segunda-feira, julho 14, 2014

Estar viva...no Alive...

(Por a tocar...e depois ler...com banda sonora...)

Do espaço fez-se multidão. Apertados no escuro, vendo a cada momento menos lugar para respirar,embriagando-nos nos cheiros, de fumo, de gente, de comida e de bebida, no cheiro adocicado da expectativa.

Já disse antes, um concerto daqueles que se espera, que se ansiou ao longo do tempo pode transformar-se numa espécie de comunhão, entre todos os que estão a senti-lo e quem está no palco.

Comunhão destas vi poucas.... The National na Aula Magna nos idos de 2008... Chet Faker no sábado no Alive.

É nesse momento que sabes que é algo de especial. Quando todas as coisas estão na dose certa dentro da tua cabeça, quando à tua volta o mundo se move a um ritmo que podes acompanhar. Quando a temperatura ambiente se sente na pele como um beijo abafado de gente, saturado mas viril. Quando não tens espaço, mas o espaço não faz falta ao entusiasmo, e quando toca o primeiro acorde e o publico se levanta em coro, o mundo transforma-se nesse espaço transcendente, onde realmente a musica funde todas as partes do teu corpo numa peça só. (Nin, A.).

Podes fechar os olhos ai e continuar a ver, o show de luz e cada decibel debitado pela coluna é um pulsar de sangue nas tuas veias, um pulsar conhecido a cada estrofe que podes cantar de memória.
Tu e a expectativa consumada, a bombear no teu corpo por um coração emocionado.

Uma e outra vez. Mudando ao ritmo, a cada voz forte, quando chega AQUELA musica.

Um concerto é isto. A mim sabe-me a isto. A estar viva, muito mais viva uma e outra vez que o meu sangue circula a ritmos diferentes crescendo, expandindo, criando memória na minha mente. 

Fugindo mais uma vez da fealdade....procurado o belo. Porque se há A Grande Beleza...é estar vivo e sabe-lo!

1000....

Este é o post mil....73 dos quais não passaram do rascunho. São linhas perdidas, textos que eu achei que podia escrever, mas não podia.

Porque os textos, juntar as palavras certas, aquelas que traduzem a sério uma emoção, não são inventados, são sentidos. São vividos.

Feliz por viver pela segunda vez as coisas aqui... desde 2006...

segunda-feira, junho 30, 2014

“An important question which should be answered; is it possible to be happy and lonely in the meantime?” Camus, A.



Muitas das pessoas que conheço e admiro vivem sós. Não são jovens acabados de sair da adolescência, são adultos com vidas feitas, com percursos profissionais consolidados. São pessoas que têm casa e vivem num ambiente aparentemente cuidado e não num caos da solidão.

São homens e mulheres. São pessoas interessantes. 
São pessoas com histórias, são pessoas vividas. São pessoas cultas e que sabem estar.
Porque é que, no percurso das suas vidas, não encontraram par?

Ser uma família de um, é uma escolha consciente, uma fatalidade, está o amor romântico de facto a morrer, ou andamos demasiado ocupados para o procurar?


***

Acontece na vida de todos, acho eu. Momentos de paixão adolescente. Achamos, não, temos a certeza de que encontrámos a nossa alma gémea, que a vida nunca mais poderá ser a mesma após aquela revelação.

Dias de angustias e incertezas, perguntas sem resposta, experimentação, tentativas de ler o futuro em expressões fechadas, preces para que haja do outro lado correspondência e depois, quase invariavelmente, um mar de desilusão. Noites mal dormidas, dias de neblina.

Mas porquê a insistência nesse sentimento pueril, se no fundo, estamos bem como estamos?

É-nos mesmo difícil imaginar que podemos ser felizes percorrendo a vida sozinhos? É-nos mesmo intrínseco sentirmos essas forças de atração, intoleráveis, incontroláveis e na maior parte das vezes totalmente inúteis e não correspondidas?

As paixões são ou não necessárias, podemos eliminá-las? Decidir que não, jamais nos voltaremos a deixar consumir pelo que é na realidade um instinto básico. Um absurdo na sua essência.


***

A pergunta que se impõe é então essa precisamos mesmo de outro para sermos felizes? Ou podemos, construindo um caminho consolidado de auto-conhecimento viver uma vida feliz e equilibrada abrindo a porta para uma casa onde não vive mais ninguém?

***
Há minha volta constroem-se dois mundos então. O mundo dos que encontraram par, dos que casam, dos que têm filhos e se mudam para a vivenda T3. Uns, mais equilibrados que outros, transformam isso num passo na sua vida, e não a sua vida. Outros não conseguem mais parar de falar em fraldas.

O outro mundo são todos os outros, que continuam a calçar os mesmos ténis de pano para ir aos festivais de verão. A fazer a festa de sábado à noite, talvez de forma mais requintada, mais adulta, mas os mesmo. Viajando no passado iria reconhece-nos a todos há 10 anos atrás.

Tudo isso não é bom, nem é mau. São vidas.

***

Na minha vida, questiono-me sempre sobre as possibilidades que não estou a aproveitar. Sobre todos os cenários que estou a perder, sobre os sítios onde havia de ter ido, sobre as escolhas, as pequenas e as grandes que fazemos a cada dia.

As escolhas que fazem com que tropecemos em alguém na esquina de uma rua, ou que a percamos para sempre na curva da vida.

O tempo sempre a atormentar-me. O tempo que passa numa única linha contínua sem possibilidade de retornar.

E depois, à aleatoriedade de tudo isto, resolvemos juntar a irracionalidade de sentimentos básicos. Parece funcionar tão bem para uns, o que falha com os outros?

Cada vez mais convencida…. a vida é mesmo um absurdo….

segunda-feira, junho 09, 2014

"Live fast, worry no more"



Percebi então a dinâmica dessa nova vida. Não ter tempo. 

Não ter tempo de sentar e pensar.

De se olhar no espelho e ver para lá da imagem reflectida.

Não ter tempo de aquecer o lugar no sofá ou de espreguiçar-se pela manhã na cama.

Esse ritmo de entrar e sair deixando apenas o caos à passagem. Passando pela casa em que se habita como se fosse uma qualquer quarto de hotel. Noite a dentro, manhã cedo fora.

Vivendo depressa, saindo. Sempre de saída, sempre com pressa.

Tropeçando no cesto da roupa por passar e olhando com o desdém de quem ainda tem de ir ligar o ferro para depois se afligir tropeçando no cesto da roupa suja a transbordar.

Vivendo depressa, sem tempo de olhar. Abrindo frigoríficos vazios, vendo caixas de fruta mirrada e cada vez menos vontade de pensar.

Dia adentro todo fora.

Sem tempo para pensar, nem resolver problemas pequenos quanto mais para ter problemas filosóficos, amoroso, familiares ou o raio do carro que se avariou na estrada ou a perna que doí acima do joelho ou quem sabe as contas que se acumulam na carteira para pagar.

Viver depressa, num qualquer caos de coisas por fazer, de horas mortas em quilómetros de estrada e um mundo de funções inúteis, que se repetem e que cada vez têm menos sentido.

Mas que interessa o sentido?

Vivendo depressa sem tempo para pensar, o absurdo instala-se.


