domingo, agosto 18, 2013

“Espero alegremente a saída – e espero nunca mais voltar – Frida”.


Fixava o tecto branco há algum tempo, um momento de lucidez que lhe tinha dado. O tecto branco, uma tela de cinema, imaginava, nunca tinha ido a um. Tantas coisas que nunca tinha feito, e agora era tarde.
Estava presa naquela ruína de corpo havia demasiado tempo, uma eternidade. Tinha de chegar uma hora, um momento em que a natureza lhe permitisse partir.

Se havia limbo, se pagamos nesta vida pelos pecados das outras, aquela ruína tinha sido o seu castigo. Um corpo rude, destinado a sofrer.

Gostava de lembrar do prazer de algo, talvez dos dias da juventude, mas esses dias são tão longínquos que surgem por entre o nevoeiro. E ainda assim, já nessa época lhe doía. Os ossos daquela estrutura, larga de ombros, filha de gente do campo. Lembra-se dos pés frios dentro da água do arrozal, das feridas que não saravam, os tornozelos.

Olhando assim para trás, aquele ambiente asséptico, estar ali parada, presa em si era quase bom. Não era mais alta e os ombros mirraram sobre si. Murchou. Mas estava morna, havia sempre o que comer.

Foi tarde, mas vieram os filhos, eles visitam, ouve-os, ao longe. Mesmo quando só já consegue fixar o tecto. Lembram-lhe desses dias, as dores nos quadris e ela ainda dentro do arrozal, até ao ultimo momento. Até que por entre a água fria lhe descia um torpor liquido e quente de aguas a rebentar dentro de si e uma dor aguda a gritar por entre a jornada de todas as outras mulheres e homens, parceiros de escravidão.
E ai vinha a carroça,   o caminho de terra batida e as rodas nos rodados gastos. Cada pedra a passar por baixo de si, cada solavanco, cada sopro de vento a remexer-lhe as entranhas.

Dor. As moças hoje dizem que é bom fazer filhos. Falam disso na televisão ainda chegou a ver, quando conseguia fixar algo para além do tecto. Mas não lembra disso. Só de parir. Muito devem ter mudados os homens. Vê-se nas novelas. Ele é beijos e abraços, não lembra de um dia ter tido algo assim, nunca vira. Os netos vêm e fazem-lhe mimos, mas ela só já fixa o tecto. Ingrata a vida, pensava: "Quando por fim merecemos carinho, não estamos em condições para o receber."

Ouvia-os falar e perguntavam coisas e quase desesperavam por respostas que ela não conseguia dar. Porquê? Porque continuam a vir como se esperassem que ela ressuscitasse da inevitabilidade da sua morte?

Daquela morte em vida, a do silêncio perpétuo que apenas balbucia tolices?

Desde a primeira dor até ali nada havia a fazer. A cada osso que se encolhia e se deformava, a cada nova maleita a todos esses anos de inutilidade em que se arrastou nas muletas pela vida. Dores. Umas maiores, outras pequenas, mas dores sempre. Dores do frio do inverno, do calor do verão. da humidade, da fome, do comer de mais. Dores do sangue a circular nas veias, as veias a doer por terem sangue a circular.

Suspiros de dor e os pulmões a doer por suspirar.

Continuava a fixar o tecto, era uma momento de lucidez. Não estava mais a imaginar a horta por detrás da casa nem a mandar ninguém regar. Nem a ceifar o arroz de pés enterrados em água. A ser jovem, achar que podia aguentar.

Fixava o tecto e esperava que fosse agora. Ou depois, mas que fosse. 

De uma certa forma, quando lhe acabava o momento de lucidez estava morta...








quarta-feira, agosto 14, 2013

Divagações sobre o tempo VIII

"Respirou fundo e abandonou-se. Podia sentir a intermitência dos pensamentos, a forma estranha como eles se entrelaçam quando a linha do tempo é descontinuada e todos os estímulos parecem infindáveis.

