quinta-feira, dezembro 12, 2013

Escolher…

Se houvesse uma questão filosófica a atormentar a minha alma seria essa relação estranha entre a linha contínua e única do tempo e a multiplicidade de escolhas que se nos põem na vida.

Porque quando escolhemos um caminho, há um sem número de outras coisas que não vamos poder fazer, vidas que não viveremos e cada momento de sim, ou não, tem tanto de impulsionador da vida como de castrador de tantas outras possibilidades que ficaram irremediavelmente perdidas.

Em certos momentos as escolhas são fáceis, porque são óbvias. Regulares.

Noutros, tornam-se numa espécie de sítio nubloso, onde é suposto se acertar no alvo meio às escuras.

E depois de a pedra ter sido atirada é tão difícil voltar atrás, estamos constantemente dando saltos de fé. 

Quando decidimos onde vamos viver, quando aceitamos este ou aquele trabalho, até mesmo quando em momentos equívocos de paixão escolhemos com quem passar a nossa vida.

Momentos de sim, não. De escolhas desembestadas ou de ponderações demoradas, as escolhas, quando nos deparamos com elas, são momentos de esperança angustiada.

Desejamos até que alguém venha e escolha por nós. “Ei, alguém dá uma mãozinha a decidir aqui?”

Ficamos ou vamos? Começamos, acabamos? Decidimos por fim? Aceitamos menos? Queremos muito mais?

Colocamos-se nessa situação de perigo, não saímos da zona de segurança?

Ou o que gostávamos era de fazer tudo isso, voltar ao princípio e recomeçar?

Num tempo em que as vidas são cada vez mais móveis, apesar de pesadas, como se planeia o futuro?

Quais os desejos de ano novo se não sabemos bem a onde queremos estar?

A reflexão gera-se então em torno da nossa responsabilidade perante as escolhas que fazemos sozinhos ou influenciados pelos que nos rodeiam. Quer sejam escolhas que refletem quem somos, ou que apenas nos salvem da situação, escolhas são momentos, mas são momentos irremediáveis.

Podemos viver à deriva e esperar que as escolhas se façam por si, que sejam fruto da oportunidade, do destino. Mas até isso é uma escolha.

2013 entra agora na recta final, assim como a década dos 20’s. Nunca as escolhas foram mais difíceis, embora eu tenha hoje muito mais ferramentas para escolher. Embora eu seja hoje mais confiante, mais educada e pretensiosamente mais experiente.

Era expectável que o tempo tornasse a escolha mais fácil, mais óbvia.  E  o futuro se desenhasse por si.
Na minha mente, brilha ainda uma inquietação adolescente que diz que tenho todo o tempo de mundo para fazer tudo, sem escolhas.

E não é isso que todos queremos?

Ter tudo!





quarta-feira, dezembro 04, 2013

Estes dias...


Penteia-te e mete os brincos. Não cirandes o dia inteiro de pijama pela casa. Passa da cama para o sofá com alguma dignidade. Veste-te como se fosses de facto a algum lado.

Sai e bebe café. Lê os jornais. Cumprimenta as pessoas em quem tropeças na rua como se estivesses num tempo livre, e não demasiado livre das restrições do tempo.

Passa um a hora por dia a enviar currículos para emails entupidos e a magicar soluções de vida descabidas.

Não te lamentes, não tenhas pena de ti. O mundo não precisa de mais vítimas.

Encara a crise pessoal como uma oportunidade. Reavalia-te todos os dias, agradece o que não te falta.

Não vagueis sem rumo – passeia.

Não poupes – torna-te sustentável.

Não desejes o que não podes ter – conforma-te.

Não olhes para o passado – não há culpados.

Foca-te em pequenas tarefas – mexe-te.

Não leias livros de auto-ajuda. Enjoa tanta conversa positivista.

Desiste de procurar aquilo que apenas se encontra.

Tem fé. Não sejas cínica.

Aceita a perda de controlo, a falta de plano, a imprevisibilidade dos dias.

Cria essência da inutilidade das horas, das conversas vazias e da virtualidade das coisas.

Encara o mundo em mudança, aceita mudar com ele.

Aceita.

Corre e prepara-te.


Podes tropeçar em algo que necessites de correr para apanhar…

terça-feira, novembro 26, 2013

O "urbanicidio"…


As cidades são como corações que batem, a ritmos compassados, alimentados por artérias vivas que trazem e levam, as alimentam e as mantêm vivas.

Quando aos poucos essas artérias são cortadas, como um coração mirrado em agonia, com falta de ar, as cidades param, hesitam, depois diminuem e obscuramente transformam-se em sombras de si, vegetando entre escombros até que morrem.

Devem ter morrido tantas, soterradas pelas cinzas de vulcões, abandonadas por habitantes escorraçados por epidemias, outras tantas sucumbiram à irrelevância dos seus caminhos. Outras morreram de mortes naturais, depois de levadas pelo tempo. Outras ainda, periclitantes estão a ser assassinadas nos nossos dias.

O assassino é meticuloso e tem tempo. Corta uma artéria de cada vez. A cidade ressente-se mas reorganiza-se com o ar diminuído, abranda. Reajusta-se. Até que entra em falência respiratória, não consegue mais subir degraus. Órgãos seus morrem de asfixia.

Espalham-se os órgãos devolutos. As casas vazias. A irrelevância torna-se evidente.

E com a cidade morremos nós, pequenas células. Abandonadas à sorte de um território vazio. De esperança nula.

O crime nesta cidade é de primeiro grau com premeditação agravada. Devia ser caso de estudo. Deviam escrever teses a ensinar como matar uma cidade em menos de uma década. Como mandar todos os que se importavam embora, como agarrar numa comunidade criativa, esperançada e pulsante, orgulhosa do seu espaço e asfixia-la até ao estado vegetativo.

Escrevam. E chamem-lhe Portalegre. 

quarta-feira, novembro 20, 2013

Dos grandes momentos e outras memórias...



