lá, não têm um amigo?”

Quando me dizem que não devo ir sozinha a conduzir até ao hospital eu acho que devo chamar um táxi. Mas a Enfermeira continuou a insistir, que eu devia arrancar algum amigo do trabalho, chamar um ente querido do outro ponto do país ou quiçá mandar vir a minha mana do Canadá para me ver levar 3 pontos.
Eu tenho a certeza no meu coração que se precisa-se que alguém lá fosse bastava um telefonema, podia começar no topo da lista, mas é realmente necessário chamar alguém para fazer algo que eu posso fazer sozinha?

Porque é que alguém tem de perder meio-dia de trabalho quando com 3€ eu simplesmente pago um táxi?

Hoje confrontaram-me novamente com essa “doença” de que padeço. “ A sério, não tem ninguém que lhe possa ir lá receber o técnico?”  E de novo esse olhar de compaixão. “Coitada, não tem cá ninguém…pobre rapariga.”

Porque é que tomar decisões, fazer coisas e estar-se sozinha, sendo-se menina ou uma jovem mulher adquire em certos momentos essa aura de desgraça? Tenho de ser dependente de algo ou de alguém, preciso de alguma certificação social?

É assim tão estranho no mundo de hoje, um mundo em que estamos em constante rotação, entrando e saindo, mudando…

Parece então doença, uma síndrome. Uma daquelas coisas que não se sabe de onde vem e que nos afeta a nível funcional. Que não afetaria se todos fizessem o trabalho como esperado, às horas planeadas.

Se não houvessem expressões de desapontamento, nem olhares de pena.

Não, não sofro de autocomiseração. Estou aqui sozinha. Isso é diferente de estar aqui solitária!


quinta-feira, março 06, 2014

Cadernos da Cidade Nova I


Mudei-me para aqui,  bem podia ter sido para Marte, que eu à Lua ainda conheço as fases. Deste sítio nada. Só o lugar que ocupa no mapa e o semblante visto ao longe, no cimo da colina. 

Este sitio é como aquela pessoa com quem toda a vida nos cruzamos na rua e nunca soubemos quem é. Dissemos-lhe bom dia, boa tarde, um sorriso num dia de verão, mais nada.

Hoje subi a encosta a correr, entrei na artéria principal e continuei pelo planalto, pelas ruas estreitas, pelas vielas, pelo reino do gótico. Não conheces as ruas antes de lhes ter pisado a calçada, antes de sentires a mistura do ar, do cheiro do jantar que se desprende das casas ou do pão que torra no café. Esse cheiro da vivência que envolve o das árvores, os escapes e a neblina que sobe do rio em fim de tarde.

Não conheces os sítios antes de os sentires a pulsar, a vibrar debaixo dos pés antes de distinguires os sons, e veres as esquinas, os sítios onde não foste mas podes ir.

Correr. Aqui, ou no outro lado do Atlântico continua a ser a maneira mais fiel de conhecer uma cidade.

***

Estou a ressacar de pessoas. Ainda que a rua esteja cheia de Humanidade, eu preciso de pessoas, das minhas. De pessoas de quem eu não posso duvidar, de expressões conhecidas, de gargalhadas altas e sinceras, de ter espaço e de ser eu. Eu entre os meus pares, entre tantos anos de afinidades, de cumplicidade. Estou a ressacar das minhas pessoas.

Aqui em Marte são todos desconhecidos. Hoje vi esplanadas, achei-as interessantes, talvez me vá lá sentar. Ai pensei nessa coisa complexa que é conhecer pessoas, da espontaneidade. Antigamente isso era fácil, na escola ou  nas noites de copos, o amigo que apresenta o outro amigo, um mundo de tempo e possibilidades.

E agora, como se conhecem pessoas? Como se descobre afinidades? Agora que a paciência é pouca, o tempo ainda menos e a nossa exigência maior. Crescemos e não temos mais tempo para o erro, não temos mais espaço para a desilusão, para escrutinar rostos ou desvendar personalidades. Pisar terrenos movediços, pessoas. As pessoas são difíceis. E como descobrir pessoas no meio de tanta Humanidade?

*** 

Depois conhecemos pessoas que têm muros altos, são autênticas fortalezas. Um império solene, vivem na mais perfeita solidão.

Que não nos permitem entrar, mas que nos convidam a espreitar cá de fora. Que embora nos mostrem a riqueza do seu ser, nos emprestem por momentos a chave e nos deixem permanecer por instantes, no fim do dia sempre vão encerrar as suas portas.

São normalmente encantadores. Falam muito, comunicam pouco. Prendem-nos por momentos nessa áurea misteriosa. E nós por instantes achamos que vamos conseguir entrar, estamos já apaixonados por esse admirável mundo interior…presos. Porque são intensas, e saborosas tornam-nos insaciáveis...

Mas são fortalezas. Estão perpétuamente encerradas.
Só nos resta a certeza que nunca se darão a nós, devemos parar antes que se tornem corrosivas.

Em tempos achei que queria ser assim, auto-suficiente e  inalcançável.

Não sei mais se quero. Conhecer alguém e permitir que nos conheçam é um processo maravilhoso de criação de laços.

Orgulhosamente sós…é com viver “La grade Belleza”, freneticamente no agora. 
Uma vida sem estória no meio de tantas histórias.



quarta-feira, março 05, 2014

Ensaios sobre a memória II


“Ainda há pouco a minha mente vagueou até ti. A rever uma e outra vez. Incessantemente. O principio, o meio e o fim da história. Escrutinando, procurando esse momento tão específico, essa razão crucial, o princípio do fim das coisas. A resposta para todas as perguntas, uma justificação para aquilo que o absurdo não satisfaz. Às vezes vagueio assim.