Não há mais duvida existencial, só uma existência, rápida e sem tempo para se questionar…

segunda-feira, maio 12, 2014

"Tem que doer, pois se não doer como sabemos que estamos vivos (Apeles)"

"I assess the power of a will by how much resistance, pain, torture it endures and knows how to turn to its advantage. " Friedrich Nietzsche




Doí sempre. Doí porque estás bem e queres fazer o teu melhor e doí porque não estás preparada e queres chegar ao fim, nem que seja de rastos.

Doí-te quando sentes que não tens mais espaço no peito para respirar ou quando o teu coração se transforma numa bomba em sobreaquecimento pronta a rebentar.

Doí enquanto sentes as pernas, doí-te quando ficam tão dormentes que já não dás passos e apenas tens espasmos que numa impossibilidade técnica te continuam a impulsionar para a frente.

Correr uma meia maratona dói. [ponto]

Não tem uma explicação. Quem não corre não pode entender, porque não tem explicação.

Como explicar a alguém que podes simplesmente ultrapassar o limiar da dor porque não queres desistir?

E que cada passo que dás em direção à meta é uma pequena vitória interior.

Como explicar que as conversas que tens contigo mesma, a análise, todo esse tempo é um espaço de auto-conhecimento e reflexão inesgotável, que acabas sempre melhor do que começaste…mesmo que pareças um farrapo?

Não sou grande atleta. Não tenho nem tempo, nem disponibilidade para o ser. E existe um lado hedonista do meu ser que, para além de correr, gosta de um outro tipo de boa vida. Ou de má, depende sempre de como a estamos a viver. Se não dormes  o suficiente, se não comes com tino, se vais bebendo coisas para além da água, se vives… corres, mas não corres a mesma conta.

Mas tudo isso não me fatiga o espirito, nem a prova em si, o aparato de domingo, não é o que me fascina. Faço-o porque é estimulante e porque corres com outros, alargas outros horizontes. Conheces cidades e serras. 

Conheces cidades que despem as avenidas de carros para te receber. Numa perspetiva completamente diferente dos espaços e do pulsar das artérias. Vais a sítios onde não irias, e essa descoberta exterior é também um desafio aos sentidos. Nas serras, os cheiros a mato, a erva molhada pela manhã nas provas de trail, ou ao bafo salgado das vertentes que estendem junto ao mar.

Seja onde for, é sempre uma overdose para os sentidos. É sempre uma sensação de se estar viva para além do torpor dos dias. E de superação.

Por isso sofres, porque nessa balança de equilíbrio delicado ganhas sempre mais do que o que perdes. Não desistes porque a frustração de não acabar é mais difícil de aguentar do que aquela dor estupida que se te meteu nos joelhos.

E mesmo que te falte tudo, na via sacra dos últimos quilómetros, te falte hidratação, te falte a alimentação, que te falte a energia, nunca te falta o coração.

Cada meta atingida é uma vitória íntima.


Não se explica, não sei explicar isso a ninguém.

terça-feira, maio 06, 2014

O culto (egocentrico) da imagem.



Desde que aderi ao instagram tirei 1066 fotografias. Muitas delas são versões de mim. Uma espécie de coleção: "Anita na praia, Anita no campo. A Anita vai ao restaurante, a Anita aprende a correr."

Já me questionei sobre essa torrente de imagens produzidas com a facilidade de um clique, assim como já me questionaram sobre o porquê de o fazer, às vezes até de forma depreciativa.

No entanto, depois de pensar sobre essa depreciação não vejo o porquê.

Não tenho filhos, nem cão, nem gato, nem namorado. Que mais sobra para fotografar se não Eu e os sitios onde vou.
Se fotográfo para o (m)eu feed e se com ele alimento a minha timeline?

Se são os meus espaços, onde eu construo uma narrativa, ainda que em boa parte seja um simulacro da realidade, qual é o problema do culto da minha imagem. O facto de ser autoinduzido?

Entretanto, percebi também que criava na mente das pessoas um mapa virtual da minha vida. Alguns sentem que sabem de tudo o que eu faço. Dos sítios onde vou, do que como, do que penso.

Esta perceção fez-me refletir sobre o poder das imagens e das construções. Uma timeline do facebook é uma narrativa, como que um argumento que se vai escrevendo diariamente. Podemos, não ter a perceção de que o fazemos, mas criamos uma história.

A nossa história. Só contamos aquilo que queremos, como faríamos se conversássemos com alguém na mesa de café.

Vou a muitos sítios que não estão no facebook. Penso muito para além do que desabafo no facebook, o facebook é a fotonovela das coisas boas, temperada com um ou outro desaire e uma série de mensagens subliminares partilhadas apenas com aqueles que conhecem os nossos códigos.

Ainda assim, uma construção. Que quando bem orientado pode levar as pessoas a pensar exactamente aquilo que pretendemos que pensem de nós.

E como as massas são fáceis de manipular, à escala da esfera privada, as redes sociais são a ultima ferramenta de formatação de mentes.


"A Anita vai ao cinema, a Anita aprende a cozinhar, a Anita faz-vos pensar naquilo que ela quiser… A Anita leu um artigo de jornal, A Anita vai a um concerto…."

Um dia destes conversava com alguém sobre o facto de que o facebook e a partilha de fotos ou simples pensamentos me ajudam a reduzir a sensação de solidão. Quando vives só o silêncio entre paredes pode ser avassalador. Por maior que seja a tua paz interior, o confronto com outros, a troca de palavras, um simples "like" ocupa espaço no teu tempo, faz-nos sentir acompanhados como se vivos no pensamento de alguém por breves segundos.

É a nossa humanidade a sobrepor-se a um estado racional. A nossa necessidade de criar memória e de partilha-la. É isso, esse culto de imagem que nos embala.

segunda-feira, abril 28, 2014

"Joie de vivre"


"Há um ponto na consciência onde acaba a nossa persona social e começa o nosso eu. Um ponto onde se acaba a culpa, onde se acalma a ansiedade e se apagam preconceitos.

Ultrapassado esse ponto invade-nos uma sensação morna de felicidade. Cresce no centro do corpo e se eleva fazendo ruborescer as faces.

Podemos chegar lá de muitas formas. Mas uma vez que lá chegamos devemos saber que é um sítio vicioso. 

Que é humano querer sempre mais do que é bom.
Mas como é insustentável essa leveza de ser…não podemos permanecer lá muito tempo sob pena de se ficar irremediavelmente perdido...

Mas sair e encarar a realidade dá-nos esta sensação de ressaca emocional....

Pagamos sempre, de qualquer forma os excessos da vida."

***

Há dias difíceis a segunda-feira costuma ser um deles. A sensação de descanso do fim-de-semana transforma-se num cansaço pesado quando temos dias realmente vividos. Durante os dias que somos livres não paramos e depois chegamos aqui. Se há algo que detesto na vida moderna, nos dias de semana, no trabalho...é esta sensação de que alguém é dono do meu tempo.

***

A sensação de ressaca emocional é algo que se agrava ao longo da vida. Porque vamos degustando novas sensações, mais e mais e aprendemos que a vida pode ser surpreendente, emocionante e cheia de aventura. Queremos isso todos os dias. Estímulos.
Gostos, cheiros, emoções.