Em Maio de 2008 eu tinha todo o tempo do mundo. Tinha todas as primeiras vezes para desfrutar, o mundo podia ainda ser meu. E foi. 

Numa noite única na aula Magna foi muito meu. Garcia Marques disse que não interessa o que vives, mas como te lembras do que vives para contar.

E dessa noite, os The National, Matt Berninger meio ébrio na palco e uma sala a abarrotar de "goupies indie coiso" de letras decoradas e prontos a fazer coro, eu lembro momentos épicos.

Épicos de comunhão entre o público e a sua banda de referencia. Épicos entre mim e os que estavam comigo. 

2008 foi um ano feliz. Havia aquilo que Michael Cunningham nomeia em "As Horas", o Senso de possibilidade. Quando, num momento da tua vida ainda tudo pode realmente acontecer e isso aborda o teu ser de uma forma realmente positiva.

A Aula Magna foi isso, um senso imenso de possibilidade, o primeiro concerto realmente ansiado, uma peregrinação.

O espaço colegial, o sentimento de proximidade de todos os que lá estavam e um espectáculo intimo, frenético e algo alcoolizado fizeram do concerto dos The National memorável.

Muito se escreveu nos dias seguintes, "o melhor do ano", a banda de "uma geração" ou "não foi isso tudo de especial". 

Não sei o que foi. Não sei se foi tudo isso de bom, se teve tantas falhas. Sei do que me lembro para contar.

E a Aula Magna foi na data, o concerto da minha vida.

P.S. Amanhã, mais de 5 anos passados e 2 álbuns depois é noite de The National, Não espero reviver aquele Maio, mas espero viver novas histórias...espero viver para contá-las.

domingo, novembro 17, 2013

Das desistências e outras derrotas.


Nunca fui de desistir de coisas, nem de falhar. Sempre me tive por ser rija, de ter fibra. Nunca fui muito menina, nunca deixei de tomar banho porque não há gás, de deixar de fazer porque é difícil e a minha resistência à dor pode ser épica.

Foi educada nesse binómio de acção – consequência e num outro, sacrifício – recompensa. Por isso, quando algo vale realmente a pena serra-se os dentes e luta-se. Quer seja a prova de domingo, ou um projecto imenso de vida.

Esse equilíbrio ténue entre o que estamos dispostos a fazer e o que sonhamos alcançar coordena a vida, esticamos a corda porque acreditamos que dias melhores virão. Trabalhamos em condições precárias porque algures lá à frente vai valer a pena. Essa esperança inocente faz o mundo avançar.

Mas é também um principio castrador, porque nos impõe um esforço por vezes desumano, porque esticamos mais e mais correndo atrás de uma miragem, porque ser rijo é ser também inflexível é ter dificuldade em voltar, em desistir, em mudar e em admitir que fizemos um longo caminho em vão.

Descobriu-se nos últimos anos o novo dogma, “tens de sair da tua zona de conforto”. E saímos, empurramo-nos constantemente para precipícios porque se não sairmos nada vai acontecer. E caímos muitas vezes sem pára-quedas, porque 90% das vezes que saímos da zona de conforto caímos realmente num desconforto imenso e voltamos feridos para casa.

Perguntamo-nos por essa altura se vale a pena. O esforço, a disponibilidade, a teimosia e um dia deixa de valer. E quando é claro e simples, esse conceito: Não vale a pena. Permitimo-nos desistir.

É um momento libertador. De uma leveza suprema. Nesse preciso instante em que numa qualquer rua atolada de gente de passo apressado e rosto vazio nos permitimos a uma longa gargalhada, a um choro compulsivo e a dizer em voz alta: “não vale a pena, vou simplesmente desistir.”

Converter a desistência em algo diferente de uma derrota massiva é outro caminho.


Não deixar a desistência definir o resto dos nossos dias uma luta interior.
Mas se não vale a pena, libertemo-nos. Permito-me desistir.

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Descobri algures no tempo que é possível ter-se perfeita consciência da depressão, senti-la a chegar nas noites mal dormidas, na apatia geral dos dias. O sintoma geral do "não vou beber um copo, porque não vale a ressaca", quando todas as tarefas passam a ser feitas em piloto automático e o comer sabe todo ao mesmo. Porque é igual, existe-se. Mas não para além de um corpo que respira. A nossa mente às vezes escolhe encolher-se, esvaziar-se ausentando-se de nós.

Não assumimos a depressão, porque somo rijos, porque obviamente estamos muito para lá. A consciência da sua existência, a procrastinação que se instala confortável nos nossos dias tudo isso a acontecer na clarividência de que ser triste, desistir, ser completamente abalroado pela vida é para os fracos.

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Chega então o momento em que o mundo em geral sabe mais do que nós sobre como resolver a nossa questão. E enchem-nos de mensagens positivistas, de incentivos bem intencionados e nos exortam a sair da apatia, a ser melhor.

Segue-se o momento em que não percebemos a linha entre a boa intenção e o atestado de inaptidão. É tão difícil lidar com o luto dos outros, ter a palavra certa.

Não aceitamos muitas vezes o fraquejar dos que nos rodeiam. Não é suposto sermos todos fortes?

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Resume-se a isso então. Estou desanimada. Já fiz o que tinha a fazer e vou desistir.
Não gosto, não quero, não vale a pena.

Espero dedicar-me a existir no espectro do autismo social nos próximos tempos, até que tropece numa missão de vida e decida se quero salvar baleias na Nova Zelândia ou pedir ao sapateiro do fundo da rua que me ensine a cozer sapatos.

Porque não temos de viver vidas desapaixonadas...
Mas as paixões são lixadas.

Não se procuram, encontram-se. Seja ela de que tipo for.




segunda-feira, outubro 28, 2013

Ode ao inútil...

Sou contemporânea da inutilidade. Dos dias sem rumo, das tarefas sem frutos, do mundo invisível.
De todas essas coisas de que nos ocupamos mas não podemos tocar. 
Os dias de labor que não se materializam, não se apalpam nem se vêem. O pensar.

