domingo, abril 28, 2013

Ensaios IV

"Estava a afogar-se em si. Naquele charco escuro de emoções indecifráveis. Sentia o ar a faltar-lhe, engasgava-se na sua própria saliva e por momentos a sua vista toldou-se, o mundo cobriu-se de negro, poderia estar a morrer naquele momento, afogada nas suas entranhas acossadas."




É sempre mais fácil ser-se mau, sentir coisas feias, espumar de raiva enquanto se imagina que o mundo uniu forças para nos maltratar.

Dá-nos força espernear até ao fim, gritar coisas infames, achar que doí um pouco menos se espalharmos a dor.

E depois, como se fossem pequenos picos de adrenalina pode parecer-nos mais fácil estar vivos se formos significantes, se nos for permitido dizer, sentir, pensar o que bem nos apetecer.

Iliba-nos, ser simplesmente maus, porque só o podemos ser em resposta, porque nos livra de culpa, somos maus, porque nos fizeram ser assim.

Deixar ir, perdoar, aceitar, começar de novo, amar em silêncio aquilo que já não podemos ter, nem ser é difícil. É um esforço constante, é exigente, é pura abnegação. 

Deve ser por isso que há tanto mal no mundo, ser-se mau é fácil, é simples e instintivo. Está em todos nós, é visceral.

Ser-se realmente bom, humilde, viver em paz é uma obra nunca acabada, é um caminho longo feito contra a corrente. É a mente todos os dias a lutar contra o sangue que nos pulsa nas veias, contra um coração que bate apertado e explode por vezes dentro de peito. 

Dentro de nós, é essa luta consciente. Entre aquilo que somos e o melhor que podemos ser...

sexta-feira, abril 19, 2013

Ensaios III


A estrada tortuosa está ladeada de pequenos muros de granito. Pequenas pedras empilhadas à força de braços, o labor de gerações limpando terrenos, abrindo campo, criando espaço.

No inverno,  essas pequenas pedras ficam manchadas de verdes. Escuros e claros, tufos de musgo indisciplinado e as oliveiras entristecidas pendem sobre  as silvas que crescem ao sabor da humidade que paira nos pontos sombrios.

As casas caiadas, estão também elas manchadas, de pedra, musgo e de anos de abandono. Por detrás da fachada da frente nascem barracões, por entre caminho empedrado e ao acaso, são plantados vasos de flores, casotas de cães e alfaias que ficam perdidas no tempo e no desuso.

Na maior parte das vezes a estrada tropeça em casas vazias, denunciadas pelas ervas que crescem à porta. Outras vezes, há apenas ausência de vida. Estão já esgotados os risos infantis e os latidos dos cães, presos nos terrenos, ecoam desoladamente sozinhos.

Ao longe pode ver-se o serpentear da estrada. E vê-se que sobe, curva contra curva pelo vale até desaparecer para lá do topo da colina

O sitio parecia esquecido pelos Homens. Onde o dia ainda se fazia ritmado pelo bater do relógio da torre da Igreja.

Num desses lugarejos onde os homens ficam velhos encostados ao mármore encardido do balcão e as mulheres se apagam dentro de uma bata às flores encardida. Bata que um dia substituem pelo negro perpétuo enterrando-se em vida.
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Mantinha-se sentada à empena da casa, encolhida numa cadeira baixa de pau, aproveitando a medo o pouco sol doentio.

Tapava a cabeça com um xaile coçado de malha, herdara de alguém da família. Peça pesada, de um negro sepulcral, um sinal da sua condição de vida.

Observava o silêncio dos seus dias. Era tal a quietude do sitio que poderia adivinhar quem lá vinha pelo trepidar da estrada. Conhecia-os a todos. Aos poucos que por aí passavam, contornando os muros de granito subindo às hortas, conduzindo gado.

Lembrava-se de quando era jovem e ainda brincavam crianças na eira, os seus gritos infantis ecoavam pela encosta replicando-se pelas casas , contornando o adro da igreja.

Lembrava-se de si. De si antes do negro do xaile.
De ser mais alta, antes de se curvar perante o peso do tempo. Dos passos leves e ágeis, dessa alegria ingénua de viver ao ritmo de cada dia.

Fitava a suas mãos enrugadas.Os mesmos dedos longos e tortos, a aliança que nunca tivera coragem de tirar, as suas mãos, agora as mãos de uma velha sentada à empena da casa ao sol de inverno.
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Estavam mais homens à porta do que dentro do café. Estava frio, e o sol doentio de inverno batia na empena da casa à altura dos joelhos e fugia a passos largos para se por por detrás da colina.

Estava encostado à soleira da porta e brincava com as fitas velhas e sebentas. Observava ao longe a velha de negro.
Sempre sozinha. Sentada no banco baixo, encostado à parede caiada, de xaile pesado pela cabeça.

Não lhe lembrava de a ter visto noutro sitio, como se tivesse sido ali colocada já velha, já curvada pelo tempo, já coberta de um luto perpétuo, já esquecida pelos dias.

Impressionava-se ás vezes por aquela solidão. A solidão que não conhecia. Na qual não pensava, mas que temia. Qual seria a sua história? A história desse luto, desse silêncio. Não podia deixar de se perguntar.
Espreitava a rua meio a medo, meio dentro meio fora. Fugindo de todas aquelas vozes alteradas, do fumo do tabaco que se misturava no ar com o azedume do vinho a martelo.

E ali, no meio de tanta gente comparou-se com a velha do xaile negro. Naquele dia de inverno, encostado à soleira da porta, queimando mais um cigarro olhou de novo a empena da casa. Mais um dia na vidas dos sós....

E sentiu por momentos, como se tivesse companhia.

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quarta-feira, abril 10, 2013

"Começar a pensar é começar a ser atormentado" Camus, A.



Quando era adolescente achava que era de esquerda. Ser adolescente no virar do milénio era isso.
Ser-se despreocupado, muito liberal e intrinsecamente livre. Se eles defendiam o aborto, a despenalização das drogas e outros assuntos fracturantes da sociedade era com eles que estávamos  porque nada mais havia para defender.