E quando um dia é apenas um dia, só mais um dia. Uma espécie de papel branco que não se vai preencher nem encher de história cresce-nos este amargo de boca, um tédio existencial, o sentimento de desperdício, de tempo, de vida. "Hoje não estou a ser tudo aquilo que posso ser. Não estou a aprender, não estou a ser feliz ou a sofrer. Não estou."
Essa linha plana a seguir a altos e baixos cria esta sensação física de ressaca, banhada de ansiedade, vazio.

A ressaca emocional agrava-se há segunda-feira. Mesmo ontem éramos livres...hoje estamos  de volta ao mundo real.

***

A ressaca emocional dá-se porque se provou esse "joie de vivre". Porque se nos encheu o palato e sabores, porque o sol bateu-nos morno na face. Porque dançamos de olhos fechados em noites de deslumbre.
Porque abraçamos pessoas e sentimos corações a baterem ao mesmo ritmo que o nosso.
Porque vimos a beleza dos dias que acabam em noites suadas, ridas em conjunto e vividas muito para além dos limites.

A ressaca emocional é a paga por se estar embriagada pelos dias, a afogar-se constantemente nesta vontade imensa de viver...

A mãe natureza é perfeita...tal como se o álcool não desse ressaca andaríamos perpétuamente bêbados....Se não houvesse essa persona social... o nosso eu pensaria apenas em "viver com prazer".


quarta-feira, abril 09, 2014

“I would rather live my life as if there is a god and die to find out there isn't, than live my life as if there isn't and die to find out there is.” ― Albert Camus




Poderia perder a fé, mas como se perde algo que não se tem? Ou que se tem de uma forma tão abstrata e absurda que nunca se conseguiu tocar?

Meu pai disse-me um dia que quando morrêssemos íamos para a terra, que seria um nada, que para lá da vida havia apenas a morte. Crê a sério na nossa finitude. Disse-me que as pessoas acreditam em algo porque lhes dá conforto, criamos um sentimento de possibilidade, acrescenta-nos sentido.

***

No outro dia  a minha tia confidenciou-me ao ouvido, enquanto caminhávamos atrás do carro, a passos lentos, de cabeça baixa, sussurrando trivialidades para esquecer a caminhada.

      Tia: “Sabes, a tia em maio vai fazer um retiro. Em Beja.”
      Eu: “Um retiro tia, desses de ficar em Silêncio?”
      Tia: “Sim, são três dias. Estás lá, rezas. É tão bom, faz tão bem à tia.”

Ficamos no silêncio, dando passos. De braço dado. Brilharam-lhe os olhos de satisfação no meio daquela tristeza.
Em contraponto à descrença, o braço que segurava no meu dava passos de fé. Os meus eram só passos.
Em que se acredita, quando não se acredita em nada?

***

Nunca soube lidar com a perda de alguém. Isso reflecte-se num comportamento que roça a apatia. Lágrimas que não caem, palavras desajeitadas que nunca são ditas na altura certa. Abraços estranhos que se recebe com reticências e um mundo de coisas que são um tédio existencial. Tudo isso transformando o meu coração numa enorme pedra. Fria e impossível de compreender.
Às vezes acho que sou uma miúda muito, muito esquisita…

***

Continuo no embaraço de não saber os gestos e de repetir como que com um engasgo as ladainhas. Não entendo a aquela comunhão, nem a reverência. Respeito, mas não faço parte.

***

Kierkegaard alegou que o indivíduo é o único responsável em dar significado à sua vida e em vivê-la de maneira sincera e apaixonada, apesar de admitir que existem muitos obstáculos e distracções. 
O desespero, a ansiedade, o absurdo, a alienação e o tédio atravessam amiúde o nosso caminho.
Da escola existencialista continua a assombrar-me Camus e o absurdo da vida.
Imaginar Sísifo feliz é uma imagem que me persegue, e que ao mesmo tempo me abre portas para a aceitação das provações, porque se Sísifo puder encontrar sentido na sua tarefa inglória, incessante e sem sentido, também eu poderei dar sentido aos dias.

Se aceitarmos a falta de sentido, o absurdo da nossa existência, não há porque tentar explicar a morte, ela simplesmente existe. As nossas perdas são só fruto de um acaso, de situações, do simples facto de estarmos vivos.

Até certo ponto acho isso mais reconfortante que acreditar no juízo final, no céu e na terra. Não creio que exista explicação para o sofrimento que existe e se espalha bem mais rápido que as bênçãos no mundo.
Com diria o velho Woody, se ”Deus existe, espero que tenha uma boa desculpa.”.

Espero sinceramente que exista…apesar de tudo, pior que acreditar na coisa errada… é não acreditar em nada.


***

Demos passos largos e lentos. Olhando os pés, num cortejo pejado dos olhares de quem pára à beira dos passeios. Nem véus pretos, nem choros altos. Só silêncio, céu negro e um ar abafado.
O cheiro adocicado de flores que murcham depressa demais, morrem antes do tempo...como se mais alguma coisa precisasse de morrer com a parte de nós que parte.
Os passos, lentos. O cheiro do fumo de escape dum carro já passado que entorpece quem respira. As pedras gastas da calçada.
A terra remexida. O cheiro a sebes, a flores murchas, a lexivia que alguém esfregou no mármore.
A imponência...o branco...o limite entre o céu e a terra marcado no horizonte pelo muro alto, o muro que cria silêncio.

As pessoas entraram e saíram, deram sentimentos. Trataram-me como se me conhecessem... talvez tenham andado comigo ao colo... eu só me questiono sobre quem são, porque prestam respeito. Eu não era daquela terra.

Segundo Garcia Marquez...agora já sou...





domingo, março 30, 2014

A estrada perdida...

Saiu para o ar da noite meio entorpecida agora que a adrenalina da festa se estava a esgotar. Atrás si fechava-se o mundo numa noite serrada Iluminada por estrelas baças.
As luzes iam-se esgotando e com elas o burburinho de pessoas que abandonavam o local, umas cambaleantes, outras efusivamente alcoolizadas, outras ainda silenciadas pelas exaustão.
O frio da noite era-lhe mais familiar do que o frio do dia, tremeu-lhe o corpo por debaixo da fina camisa de seda, mas sentiu-se libertar em pequenos espasmos, como se o frio lhe trouxesse de volta a consciência. Havia ainda aquele cheiro de pinhal, de pinho molhado, de terra fresca coberta pelo orvalho de uma manhã que não tardaria a chegar. Rebeca caminhava descalça carregando uns sapatos torturadores nas mãos, tateada o chão frio com cautela e os seus pés estavam já dormentes quanto alcançou o carro.
Lutou com a pequena mala para encontrar a chave, o frio continuava a entrar-lhe pelo corpo e havia pisado algo que lhe magoou o pé direito, enquanto procurava manter o equilíbrio entre o cansaço e o torpor alcoolizado.
Sentia-se como alguém que vinha da festa, um travo amargo na boca, a vista pesada e a cabeça cheia de emoções que ainda não tinha tido tempo de absorver, de espremer e retirar o sumo. Tantas caras, tantas conversas cruzadas, o êxtase da dança, a música a correr nas veias e um coração a bater ritmado.
A mistura de sabores, de comida, de bebida, de perfumes e tabacos. As cores e os brilhos. As festas daquele lado afastado da região eram sempre memoráveis. Pecavam pela viagem longa, pela estrada deserta que atravessa o pinhal, denso e obscuro. Um espaço quase encantado e ao mesmo tempo tenebroso pela escuridão.
Mas Rebeca colocou as mãos firmes no volante. Ligou o Radio, I´m derenged do Bowie começou a tocar, pareceu-lhe providencial, até casa seria uma espécie de estrada perdida, minutos longos de encantamento Lynchiano.