Gosto de pensar que há histórias maiores que a vida, ou que valem uma vida por si. Como se tudo o resto só tivesse início nessa fundação, alicerces fundos, às vezes dolorosos mas capazes, feitos para durar e suportar tudo o resto.

Porque se sobrevivemos a essa derrocada, ficaremos para sempre de pé, muito para lá do fim dos tempos, dos limites do nosso ser. Ficaremos.

Às vezes sinto uma vontade enorme de conversar, de te contar coisas, de rir. Só de rir. Porque riamos tanto. Á vezes é uma vontade tão grande que apetece gritar, é mais que física, é existencial.

E depois as saudades de todas as primeiras coisas que não fizemos, de tudo o que vamos vivendo e não estamos, não somos, não.

Às vezes vagueio até ti e imagino que tínhamos sido mais humildes, menos nós mesmos, mais outras coisas. Às vezes gostava que estivesses aqui.

Gostava que nos conhecêssemos agora, que tropeçássemos um no outro na esquina de uma rua movimentada, que fossemos beber um café como dois estranhos e começássemos a acabar as frases um do outro sobre as coisas de que gostamos.

Gostava que o mundo pudesse recomeçar e pudéssemos ter de novo todas as coisas. Não como antes, mas agora. Sendo o que somos, tão diferentes e tão essencialmente iguais.

Às vezes vagueio até ti. Como se estivesses a meu lado, como se fosses parte. Uma parte de mim, que eu não consigo mais tocar.

Crescemos tão juntos, vejo-te em casa palavra que escrevo, e a tua presença é um sopro de brisa morna, algo que se sente mas completamente intangível.

Às vezes vagueio, Outras não preciso. É como se estivesses aqui.”


domingo, março 02, 2014

Ensaio sobre a memória I


"Fitava os pés há já algum tempo, incapaz de encarar o absurdo da sua situação. Estava sentada à beira de uma cama desconhecida, num quarto vazio, com alguém estranho. Sentia no ar um cheiro adocicado, a tabaco fumado, uma presença latente e podia ouvir todo um mundo a girar la fora, em sons familiares. 
Tentava em vão avaliar a sua situação, o lapso de tempo que lhe faltava. Que estava a fazer ali? Passou as mãos diligentemente pelo corpo escrutinando-se, nada lhe faltava, nem um rasgo na seda da pele, e no entanto no seu interior sentia-se profundamente dilacerada.

 ¤¤¤

Não entendia o fascínio do mundo por esse tipo de casualidades, tinha de se conformar. Agora que caminhava pelo frio da manhã, de cara mal lavada e cabelo desgrenhado, simplesmente não compreendia. Nesse lapso de tempo que lhe faltava alguém havia satisfeito o seu desejo, ela a sua curiosidade e pela manhã, fria de um inverno penoso, os corpos quentes e desconhecidos, que por instantes estiveram juntos cumprindo um ritual de instinto básico, voltaram a ser só corpos quentes e desconhecidos. Se se dedicasse ao silêncio tempo suficiente, podia simplesmente não ter acontecido. Nem isso, nem essa linha aleatória de tempo que junta vontades. O desejo e a curiosidade... 

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Passados tantos anos ainda poderia destingui-lo no meio de uma multidão. Apaixonara-se primeiro pelo seu cheiro, essa mistura única de pele, de alma, de perfume e sabonete de banho. Essa mistura pessoal de vivências, de fumo de tabaco e do ar da cidade. Uma essência mais forte por detrás das orelhas, mais intensa na parte de dentro do pulso, o cheiro da intimidade. 
E no entanto a imagem dele esbatia-se já na sua mente, como uma fotografia a sumir-se amarelecida pelo tempo. Tinha tido uma passagem tão breve na sua vida, tinha sido como um sonho numa noite de Verão. 
Num momento estava tão junto a si, tão próximo, tão real e num outro tinha-se desvanecido, sem deixar marcas ou testemunhos, sem arqueologia possível, sem documentação. Uma inexistência. 
Sobra-lhe o cheiro de lembrança, poderia reconhece-lo, na brisa pela manhã, no tabaco a vaguear pelas ruas em determinadas temperaturas, em dias temperados pela humidade das ervas, ou no pico seco do Verão. 

¤¤¤ 

Gostava de viajar assim, de comboio, sentada à janela. Sentia sempre que a sua mente se libertava com os solavancos ritmados das carruagens. Se soltava para lá dos montes e vales, de verde e azul a perder de vista e todos aqueles sitios, apeadeiros e estações perdidas, nostálgicas, eram um vácuo de tempo.
Os anos haviam sido justos consigo, apesar das mãos engelhadas, do cabelo a perder cor e de uma vista cansada, movia-se ainda com agilidade e a sua mente estava sã. Dava-se por isso ao luxo de viajar sem rumo, de visitas a termas, a retiros em locais silenciosos, onde pudesse estar só, longe do mundo que a solicitava a todo o momento, deixar-se estar e recordar. 

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Esporadicamente, lembra-se do seu cheiro. Tantos anos passados e ainda se voltava à passagem de um estranho que lhe parecia familiar. Às vezes um trejeito no sorriso, lembrava-se de pequenos pormenores, havia já esquecido o todo, e embora não lhe enchesse de angústia, tinha já compreendido que não o veria mais, que não poderia reviver aquela história, no entanto nos últimos anos, com o aproximar do anoitecer da vida, sentia-se mais próxima daquela memória. Como se ter vivido aquele turbilhão de sentimentos legitimasse a sua existência.  Era como se só por aquele breve momento no tempo ter acontecido, todos os outros anos, todas as outras horas se tornassem válidas. 