O inútil das coisas que sabemos quando nos deparamos com um mundo que não quer saber de nada.
O inútil que é conhecer a beleza das coisas e ter de viver na fealdade.

O desperdício. O tempo perdido, a inutilidade.
De todos esses anos a imaginar futuros e a preparar caminhos, quando percebemos que a estrada estava à partida fechada. As batalhas, perdidas antes de começarem, inúteis e no entanto nós saímos para batalhar. 

Percebemos então a singularidade do nossa posição. A inutilidade de tudo isto.
No dia que aceitarmos a inutilidade da existência, talvez deixemos de nos preocupar com a relevância da vida e começar finalmente a existir.
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Não saber o que fazer é um vasto campo pantanoso onde nos enterramos todos os dias um pouco mais. Esperneamos porque queremos sair, mas é o nosso próprio espernear que nos afunda. Como se morrêssemos de vagar por não saber o que fazer e morrêssemos depressa exaustos de procurar.

Um dia iniciamos um caminho numa campo de estudo, numa área que achamos que pode ser a nossa vida. Apaixonamos-nos, damos tudo num romance que se espera dure para sempre. Nos faça felizes, nos ajude a crescer. Esperamos coisas desse campo, esperamos poder dar, ajudar a evoluir, fazer bodas de prata e de diamante professando a profissão. Uma vida.

E depois num outro dia, anos mais tarde acordamos de coração partido. Fomos abandonados. Ou enganados, ou tudo junto e aquela coisa que nutrimos durante tantos anos já não é nada do que conhecíamos. Não se transformou no que esperávamos. 

De luto, pensamos: talvez seja a hora de nos divorciarmos.

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Ai a inutilidade de tudo é evidente.
Se tudo o que sabemos não nos serve. Que nos sobra?
Quem somos? O que é suposto fazer a seguir?

Como, a seguir a um divorcio litigioso nos apaixonamos outra vez?
Vamos a tempo de recuperar os anos perdidos? 
Vamos a tempo de recomeçar? De ser realmente bons em qualquer outra coisa?
Podemos sonhar? Podemos não ser divorciados na carteira profissional?

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Há uma elite de privilegiados que diz fazer o que gosta. Aqueles que não trabalham um dia na vida como diria Confúcio.

Depois há os que trabalham porque têm de viver. Camus disse que é uma espécie de Snobismo espiritual pensar que podemos ser felizes sem dinheiro. Há quem seja, mas queremos mesmo nós viver sem dinheiro? Faz-me diferença não aceder a coisas? Ao belo? Ao saudável? Ao divertido? A cultura? Não queremos nós que as montras se materializem nas nossas vidas, com coisas bonitas?

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Ainda na inutilidade das coisas, e depois de tantos anos de amor e uma cabana eu e o jornalismo estamos em crise. Existencial. Comunicamos pouco, escrevemos menos. Houve tempos que eu achei que o podia fazer feliz.

Houve um tempo em que ele teria-me feito muito feliz...
A cabana está podre.
O amor... sendo intemporal e inalienável de mim ... é inútil...

Podemos sobreviver à simples constatação da inutilidade das coisas?












domingo, outubro 20, 2013

Casa...

Nunca tive casa. Tive casas. Sítios espontâneos onde era suposto existir.
Escovas de dentes perpétuas num copo abandonado, gavetas meio vazias e um espaço que eu deveria ocupar a tempo inteiro, no qual não comparecia. 

Temporariamente definitivo. A casa do pai e a casa da mãe. Como realidades paralelas, muito para além das distâncias que as separam. Muito para além dos seus significados. Casas, dimensões. Sítios diferentes. Existências distintas, uma sensação inesgotável de não pertencer. 

Não se esgotou ai. Houve um momento em que tinha cinco escovas de dentes activas. Em vários pontos do país, nessas casas que eram todas a minha. A da mãe, a do pai, a da irmã, a do namorado, a minha… Sítios. Frios, com cheiros. Com rotinas e almas. Pessoas. Casas, dos outros. Que deviam ser um pouco minhas.

Quando se está em todo o lado, não se está realmente em lado nenhum. Quando se é nómada a nossa casa segue atrás de nós, num qualquer pacote reduzido de pequenos objetos transportáveis. 

Num portefólio infindável de caras que não conseguimos fixar. De vidas que correm, imparáveis e que nós não conseguimos acompanhar. 

E no entanto, o desejo de ter uma casa é ensurdecedor. E quanto mais o tempo passa, e as casas se multiplicam, mais o silêncio das paredes vazias grita. 

Não somos realmente de sítio nenhum se não temos casa. Somos múltiplos se tivermos muitas casas, mas somos completamente sós se acharmos que podemos viver em todas elas. Não podemos. Podemos ter uma casa. Um sítio, todos os outros são adereços. Passagens. 

Depois de tantos anos, tantas casas. Não tenho casa. Nem a minha se sente minha quando aqui estou… Por isso é fácil, fazer a mala e ir. Reduzir o quotidiano ao indispensável e empacotar. Não devia. Mas é. 

Numa certa apatia. 

Se casa é onde o nosso coração está…encontro-me algo sem abrigo neste momento…

segunda-feira, outubro 07, 2013

Dos objectivos pessoais e outras corridas...

Gosto de correr. Não gostava, não gostava de nada que implicasse um grande esforço. Foi uma educação necessária, trabalha-se o corpo, mas em primeiro lugar educa-se a mente para o esforço, para a resistência à dor. Foca-se as forças em objectivos. Aprende-se na paciência do esforço e da recompensa. E essa educação vai muito para além da corrida, espalha-se nas nossas vidas.

Não sou uma grande atleta cheia de possibilidades por cumprir. Fiz as pazes com isso depressa, aceito as minhas limitações e principalmente compreendo que a recompensa surge de um trabalho longo, pesado e de um comprometimento com a causa que nem sempre estou disponível a fazer.