***

Rebeca sabia que conduzir não trazia ao de cima o melhor dela. O seu temperamento pacifico alterava-se quando punha as mãos num volante. Impacientava facilmente com outros condutores e era dada a pequenas provocações na estrada. Era ainda agressiva na forma como manejava o carro, gostava de velocidade, gostava de sentir a maquina a vergar-se pela perícia das suas mãos.
Gostava de fazer curvas perigosamente e de jogar a sorte usando pés pesados no acelerador.
A noite continuava fresca, Rebeca levava uma pequena fresta do vidro aberta para respirar, pisava o acelerador com convicção, “derenged” ecoava a um ritmo frenético a a estrada afunilava entre riscas brancas perante a sua percepção meio toldada.
Mas o ritmo do som cadenciava um coração aflito que lhe bombeava o sangue nas veias, o sangue de um corpo cansado e sujo, intoxicado, fazia crescer em si um frenesim interior.

“I'm deranged
Deranged my love
I'm deranged down down down
So cruise me babe cruise me baby…”

Ecoava, pensava se não estava mesmo demente. Rebeca achava que se alguém ficasse demente na estrada seria esta a musica que o e enquadrava.
E o que era demente naquele fim de noite escuro e fresco? A contínua vontade de acelerar e começar a fazer curvas apertadas de sentir o carro a derrapar na gravilha para lá do alcatrão quando media mal o caminho e saída da estrada.

“And the rain sets in
It's the angel-man
I'm deranged”

Ou seria demente puxar o travão de mão, ali só porque sim, Rebeca pensava nisso enquanto acaraciava o manipulo do travão, como se fosse uma arma letal. Letal e atraente, quase irristivel. Por vezes sentia essa curiosidade animal, “E se eu puxasse o travão de mão, que aconteceria?” O carro rodaria sob si na estrada, ela perderia o controle da maquina que derraparia até embater numa dessas arvores gigantescas, ou capotaria por uma dessas bermas ladeadas de barrancos, o seu corpo quebraria das mais variadas formas entre metal retorcido e frio ou ardente do fogo, rasgando-lhe a carne. E o sangue continuaria a ser bombeado, ainda quente ao ritmo de Bowie, mas para fora de si como que drenando-a de vida. Séria isso, seria assim? Rebeca continuava com a mão pousada no travão, afagando-o como se fosse a alavanca a puxar em caso de emergência. A estrada continuava a estreitar-se entre as linhas brancas, curvando-se perante um percursos acidentado pelo capricho do pinhal.
Carregava como mais convicção no acelerador, pisava o travão ao entrar na curva, doí-lhe o pé magoado e descalço, mas era indiferente a adrenalina crescia-lhe encadeada pelas luzes que se aproximavam vindas de frente, na imensidão do pinhal do silêncio daquela noite fresca e depois de quilómetros de demente solidão tinha companhia na estrada.

“The clutch of life and the fist of love
Over your head
Big deal Salaam
Be real deranged Salaam
Before we reel
I'm deranged”

"Derenged" continuava a ecoar, Rebeca distribuía a mão direita inclemente entre as mudanças que metia com convicção e o travão. E acelerava, abriu um pouco mais a janela e sentiu o ar a uivar no topo das árvores, da frente não baixaram os máximos, a estrada entre as duas linhas deixou de afunilar no meio da velocidade para se transformar num grande clarão.
Rebeca deixou de saber de si, e soltando a caixa de mudanças, puxou o pé ferido para o travão pé que lhe escorregou no sangue quente que não reparou lhe corrida da ferida.


I'm deranged… fechava em acordes frenéticos, depois um embate ensurdecedor, depois o silêncio cortado por um coração que batia…bombeando sangue quente para fora do corpo, drenando-lhe a consciência... Rebeca lembra ainda do travão de mão...dessa curiosidade insatisfeita antes de se ausentar de si.

quarta-feira, março 26, 2014

Será que quero mesmo voltar a estudar Jornalismo?



Quanto mais leio sobre jornalismo e jornalistas...mais me convenço que devia ter tirado um curso de agricultura, é que as couves podem ter coração, mas não chegam a ter umbigo...

Não há no mundo profissional classe operária mais incapaz de se distanciar de si mesmo, de se relativizar.
Os jornalistas deste mundo passam mais tempo a debater-se do que a debater os problemas que se passam lá fora. 

Depois correm rios de tinta (espera…acabou a tinta, agora são só zeros e uns!) por causa do comentário de domingo e da conduta do Rodrigo dos Santos ou por causa da reportagem sobre o Tipo do Kit e das Marés Vivas que vêm a Portugal. A esta última chama-se “infotainment”, goste-se ou não, que há para debater sobre isso?

No entanto é irresistível empolar discussões, dá-nos um sentimento de importância.

Porque num mundo onde o papel do jornalista se vem desvanecendo, gastas que estão as páginas de jornal que já nem para enrolar peixe servem, nesse mundo de jornalistas sentados, de pessoas pouco curiosas, de histórias copiadas e embaladas como numa linha de montagem. O jornalista não é mais um Ser importante. É um tipo sentado na linha de produção, que pica o ponto para entrar, que tem de mostrar produtividade. É um tipo como os outros, e não precisamos de muitos anos na escola para fazer copy/past e interpretar o corretor de erros do word.

Quando iniciei o Doutoramento no ano passado, ia cheia de perguntas e queria muito encontrar respostas. Depois percebi que num programa de doutoramento em Ciências Sociais é suposto encontrar mais perguntas e coloca-las a um nível filosófico que transcende a interpretação do dia a dia e se situa no éter das questões eternamente por responder.

A pouco mais de um mês de decidir se quero fazer o reingresso no Doutoramento, de decidir se devo pedir aos senhores para me aceitarem de volta, debato-me com esta questão. Quero mesmo voltar a estudar jornalismo?

Quero mesmo pegar no trabalho académico de toda a minha vida adulta e voltar?
Continuo entusiasmada com os modelos de negócio para os News Media e continuo a achar fascinante a entrada nesse admirável mundo novo? 

Tenho o que é necessário, gosto mesmo disto?

Ou é uma paixão platónica…daquelas que nutrimos ao longe….destinada a nunca ser consumada?



sexta-feira, março 21, 2014

“Frankly My dear... I don´t Give a Damn”


Lembro-me de que quando era pequena achava que a vida das pessoas não existia para além de mim. Um dia, numa das muitas vezes que o meu pai me foi buscar a casa da mãe, numa dessas viagens que começavam comigo a soluçar colada ao vidro do carro, vi-as a desaparecer no afunilar de uma rua. As suas vidas ficavam então inanimadas, inexistentes. Todos os seres funcionavam como figurantes do palco que era a minha existência. 