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Estranhamente na altura não tinha sentido aquele episódio assim, nunca achara que aquele momento a iria acompanhar pela vida, uma decisão impensada, um impulso nada seu. Como se por um momento se tivesse simplesmente permitido ser um ser leve, desprovido de consciência, de crenças e de toda a preocupação. Acedeu a um convite, e depois a outro, permitiu-se à situação. 
Lembra-se de um nervosismo juvenil que a invadia, de uma certa vergonha, de não saber o que fazer com as mãos. E depois num momento estavam ali, permitiu-se a ser simplesmente feliz. Lembra-se dessa sensação de pura felicidade, da luz desse dia. 
Lembra-se da confusão dentro de si depois, como uma ressaca que a atormentou por dias, e depois o silêncio interior, o esbatimento das lembranças. A negação. 

¤¤¤

Estava absorta nesse mar, o comboio continuava ritmado até que parou num pequeno apeadeiro. Uma voz rufenha anunciou uma pausa na viagem. A carruagem meio vazia agitou-se com saidas e entradas, e ela podia ver da janela os azuleijos do lugar, as mães de preto a desperdir-se, outras a abrir o coração aos regressos. 
Então sem aviso o seu coração parou de bater...por segundos ficou suspenso para voltar a si num respirar fundo e aflito. E quando conseguiu soltar-se dessa sensação de que estava paralizada voltou-se, desaparecia na porta da carruagem um vulto, de fato preto. 
Atrás de si deixara um rasto de cheiro familiar.

domingo, fevereiro 23, 2014

“Her” : o EU e a necessidade de confirmação.


Queremos ser cada vez mais indivíduos livres, únicos, especiais. Queremos tomar decisões e ter as rédeas da nossa vida, gozar de um livre arbítrio que é nosso por direito divino. Queremos ser a melhor versão de nós mesmos, um hino à solidão, uma forma de ode ao egocentrismo, Eu no centro do mundo, do meu e dos outros.

Mas depois descobrimos que só somos especiais, únicos e livres em comunhão com os outros. Na afirmação e no reconhecimento perante quem nos ama, aqueles que amamos. Temos de imperiosamente ser únicos e especiais perante outros, precisamos de confirmação.

E esse é o imenso paradoxo da existência contemporânea. Porque o nosso Eu especial é pouco dado à partilha ou à cedência. Porque o nosso Eu não pode depender de ninguém para ser o melhor que pode ser, a nossa necessidade de aceitação é inversamente grande à nossa capacidade de aceitar.

Mas o EU sozinho definha. Não somos seres sós. Her, de Spike Jonze é um filme que fala disso, do difícil que é ser só e do muito que estamos dispostos a fazer para encontrar algo que nos ocupe o vazio.

Theodore apaixona-se por um sistema operativo, Samantha é um conjunto de zeros e uns, um ser que vive no éter, mas um ser pensante, um ser capaz de aceitar. Theodore falhou na vida, na realidade foi incapaz de ceder o suficiente, foi exigente demais, deu pouco.

Mas a necessidade de partilha e de confirmação é avassaladora, antes aceitar um ser virtual que ninguém. Antes ser amando por um ser intangível do que por ninguém. A nossa necessidade de paixão e amor é insaciável.

Uma vida solitária parece ser coberta por um manto de escuridão.

Pessoa disse que “ enquanto não superarmos a ansia de amor sem limites (…) continuaremos a buscar-nos em outras metades. Para se ser dois, antes é necessário ser um.” E depois disse-nos que se nos é impossível estar sós, aparte dos Homens, somos escravos.

Somos escravos subjugados pela solidão dos nossos dias, pelas paredes fechadas, pelos quartos vazios. Temos medo do silêncio, de nos ouvirmos. Somos escravos e ao mesmo tempo Senhores da nossa escravidão.

“Her” é uma alegoria para esse medo, essa necessidade selvagem. É tocante, é tocante rever-nos numa história destruída, num luto continuado, num mar de melancolia. E depois a luz, qualquer luz, a luz errada, outra luz a seguir.

Crescendo com outros até que não precisamos mais de encontrar outra metade, essas metades despedaçadas. E encontramos simplesmente alguém, inteiro.
Poderemos ai ser inteiros os dois.

***

Pensei para mim há algum tempo, que há pouca coisa na vida que eu faço com os outros que não possa fazer sozinha. Posso sair e passear, posso jantar sozinha, sentar-me numa esplanada, correr, ir à praia, viver sozinha.

Dito assim parece que sou pouco de estar com pessoas, mas não. As minhas pessoas estão por todo o lado, e eu sozinha em qualquer sítio, era uma escravidão.

Quero ser um todo. Ouvir-me, ver-me, perdoar-me, congratular-me, gostar ou não. Ser um todo uno, menos escravo, sem medo da solidão. Aturar-me, vencer o tédio da existência,  poder estar acompanhada de mim. Não porque sou um ser hermita,  mas porque de todas as pessoas que conheço,  é comigo que passo mais tempo...

Aprender a estar só tem sido um desafio dos últimos anos. Uma aprendizagem difícil.
Estar só é muito mais do que o silêncio dos dias ou a falta de companhia.
É fazer escolhas e ser responsável por elas. É superar essa sensação de perda quando as fazemos.

Perdoarmo-nos quando erramos.