No interior das nossas casas de classe média a vida prosperava e dava para os gastos, o futuro estava traçado numa qualquer universidade, bastava-nos fazer a nossa parte. Podíamos então ser rebeldes sem causa, apolíticos, amorais e despreocupados. As discussões de mesa de café poderiam ser sobre tudo, sobre futuro, o ultimo concerto unplugged da MTV, ou aquele filme ou a festa de logo à noite. Nunca, jamais sobe essa questão de fundo: "Quem somos nós, que fazemos aqui, que país é este onde vivo?"

Filhos dos que viveram a revolução de Abril, calhou-nos a sina de ser a geração dos acomodados, sem ideais nem ideologias.

Crescemos ao mesmo tempo que a web evoluía, que os telemóveis vieram para ficar, nesse novo mundo em que a informação está à distância de um clique, nesse mundo onde tudo é acessível, escolhemos não nos preocupar.

Quando passamos de adolescentes para jovens universitários era suposto termos começado a pensar. Observar o mundo.

Mas o admirável mundo académico não mais foi que um convite à boémia e à aprendizagem acrítica de uma qualquer ciência.

Devíamos estar a falar do mundo nas meses de café, mas como poderíamos falar de um mundo que não conhecíamos? Tivemos quatro anos para viver de forma livre. Para acabar as cadeiras em serviços mínimos nas sucessivas épocas de exames, para gastar os trocos em minis e esperar que não nos chumbassem por faltas.

Alguns de nós líamos livros ou víamos filmes pelas madrugadas de copos, aprendemos coisas.

Li Milan Kundera e ele falou da Primavera de Praga e a esquerda deixou de ser livre para mim. Como li Philip Rooth a imaginar a América sob uma conspiração de direita, e a direita não poderia nunca ser atractiva para mim. Li Orwell e qualquer sistema que limitasse a liberdade dos cidadãos era o fim, li Garcia Márquez e nas suas histórias a  inquietude de uma América do sul que não se conseguia encontrar no meio de ditaduras e golpes de estado e as guerras pelo poder tornaram-se impensáveis para mim. Li Camus, o absurdo da vida que explicava tudo isso…

Conhecia assim um mundo romanceado dos sistemas. A minha geração não leu manifestos, não sabe o que disseram os filósofos,  espera única e simplesmente que  vida flua como um rio, desresponsabilizando-os dos estragos da corrente.

Chegamos ao dia de hoje neste impasse, a não compreensão do mundo que nos rodeia. Porque estamos nós a viver esta crise?

Quem é a direita, quem é a esquerda? Que sentido fazem hoje sistemas políticos herdados de um mundo pós-revolução industrial? Renovados no pós-guerra? Que sentido fazem, estas definições, baseadas na organização do trabalho, quando o paradigma de trabalho mudou tanto, ao ponto de ser irreconhecível?

Ainda assim, deveríamos saber quem é quem. Porque é desesperante não saber de que lado estar, em quem acreditar, que teoria defender.

Hoje, jovens adultos somos inertes, porque sofremos de iliteracia politica crónica.  Porque não nos preocupamos, porque não fomos educados para nos preocupar, porque o mundo contemporâneo criou-nos esta sensação de liberdade falsa, uma sensação que não incluía deveres. Apenas direitos.

Hoje já não sou de esquerda. Mas não sei que possa ser. Não acreditando numa organização politica que considero desenquadrada, nem numa democracia desajustada retrograda e ultrapassada que posso fazer eu?

Continuar a viver e a votar no mal menor? Aceitar que não percebo o que ouço, que há coisas no mundo da política que simplesmente não têm explicação? Estão no limiar do absurdo…

Mais desesperante do que acreditar no lado errado...é mesmo não ter no que acreditar.



quinta-feira, março 07, 2013

A ressaca

"O álcool parece ser único estimulo que Pavelov não poderia explicar. Voltamos a ele, mesmo conhecendo o único resultado possível, a execrável ressaca." 



CAPITULO I 
Acordar 

Não acordou, foi antes violentamente arrancada de um túmulo profundo onde jazia a sua mente inerte. O vazio profundo de repente trazido à confusão da realidade, num inspirar de ar ofegante, como se só naquele momento o seu corpo tivesse tomado consciência do importante que era respirar.

Lutou algum tempo contra a incerteza de saber onde estava, quem era, como fora ali parar. Ficou por uma fracção de segundo revendo os últimos momentos de vida, em flashes, como dizem que fazem aqueles que estão prestes a morrer. Mas as suas horas não tinham nexo, não vinham organizadas numa cronologia, eram apenas lapsos de si, ou de alguém,  alguém dono dos despojos sepultados naquele lugar lubrege, bafiento e de cheiro indefinido mas desagradável. 

Um misto de suor alcoolizado e saliva gasta, misturada com várias nuances de tabaco exaladas pelo cabelo, pelas roupas espalhas pelo chão e pela sua própria pele que estava baça e seca com o trigo no pico do Verão. 

Engoliu então em seco, e foi invadida por um sabor acido e amargo no qual conseguia ainda reconhecer traços de gin. À língua seca, e a esse sabor que sabia ser perpétuo por um dia, juntava ainda uma dor aguda e gritante que se lhe instalava nas fontes, um peso morto na parte de trás da nuca e um mal estar corporal generalizado. Uma espécie de constipação que lhe pesava nas pernas, embora ainda não se tivesse levantado.

Recusava-se a mexer, parecia que se o fizesse alguma bomba explodiria dentro do seu crânio,  no entanto, a bexiga gritava também e a sua mente confusa teve de ceder.

Em movimentos penosos e lentos, pousou os pés no chão. Um alivio, entre-cortado por uma tontura nauseada, reconheceu o seu tapete, felpudo, macio e quente. Ao mesmo tempo que caia sobre o seu corpo defunto o peso dos excessos, respondia a primeira pergunta. "Onde estou? No meu quarto." 