A fase egocêntrica. Eu no centro do mundo, o mundo dos outros a confluir no meu. Isso aconteceu quando eu tinha seis anos. 

 *** 

Enquanto crescemos apercebemo-nos da nossa insignificância no girar do mundo. Se eu desaparecesse todos os outros seres continuariam a respirar. A viver, não seriam inertes nem incapazes, a minha existência é tão só uma figuração na vida dos outros. 

O meu mundo, uma irrelevância. A inversão do princípio da nosso existência é um processo lento e doloroso. Escusamos-mos a aceitar que não somos especiais, nem únicos, nem sequer necessários. Somos peças. Somos até, salvo raras excepções, peças desnecessárias. 

Como formigas num formigueiro. Soldados, mantendo a engrenagem viva, ocupando espaço. Sendo um escudo. 

***

Quando eu digo que não gosto muito de pessoas, sei que às vezes sou mal interpretada. Adoro pessoas, as minhas pessoas. 

Depois há um mundo de pessoas que são um mar de angústia, de frustração de incógnitas e preocupações. As pessoas, na generalidade, as pessoas desconhecidas são más notícias. São difíceis de ler impossíveis de antecipar. 

As pessoas têm razões que a própria razão desconhece. As pessoas são difíceis. Às vezes gostava de ter de novo seis anos, gostava que a vida das outras pessoas se eclipsa-se no virar da esquina. Gostava de não ter de pensar no que elas vão a pensar para casa. O egocentrismo da infância, era então uma santa ignorância. 

*** 

E um dia estamos tão cansados desse jogo de leituras, de rostos e expressões. De expectativas. Das nossas por cumprir, das dos outros incumpridas. 

De nós esperando, dos outros à espera. Cansados de achar coisas, de esperar, as expectativas matam-me. 

Que só nos apetece dizer “Frankly my dear, I don´t give a damn”. 

E ansiar ser capaz de deixar de me importar de vez…

quarta-feira, março 19, 2014

A beleza...

A beleza de uma tarde de sol e vento fraco, apenas uma brisa.

Do silêncio dos sítios que vivem e respiram. Com gente dentro, e um mundo inteiro lá fora.
A beleza dos sons, dos que sobressaem do silêncio em harmonias perfeitas. Capazes de nos emocionar, de nos enraivecer ou de nos fazer sonhar.
A beleza dos sabores crescendo-nos na boca. Desdobrando-se em notas e memórias.
A beleza de palavras conjugadas da forma certa, expressando na plenitude o nosso ser.

A beleza das coisas mais simples que podemos ser…
Estou fascinada pela beleza das pequenas coisas...

segunda-feira, março 17, 2014

"There is no love of life without despair of life." Camus, A,


Há dias em que parece que o mundo nos dragou a alma, chegamos a casa vazios. Questionando, uma e outra razão. Desejando coisas que não podemos ter, desejando respostas, certezas, indicações e uma via aberta para a vida. Há dias em que nos deparamos connosco. E apesar de termos a certeza que estamos a fazer o melhor que podemos, temos a certeza que não sabemos o que estamos aqui a fazer.


***

Sai para a rua e respirei. Ar frio e vivo a encher-me os pulmões, quase a queimar de vida.  Essa necessidade eléctrica de me mexer, essa energia pouco positiva a transbordar, a querer sair e abandonar-me.
Esse momento de conexão, em que as imagens e os dias se rebobinam na nossa mente ao ritmo da passada, cadenciando com o baque das pedras da calçada. Um e outro assunto a ser arrumado no seu respectivo lugar. Problemas a surgirem e a fugirem de nós. Correr e pensar.
Pensar enquanto o frio da noite substitui o frio do dia. Enquanto os cheiros da escuridão se instalam e se sobrepõe aos cheiros do movimento.
E sinto-o, um coração que bate e se esforça e se supera. Sinto que tenho sangue nas veias e que o posso fazer circular.
Sai para a rua e respirei, respirei fundo.  
É como sentar e pensar. Sentamos e pensamos cada vez menos.
Vivemos nesse ritmo de coisas a sucederem-se sem parar. A entrar e a sair de casas, de sítios, de peças de roupa.
A nossa vida invadida pela vida de outros. Todas as versões de nós a existirem ao mesmo tempo, a trabalharem, a viverem. Todas, ao mesmo tempo. Nem uma a parar para pensar. 


                                                                                 ***

"Porque estás aqui comigo?" - perguntou-lhe olhando-o nos olhos, num tom desafiador
"Olha para ti, podes estar com quem quiseres, podes escolher. És bonito, és charmoso. És relativamente jovem e desimpedido. Porquê comigo?
Eu que sou um significante nada. Que não sou bonita nem feia. Nem alta nem baixa. Que falo baixo e me fica tanto por dizer.
Logo eu, a desenquadrada, eternamente deslocada onde quer que esteja. Eu? Que nem sou assim fã de pessoas e só agora estou a aprender a viver. Questiono-me e espanto-me. Queria saber."

***

Inquieta-me as pessoas. O vazio que lhes vejo, o mar de inquietações. Imagino o seu interior debatendo-se com o dia a dia, incessantemente sem parar, sem momentos de silêncio, sem se sentarem para pensar.
Inquieta-me o escuro, essa vontade que me surge de as salvar, de as retirar da inercia da vida, desse quotidiano que achamos que temos de viver. Inquieta-me que me inquiete.
Porque revejo os pequenos nadas nas duvidas da sua existência. Da minha própria existência e insatisfação.
Como Sissifo, carregando a pedra pesada que é a nossa mente, ela sempre rolando, recuando, dizendo-nos que não.

***
Que andam as pessoas a fazer? Porque escolhemos o que escolhemos, porque o fazemos?
Continuamos no absurdo da vida?
E essa ausência de explicação... a incerteza. É incessante. As duvidas, o desconforto. Deviam ser boas, deviam ser motivantes. As dúvidas lançaram homens ao mar e descobriram novos mundos.
Estaremos acomodados no dia que descobrirmos todas as certezas.
As dúvidas são inquietação.
A inquietação é criadora.
Criamos inquietos.
Vivemos. Inquietos e cheios de dúvidas.
Estamos vivos.
(Mesmo sem saber o que estamos aqui a fazer.)





segunda-feira, março 10, 2014

A Síndrome da solidão.

Eu vivo sozinha. Esta é a minha casa. Ninguém me chateia eu não chateio ninguém. A minha família vive noutras cidades, ao longo dos anos os amigos mais chegadas foram indo embora, cada um para a sua vida, dispersando pelo mundo.

Embora eu conheça muita gente e tenha muitos e bons amigos, estou, na prática, sozinha. Aqui, em Portalegre ou em qualquer outro lado do mundo.

Isso não é um problema na maior parte do tempo. Sempre fui muito autónoma, há poucas coisas na vida que eu faço com os outros que não posso fazer sozinha, não morro de solidão, nem me aborreço, considero que tenho recursos e uma vida interior capaz de me entreter por muitos e bons dias.