É agarrar num livro e sentar na esplanada e beber o que apetecer, e ficar lá sozinha, sem vergonha desse estado, sem negação.

Aceitar o som do silêncio.
Gostar dele.



quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Na “terra” das primeiras coisas…


É um estado líquido, intemporal esse em que vivemos enquanto estamos suspensos entre uma vida velha e o dia a seguir. Que queremos que seja novo, diferente, melhor.

Provoca dores. Essas devem ser mesmo de crescimento, de desprendimento. O mundo era conhecido, e de repente está cheio de primeiras coisas.

De cheiros que não são familiares e de um mar de sensações, medos e esperanças que todas juntas podem ser avassaladoras.

Encontrar uma casa e olhar para quatro paredes vazias e sentir que podemos viver ali não é fácil. Não é barato, não é simples. A realidade mais uma vez  é mais simples imaginada do que vivida. Imaginamos colocar a chave numa porta e abrir um admirável mundo novo de sofás e almofadas, tudo no sítio. O cheiro a verniz e a baunilha e estás em casa.

Mas depois percebes que tens de esperar para ter essa chave, que tens papeis para assinar, luz para ligar...que tens de te preocupar com pratos e chávenas. Que tens de comprar uma cortina para a banheira e que vais passar meses a achar falta. Disto e daquilo,  a vivência será um mar de falta de coisas.

Já montei uma casa… e depois montei outra, a um passo de cada vez. A cortinados desencontrados das almofadas, a cada coisa a vir ao sabor do quotidiano. A ver estantes a vestirem-se de vida, a deixar um rasto espalhado de vivência em peças desenquadradas e papeis esquecidos. Um processo no qual fica sempre um pouco de nós, mesmo que não seja o nosso reflexo, mas apenas o reflexo das nossas possibilidades. Montar casa é criar refúgio de vida. Mas é um processo, cansa-nos até à exaustão.

Deixar a casa que se montou para trás gera um sentimento de perda estranho. Não devemos ser apegados a coisas, mas não são as coisas em si. Não é apego aos cortinados roxos que foram mesmo os que eu queria ou à cor da tinta da parede que eu ousei escolher. Será talvez à excitação que foi escolher a cor, ao trabalho árduo que foi pintar cada metro daquele sítio, à emoção de ver os cortinados pendurados, o jogo final. De tudo o que fui eu ali. De tudo o que já havia sido noutra casa.

De todas as casas da minha vida.

Deve ser Karma. Não ter casa, ter tantas casas, andar tanto entre elas que não sou realmente de nenhuma.

Aos 30 ainda me falta achar O sítio, que é a minha CASA.
Não sei se será aqui... ainda lhe falta a vista de mar.

***
Não respirava o ar da noite neste sitio há mais de 12 anos. Sempre teve um sabor adocicado. O frio das noites da minha adolescência era melhor que o frio dos dias, e eu podia vaguear pelas travessas como um fantasma deslizando, um exercício de perícia.

A terra, era o meu território, um mapa claro, hoje é uma perfeita estranha. Nunca lhe senti saudades, de todas as minhas casas esta será a mais mal amada, de todos os meus anos esses os que pertencem a uma vida que não é minha.

Sou estrangeira na minha terra. E dou por mim a fitar rostos, a achar que os conheço, a lembrar histórias e situações. Vejo rostos que me olham sem determinação. De todos os sítios onde eu poderia vir a estar 12 anos depois, a correr no escuro da noite na ciclovia não era um deles. "Não... aquela não é a Angie, estranho ia jurar..."

Em 12 anos todos os vestígios de mim desapareceram. Dos nomes das pessoas com quem me dava, os sítios onde ia que estão fechados, as ruas requalificadas. Como se não existisse mais prova arqueológica da minha história. Tornou-se numa civilização sem documentos. Sem ruínas, sem nada.


quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Sentimento de Possibilidade...

A primeira vez é sempre difícil, não me enganem. Ninguém gosta de ter mãos suadas e de se sentir desadequado. De não conseguir ler expressões em rostos que não conhece, de não saber, não conhecer, não pertencer.
A primeira vez de algo é difícil. Eu gostava de me deitar agora e só acordar para o mês que vem, porque há uma série de primeiras coisas por fazer, o conforto dos dias perde-se.

Sim. a primeira vez também é excitante, porque é novo, porque é desconhecido, mas tal como dois amantes que não sabem bem o que fazer consigo mesmos naquele jogo, a primeira vez é melhor imaginada do que vivida. Venham as segundas vezes, a meia dúzia. Somos bons naquilo que conhecemos...no resto às vezes temos sorte.

Ao longo dos anos a primeira vez conseguiu evoluir do pânico para o simples desconforto. Tantas salas de aula depois, tantas apresentações ao jeito de alcoólicos anónimos, "olá, eu sou a Angie, venho de Portalegre, quero salvar o mundo...", tantas vezes a ouvir uma voz em segundo plano, sempre esganiçada, sempre menos confiante do que era necessário, saío sempre com a sensação de que havia mais para dizer, "Oh porra, como não me lembrei disto!"

30 anos de primeiras vezes depois, acho que a de hoje correu bem.

Não sou um ser muito social, não sou fã de pessoas à primeira vista. Sou desajeitada, tenho pouca noção espacial e nunca sei qual é o comportamento adequado. Esse código de cumprimentos, e beijos e apertos de mão. E os homens que abrem portas para passar, entro primeiro?