E a cada passo que dava o peso do seu corpo magoado abatia-se sobre si. Uma dor abdominal consistente com um estômago deslavado, uma sede que prometia nunca ficar saciada e aquela confusão mental, que a deixou perplexa a olhar para o  espelho, tentando reconhecer-se no reflexo embaciado.


Capitulo II
Viver

A falta de sono acabava-lhe com a tolerância. Para si, para com os outros e  para com o mundo. Ainda mais naquele estado desorganizado de ideias, aquela meia amnésia  baralhada que a afectava.

Avaliava cada rosto com esperança ténue de reconhecer alguma expressão, alguma dica de que a tinham visto na noite anterior. Algum vislumbre de uma conversa que não se conseguia lembrar ou algum olhar de lado que significasse algo de embaraçoso que a sua mente resolvera simplesmente apagar.

Mas o mundo padecia todo de uma apatia generalizada e inexpressiva, e a sua mente baralhada e ansiosa por se lembrar afundava-se em considerações auto-recriminatórias sobe as suas opções.

Ainda assim preferia o silêncio àquelas conversas banais, a ter que dar assistência a pedidos, a explicar situações  ou a ter de esforçar-se para ser um ser social.

Mas ninguém parecia disposto a dar-lhe esse beneficio. Insistiam em perguntas, em revisões ou em tarefas urgentes e o seu ser ensonado e confuso vergava perante um estômago dorido, uma cabeça pesada e um hálito vergonhoso. Podia senti-lo.

"Porquê?"-  perguntava-se. 
"Porque não me deixam estas pessoas velar a minha morte prematura, num silêncio franciscano em reclusão, em jejum de pão e água, ou aspirinas e vitamina C."

Ao longo do dia a esperança esgotava-se em si com o cansaço, os olhos pesados, a paciência perigosamente no limite, a confusão insuflada pela frustração da amnésia, a língua ainda mais encortiçada e aquele sabor intragável que não desaparecia.

A sede insaciável pedia mais agua, mas o seu estômago não mais a queria. E num ou noutro momento de clarividência vinha-lhe uma ideia. "Estive aqui. Disse algo ali, tropecei em alguém, quem era aquela tipa?"

E quando por fim chega o final da tarde, e arrasta o seu cadáver pestilento  para casa, há já um pequeno guião da noite. Vislumbra já quem é, imagina porque está ali e aceita que se a sua mente se esqueceu, ninguém reclamou, não deve ter sido importante.

Capitulo III
Dormir

"Há dias que simplesmente tens de viver" pensava. Por mais que se deseje deitar e só acordar depois de amanhã.

Arejára o quarto e mudára os lençóis. transformara o cheiro bafiento e alcoolizado em perfeita harmonia de amaciador de flores e incenso. 

O seu corpo maltratado deitava-se agora numa alcova confortável esticava-se exausto pedindo um sono reparador.

Na mente imperava ainda um névoa de confusão. "Tinha sido boa a noite anterior? Havia se divertido?" 
Tentava reviver esses momentos, o escalar de entusiasmo, os membros que se soltam e as palavras que ficam fáceis.

Os risos colectivos das piadas que não diria noutra ocasião e os pensamentos partilhados num ambiente de cumplicidade entre amigas.

A música que cresce dentro de si, pulsando, acelerando o sangue que bombeia o seu coração e as luzes frenéticas liderando todo o movimento em volta de si.

Podia reviver esses momentos, mesmo na névoa dos acontecimentos. Lia em cada um desses momentos a fado do dia seguinte e ainda assim, durante a sua vida esses dias execráveis continuavam a acontecer. A si e aos que a rodeiam. Até mesmo àqueles que reclamam não ter ressacas e aguentar todo o álcool do mundo.

Pensava que nunca poderia ser alcoólica  jamais aguentaria acordar assim todas as manhãs. Mas em última análise, isso seria a sua ultima preocupação quando começasse a beber.

"Inexplicável". O Álcool parece ser então um condicionante que não conseguimos apreender. Da acção surge sempre o mesmo resultado. E o resultado é mau.

Pensava  "valerá o mal que faz pelo bem que sabe?"

 Ou a nossa necessidade de alienação não tem limites?

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Os dias...


Imaginava os dias, uns a seguir aos outros como pessoas esperando numa fila. Cada um sendo único e especial. 

Cada dia tendo vontades, desejos e necessidades. Cada dia sendo individuo carregado de personalidade. Um dia, sendo recordado. Uns mais especiais que outros e no meio de tantos dias, aquele dia que nunca se poderá esquecer.

Dez anos de dias apresentando-se numa fila. Desfilando perante si. Sorrindo ou chorando, sendo maravilhosos e memoráveis ou odiosos e para esquecer.

Todos esses dias. Únicos e insubstituíveis. Partilhados. Uma história escrevendo-se a duas mãos. 
Esses dias seus conhecidos. Dez anos de dias, onde foram felizes e tristes e amaram e gritaram e se feriram e falharam e venceram e fizeram brilhar o mundo.

Num desses dias algo quebrou...continuava sem o reconhecer. Esse dia infame...
E agora todos os dias são perfeitos estranhos para si.

domingo, janeiro 27, 2013

Ensaios II


Desviou o olhar num gesto mole e fixou o linha do horizonte. O sol punha-se num mar de vermelhos."O dia será quente amanhã." pensou, enquanto tentava por momentos  fugir da sua situação.
Continuava sentada naquela cadeira familiar, na mesa onde tomara tantos cafés em tardes de sol, em muitos daqueles domingos em que saiam para passear. 
Lembrava esses dias. Da brisa morna da primavera em tardes de Março, de como se esquecia de que o dia eventualmente iria arrefecer e precisava sempre do seu regaço até chegar a casa. 
As suas mesas de café, os jornais, as revistas tudo espalhado e aquela linha de horizonte. Enorme, a perder de vista, como a perder de vista eram as suas emoções.
Agora, naquele estranho momento que partilhavam tudo isso parecia demasiado longe.
Ouvia apenas um estranho eco distante, por entre explicações e conversas mal resolvidas.
Como se tivessem varrido o chão todo para debaixo do tapete, e agora o tapete desaparecera. Tudo continuava ali.
Atenuado pelo tempo, meio esquecido mas latente, como pequenas brasas que ficam perdidas no meio da cinza, mortas mas capaz de ressuscitar com um sopro na manhã seguinte.