Treino sozinha com a mesma vontade com que vou ao estádio treinar com a equipa, cozinho para mim como se tivesse de alimentar a família, saio e passeio, não fico em casa só porque não tenho com quem ir.
Não sou uma solitária, tenho amigos, convido-os a vir a minha casa, combino cafés, saímos para beber um copo, vamos a consertos. Eu vivo com outros, eles só não vivem na minha casa.
Eu vivo sozinha. [Ponto] Isso não é um problema para mim, parece às vezes ser para os outros.

Esta conversa porque no outro dia parti a cabeça, fiquei atordoada e não havia lá em casa  ninguém para ver se era grave, para me amparar na queda. Eu tenho dois telemóveis e três dispositivos ligados em permanência à internet, nunca estás virtualmente só, mas depois precisas de ir perguntar à farmácia do lado se se vê o cérebro ou se podes ir treinar.  Tudo bem, é o preço a pagar, como tudo na vida há prós e contras. Eu sei os contras, há que os contornar.

Mas isto deve ser socialmente estranho, digo. Se não, pelos vistos é algo que merece uma certa compaixão, porque “coitadinha, não tem ninguém que a venha cá buscar? Uma menina tão bonita…aiii diga lá, não têm um amigo?”

Quando me dizem que não devo ir sozinha a conduzir até ao hospital eu acho que devo chamar um táxi. Mas a Enfermeira continuou a insistir, que eu devia arrancar algum amigo do trabalho, chamar um ente querido do outro ponto do país ou quiçá mandar vir a minha mana do Canadá para me ver levar 3 pontos.
Eu tenho a certeza no meu coração que se precisa-se que alguém lá fosse bastava um telefonema, podia começar no topo da lista, mas é realmente necessário chamar alguém para fazer algo que eu posso fazer sozinha?

Porque é que alguém tem de perder meio-dia de trabalho quando com 3€ eu simplesmente pago um táxi?

Hoje confrontaram-me novamente com essa “doença” de que padeço. “ A sério, não tem ninguém que lhe possa ir lá receber o técnico?”  E de novo esse olhar de compaixão. “Coitada, não tem cá ninguém…pobre rapariga.”

Porque é que tomar decisões, fazer coisas e estar-se sozinha, sendo-se menina ou uma jovem mulher adquire em certos momentos essa aura de desgraça? Tenho de ser dependente de algo ou de alguém, preciso de alguma certificação social?

É assim tão estranho no mundo de hoje, um mundo em que estamos em constante rotação, entrando e saindo, mudando…

Parece então doença, uma síndrome. Uma daquelas coisas que não se sabe de onde vem e que nos afeta a nível funcional. Que não afetaria se todos fizessem o trabalho como esperado, às horas planeadas.

Se não houvessem expressões de desapontamento, nem olhares de pena.

Não, não sofro de autocomiseração. Estou aqui sozinha. Isso é diferente de estar aqui solitária!


quinta-feira, março 06, 2014

Cadernos da Cidade Nova I


Mudei-me para aqui,  bem podia ter sido para Marte, que eu à Lua ainda conheço as fases. Deste sítio nada. Só o lugar que ocupa no mapa e o semblante visto ao longe, no cimo da colina. 

Este sitio é como aquela pessoa com quem toda a vida nos cruzamos na rua e nunca soubemos quem é. Dissemos-lhe bom dia, boa tarde, um sorriso num dia de verão, mais nada.

Hoje subi a encosta a correr, entrei na artéria principal e continuei pelo planalto, pelas ruas estreitas, pelas vielas, pelo reino do gótico. Não conheces as ruas antes de lhes ter pisado a calçada, antes de sentires a mistura do ar, do cheiro do jantar que se desprende das casas ou do pão que torra no café. Esse cheiro da vivência que envolve o das árvores, os escapes e a neblina que sobe do rio em fim de tarde.

Não conheces os sítios antes de os sentires a pulsar, a vibrar debaixo dos pés antes de distinguires os sons, e veres as esquinas, os sítios onde não foste mas podes ir.

Correr. Aqui, ou no outro lado do Atlântico continua a ser a maneira mais fiel de conhecer uma cidade.

***

Estou a ressacar de pessoas. Ainda que a rua esteja cheia de Humanidade, eu preciso de pessoas, das minhas. De pessoas de quem eu não posso duvidar, de expressões conhecidas, de gargalhadas altas e sinceras, de ter espaço e de ser eu. Eu entre os meus pares, entre tantos anos de afinidades, de cumplicidade. Estou a ressacar das minhas pessoas.

Aqui em Marte são todos desconhecidos. Hoje vi esplanadas, achei-as interessantes, talvez me vá lá sentar. Ai pensei nessa coisa complexa que é conhecer pessoas, da espontaneidade. Antigamente isso era fácil, na escola ou  nas noites de copos, o amigo que apresenta o outro amigo, um mundo de tempo e possibilidades.

E agora, como se conhecem pessoas? Como se descobre afinidades? Agora que a paciência é pouca, o tempo ainda menos e a nossa exigência maior. Crescemos e não temos mais tempo para o erro, não temos mais espaço para a desilusão, para escrutinar rostos ou desvendar personalidades. Pisar terrenos movediços, pessoas. As pessoas são difíceis. E como descobrir pessoas no meio de tanta Humanidade?

*** 

Depois conhecemos pessoas que têm muros altos, são autênticas fortalezas. Um império solene, vivem na mais perfeita solidão.

Que não nos permitem entrar, mas que nos convidam a espreitar cá de fora. Que embora nos mostrem a riqueza do seu ser, nos emprestem por momentos a chave e nos deixem permanecer por instantes, no fim do dia sempre vão encerrar as suas portas.

São normalmente encantadores. Falam muito, comunicam pouco. Prendem-nos por momentos nessa áurea misteriosa. E nós por instantes achamos que vamos conseguir entrar, estamos já apaixonados por esse admirável mundo interior…presos. Porque são intensas, e saborosas tornam-nos insaciáveis...

Mas são fortalezas. Estão perpétuamente encerradas.
Só nos resta a certeza que nunca se darão a nós, devemos parar antes que se tornem corrosivas.

Em tempos achei que queria ser assim, auto-suficiente e  inalcançável.

Não sei mais se quero. Conhecer alguém e permitir que nos conheçam é um processo maravilhoso de criação de laços.

Orgulhosamente sós…é com viver “La grade Belleza”, freneticamente no agora. 
Uma vida sem estória no meio de tantas histórias.



quarta-feira, março 05, 2014

Ensaios sobre a memória II


“Ainda há pouco a minha mente vagueou até ti. A rever uma e outra vez. Incessantemente. O principio, o meio e o fim da história. Escrutinando, procurando esse momento tão específico, essa razão crucial, o princípio do fim das coisas. A resposta para todas as perguntas, uma justificação para aquilo que o absurdo não satisfaz. Às vezes vagueio assim.

Gosto de pensar que há histórias maiores que a vida, ou que valem uma vida por si. Como se tudo o resto só tivesse início nessa fundação, alicerces fundos, às vezes dolorosos mas capazes, feitos para durar e suportar tudo o resto.

Porque se sobrevivemos a essa derrocada, ficaremos para sempre de pé, muito para lá do fim dos tempos, dos limites do nosso ser. Ficaremos.