Não, não sou muito social. Deixo cair coisas, tropeço nos fios, fico minutos a pensar noutra coisa. Levo tempo a sentir-me confortável com as pessoas, a dizer baboseiras, a rir sem sentido, a ter um olhar directo e franco. Vou sentir-me desadequada meses. 

No entanto as primeiras vezes são boas, são sempre cheias de sentido de possibilidade. 
E hoje, do pouco que fiz ouvi um "muito bom mesmo". 
Vim embora a sentir-me desadequada... mas cheia desse sentido único de possibilidade.
Amanhã, na segunda vez só poderá ser melhor...

domingo, fevereiro 09, 2014

Borboletas na barriga...


Sentou-se à beira do muro e olhou a planície que se estendia a seus pés. Um imenso mar de verdes, casas perdidas e caminhos abandonados.
Respirou. Lembrava-se de toda uma vida que não tinha vivido ali. De como ela tinha sido, essa semente que se formou no seu ser mas não germinou, morreu antes de crescer.
Lembra-se nesta nostalgia do vazio, porque uma coisa que não existiu não ocupa lugar, mas havia um lugar no seu ser que era daquela vida. De todos os sítios onde deveria ter ido, dos dias e dos anos, das vezes que deram as mãos e dos olhares cúmplices.  Sente o ter envelhecido ali, as vezes que foi feliz e os lutos, os dias cheios de sol ou os invernos longos.
Uma vida inteira vivida ali. Uma vida que não existiu.
Sente essa falta… saudades do que ficou por fazer.

***

Às vezes sente-se completamente atropelada pela vida. Com se fosse jogada pela janela do comboio a alta velocidade e planasse durante muito tempo antes de cair, antes de aterrar na realidade. E enquanto é jogada nesse mar de vento e rebola sem reacção, coisas boas acontecem, e passam e são só meras imagens perdidas na euforia dos dias. Às vezes gostava de ser jogada pela janela, mas em câmara lenta para poder filmar, avaliar, saborear a vida sem que se seguisse sempre essa sensação de perda. Há dias que são tão altos, que todos os outros a seguir só podem ser uma enorme ressaca emocional.

***

A perspectiva é boa, é de mudança. A mudança é boa. É aguardada. A mudança mete medo, e dá má digestão e tira-nos o sono de noite.
A mudança mete medo, mesmo quando é tão desejada.
Está com medo, sente que é capaz da mudança, depois duvida, depois desespera, depois acha que não. Depois respira, a mudança é boa, ela é capaz da mudança. Ela desejou-a.
As borboletas na barriga são agridoce. É bom, mas é assustador.

***

O céu resolveu cair em forma de água, numa chuva perene, num vento rígido com um frio cruel.
Os dias são mais fáceis quando faz sol, quando são grandes. A mudança merece dias de sol. A mudança precisa de dias de sol. Mas ninguém lhe disse que ia ser fácil, e sofrendo o mundo deste mal de inverno também a sua mudança sofrerá. De dias frios e cinzentos, de corredores vazios, de caras novas, de sensação de inaptidão, de dificuldade em se relacionar.
Sofrerá de ruas com outros nomes e rostos estranhos por debaixo da chuva, de sapatos molhados, de roupa desadequada para a intempérie e compras e um mundo inteiro por organizar.

***

Depois de muito tempo enregelada pelo vento de norte velando aquela vida não vivida fechou os olhos e deixou-a ir, o vazio a deixar de ter peso ao sair de si.
Não podia salvá-la, nem resgata-la desse outro tempo que já passou.
Basta-lhe a mudança. Imaginar toda uma vida num outro sítio. Viver toda essa vida.

Mudar e viver. 
Ainda que se assuste, e tenha dores de barriga.

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Sempre os dias...


Amanhã é o último dia. Da década, dessa grande ilusão de se ser jovem eternamente, de se poder fugir do tempo, de ainda ter todo o tempo para fugir.

***

As datas, deviam ser apenas dias. Mas não são. Enquanto fazem sentido são coisas plenas de alegria, são dias que amanhecem de sorriso aberto, são horas ternas em câmara lenta, são uma sensação morna na pele.
Quando não fazem mais sentido são vazios imensos, sombras que existem e sol nenhum consegue clarear. Hoje era uma data. Hoje foi uma sombra vazia.

***

Lembro-me do dia em que fiz 20 anos, do frio de Fevereiro, das coisas que vestia na altura, dos sítios onde ia, da cama onde dormia e das minhas inquietações. Lembro-me que fazer 20 anos foi como acordar numa manha de verão, com cheiro a mar num dia que prometia, num dia desses de grandes vontades em que tudo pode acontecer. Fazer 20 anos, ser tão jovem e viver tão apaixonada, fazer 20 anos era como poder fazer tudo ainda.

***

Não sei porque é tão perturbante essa barreira psicológica. Os 30. Nada mudou, nem um risco novo no rosto, nem uma perda de energia. O espelho reflecte da mesma forma um corpo inteiro, numa mente mais complexa, numa vontade renovada de viver. E no entanto, atravessar essa linha invisível é de alguma maneira dilacerante, como ter dores de crescimento, aceitá-las para além do mito. Um dia fazemos 20 e num sopro fazemos 30 e nesse espaço de tempo o que nos aconteceu?

***


Amanhã é o último dia. Ou o dia antes do primeiro do resto da minha vida. Ele pode ser triste e melancólico ou feliz e esperançoso. Mas é um último dia. 

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

"Should I..."