«»

Reparou naquele gesto tão típico nela. O ausentar-se por momentos, como se tudo o resto perdesse de repente a importância e só ela estivesse ali. O olhar fixo num ponto distante, tinha agora a certeza que ela não o ouvia, nem mesmo quando respondia que sim ou que não, ao acaso jurando que tinha prestado toda a atenção.
Sempre fora parte do seu encanto, ser esse ser impenetrável, com essa imaginação galopante e que se ria sozinha perante um qualquer acontecimento imaginário.
Continua a ter aquela mesma expressão algo infantil, mesmo após tantos anos, conseguia ainda reconhecer a  menina que conheceu.

«»

Perguntava-se constantemente remexendo na memória: "Onde, em que ponto...porquê?" 
Em que momento a vibração do ar deixou de lhe arrepiar a pele, em que ponto as palavras deixaram de fazer sentido e no meio de todas aquelas coisas deixaram de se entender. Como se falassem dialectos diferentes de uma mesma língua.
Houve um momento em que algo quebrou e inevitavelmente, nada voltara a ser igual. 
O tempo parou para eles.
E agora ali, olhando de novo aquele espaço tão seu, agora naquela cadeira sua perdia-se a olhar o horizonte para não olhar para ele. 
Conhecia-lhe cada gesto, sentia-lhe o cheiro. O riso,  forma de cada palavra antes mesmo que a pudesse dizer. E toda aquela intimidade, estilhaçada por uma incógnita era demasiado para o seu ser. 

«»

Sabia que aquela era uma conversa que nenhum deles queria ter. Sabia que podia mesmo ser a conversa impossível. Conhecia-lhe o espírito, não podia ter mudado assim tanto. 
Um doce capaz de gelar em segundos e morrer apática antes de dizer uma palavra que não quisesse dizer.
Um ser blindado. Nunca lhe compreendera esse traço, tão díspar daquilo que era. Daquele ar sonhador.
Reconhecia-lhe, mesmo após tanto tempo de separação, aquela expressão distante. 
Um mundo tão grande, uma incapacidade de partilhar. E ainda assim tinha amado-a durante tanto tempo, perdera a contas ao tempo. Reconhecia-lhe o respirar ansioso, sabia que tinha medo de chorar. E ali, toda aquela intimidade estilhaçada tornou-se demasiado para o seu ser.

«»

O silêncio matava-a por dentro. Não haviam palavras para dizer, o que dizer perante algo irremediavelmente partido? Que debater mais, achar que culpas? E depois de tanto tempo, aquela única pergunta não tinha resposta, que poderiam fazer de si mesmos para além de seguirem vivendo, cada um com os seus pedaços daquilo que tinha sido a sua vida?
Agora que os sonhos se tinham perdido, agora que os melhores anos afinal não estavam mais para vir e não se ouviam mais risos soltos pela casa, misturados com musica, com cheiro de baunilha, nas manhãs frescas de verão quando se debruçava na janela e podiam ainda ser felizes.
Não, não saberiam nunca onde, em que ponto haviam deixado de serem eles mesmos. Como poderiam voltar a ser?

«»

Aquele silêncio. Conhecia-o. Sabia que a conversa findara no vazio das incertezas. Sem respostas. Ela não conseguia ajuda-lo a saber onde deixaram de ser eles mesmos, e sentia que não voltariam a ser.
Desviou então o olhar num gesto mole e fitou o horizonte, o sol desaparecia já, a explosão de vermelhos cessava perante a noite que se instalava engolindo tudo o que se podia ver.
Quando a noite o engoliu, levantou-se então. Ela levantou-se consigo, deram um abraço silencioso e por momentos foram eles mesmos, no aperto daquela intimidade, dos cheiros, dos corações que batem ao mesmo ritmo, de dois corpos que vivem a mesma vida num tempo que congelou.
Teriam ficado ali naquele momento que eliminava todas as perguntas que não tinham respostas, mas crianças  correram atrás de uma bola perdida, um cão ladrou na varanda e o mundo recomeçou a girar e estilhaçou-os de novo.

«» 

Soltou-se daquele abraço num pranto interior. Partiu lentamente por uma rua que não era sua, até que a imagem dele se diluiu engolida pela noite.
Foram iguais a si por momentos, queria ter agarrado esse momento, agarrado em si e nele e não os ter deixado fugir.
Mas gelou. Nas perguntas sem respostas, nos cacos de si que já não se aguentavam mais juntos.
No escuro daquela noite sentiu-se a desaparecer.
Sentiu a certeza que nunca poderiam sarar aquela ferida.






sábado, janeiro 26, 2013

Ensaios I



O Silêncio. Um eco sem cor vibrando pela casa. Todos esses lugares comuns, o pó dos móveis e os papéis abandonados ao acaso.
O cheiro familiar, algo adocicado, misturado com o comer de ontem, perdido na memória do dia.
O escuro da luz neutra, baixa para não ferir os olhos. Tudo no silêncio da casa.
A sua casa, tão sua uns dias, outros completamente indiferente.

Não havia pronunciado uma palavra naquela semana. Foi como se as palavras fugissem de si, se escondessem num qualquer recanto da mente, se recusassem a formar as ideias que cresciam no seu ser.
Quedara-se num canto da casa na penumbra, olhando ao longe um fio fino de paisagem por uma nesga da janela.
E via, no chão de madeira o dia a passar, as horas marcadas por sombras. Dias radiosos de sol pelo brilho do soalho, aquele dia triste de chuva pela triste escuridão da casa.
Pensou que se esquecesse as palavras, se permitisse que elas se esvaíssem de si aqueles sentimentos que a atormentavam desapareceriam também na ausência de significado, na impossibilidade de tradução.
Esperou, inerte. Perdendo um som de cada vez, esquecendo os rabiscos no papel…havia uma semana que não dizia uma palavra.