Às vezes sinto uma vontade enorme de conversar, de te contar coisas, de rir. Só de rir. Porque riamos tanto. Á vezes é uma vontade tão grande que apetece gritar, é mais que física, é existencial.

E depois as saudades de todas as primeiras coisas que não fizemos, de tudo o que vamos vivendo e não estamos, não somos, não.

Às vezes vagueio até ti e imagino que tínhamos sido mais humildes, menos nós mesmos, mais outras coisas. Às vezes gostava que estivesses aqui.

Gostava que nos conhecêssemos agora, que tropeçássemos um no outro na esquina de uma rua movimentada, que fossemos beber um café como dois estranhos e começássemos a acabar as frases um do outro sobre as coisas de que gostamos.

Gostava que o mundo pudesse recomeçar e pudéssemos ter de novo todas as coisas. Não como antes, mas agora. Sendo o que somos, tão diferentes e tão essencialmente iguais.

Às vezes vagueio até ti. Como se estivesses a meu lado, como se fosses parte. Uma parte de mim, que eu não consigo mais tocar.

Crescemos tão juntos, vejo-te em casa palavra que escrevo, e a tua presença é um sopro de brisa morna, algo que se sente mas completamente intangível.

Às vezes vagueio, Outras não preciso. É como se estivesses aqui.”


domingo, março 02, 2014

Ensaio sobre a memória I


"Fitava os pés há já algum tempo, incapaz de encarar o absurdo da sua situação. Estava sentada à beira de uma cama desconhecida, num quarto vazio, com alguém estranho. Sentia no ar um cheiro adocicado, a tabaco fumado, uma presença latente e podia ouvir todo um mundo a girar la fora, em sons familiares. 
Tentava em vão avaliar a sua situação, o lapso de tempo que lhe faltava. Que estava a fazer ali? Passou as mãos diligentemente pelo corpo escrutinando-se, nada lhe faltava, nem um rasgo na seda da pele, e no entanto no seu interior sentia-se profundamente dilacerada.

 ¤¤¤

Não entendia o fascínio do mundo por esse tipo de casualidades, tinha de se conformar. Agora que caminhava pelo frio da manhã, de cara mal lavada e cabelo desgrenhado, simplesmente não compreendia. Nesse lapso de tempo que lhe faltava alguém havia satisfeito o seu desejo, ela a sua curiosidade e pela manhã, fria de um inverno penoso, os corpos quentes e desconhecidos, que por instantes estiveram juntos cumprindo um ritual de instinto básico, voltaram a ser só corpos quentes e desconhecidos. Se se dedicasse ao silêncio tempo suficiente, podia simplesmente não ter acontecido. Nem isso, nem essa linha aleatória de tempo que junta vontades. O desejo e a curiosidade... 

¤¤¤ 

Passados tantos anos ainda poderia destingui-lo no meio de uma multidão. Apaixonara-se primeiro pelo seu cheiro, essa mistura única de pele, de alma, de perfume e sabonete de banho. Essa mistura pessoal de vivências, de fumo de tabaco e do ar da cidade. Uma essência mais forte por detrás das orelhas, mais intensa na parte de dentro do pulso, o cheiro da intimidade. 
E no entanto a imagem dele esbatia-se já na sua mente, como uma fotografia a sumir-se amarelecida pelo tempo. Tinha tido uma passagem tão breve na sua vida, tinha sido como um sonho numa noite de Verão. 
Num momento estava tão junto a si, tão próximo, tão real e num outro tinha-se desvanecido, sem deixar marcas ou testemunhos, sem arqueologia possível, sem documentação. Uma inexistência. 
Sobra-lhe o cheiro de lembrança, poderia reconhece-lo, na brisa pela manhã, no tabaco a vaguear pelas ruas em determinadas temperaturas, em dias temperados pela humidade das ervas, ou no pico seco do Verão. 

¤¤¤ 

Gostava de viajar assim, de comboio, sentada à janela. Sentia sempre que a sua mente se libertava com os solavancos ritmados das carruagens. Se soltava para lá dos montes e vales, de verde e azul a perder de vista e todos aqueles sitios, apeadeiros e estações perdidas, nostálgicas, eram um vácuo de tempo.
Os anos haviam sido justos consigo, apesar das mãos engelhadas, do cabelo a perder cor e de uma vista cansada, movia-se ainda com agilidade e a sua mente estava sã. Dava-se por isso ao luxo de viajar sem rumo, de visitas a termas, a retiros em locais silenciosos, onde pudesse estar só, longe do mundo que a solicitava a todo o momento, deixar-se estar e recordar. 

¤¤¤ 

Esporadicamente, lembra-se do seu cheiro. Tantos anos passados e ainda se voltava à passagem de um estranho que lhe parecia familiar. Às vezes um trejeito no sorriso, lembrava-se de pequenos pormenores, havia já esquecido o todo, e embora não lhe enchesse de angústia, tinha já compreendido que não o veria mais, que não poderia reviver aquela história, no entanto nos últimos anos, com o aproximar do anoitecer da vida, sentia-se mais próxima daquela memória. Como se ter vivido aquele turbilhão de sentimentos legitimasse a sua existência.  Era como se só por aquele breve momento no tempo ter acontecido, todos os outros anos, todas as outras horas se tornassem válidas. 

¤¤¤ 

Estranhamente na altura não tinha sentido aquele episódio assim, nunca achara que aquele momento a iria acompanhar pela vida, uma decisão impensada, um impulso nada seu. Como se por um momento se tivesse simplesmente permitido ser um ser leve, desprovido de consciência, de crenças e de toda a preocupação. Acedeu a um convite, e depois a outro, permitiu-se à situação. 
Lembra-se de um nervosismo juvenil que a invadia, de uma certa vergonha, de não saber o que fazer com as mãos. E depois num momento estavam ali, permitiu-se a ser simplesmente feliz. Lembra-se dessa sensação de pura felicidade, da luz desse dia. 
Lembra-se da confusão dentro de si depois, como uma ressaca que a atormentou por dias, e depois o silêncio interior, o esbatimento das lembranças. A negação. 

¤¤¤

Estava absorta nesse mar, o comboio continuava ritmado até que parou num pequeno apeadeiro. Uma voz rufenha anunciou uma pausa na viagem. A carruagem meio vazia agitou-se com saidas e entradas, e ela podia ver da janela os azuleijos do lugar, as mães de preto a desperdir-se, outras a abrir o coração aos regressos. 
Então sem aviso o seu coração parou de bater...por segundos ficou suspenso para voltar a si num respirar fundo e aflito. E quando conseguiu soltar-se dessa sensação de que estava paralizada voltou-se, desaparecia na porta da carruagem um vulto, de fato preto. 
Atrás de si deixara um rasto de cheiro familiar.

domingo, fevereiro 23, 2014

“Her” : o EU e a necessidade de confirmação.


Queremos ser cada vez mais indivíduos livres, únicos, especiais. Queremos tomar decisões e ter as rédeas da nossa vida, gozar de um livre arbítrio que é nosso por direito divino. Queremos ser a melhor versão de nós mesmos, um hino à solidão, uma forma de ode ao egocentrismo, Eu no centro do mundo, do meu e dos outros.