Às vezes confronto-me com a ideia de que não faço a mínima ideia do que estou a fazer, nem do que quero fazer, nem de onde é suposto ir a seguir.
Do que é suposto ser ou fazer para além de estar viva. Do que é suposto pensar em dias de chuva, no silêncio da escuridão... O que é suposto fazer ou ser? Não faço a menor ideia...

quinta-feira, janeiro 30, 2014

Das relações e outras ralações…


Não tenho bons exemplos. Nunca tive, os casais da minha vida não se aturam nem se aguentam, talvez seja porque existo eu. Mas perduram firmes e hirtos, como um monumento porque há coisas na vida que não podem acabar, mesmo que a sua existência seja metaforicamente um fim de vida.

Deparo-me então com essa perplexidade, muitas das pessoas que conheço vivem de alguma forma relações contrariadas. Porque o amor morreu há demasiado tempo, porque a concepção de fidelidade varia conforme o interlocutor, porque de tudo o que podem fazer no mundo estão a fazer qualquer outra coisa, porque não são um, mas são dois. Mas os dois…na verdade não dão um que valha a pena.

Chega então aquela fase que apetece ser mesmo cínica com essa coisa do amor. Do imaginário Romeu e Julieta e do arrebatamento apaixonado das histórias dos filmes… afinal, parece que já não se morre de amores, mas os amores fazem muita gente enterrar-se em vida.

Lembram-se das paixões da adolescência, de como estávamos sempre às portas da tormenta, das cartas e bilhetinhos, de todas as oportunidades para nos confinarmos no mesmo espaço e respirar o mesmo ar? Que se passa entretanto?

Quando é que pessoas que sonharam juntas passam a ser mortos-vivos olhando o prato de sopa? E quando é que passa a ser aceitável mentir, trair, enganar e voltar para casa de cara lavada?

Se fosse noutros tempos revoltar-me-ia.

Assim, apetece-me só ser cínica.

Ainda que tenha um coração de menina, ainda que sonhe acordada, ainda que no meu íntimo deseje que tudo isso seja mentira, e as pessoas se amem e se apaixonem e fiquem transtornadas, e mudem as suas vidas…


Porque eu sei que é possível, mesmo que tenha um fim. E antes um fim, triste e devastador, que uma não vida.

sábado, janeiro 25, 2014

A arte de ouvir...

As Pessoas falam. Às vezes de coisas simples, de trivialidades, sobre o tempo. Outras vezes despejam os restos da sua alma magoada nos nossos ouvidos.
Percebi ao longo dos anos que a maior partes das vezes, as Pessoas não querem conversar, querem falar.
Ser ouvidas numa última esperança que a sua ladainha interior tenha um rosto.
Há coisas que só se tornam reais quando tomam a forma de palavras, ditas ... Ouvidas.
Falar é então um acto solitário, um monólogo em que o outro é a plateia. Em vez de palmas incentiva com monossílabos, expressões indignadas, risos de alegria.
Mas é tudo. Podes até tentar introduzir debate, ideias, desconstruir a situação. Mas não há espaço, as Pessoas não querem conversa. Querem ouvir-se. Querem que tu as ouças. E num acto de compaixão ouves, mesmo que seja uma experiência extra- corporal, mesmo que estejas a ouvir um piano imaginário em segundo plano. Ouves.
E às vezes, essa disponibilidade, ouvir, pode salvar-lhes o dia.

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Sinto que são cada vez mais como crianças. Mas crianças com memórias.
As memórias perdidas no vácuo do tempo, repetindo-se num eterno retorno de momentos vividos, quando não se criam novas memórias, não se vivem novas sensações, são corrosivas, transformam-se numa adição.
Nos dias livres de encargos, de hobbies, vivendo um mundo interior incapaz de preencher o propósito de uma vida, tornam-se então crianças que perguntam o porquê de tudo quanto é novo, renegam o desconforto de um mundo desconhecido, esta modernidade criada sem o seu consentimento.
São crianças, dessas que não podemos contrariar, endossadas pela experiência de vida, cheios da verdade que nós só daqui a uns anos poderemos alcançar. Mas crianças, ironia última da existência, regredimos lentamente até à obscuridade de onde viemos.

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"Senta-te e ouve. Porque vês, ali naquele lado do campo ainda não há água, mas costumava haver. Entrava de mansinho pela lezíria acima, o Tejo falava. Na crueldades do inverno, chovia... Um ano choveu sete semanas sem parar. E o Tejo falava com o campo, acariciando-o antes de o tomar.
Vínhamos a pé, lá de longe bem sabes, juntos em rancho pela madrugada. Aqui neste lado, olha a quinta caída a miséria que era. - Mais miseráveis somos agora, olha a quinta caída. - Aqui as mulheres arregaçavam as mangas a apanhar vides, tinhas de trabalhar, num rancho ninguém quer ficar para trás, não ficavas, mesmo que as bolhas te rebentassem nas mãos e os pés negros de frio se isolassem do teu corpo submersos na água presa nos regos das vinhas. Vocês sabem pouco nestes dias, a fome. E os dias sem descanso, de sol a sol, ainda que o sol fosse fraco e o gelo não derretesse nunca debaixo dos nossos pés. Sabem cada vez menos vocês nestes dias."

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É tudo difícil de imaginar no conforto dos tempos, ali prostrados a beira da estrada meio esburacada do caminho do campo. Ao longe o sol sorri à cidade alta, as portas do sol, na planície o vento sopra forte por debaixo de um céu negro e acima da terra ensopada.
Mas aproveita o silêncio, se fechares os olhos e ouvires o correr do rio, se prestares atenção ao silencio ensurdecedor do campo podes vê-los por ali, dedicados as suas tarefas, carregado o fardo pesado.
E sente, nesse silêncio o vibrar do chão ao passo dos cavalos na terra batida. Nesse silêncio dos sítios inertes onde já houve vida. As casas caídas, os quintais abandonados, os que restam enterrados em vida.
Repete-te: "Sabem cada vez menos, vocês por estes dias."

quarta-feira, janeiro 22, 2014

O fim das coisas...