Essa aceitação poupou-me a muitas frustrações e fez de mim a minha única adversária. O meu tempo, as minhas possibilidades, a minha vontade, eu e tudo aquilo que eu conseguir perante mim.

Parto para cada prova com essa certeza que vou fazer o melhor com aquilo que tenho. E acabo sempre com grande satisfação por ter simplesmente chegado ao fim.

Mas os tempos existem, os percursos mais ou menos difíceis e a competição, mesmo que interior é inata. Por isso estabelecer objectivos é algo que também eu faço. Tento fazê-lo de forma realista, mas faço e fico genuinamente feliz por os cumprir.

Ontem fiz a minha quarta 1/2 maratona e tinha um objectivo claro, baixar para a 1h50m. Sem pressões, sem tragédias pessoais se não conseguisse. Mas queria muito fazê-lo e fiz. E estou genuinamente feliz com isso.

Fiquei tentada a abandonar o objectivo ainda antes da partida. Demasiada gente, pouco espaço para progressão. mas partimos bem posicionados. Inicialmente ia fazer a prova com uma "lebre", mas tornou-se impossível seguir alguém nos primeiros minutos tal era a confusão.

Fiquei portanto sozinha. Eu e eu mesma a olhar para um relógio cruel sempre a debitar minutos e poucos quilómetros a passar.

Os primeiros 12kms não tiveram história. feitos numa hora e poucos segundos, era o plano e o plano cumpriu-se.

Por volta do 14kms houve a primeira quebra. A psicológica, aquela incerteza no objectivo, um desacelerar do ritmo e o primeiro fraquejar de pernas. Houve ai muita conversa interior, muito "PEP Talk", muito "vais conseguir, não desistas". Depois entra-se na fase, "ok, também se não conseguires não tem problema, há outras provas" enquanto se vai recuperando lentamente até à próxima quebra. E ela chega, chegou pelos 17kms, pernas pesadas, corpo dormente, passada curta.

O calor do asfalto a queimar. Cada vez mais espaço para correr e os quilómetros a contar. E o raio do tempo que não para.

Ainda assim, ao 18kms a lutar contra a quebra massiva, olhei o relógio e acreditei. Um "feeling" e quando se acredita surge mais, muito mais força que vem não sei bem de onde, muito mais resistência à dor, muito mais determinação para o "tem de ser e é hoje!".

Cheguei em cima da 1h49m06. E vinha extasiada. Com vontade de chorar com a emoção de ter conseguido.

1h49m06s não é extraordinário para o mundo em geral, mas é o melhor que eu pude fazer até hoje. É EXTRAORDINÁRIO para mim.

Uma muito pequena vitória que me faz acreditar que tal como na corrida, podemos educar-nos para as pequenas batalhas que travamos na vida. Até que vamos ser fortes para enfrentar as grandes!

P.S: Um obrigada pelo apoio de todos. Em especial da Alcateia ACP. É tudo mais fácil quando fazemos parte de algo, e é bom fazer parte da Alcateia :)

"The only real progress lies in learning to be wrong all alone." - Albert Camus


Crescemos sempre acompanhados. Amparados por todas essas pessoas que destingem por nós o bem e o mal.

Todas essas pessoas que nos apontam caminhos e nos primeiros anos escolhem por nós. Coisas pequenas -o que fazer, quando comer, onde ir, com quem conviver. Coisas grandes - o nosso destino, onde vivemos, que tipo de educação teremos e desenham por nós a pessoa que havemos de ser.

Todos eles a apontar o nosso erro. Os erros são por isso coisas que os outros encontram em nós. Defeitos de fabrico, pequenas falhas de educação, grandes desvios de personalidade. Erros, são coisas que os outros descobrem. Anuímos perante isso. Somos educados para a culpa. O erro é culpa que vem do exterior.

Crescer é interiorizar o erro. Descobri-lo, admiti-lo e viver.

E esse processo é tremendo e violento. Vem com o medo.

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Diz que os 30 são os novos 20. Parece óbvio. Somos adolescente inconsequentes mais cedo, adultos mais tarde e a deriva intensifica-se.

Falta cerca de 4 meses para fazer 30 anos e quando olho para trás vejo uma década ambígua. Talvez não seja perdida, talvez tenha sido essencial.

Mas a poucos dias de começar mais uma etapa escolar aqui estou eu. À beira de uma nova década, temendo os primeiros dias de aulas com o desconforto do confronto com pessoas desconhecidas. Com as apresentações ao estilo grupo de ajuda, currículos e egos a encher a sala.

Salas, corredores e pessoas para fixar. Uma vida nova para além da vida. Desprovida de sentido e assustadoramente na deriva.

Porque na minha outra década - a passada - era suposto ser isso, era suposto estar nesse entre e sai de salas com cadeiras desconfortáveis, nesta década...ainda não sei onde é suposto estar.

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Sinto a década a acabar nesse salto de fé. De que o caminho se faz caminhando e que de alguma forma, no fim, o absurdo de cada momento vivido, tudo fará um grande sentido. Porque não faz por enquanto.

Nada faz num mundo em que os pressupostos iniciais foram alterados. Num jogo cujas regras mudaram a meio e não nos foi permitido sair. 

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Borboletas na barriga e dúvidas...
O tempo...e essa impossibilidade de o refazer...
Abrir o coração ao erro, aceitá-lo. Descobri-lo sozinha e pacificá-lo no meu ser.
Crescer.

Espremido o tempo...somos tantos e estamos tão completamente sós....


terça-feira, outubro 01, 2013

"Lembra-te de esquecer." - Kant


"Devia ser algo fácil. Esquecer. Pôr pedras em cima de assuntos, enterrá-los e não lhes mexer. Esperar que se transformassem em simples fósseis, difíceis de analisar, impossíveis de datar e que contassem apenas partes simpáticas da história.

Mas somos poços infindáveis, onde os pensamentos vagueiam, vão e voltam e nos inundam, nos afogam por vezes. Há dias que morremos várias vezes afogados nesse poço de situações. Ressuscitamos apenas para poder morrer mais uma vez.