Quando todas as palavras se perderam por fim, quando não havia mais código nem símbolos, nem formas de se explicar levantou-se por fim.
Aproximou-se da janela, abriu-a. Cheirou o ar e não soube a que cheirava. Nem conseguiu sorrir ao verde das colinas, ao azul do céu.
Não soube como explicar. Perdera as ideias tristes que havia dentro de si…mas sem as palavras perdera também a beleza dos dias.
Sentir nada pareceu-lhe então um horror maior do que sentir algo que ia doer…Não poderia viver em tamanha apatia.

Quedou-se então perante a janela aberta e lembrou-se de um som de cada vez, prenunciando-o ao vento. Esforçou-se pelas noites, contando as estrelas, dando-lhes nomes. Até que uma frase se formou,  depois um conceito, e o coração apertado criou a dor e o desgosto que vivia em si tornou vivo.

E ainda assim, doendo que estava a sua alma, cheirou o ar e cheirava a terra molhada pela geada da manhã, sorriu à beleza do verde das colinas e viu a aurora nascer, o milagre de um novo dia.
Pensou então na sua ingenuidade. 
Pior que sentir tamanho desgosto, é não sentir nada.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

A arte de passar pela chuva sem se molhar...




O dilúvio era bíblico, um exagero de dias cinzentos, opressivos e entediantes.

O cheiro a bafío alastrava pelas escadas,  a vida dentro da casa hibernava naquela atmosfera de estufa onde a humidade era descontrolada. A roupa molhada espalhada, o caos doméstico, a vida suspensa esperando por uma trégua.

As janelas fechadas, chorando a indiferença dos dias, engarrafando o ar estagnado, barrando os sons do mundo.

Estava nesse torpor dos dias, sendo indiferente, existindo apenas. Imaginando areias douradas e distantes ou os raios de sol beijando as encostas da serra. Estava nesse tédio revendo a vida, olhando pequenos instantâneos.

"Havia sempre passado pela chuva sem se molhar." Pensou.

Vivendo em mar de águas calmas. Sem exageros, sem extremos, sem extravagâncias.

Sem grandes riscos...sem grandes recompensas.

Nesses instantâneos de coisas, de pequenas vitórias festejadas em descrição, de derrotas vividas no silêncio, encontrou-se nessa apatia geral.


Essa forma estranha de se mover na lentidão, no escuro do quarto, sem tocar nos móveis. Sem fazer cair os bibelôs. Esse passo em silêncio, planeado...essa apatia que impossibilita a extravagância.

Os rasgos de génio ou as tristezas capazes de arruinar a vida.

Essa apatia geral de sentido. Como se na chuva ocupasse só aquele estranho vazio onde nada cai, e o dilúvio chegasse até si em segunda mão, molhando-lhe apenas os pés, quando a terra encharcada se recusa a engolir mais água.

Abatia-se sobre si essa ideia opressiva de resignação perante a vida. Não a sensação de falha, só a poderia sentir se tentasse.

Mas essa sensação de apatia, de tédio de quem não falha porque não tentou.
Não gritara alto, nunca ralhara a ninguém...nunca fugira ou insistira em ficar. Sentia pouco, ou muito...de mansinho...na apatia.

E então o tempo existente na sala pesou sobre si. Tornou-se espesso, o tempo impregnado de água, frio.

O tempo perante si, ecoando pelas paredes num tic-tac apressado, passando ao ritmo a que o sangue lhe corria nas veias.

Aflito. O tempo afligindo-se por fim. Ansiando... "obriga-te, sai do ponto vazio, ocupa espaço...ignora a arte de passar pela chuva sem te molhares...."

domingo, janeiro 20, 2013

2013...

O ano já se instalou, veio de mansinho, ocupou o espaço que é seu.

Reclama o tempo que está a passar.
As datas que se aproximam, os seus significados.
2013.

2013 seria o ano.
Assim será outra coisa qualquer.

Outra coisa indefinida, cinzenta, vazia.

Poderia dar-lhe o significado. Mas há dias em que não nos reconhecemos para além do vazio deixado por esse momento de perda.

2013 seria qualquer coisa especial...assim não será nada.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Au revoir Montreal ...

Dizer adeus, mesmo que seja apenas um até breve nunca é fácil, já devia saber.
Já devia conseguir aceitar.

Eu, que sempre vivi entre casas. Entre famílias. Entre férias e meses de escola. Eu e as escovas de dentes espalhadas pelos distritos, uma vida de malas feitas, de momentos de ausência, de coisas irrecuperáveis, perdidas.

E ainda assim, dizer este adeus foi mais doloroso, o mais sentido, será talvez mais longo até breve dito até aqui.

Sempre adorei a minha mana mais velha. Sempre. E sempre vivemos separadas. E mesmo assim, pude estar sempre lá.

No primeiro dia da escola. Quando entrou para a universidade, quando arranjou o primeiro emprego, quando nasceu o primeiro filho....

Não vou estar quando nascer o segundo, desta vez é longe a distância...dói de pensar nos meses, nos anos de primeiras coisas que não vou ver... Essa perda, de todas as oportunidades, de sorrisos, de pequenas zangas...essas palavras esquisitas e as reconciliações. 

Todas as vezes que rimos até nos doer a barriga, quando choramos sem razão, quando sorrimos de alegria. 

A vida vai fluir, acontecer. Lá longe, entre ecrãs. Cresceremos sendo diferentes.
O meu puto vai crescer ouvindo apenas o meu eco.

Lembrar-se-á que acordava a tia pela manhã com pequenos gritinhos de alegria? Verá fotos um dia. 

Um inverno, naquele que aconteceu a maior tempestade de neve de sempre, a tia veio. Brincou no tapete da sala, cantou bossa nova para o menino dormir, acordou pela manhã com um abraço cheio de energia...

Porra, posso chorar o resto da viagem, posso fazer o avião todo se comover com a minha nostalgia... Estou em perda. 

Merda, só podemos viver uma vida... Só podemos estar num sítio, ser uma vez. Escolher, sabendo da perda, sabendo como poderia ser diferentes tudo o resto, todas as outras opções, as outras vidas que podíamos estar a viver. 