Quando começamos algo, em geral, não lhe antevemos o fim. Não programamos a nossa vida para a obsolescência, o casamento é para a vida, os projectos para darem certo, as escolhas certezas. Somos optimistas e inocentes na mesma medida, e só por isso nos permitimos a tantos mergulhos no escuro.

Só por isso corremos tantos riscos que não são calculados, porque a Lei de Murphy não se aplica a começos, ela só se comprova no fim.

                                                           "........"

Nesse momento em que comprovamos que tudo o que podia correr mal, correu mesmo e olhamos para trás, um simples relance, conseguimos ver que a final, os sinais sempre estiveram lá, nós simplesmente nos recusamos a ver. Essa voz silenciosa no fundo do nosso peito, não é consciência, não é medo. Na maior parte das vezes é pura intuição. Porra, porque não nos ouvimos mais? Porque não nos retiramos em curas de silêncio?

                                                           "........"

Porque a vida perderia a graça sem a incidência de erro? Porque precisamos de experiência e vivências, e comunhão com os outros? Simplesmente porque é isso, estar vivo.
Não há respostas a tantas perguntas, e ás tantas perguntas que ainda estão por fazer. E como num exercício académico bafiento e ultrapassado, as perguntas criam mais perguntas e não soluções, não exercícios práticos de resolução.
Parece-me, que teremos de passar pela vida apenas questionando os silêncios constrangedores, as situações desajeitadas e todas as outras hipóteses presentes no momento que não conseguimos entender.
                           
                                                           "........"

Deu errado então. Ou deu certo de tantos outros pontos de vista. Mas o começo chegou finalmente ao fim. Encerrado. Com tantos outros pontos de chegada diferentes do sonho americano, da vida construída e ganha à força de trabalho, o alpendre e a cadeira de baloiço em tardes quente de verão.
Talvez não seja esse o tipo de pessoas que somos. O nosso alpendre não acaba num relvado fresco, Céus, quem tem paciência para o regar?! 

                                                           "........"

Encaremos então o fim das coisas. Como a morte natural, o limiar da vida, a recusa de eternidade das ideias. O fim das coisas, de qualquer coisa, é tangível, identificável, acontece.
E depois de refeitos, de encaixado o vazio nos nossos dias, de lutos apaziguados e de lágrimas secas.
O fim das coisas, quando compreendido. Pode ser O começo de tantas outras vidas.

                                                           "........"

Sejamos Optimistas e inocentes na mesma medida...


segunda-feira, dezembro 30, 2013

O ano do meu descontentamento...


Quando existe uma ruptura na nossa vida e ela se dá sem aviso nem protecção, pensamos que após um determinado tempo de luto interior as coisas se vão recompor, tudo será melhor. Passou a tempestade.

Mas não encontramos a bonança, porque a tempestade foi devastadora, arrasou tudo até às fundações. Deixou pouco mais que destroços de nós mesmos e é com esses destroços que temos de começar a construir coisas.

Sonhos, caminhos. E a reconstrução principal, o nosso eu. Reposicionar-nos perante a vida, rever comportamentos, aprender lições e sobretudo, achar de novo a paixão de viver não é fácil. Ai sim, está a tormenta, esse é a subida íngreme no caminho. E podia ser logo, ou pode durar tanto tempo, que o luto já se esfumou, que todas as pazes com a vida estão feitas, nada mais há a afirmar. E ainda assim, a paixão de viver não nos arrebatou.

2013 não foi um bom ano. Um parte de mim acha-me injusta. Viajei, participei em projectos bons, tivemos sucesso no que quisemos fazer. A saúde acompanhou-me na maior parte do tempo, e fui livre. Tão livre quanto a minha carteira me permitiu. Livre de ir onde quis, de conhecer, de experimentar.

Infelizmente a minha carteira é menos livre que eu e a minha mente corre bem mais que as minhas pernas...

Mas 2013 não foi um bom ano porque lhe faltou paixão e sentido.
Foi um ano adiado, de suspense. De vontade de partir e nenhuma capacidade para o realizar.

De busca inconsequente e também de muitas amarras que parecem só agora começar a se soltar.

A minha vida, independentemente desta aura de pessimismo nacional, foi ela uma crise. 
Uma enorme crise existencial.

Nunca me foi difícil viver os anos na segurança das coisas certas, muitos menos na espontaneidade da adolescência. E ela dura, dura... dura muito para lá dos vinte.

O ano em que se tem 29 anos é duro, porque por mais que a idade seja um estado de espírito e o nosso corpo se comporte de forma jovial em breve teremos 30. Devíamos ter vivido coisas, devíamos estar mais além. E não estamos. Temos de aprender a digerir isso.

Ter 29 anos e estar completamente desapaixonada pela a vida em geral é aterrador.

Imagino então que 2014 possa ser o começo de uma nova caminhada. Não faço pedidos, nem preces nem desejo mais do que a vida me pode dar.

Eu sei que tenho as ferramentas... só ainda não sei onde as usar.

Só ambiciono que 2014 seja o ano do descobrimento. Que ter 30, seja melhor que ter 20. Ainda que sem a casa e o carro dos sonhos, nem o emprego estimulante, nem alguém apaixonado...sendo, na amplitude dos dias EU. Cada vez mais um EU uno e completo, confiante.