O esquecimento, essa variável do tempo, devia ser uma função automática, programada nos genes, intrínseca a todos nós, porque se o tempo não anda para trás, porque se só o podemos viver uma vez, errar a escolha uma vez, sem hipótese de correcção...esquecer de forma natural seria mais que um paliativo, seria a cura do de todo o mal."

domingo, agosto 18, 2013

“Espero alegremente a saída – e espero nunca mais voltar – Frida”.


Fixava o tecto branco há algum tempo, um momento de lucidez que lhe tinha dado. O tecto branco, uma tela de cinema, imaginava, nunca tinha ido a um. Tantas coisas que nunca tinha feito, e agora era tarde.
Estava presa naquela ruína de corpo havia demasiado tempo, uma eternidade. Tinha de chegar uma hora, um momento em que a natureza lhe permitisse partir.

Se havia limbo, se pagamos nesta vida pelos pecados das outras, aquela ruína tinha sido o seu castigo. Um corpo rude, destinado a sofrer.

Gostava de lembrar do prazer de algo, talvez dos dias da juventude, mas esses dias são tão longínquos que surgem por entre o nevoeiro. E ainda assim, já nessa época lhe doía. Os ossos daquela estrutura, larga de ombros, filha de gente do campo. Lembra-se dos pés frios dentro da água do arrozal, das feridas que não saravam, os tornozelos.

Olhando assim para trás, aquele ambiente asséptico, estar ali parada, presa em si era quase bom. Não era mais alta e os ombros mirraram sobre si. Murchou. Mas estava morna, havia sempre o que comer.

Foi tarde, mas vieram os filhos, eles visitam, ouve-os, ao longe. Mesmo quando só já consegue fixar o tecto. Lembram-lhe desses dias, as dores nos quadris e ela ainda dentro do arrozal, até ao ultimo momento. Até que por entre a água fria lhe descia um torpor liquido e quente de aguas a rebentar dentro de si e uma dor aguda a gritar por entre a jornada de todas as outras mulheres e homens, parceiros de escravidão.
E ai vinha a carroça,   o caminho de terra batida e as rodas nos rodados gastos. Cada pedra a passar por baixo de si, cada solavanco, cada sopro de vento a remexer-lhe as entranhas.

Dor. As moças hoje dizem que é bom fazer filhos. Falam disso na televisão ainda chegou a ver, quando conseguia fixar algo para além do tecto. Mas não lembra disso. Só de parir. Muito devem ter mudados os homens. Vê-se nas novelas. Ele é beijos e abraços, não lembra de um dia ter tido algo assim, nunca vira. Os netos vêm e fazem-lhe mimos, mas ela só já fixa o tecto. Ingrata a vida, pensava: "Quando por fim merecemos carinho, não estamos em condições para o receber."

Ouvia-os falar e perguntavam coisas e quase desesperavam por respostas que ela não conseguia dar. Porquê? Porque continuam a vir como se esperassem que ela ressuscitasse da inevitabilidade da sua morte?

Daquela morte em vida, a do silêncio perpétuo que apenas balbucia tolices?

Desde a primeira dor até ali nada havia a fazer. A cada osso que se encolhia e se deformava, a cada nova maleita a todos esses anos de inutilidade em que se arrastou nas muletas pela vida. Dores. Umas maiores, outras pequenas, mas dores sempre. Dores do frio do inverno, do calor do verão. da humidade, da fome, do comer de mais. Dores do sangue a circular nas veias, as veias a doer por terem sangue a circular.

Suspiros de dor e os pulmões a doer por suspirar.

Continuava a fixar o tecto, era uma momento de lucidez. Não estava mais a imaginar a horta por detrás da casa nem a mandar ninguém regar. Nem a ceifar o arroz de pés enterrados em água. A ser jovem, achar que podia aguentar.

Fixava o tecto e esperava que fosse agora. Ou depois, mas que fosse. 

De uma certa forma, quando lhe acabava o momento de lucidez estava morta...








quarta-feira, agosto 14, 2013

Divagações sobre o tempo VIII

"Respirou fundo e abandonou-se. Podia sentir a intermitência dos pensamentos, a forma estranha como eles se entrelaçam quando a linha do tempo é descontinuada e todos os estímulos parecem infindáveis.

Quanto tempo havia passado? Um minuto ou uma hora? Aquela música continuava a tocar incessantemente, como algo a que não se conhece começo nem fim, podia prosseguir ininterruptamente, fundir-se com a atmosfera e ser som de fundo.Ou podia ter começado a tocar mesmo agora, quem sabe, quem consegue responder imerso nessa atmosfera liquida da inconsciência?

Era suposto estar a pensar em algo? A resposta àquela pergunta do exercício, mas depois distraiu-se com as libelinhas  a voarem numa luta herculana pouco acima da água. E à direita passou um gato perdido, enquanto que vozes estranhas se abeiraram lá no topo, na estrada. Isso tudo, e como era o nome? Daquela pessoa que se apresentou ontem...ou a preocupação é só a cor do vestido, o significado da vida, que fazer afinal para o jantar? Raio de música que não acaba, dura uma eternidade.

E a luz? Era de mais, tapou os olhos com a chapéu e abandonou-se numa sesta, deixou de lutar contra membros moles e desfasados de si ou contra a noção de que estava errado, algo errado com aquele sitio, com o gatos a rondarem ou os gritinhos infantis que se ouviam do outro lado, numa margem que não conseguia ver. Seriam reais ou imaginados? Até onde podia ir esse mundo induzido?

Esse mundo liquidefeito sem tempo, sem noção. Até onde podia ir, vivendo, ouvindo mais e melhor, pensando em tudo ao mesmo tempo, tudo misturado, um tornado de coisas a serem varridas de si, a perderem-se para sempre no buraco negro das memórias. Todos essas frases perfeitas de que nunca mais se iria lembrar, até onde as podia inventar?"

segunda-feira, agosto 12, 2013

Crescendo…

Dizem que as dores de crescimento são um mito. Não sei se as há, se nos doem os joelhos enquanto esticam, ou se parte a pele porque demos um salto.