Devíamos esquecer...devíamos ser felizes na ignorância dos nossos dias.
Nunca, sinto...poderei me conformar com tempo.

domingo, dezembro 30, 2012

Cadernos de viagem V




Nevou como não nevava há 45 anos. A cidade jaz literalmente debaixo de meio metro de neve. A vida passa a ser tudo menos fácil, quando se tem de "cavar" o caminho até casa... 

Ainda assim a vida prossegue, ao ritmo dos limpa-neves, das pessoas que com as suas pás limpam passeios e criam caminhos sobre o manto branco. 

Os carros patinam sobre a estrada, mas seguem cuidadosos para o seu destino e as artérias pulsam lentas, abrindo caminho, até voltaram ao normal, como num corpo que se atrofiou, sofreu um ataque cardíaco e agora luta para se recuperar.

Fora da cidade o manto branco possui os montes, as florestas e toma como suas as águas dos lagos, dos ribeiros que pararam de correr e se negam a chegar ao mar.

Florestas inteiras de pinheiros mansos, tristes sobe o peso do gelo, os seus ramos murmuram sons do norte. Sem pássaros, sem vida que se veja. Um silêncio polar. De uma beleza triste, se podermos encontrar beleza no desolamento, no frio gelado, na paz do silêncio, na ausência aparente de vida... 


A norte, nas pistas de Ski tremem luzes pelas montanhas mostrando caminho àqueles que se atrevem a descer nos fins de tarde gelados, aqueles que brincam e riem alto como se estivessem deitados na areia da praia. Ali, tudo aquilo, esse frio gelado, a ser ignorado... Menos dez, sensação térmica menos 15, totalmente intolerável a seres vindos do sul. 

O Sol surge alguns dias, forte, como se viesse reclamar um lugar que é seu. Surpreendente na sua intensidade, tão fugaz, tão inconsequente que o manto branco apenas brilha e se torna eterno debaixo dos nossos pés.

A falta constante de sol torna as pessoas pálidas, as ruas iguais na monotonia das cores. O branco predomina nos jardins, nos parques, nas feridas abertas na malha urbana, a vida pintada de branco e da neve suja das estradas, um contraste total ao conforto, à beleza sóbria e vivida do interior das casas. 

Depois da tempestade, do vento forte que varreu as ruas criando vagas brancas, esse mal soprado por um céu cinzento e ameaçador, acalmam-se os espíritos. Limpam-se os telhados que vergam com o peso do gelo. Passeia-se em cima de lagos gelados. 

Abraça-se essa condição, inverno intenso, penoso e suspira-se pelos meses que virão,anseia-se.


Sabemos já neste ponto da vida...depois da tempestade, virá a bonança. O melhor ainda está para vir.

terça-feira, dezembro 25, 2012

Cadernos de viagem IV

Mundo dos emigrantes é uma estranha fusão entre o país de origem e o país que os acolhe.

Uma fusão entre gerações nascidas em Portugal e aquelas que já são mais daqui.

Há mesa, fala-se numa língua e responde-se noutra. Come-se daquilo que se comeria lá na terra, mas mistura-se com algo criado aqui.

São pessoas do mundo, mas no centro do mundo parece estar sempre Portugal.

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O Natal é mesmo das crianças. São elas que fazem o caos organizado, é nelas que se sente a emoção do desembrulhar os presentes. Pequenos, grandes, úteis  ou inúteis, roupinhas quentinhas, um mundo de objectos desnecessários um esforço monetário apenas para lhes ver brilhar os olhos na noite natal.

Aqui, num país rico, essa profusão de prendas é ainda maior. O desperdício chocante, de papel de embrulho, de caixas de cartão, de mil e um brinquedos, o carro grande, o pequeno, o eléctrico, o que funciona a corda... tudo mas tudo em grande escala.

Não falamos de consumismo se não falarmos no "American Way of Life", tudo o resto somos nós, lá na terrinha a sonhar que podemos fazer mais do que realmente podemos, é até queremos.

Menos por vezes é mais... mais simples, mais verdadeiro, mais responsável, mais importante... 

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O Natal é sobretudo excesso. Excesso de comer, de beber, de prendas. Excesso.
De açúcar nos doces, nas opções do menu, do tamanho dos pratos, excesso. Lá na nossa terra, no outro lado do mundo, na casa da nossa família ou na casa da família dos outros.

Mas também é desculpa para estarmos juntos, para dizermos aos nossos o quanto gostamos deles. Para sermos, por momentos melhores com os outros.

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28 anos depois houve neve no meu Natal. E todo um imaginário infantil fez, por fim, sentido.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Cadernos de Viagem III

Podemos sentir o pulsar de uma cidade apenas andando de Metro.
As linhas que se cruzam, os nomes das estações, os anúncios nas carruagens ou os sons dos lugares.
As pessoas que entram e saem ao som daquela voz roufenha que debita incessantemente nomes de estações entre o abrir e fechar de portas.
Estações novas e estações velhas, com artistas que tocam instrumentos e nos estendem a mão.

Em Montreal o Metro também pulsa assim. É antigo, com um ar escuro como toda a cidade.
Os edifícios aqui tem esse ar simples, desprendido. Como se nada que não seja fulcral existisse dentro dos tijolos acastanhados.

Não sei se já vi um Canadiano, não sei como eles são. No Metro a mistura é enorme. Chineses, muitos. E muçulmanos, mulheres de burca que se destacam do mar de latinos.

A luta contra o frio também é desigual.
Para aqueles que não são de cá sobressai o "over dressing". Esta sou eu. De gorro, de luvas. de botas que podem sobreviver ao Polo Norte e uma casaco digno de esquimó. 

Naqueles que são de cá sobressai um certo desprendimento. Afinal, dentro dos edifícios o conforto é total. Roupa leve e um casaco digno parece ser o correcto. Mas há quem use T-shirt e ténis, quando outros se arrepiam de frio.

Depois da neve há gelo. E o gelo é pior que a neve. Escorrega. É uma armadilha inesperada, brilhante e fatal para os distraídos.
Olhar para onde se põe os pés é obrigatório!