Um EU em que eu posso confiar.

P.S. Feliz Ano Novo.

sábado, dezembro 28, 2013

O Corpo…


Imagino o corpo como uma máquina perfeitamente oleada, a trabalhar em perfeita harmonia e equilíbrio, num balanço justo entre o esforço e a sua compensação.

E ainda assim uma máquina que falha e que precisa de ser constantemente afinada, estimulada e calibrada. Uma máquina que nos surpreende uns dias por ser capaz de muito mais, nos desaponta noutros por falhar sem razão.

Como todas as máquinas deteriora-se mais quando está parada. Se uma peça está no sítio errado e não a acertamos ela faz cama e perpetua-se numa calcificação defeituosa.

Se lhe damos o combustível errado ela entope-se, incha, rejeita até que explode.

Essa máquina, o nosso corpo responde constantemente, carrega-nos. Mas exige.

Alguns de nós carregamos máquinas perfeitas que só pedem o manuseamento cuidado. Outros nasceram em máquinas defeituosas, dessas que apesar de trabalharem incessantemente o fazem de forma ensurdecedora, quebrando com trejeitos desiguais, como se algo não estivesse no sítio.

De uma forma ou de outra, essa máquina que bombeia a nossa alma pelas veias, o espelho de quem somos é perfeita. Espanta-me todos os dias!

Mesmo quando me falha. Mesmo quando não me acompanha, mesmo quando na máquina habitada por mim, não me encontro eu.


Num corpo vive a alma. Tratemo-lo como se tratam as mentes…

sábado, dezembro 14, 2013

Crenças...

Nunca tive uma educação religiosa. Filha que sou de uma relação extra-conjungal mal vista na "aldeia" a meio dos anos 80, os meus pais excusaram-se de me batizar.

Durante a escola, o meu pai achou que eu não devia fazer a educação moral e nunca, na minha casa, se teve ritos ou crenças para lá do senso comum de uma educação ocidental.

Posso enumerar pelos dedos das mãos as cerimonias religiosas a que assisti. Três casamentos, dois funerais, uma missa de 7°dia, um batizado e a minha própria queima das fitas.

Crescer nessa total ausência de credo é ao mesmo tempo libertador e absurdo, porque crer em algo trás um certo conforto à alma, acrescenta-lhe sentido. Justificar o mal que nos acontece com os designios de Deus, com o plano superior e o de bom, como uma benção divina providência justificação ao absurdo da existência. 

Por outro lado, a iliteracia religiosa sobressai nesses momentos aos quais devemos comungar com os outros. O não saber qual a resposta à ladainha da missa mantêm-me de boca fechada desfarçando um certo embaraço, porque provavelmente fiz os gestos ao contrário, porque devemos impor respeito nos momentos de fé. Aquilo deve dizer algo, deve ser emocionante, espiritual e o meu ar de ser ausente não se compadece. Apenas ai existo questionando-me sobre o que será suposto sentir.

Quando não pertences, olhas para baixo, focas os pés, meditas. Como qualquer provação eventualmente chegará ao fim. A ignorância é então o meu estado de graça.

O que não quer dizer que não tenha fé. Toda a nossa educação é de alguma forma reliogiosa. O nosso conceito de culpa e de pecado. Contínuo a lembrar a Santa Bárbara quando faz trovões.

Sinto de alguma forma respeito pelos templos, pelos espaços, mesmo que desconfie das instituições. Acendo velas em Fátima, de forma desprendida. Imagino que se pedir, há uma qualquer probabilidade de ser ouvida.

Questiono-me muitas vezes se essa ileteracia me exclui. Se posso ser ouvida se não faço parte. Se faz sequer sentido pedir. Ou se posso acreditar que a sugestão do pedido em conjunto com essa força do desejo nos pode simplesmente sugestionar e impulsionar a ser mais positivos, que a crença de que temos ajuda dívina nos permite fazer coisas acontecer.

Todas essas questões são inócuas a maior parte do tempo. Não nos surgem num domingo de manhã em que em vez de ir à missa dormimos até à hora do brunch, nem nos atormentam quando escolhemos o bife para o almoço numa sexta—feira Santa.

Essas questões vagueiam em nós apenas nos momentos de perda, de dúvida ou grande desilusão. Quando precisamos de explicações, ou quando confrontados com a falta de sentido, com o vazio, nos olhamos e pensamos que precisávamos de crer em algo, ter fé.

Toda esta conversa porque me é difícil, mesmo com o respeito que tenho pelos espaços, perceber, aceitar e até mesmo sentir essa conexão espiritual com símbolos presentes. Com as caixas das esmolas ou com as vias sacras manchadas dos que passam de joelhos. Com as croas de ouro no topo de Torres ou com o ar magistral, tão imponente como opressivo de toda a construção.

Impõe-se depois o folclore de lembranças, de cores garridas em objectos "kistch" daqueles que sempre se viu perdidos pelos móveis em cima de naperons rendados. Desses que jurámos que nunca os iríamos ter.

Nessa mescla de contradições, entre a necessidade básica de apaziguar as dúvidas da existência e todo um pensamento abstracto perante as crenças e as religiões, onde fica a nossa fé? Para onde a dirigimos?

Aceitamos que a temos, ou vivemos num ligeiro cinismo descrente?
Tornamos-nos por fim subscritores das teorias do absurdo e da aleatoriedade da vida?

Ou cremos no sentido?

Aceitamos por fim uma explicação,  porque sim, é mais confortável crer...?