Mas há muitas formas de crescer. Há mais dentro de nós que se pode expandir, a nossa alma dói quando cresce, dói fisicamente das formas mais inesperadas.

O assumir do tempo, aceitando as etapas. Vivendo coisas pela primeira vez, sentir-se ficar para trás, dando um grande passo em frente. Doí sempre, como se o nosso universo interior se reajustasse, para receber esse novo Eu, maior. Umas vezes mais forte, outras simplesmente muito mais fragilizado.

Crescemos quase sempre de forma diferente, caminhamos noutros sentidos distantes daqueles que imaginamos quando nos deitávamos no meio das almofadas num qualquer quarto pintado de cor de rosa.
Essa divergência, dói. É um reajuste brutal daquilo que esperávamos de nós, há alguém que nos pode desiludir mais? Do que esse possível Eu que não aconteceu?

Dos romances perfeitos que nunca surgiram, nem dos beijos sonhados em noites de luar, ou das vidas inventadas, sem problemas, sem preocupações, só nós sendo as protagonistas de uma aventura existencial exemplar.

Um dia paramos à beira de um espelho e é suposto ser-se crescido já, dentro de uns jeans rasgados e de um rosto imaculado. Nesse dia, mesmo que o vento nos sopre nos cabelos como fazia há 15 anos atrás, e essa fosse a verdadeira liberdade, dói. Porque não somos o suficiente.

Porque não fomos a todos os sítios que era suposto ir, nem fomos nobres o suficiente e muito menos temos as respostas para todas as perguntas que nos fazíamos em noites de insónia.

Ser-se crescido, num espírito ainda “pequeno” é doloroso.

E depois há o mundo a girar lá fora, de forma crescente, cada vez mais rápido. Sucedendo-se. A vida dos outros a acontecer também. Nós a fazer parte, a querer crescer com eles, a viver em segundas núpcias as alegrias, os desesperos, emocionando-nos com o tanto que todos cresceram.

O tempo, a ser assim inexplicável.

Devíamos de poder vivê-lo, todo de novo. Quando já fossemos crescidos.


terça-feira, julho 30, 2013

Barcelona


Para mim havia a Espanha da raia, aquela que eu quase consigo tocar quando abro a porta e cheiro o ar. A Espanha de Badajoz, dos caramelos dos toureiros e das sevilhanas.

Depois visitei Madrid e ai conheci uma Espanha mais cosmopolita, mais cheia de vida e de pessoas pelas ruas. De miúdas demasiado produzidas a passear na Gran Via e de rapazes com camisas bordadas.

A Espanha de parques largos e viçosos onde se se pode correr, as cidades de alamedas largas e ar organizado e muitas, mesmo muitas esplanadas, sítios vividos, pessoas na rua.

Ainda assim a Espanha interior. Onde o ar é rarefeito nas noites quentes de verão, a vida segue ao ritmo das "siestas" e das tapas a seguir onde tudo isso é empurrado com cañas.

Ainda assim, a vida desses sítios foi sempre vista com esse filtro conhecido dos roteiros de turistas, das sugestões do melhor sitio para visitar ou das conversas orientadas por quem já lá havia ido.

Vemos a vida dos sítios através do vidro. O resto do mundo é um aquário.

Visitar Barcelona foi diferente. Porque Barcelona é uma outra Espanha. Porque visitei pelas mãos de quem lá vive. Por momentos eu estive dentro do aquário, e vi o pulsar das ruas, e comprei fruta na esquina, e respirei o ar das noites sufocantes do mediterrânio.

Há um contraste entre o plano das Ramblas e a trabalhosa subida ao Montjüic ou ao Park Güel. As ruas planas e largas cheias de arvoredo e as vistas desafogadas sobre uma cidade que desemboca no mar, numa orla marítima de areal curto, num mar sem marés onde o sol se põe nas nossas costas.

As vistas cheias de pontos de referencia, a Sagrada Família a impor-se perante um mar de casas e de ruas paralelas, numa cidade bem desenhada e organizada. Barcelona.

A cidade da fruta espalhada pelas lojas de rua, muitas. E exóticas e apetitosas em forma de Smooties frescos e garridos.  O mercado La Boqueria, essa overdose de cores e sabores e tão pouco tempo para provar. Quem diria que havia tantas frutas e tão diferentes, todas numa banca fresca numa tarde de verão? La Boqueria, poderia lá ir todos os sábados de manhã só para a cheirar.


E depois essa mistura de tudo, os restaurantes, os brunchs de domingo, o sushi ou o Vietnamita, o vegetariano e o Indiano ás portas de uma praça cheia de tapas e pinchos. As possibilidades. Viver num sitio com possibilidades. Pareceu-me que tudo podia acontecer ali.

A cidade móvel e rápida a pé, de bicicleta, de metro, de autocarro. A praia ali à mão, a praia à distância de meia dúzia de estações de comboio. As possibilidades.

Noites quentes. Quentes de vestido leve e corpo suado pela madrugada fora. Quentes de gente na rua, nas esplanadas e copos de sangria ou gin tónico em copos desproporcionais.

Dias ainda mais quentes, quentes de pessoas de biquini na relvas dos jardins. Muitas garrafas de agua vendidas por marroquinos que vagueiam pelos parques, e as escondem e sacos de plástico opacos, e as vendem por 1€ num mercado paralelo que deve valer uns milhares...

Barcelona é tudo isso e mais.
Para mim foi também um reencontro. Com pessoas que adoro. Com pessoas que fazem parte da minha vida de uma forma constante, são ADN. Por vezes temos simplesmente de nos voltar a conhecer, de nos dar a oportunidade. Somos todas tão diferentes, os anos moldaram-nos, mas o barro continua a ser o mesmo.
Delicioso reencontro. 