Hoje fiz a primeira visita à parte velha da cidade. A Place D'Armes ou o Old Port, passando pela Place Jacques Cartier.
É uma mistura de edifícios oitocentistas com um certo ar europeu. Faz lembrar o velho mundo, renovado e organizado em ruas largas e rectas.
Há bandeiras de todo mundo espalhadas pelos edifícios e tropeça-se em muitos restaurantes. Portugueses, italianos, chineses, franceses, de sushi misturados com a velha McDonald's, a Starbucks ou o Burguer King.

Cheira constantemente a comer nas ruas, a comer daquele que não faz bem. E na mão das pessoas que passam há muito café quente, em doses XXL.

E afinal há café bom, mesmo desses grandes. Aguados e tão distantes do nosso expresso.

O café é assim, grande e quente, para se beber devagar, aquecendo aos poucos por dentro. Sendo o par perfeito para os dias frios que se vivem aqui!

terça-feira, dezembro 18, 2012

Cadernos de Viagem II



Uma viagem de avião que demora 8 horas é basicamente um domingo de ressaca. Sofá, filmes maus e comida pior.

Sentamos inanimados ate que os ossos doam. Há almofada e manta e monitor e o controlo da programação. É sentar e descontrair.

Nesta viagem sentou-se a meu lado um casal português. Idosos, retornados de uma via inteira de trabalho no estrangeiro, iam de visita aos filhos. Ambos largos, americano XXL, grisalhos e com ar de vizinhos do lado.

Na América deviam ser os portugueses numa qualquer comunidade perdida do Connecticut.

Devo ter este ar complacente, as pessoas falam comigo, não porque querem conversar, mas porque querem falar, ouvir-se. Querem que alguém lhes acene com a cabeça num gesto de concordancia, mesmo que seja um simples acto de simpatia, apenas e só. Uma condescenencia.

Este retornado e dos arrependidos, um daqueles que continua a viver o sonho americano. Portugal e apenas aquele pais perdido onde tudo vai mal.

A conversa não ia mal, mas o velhinho grisalho era algo xenófobo e ate racista...o que me desconsertou. Como pode alguém que viveu toda a sua vida sendo sendo estrangeiro num outro pais pensar assim?

Todos os outros emigrantes tinham algo de errado e eram o mal daquela grande nação...ser português e então uma espécie de posto, que maus são os de Porto Rico, ou os pretos...

Eu sou condescendente, podia dizer-lhe o quanto me parece estranha essa posição. Mas quem sou eu, não sei, não vi. Ouço e analiso. No mundo há gente que pensa de tudo.

Num avião desses, em que vamos emparedados em bancos de três, as horas são lentas e o tempo imperceptível num fuso horário sempre em mutação.

Há sol por cima das nuvens. Um mar delas brancas a perder de vista e um eventual rasgo de azul a lembrar que la por baixo há uma imensidão de oceano. Horas de vazio, sem chão em que e melhor não pensar.

Entre filmes e series e musica o tempo passou pesado no corpo. Chegar a Newark foi um alivio. Newark e um aeroporto a perder de vista. Com comboio que nos leva entre terminais. De noite, na partida o mar de luzes e lindo, organiza aquele transito de aviões em linha para partir. Como numa qualquer estrada.

O café era mau, o WiFi não se deu com o meu samsung e havia gente, muita gente pelos corredores.

Não consinto no meu dia-a-dia ver tanta gente junta. De tantas cores e feitios. As malas que trazem, as roupas que vestem. Pequenos pormenores que nos denunciam, que nos permitem adivinhar de onde vem. Os gestos largos ou discretos, um ligeiro sotaque no inglês, ou talvez um apenas traço tao especifico na fisionomia. Esse ar latino ou chinês que os trai nas filas da alfandega e da problemas na imigração. Ter um ar ocidental, limpo, europeu ajuda. Ninguém me deu outra coisa que não sorrisos. Ninguém fez perguntas desnecessárias ou revistas inapropriadas. Mas e longo o processo, de fila em fila, decalça os sapatos, calça os sapatos, passa no detector de metais vezes sem conta. Oferece sem mais as tuas impressões digitais completas para as bases de dados do FBI e entras. All Clear.

Exausta por fim, a caminho de Montreal num mini-avião da embraer, que parte atrasado e treme, Meu Deus treme com a turbolencia.

Num daqueles tremores que nos lançam o estômago no vazio e nos da uma vontade inédita de rezar.

Quando se avista a linha da costa de Montreal e já outro dia em Portugal.

A cidade imensa por debaixo de nos, as luzes a perder de vista um sabor a natal nos prédios.

Avista-se o Old Port que morre numa cortina de mar gelado.

Ve-se neve pelos parques e são brancos os jardins.

Começa assim a viagem. Neste dia tão longo que não há memoria. Com esta admiração pelo mundo, com todas estas imperfeições, com as pessoas, cada pessoa sendo um mundo em si.

Há momentos na vida que nos deixam assim, a sentir que no fim de tanta turbolencia, o melhor esta mesmo para vir.





P.S. A falta de acentos e outros erros devem-se ao desconhecimento do modo de funcionar deste Macbook. Mas vou trabalhar nisso!

domingo, dezembro 16, 2012

Cadernos de Viagem I



Se o que importa não é o destino, mas sim a viagem, começo em modo sem destino nem objectivo.

Sem preconceitos, nem ansiedades ou perspectivas.

Porque as viagens podem ser mais que movimento físico e terreno ou olhares espantados para o admirável mundo novo que há do outro lado.

As viagens podem ser momentos de profunda introspecção, de projecção de nós no vazio, fora da zona de conforto, dos lugares comuns, nós num sítio inesperado, onde somos abstractos e sozinhos, rostos desconhecidos na multidão.

Gosto de viajar, embora seja avessa ao desconforto. A muitas horas de vazio e coisas pouco familiares. 

Mas gosto de aeroportos, daquele movimento. Da mescla de pessoas que se cruzam, uns despachados e senhores do sítio, outros com ar desajeitado de principiante.