Mas depois descobrimos que só somos especiais, únicos e livres em comunhão com os outros. Na afirmação e no reconhecimento perante quem nos ama, aqueles que amamos. Temos de imperiosamente ser únicos e especiais perante outros, precisamos de confirmação.

E esse é o imenso paradoxo da existência contemporânea. Porque o nosso Eu especial é pouco dado à partilha ou à cedência. Porque o nosso Eu não pode depender de ninguém para ser o melhor que pode ser, a nossa necessidade de aceitação é inversamente grande à nossa capacidade de aceitar.

Mas o EU sozinho definha. Não somos seres sós. Her, de Spike Jonze é um filme que fala disso, do difícil que é ser só e do muito que estamos dispostos a fazer para encontrar algo que nos ocupe o vazio.

Theodore apaixona-se por um sistema operativo, Samantha é um conjunto de zeros e uns, um ser que vive no éter, mas um ser pensante, um ser capaz de aceitar. Theodore falhou na vida, na realidade foi incapaz de ceder o suficiente, foi exigente demais, deu pouco.

Mas a necessidade de partilha e de confirmação é avassaladora, antes aceitar um ser virtual que ninguém. Antes ser amando por um ser intangível do que por ninguém. A nossa necessidade de paixão e amor é insaciável.

Uma vida solitária parece ser coberta por um manto de escuridão.

Pessoa disse que “ enquanto não superarmos a ansia de amor sem limites (…) continuaremos a buscar-nos em outras metades. Para se ser dois, antes é necessário ser um.” E depois disse-nos que se nos é impossível estar sós, aparte dos Homens, somos escravos.

Somos escravos subjugados pela solidão dos nossos dias, pelas paredes fechadas, pelos quartos vazios. Temos medo do silêncio, de nos ouvirmos. Somos escravos e ao mesmo tempo Senhores da nossa escravidão.

“Her” é uma alegoria para esse medo, essa necessidade selvagem. É tocante, é tocante rever-nos numa história destruída, num luto continuado, num mar de melancolia. E depois a luz, qualquer luz, a luz errada, outra luz a seguir.

Crescendo com outros até que não precisamos mais de encontrar outra metade, essas metades despedaçadas. E encontramos simplesmente alguém, inteiro.
Poderemos ai ser inteiros os dois.

***

Pensei para mim há algum tempo, que há pouca coisa na vida que eu faço com os outros que não possa fazer sozinha. Posso sair e passear, posso jantar sozinha, sentar-me numa esplanada, correr, ir à praia, viver sozinha.

Dito assim parece que sou pouco de estar com pessoas, mas não. As minhas pessoas estão por todo o lado, e eu sozinha em qualquer sítio, era uma escravidão.

Quero ser um todo. Ouvir-me, ver-me, perdoar-me, congratular-me, gostar ou não. Ser um todo uno, menos escravo, sem medo da solidão. Aturar-me, vencer o tédio da existência,  poder estar acompanhada de mim. Não porque sou um ser hermita,  mas porque de todas as pessoas que conheço,  é comigo que passo mais tempo...

Aprender a estar só tem sido um desafio dos últimos anos. Uma aprendizagem difícil.
Estar só é muito mais do que o silêncio dos dias ou a falta de companhia.
É fazer escolhas e ser responsável por elas. É superar essa sensação de perda quando as fazemos.

Perdoarmo-nos quando erramos.

É agarrar num livro e sentar na esplanada e beber o que apetecer, e ficar lá sozinha, sem vergonha desse estado, sem negação.

Aceitar o som do silêncio.
Gostar dele.



quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Na “terra” das primeiras coisas…


É um estado líquido, intemporal esse em que vivemos enquanto estamos suspensos entre uma vida velha e o dia a seguir. Que queremos que seja novo, diferente, melhor.

Provoca dores. Essas devem ser mesmo de crescimento, de desprendimento. O mundo era conhecido, e de repente está cheio de primeiras coisas.

De cheiros que não são familiares e de um mar de sensações, medos e esperanças que todas juntas podem ser avassaladoras.

Encontrar uma casa e olhar para quatro paredes vazias e sentir que podemos viver ali não é fácil. Não é barato, não é simples. A realidade mais uma vez  é mais simples imaginada do que vivida. Imaginamos colocar a chave numa porta e abrir um admirável mundo novo de sofás e almofadas, tudo no sítio. O cheiro a verniz e a baunilha e estás em casa.

Mas depois percebes que tens de esperar para ter essa chave, que tens papeis para assinar, luz para ligar...que tens de te preocupar com pratos e chávenas. Que tens de comprar uma cortina para a banheira e que vais passar meses a achar falta. Disto e daquilo,  a vivência será um mar de falta de coisas.

Já montei uma casa… e depois montei outra, a um passo de cada vez. A cortinados desencontrados das almofadas, a cada coisa a vir ao sabor do quotidiano. A ver estantes a vestirem-se de vida, a deixar um rasto espalhado de vivência em peças desenquadradas e papeis esquecidos. Um processo no qual fica sempre um pouco de nós, mesmo que não seja o nosso reflexo, mas apenas o reflexo das nossas possibilidades. Montar casa é criar refúgio de vida. Mas é um processo, cansa-nos até à exaustão.

Deixar a casa que se montou para trás gera um sentimento de perda estranho. Não devemos ser apegados a coisas, mas não são as coisas em si. Não é apego aos cortinados roxos que foram mesmo os que eu queria ou à cor da tinta da parede que eu ousei escolher. Será talvez à excitação que foi escolher a cor, ao trabalho árduo que foi pintar cada metro daquele sítio, à emoção de ver os cortinados pendurados, o jogo final. De tudo o que fui eu ali. De tudo o que já havia sido noutra casa.

De todas as casas da minha vida.

Deve ser Karma. Não ter casa, ter tantas casas, andar tanto entre elas que não sou realmente de nenhuma.

Aos 30 ainda me falta achar O sítio, que é a minha CASA.
Não sei se será aqui... ainda lhe falta a vista de mar.

***
Não respirava o ar da noite neste sitio há mais de 12 anos. Sempre teve um sabor adocicado. O frio das noites da minha adolescência era melhor que o frio dos dias, e eu podia vaguear pelas travessas como um fantasma deslizando, um exercício de perícia.

A terra, era o meu território, um mapa claro, hoje é uma perfeita estranha. Nunca lhe senti saudades, de todas as minhas casas esta será a mais mal amada, de todos os meus anos esses os que pertencem a uma vida que não é minha.

Sou estrangeira na minha terra. E dou por mim a fitar rostos, a achar que os conheço, a lembrar histórias e situações. Vejo rostos que me olham sem determinação. De todos os sítios onde eu poderia vir a estar 12 anos depois, a correr no escuro da noite na ciclovia não era um deles. "Não... aquela não é a Angie, estranho ia jurar..."

Em 12 anos todos os vestígios de mim desapareceram. Dos nomes das pessoas com quem me dava, os sítios onde ia que estão fechados, as ruas requalificadas. Como se não existisse mais prova arqueológica da minha história. Tornou-se numa civilização sem documentos. Sem ruínas, sem nada.