P.S. Adoro-vos meninas, não o disse muito ao longo da ultima década. Estou feliz, o universo trouxe-vos de volta.



"Só há um único problema verdadeiramente filosófico, e isso é que fazer com a nossa vida?"


Camus afirmou que o único problema verdadeiramente filosófico seria o suicídio. Perguntou-se a certa altura se devia beber um café ou tirar a própria vida, visto tudo isto ser um absurdo.
O absurdo da existência, o desalinho dos nossos dias, uma deriva que talvez não valesse a pena viver. 

Para mim, a único problema verdadeiramente filosófico é o que fazer com tanta vida.

Como escolher, quem ser, onde viver, o que fazer com o tempo que nos resta quando o relógio impiedoso não para de rodar.

Quando viajamos é-nos aberta uma janela para outros mundos. Nesse espaço de tempo podemos-nos imaginar a caminhar por outras ruas, a comer noutros sítios, a ser outras pessoas vivendo vidas distantes.

Quando voltamos à vida normal sobra-nos essa sensação agridoce, estarei eu a viver a vida certa?
Aquela que eu quero, a mais completa, aquela que aproveita o melhor de mim?

Essa linha temporal única é realmente madrasta, porque nos obriga a uma escolha de circunstancias e nos encaminha para caminhos e de forma involuntária estamos a viver, não a vida que podemos, mas a que nos é possível.

Como queremos viver o tempo que nos resta é então a única pergunta a que temos de responder. Quem queremos ser, onde viver, o que fazer a seguir, que tipo de pessoas somos, com quem queremos estar.

Que vida queremos ter, quando só temos uma hipótese de acertar?

sexta-feira, julho 12, 2013

O treino



O cheiro a pinho pela manhã era familiar. Misturava-se de forma terna com o cheiro que se elevava da terra, evaporado com os primeiros raios de sol que queimavam a camada fresca do orvalho.

O dia estava cinzento, de uma cor outonal em pleno verão, um dia morno beijado por uma brisa fresca que trazia uma certa humidade.

O terreno era plano, uns troços de alcatrão velho entre-cortado pelos estradões poeirentos secos pelos ventos do estio.

Seguia num passo lento, mas confiante. Não tinha nada a provar nesse final de manhã, nem tempos para fazer, nem lugar onde ir. Corria despreocupadamente só porque precisava de acordar, fazer o sangue circular nas veias, sentir-se um pouco viva.

Conhecia bem os caminhos, cada curva, cada árvore. Podia, percorrer aquele espaço de olhos fechados e ainda assim, a cada volta olhava o mundo com um espanto de quem olha para o desconhecido.

Cada casa. A forma estranha como as pessoas vivem os seus espaços, as hortas certinhas e limpas, os quintais caóticos e desordenados. os pequenos mundos de cada um confinados num terreno, aquele terreno que os traduzia.

Ofegava dentro da blusa encharcada, cheia de cheiros. Não pertencia realmente ali. Pensava que estar num sitio onde já se viveu lhe legitimava a presença, mas não, era uma estranha a correr na estrada.

Uma curiosidade, daquelas que obrigam as pessoas a abrandar o passo e a olhar vagarosamente tentado reconhece-la para lá daquelas vestes exóticas.

Murmuravam por vezes "ah é a neta da vizinha, aquela que está para fora", como se estar fora fosse uma condição maliciosa. Distante, algo que dotasse aquela figura a desaparecer no dobrar da esquina duma existência de outra espécie.

Os cães ladravam-lhe por detrás das redes dos quintais, alguns com fúria. Mantinha um ritmo certo, embora lento, o seu corpo ensopado, dores antigas a gritar.

Sentia-se perder em longas ausências. Com a mente a vaguear. Nada acontecia naquele espaço de gente vagarosa, de caminhos de areia, tão próximo do mar mas ainda longe.

Passou  um carro apressado que a obrigou a chegar mais à berma, uma senhora de idade que apitava a cada soleira de porta que via. Viu-a chegar ao fundo da sua rua. Apitou para uma casa perdida no silêncio e inverteu a marcha.

Estugou o passo, que lhes queria? Fez-lhe sinal para a abrandar, e antes que lhe fizesse qualquer pergunta, a senhora disse-lhe pelo vidro aberto, "sou apenas uma vendedora" e partiu sem esperar resposta. Deixou atrás de si um cheiro a peixe passado pelo calor.

"A senhora vende peixe"- pensou. "Num carro simples, com a canastra no banco de trás?"

Caminhava agora a passo lento, tentando regularizar o folego, tentando alcançar a sua casa ao fundo da rua.

A senhora vendia peixe, sem câmara frigorífico, sem bata branca. Essa ideia não a deixava. Vendia peixe nos montes remotos como se se tivesse lembrado naquele mesmo dia dessa forma mágica para sobreviver.

Parou em frente ao seu portão de ferro forjado, abriu-o com um movimento enérgico, enquanto entrava pelo quintal a dentro aquela imagem não a largava, a velha vendedora de cabelo atado num carrapiço ao alto da cabeça, a canastra no banco detrás. 

Os cães agitaram-se puxando as correntes à sua passagem algo ausente. Depois instalou-se um silêncio

"Somos pobres" pensou. "Quando é que isso aconteceu?"





terça-feira, julho 02, 2013

A chorona


Chorava por tudo e por nada. Lágrimas, era algo que a invadia como consequência óbvia de vagas de raiva ou de nervos. Ou de filmes lamechas ou de situações tristes mas de uma beleza rara.

No entanto, nunca conseguia verter uma lágrima quando alguém morria. De forma embaraçante o rio secava dentro de si. Num mar de calma e paz, mas seco. Pleno de nostálgica contemplação, sem crises, nem gritos. Nem lágrimas.

Recebia sempre a notícia dessa forma impessoal, petrificando-se num silêncio embaraçoso. E esse desconforto aparente crescia ao mesmo tempo que as pessoas à sua volta se agitavam, esbracejando, decidindo a quem avisar a seguir.