Vidas inteiras dentro de malas, sorrisos de quem vai viver as férias da sua vida e choros de quem vai partir sem data para voltar. Tudo misturado com o som que anuncia partidas e chegadas e as luzes dos painéis de informação, que vivem em movimento perpétuo.

A luz das lojas das zonas de embarque e o avião, o céu, o mundo de possibilidades espalhadas pelos corredores. 

Os aeroportos são mágicos por isso, por esse sentimento de possibilidade. Algo sempre a mudar…

Não conheço o sítio para onde vou. Não conheço as temperaturas que vou encontrar, não sei sequer, se o meu espírito tropical vai aguentar o choque térmico.

Mas estou ansiosa por partir. Começar. 

Entrar no avião e ir, simplesmente. 

Estar na viagem.


quinta-feira, dezembro 06, 2012

Divagações sobre o Tempo IX

"No começo, todas as coisas são boas. Mas como é raro, na história dos homens e das pequenas ou grandes cidades, que sejam boas quando chegam ao fim!
Então, tudo se desfaz. Fica só a gordura. Tudo alastra. O tempo desarticula-se. O leite azeda. De noite,  os fios que escorrem do alto dos postes contam histórias de terror no nevoeiro. A água dos canais desaparece por baixo da espuma. As pedras de isqueiro, riscadas, não fazem faísca. As mulheres, tocadas, não têm calor.
O verão, de repente, chega ao fim.
O inverno põe neve nos ossos.
É tempo de nos virarmos para a parede."

A Morte é um acto solitário
Bradbury, R.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

As ruinas...

Foto: Paula Barbosa - Praia do Alamal, Gavião, Alto Alentejo


"Não gostava do frio. Mas podia compreender a beleza nostálgica das cores de Outono. A morte vegetal em tons garridos, os cobres da terra, os castanhos secos espalhados pelo chão. 

Uma lenta decadência, o mundo em desconstrução, morrendo aos poucos na geada. Sucumbindo por fim. 

Quem pensou que o inferno era um sitio quente, não viveu este frio. Este frio amargo que entra nas articulações, que doí nos joelhos. Os músculos que tremem em espasmos incompreensíveis,  os dedos que paralisam nas mãos.

E vem com o Outono. Este frio, adágio do mundo em ruínas."




terça-feira, dezembro 04, 2012

Os dias…



Que passam sem darmos conta. Excitantes, uns a seguir aos outros, cheios, intensos e depois, se esvaecem no tempo, se perdem, deixamos de lhes sentir a essência.

Como um momento alto, um abuso de substancia alucinogénia, os dias, esses dias tão específicos por que lutamos e vivemos, por que esperamos… que inevitavelmente nos abandonam numa ressaca colossal.

A ressaca emocional, um sofrimento silencioso: o tédio da existência.


domingo, novembro 25, 2012

Me, myself & I


Estou ainda maravilhada com esse milagre: o corpo.

O meu, que me responde, que doí. Que está vivo.

Que insiste e prevalece, que quer estar sempre à altura da minha mente, que insiste em não me desapontar, mesmo que doa, mesmo que pareça demais, mesmo que o instinto seja parar, gritar e desistir.

E nesse ponto nos encontramos, sendo o equilíbrio ténue mas estável, sendo ao fim de tantos anos uma coisa só. Eu.

Tendo a certeza de que esta é a mais perfeita projecção que existe de mim. Sem pesos, sem massa, equilibrando-se nas falhas, encontrando nos limites a compreensão. 

Algo que eu posso esticar, trabalhar e sentir. Um corpo em que confiar, o meu.

Imperfeito, caprichoso, tão humano como todos os outros. Pronto a falhar, a ser doente...a abandonar-me e morrer.

Mas meu, sendo eu. Aqui e agora cheio de vida!

E ao fim de tantos anos de incerteza, de conflito e de luta, de imagens distorcidas e de ideias desfocadas, a paz enfim.

Porque corremos juntos. Sempre.


quarta-feira, novembro 21, 2012

Divagações sobre o amor II



"Ainda sentes o que poderíamos ter sido? Todos esses lugares onde não fomos, as palavras que ficaram por dizer? Esses momentos todos só vividos dentro de nós, num qualquer recanto de uma sala de espera, quando sonhar ainda era permitido?

Ou apenas te perseguem as sombras dos dias feios? Desses pecados que cometemos, dos nossos lados negros se confrontando...Os silêncios obscenos, as ideias a fugirem de nós, a quedarem-se esmorecendo, perdendo sentido, cessarem por fim.

Olhas para trás e encontras apenas destroços de ti, misturados com as ruínas de nós. Essa obra sempre em construção, sempre em aperfeiçoamento, sempre perdida de exaustão.

E depois esse outro lado, esse teu lado absurdo de ser, ainda o vês a tomar conta de ti? Esse ser expectante, sempre a desejar mais, impaciente, curioso, sempre insatisfeito...inquietante.

Que vês desse ponto agora? Agora que parece não mais importar. Agora que se disseram os imperdoáveis, que se fizeram as coisas impensáveis.

Que vês agora? para além dessa vontade metafórica de morrer e nascer noutro lado, sendo qualquer outra coisa, existindo para lá desse fracasso.

Porque no esgotar das palavras surge esse fracasso. De todos os esforços, do empenho, de tudo o que foi sincero, ansiado e vivido.

Um enorme fracasso, um mundo destroçado. Ruínas.

Poderias pensar em tantas outras coisas. Mas amei-te. Muito, tanto, todos os dias, mesmo naqueles em que te odiei visceralmente.

Porque não existe em mim apenas luz,  a minha inquietação é cheia de recantos feios, de sentimentos obscuros. A luta é constante... não sou boa de natureza, mas sei. Posso ser melhor, posso racionalizar-me, posso recalcular-me....

Posso um dia superar esse fracasso. Quem sabe, um dia perdoar-me por ter fracassado. Por não ter sido boa o suficiente. Não fui boa o suficiente na maior parte das vezes...

Eu sei."