O seu rosto perdia expressão, tornava-se num deserto. E por mais estranho que parecesse havia uma onda de paz que invadia a sua alma enquanto relembrava rostos e pequenos momentos, as idiossincrasias das pessoas, o pequeno tique do rosto, o cheiro específico que nos avisava que estava a chegar.

E o desconforto alastrava na falta de lágrimas e alarme, na ausência das palavras de pesar, naquelas estranheza de não saber o que fazer com as mãos nem como estar. Contemplando a amargura dos outros em rostos inchados e descaídos, alarmava-a não conseguir chorar. Como se a apatia fosse crime, como se a única maneira social de expressar a revolta dos momentos fosse verter um rio.

Não havia ainda compreendido o definitivo de tudo aquilo. A perda. Essa coisa perpétua e intransponível, morrer. Isso que nos acontecerá a todos e que todos lamentam naquele mar de lugares comuns ditos sem entoação à entrada das salas claras e frias onde se vela o caixão aberto.

Essa perda total de possibilidade. Esse esgotar, esse tornar impossível. A certeza absoluta de que o que não foi dito nem feito jamais terá lugar depois desse evento: a morte. 

Da consciência, do corpo, da alma ou de qualquer outra entidade em que se queira acreditar. A morte em si, em definitivo, tão certa e esperada e no entanto, esse absoluto mistério.

Continuava de mãos desocupadas, seca por dentro, sentada num desses bancos corridos de madeira, desenhados para o desconforto das noites de vigia. Ouvia, os outros, os vivos a falar das vidas que restam, uma ou outra lembrança, às vezes um suspiro.

Choraria um dia talvez. Um dia quebraria. No dia que percebesse a finitude de tudo quem sabe. Talvez no dia em que se confrontasse com o seu próprio fim. Ou talvez chorar não fosse tão importante.

Porque é importante? Se era chorona? Se chorava ao finalizar um romance, se chorar era só isso. Lágrimas, uma expressão biológica.

Ia abandonar-se ao silêncio do deserto, seco, amargo e esperançoso. Olhando uma miragem, agarrando-se a um resquício de imaginação, criando continuidade para aquele fim. Sem se dar ao luxo dessa banalidade, chorar.



terça-feira, junho 11, 2013

Ensaios VII


Que se passa com as paragens de autocarro? Lugares escuros e húmidos, como cavernas urbanas.
A antítese do aeroporto. Da luz, dos espaços brancos e arejados.

A paragem do autocarro é esse sítio de ar estagnado, do cheiro a borracha queimada e a casas de banho usadas.

A alcatrão, que escorre pelas paredes enegrecidas de betão inacabado.
Que se passa com as paragens de autocarro?

Lugares escuros, com pessoas tristes. De gosto discutível e trajes estranhos, carregando quase sempre fardos demasiado grandes para si, dentro de malas apertadas que parecem impossíveis de carregar.
E esse cheiro a dióxido de carbono, essa neblina negra que se cola na pele, esse desconforto.

Num a aeroporto existe essa sensação de possibilidade, de dinamismo, de vidas que estão a acontecer. Paira no ar essa sensação de esperança.

Na paragem de autocarro desfilam os condenados, os fugitivos, coisas más podem acontecer nesse sítio. Essa espécie de caverna, nesse ecossistema urbano, quase subterrâneo.

A paragem de autocarro.



quarta-feira, maio 29, 2013

Ensaios VI

"Blessed are the hearts that can bend they shall never be broken."

Camus, A.

Esperamos que passe. Um dia há-de passar.
Esse travo amargo de boca, essa certeza de que algo ficou perdido entre nós e a verdade dos momentos.
Ente nós e os outros. Entre nós e a vida que estava a passar.

Inevitavelmente perdido. Num qualquer vazio de tempo onde ficamos condenados à nostalgia. A esse travo amargo que não passa.

Como se a vida se estivesse extinguido e nada mais houvesse para além disso. De um luto perpétuo, do qual só poderemos desejar que um dia passe.

Extintos e passivos dentro de nós mesmos, remoendo a certeza de que não podia ser diferente. Desejando ingenuamente que fosse.

Esperamos apenas que passe. As horas, os dias, quem sabe os anos. Esperemos que não dure para sempre.
Que se recupere, que se sobreviva.

Que um único erro, não cresça e ganhe raízes, como um tumor, que um único erro não seque tudo em seu redor e nos mate, de incertezas.






segunda-feira, maio 06, 2013

Momentos de comunhão


Há num concerto um linguagem universal que nos une.  A todos os que lá estão, os que sabem a letra de cor   aos que apenas batem o pé ao som de ritmos mais ou menos desconhecidos. Os sóbrios, aos alcoolizados, aos viajantes dos fumos que por lá passam e de tudo o mais, une adolescentes e gente vivida, todos num mesmo recinto, cantando num coro emocionado.

Um concerto, quando é bem executado, quando os que estão no palco amam aquilo que estão a fazer e isso se consegue sentir a cada segundo, a qualquer distância do recinto é um momento de comunhão extraordinário. 

Tudo o que sentimos quando soa a nossa música favorita e as 10.000 pessoas que ali estão a cantam todos juntos, num coro que se eleva sem amplificação e se mistura com as vozes do palco, momentos desses são inesquecíveis e a única coisa capaz de explicar as horas que aceitamos passar de pé, as filas intermináveis para a cerveja ou as inarráveis casa de banho dos festivais!

Ontem no Nght & Day nos jardins da Torre de Belém sentiu-se tudo isso quando os The XX subiram ao palco. E foi realmente um concerto brilhante, com uma plateia rendida desde o primeiro momento e uma banda feliz em palco.

Mas houve mais, houve muita e boa electrónica de John Talabot ao DJ Set do Jamie XX e a noite a fechar com James Murphy.

E houve gente bonita num cenário coroado pela torre de Belém. Portugueses, mas também muitos estrangeiros, numa noite morna de primavera.

Há concertos que guardaremos na memória. The XX será um deles!