Quanto tempo havia passado? Um minuto ou uma hora? Aquela música continuava a tocar incessantemente, como algo a que não se conhece começo nem fim, podia prosseguir ininterruptamente, fundir-se com a atmosfera e ser som de fundo.Ou podia ter começado a tocar mesmo agora, quem sabe, quem consegue responder imerso nessa atmosfera liquida da inconsciência?

Era suposto estar a pensar em algo? A resposta àquela pergunta do exercício, mas depois distraiu-se com as libelinhas  a voarem numa luta herculana pouco acima da água. E à direita passou um gato perdido, enquanto que vozes estranhas se abeiraram lá no topo, na estrada. Isso tudo, e como era o nome? Daquela pessoa que se apresentou ontem...ou a preocupação é só a cor do vestido, o significado da vida, que fazer afinal para o jantar? Raio de música que não acaba, dura uma eternidade.

E a luz? Era de mais, tapou os olhos com a chapéu e abandonou-se numa sesta, deixou de lutar contra membros moles e desfasados de si ou contra a noção de que estava errado, algo errado com aquele sitio, com o gatos a rondarem ou os gritinhos infantis que se ouviam do outro lado, numa margem que não conseguia ver. Seriam reais ou imaginados? Até onde podia ir esse mundo induzido?

Esse mundo liquidefeito sem tempo, sem noção. Até onde podia ir, vivendo, ouvindo mais e melhor, pensando em tudo ao mesmo tempo, tudo misturado, um tornado de coisas a serem varridas de si, a perderem-se para sempre no buraco negro das memórias. Todos essas frases perfeitas de que nunca mais se iria lembrar, até onde as podia inventar?"

segunda-feira, agosto 12, 2013

Crescendo…

Dizem que as dores de crescimento são um mito. Não sei se as há, se nos doem os joelhos enquanto esticam, ou se parte a pele porque demos um salto.

Mas há muitas formas de crescer. Há mais dentro de nós que se pode expandir, a nossa alma dói quando cresce, dói fisicamente das formas mais inesperadas.

O assumir do tempo, aceitando as etapas. Vivendo coisas pela primeira vez, sentir-se ficar para trás, dando um grande passo em frente. Doí sempre, como se o nosso universo interior se reajustasse, para receber esse novo Eu, maior. Umas vezes mais forte, outras simplesmente muito mais fragilizado.

Crescemos quase sempre de forma diferente, caminhamos noutros sentidos distantes daqueles que imaginamos quando nos deitávamos no meio das almofadas num qualquer quarto pintado de cor de rosa.
Essa divergência, dói. É um reajuste brutal daquilo que esperávamos de nós, há alguém que nos pode desiludir mais? Do que esse possível Eu que não aconteceu?

Dos romances perfeitos que nunca surgiram, nem dos beijos sonhados em noites de luar, ou das vidas inventadas, sem problemas, sem preocupações, só nós sendo as protagonistas de uma aventura existencial exemplar.

Um dia paramos à beira de um espelho e é suposto ser-se crescido já, dentro de uns jeans rasgados e de um rosto imaculado. Nesse dia, mesmo que o vento nos sopre nos cabelos como fazia há 15 anos atrás, e essa fosse a verdadeira liberdade, dói. Porque não somos o suficiente.

Porque não fomos a todos os sítios que era suposto ir, nem fomos nobres o suficiente e muito menos temos as respostas para todas as perguntas que nos fazíamos em noites de insónia.

Ser-se crescido, num espírito ainda “pequeno” é doloroso.

E depois há o mundo a girar lá fora, de forma crescente, cada vez mais rápido. Sucedendo-se. A vida dos outros a acontecer também. Nós a fazer parte, a querer crescer com eles, a viver em segundas núpcias as alegrias, os desesperos, emocionando-nos com o tanto que todos cresceram.

O tempo, a ser assim inexplicável.

Devíamos de poder vivê-lo, todo de novo. Quando já fossemos crescidos.


terça-feira, julho 30, 2013

Barcelona


Para mim havia a Espanha da raia, aquela que eu quase consigo tocar quando abro a porta e cheiro o ar. A Espanha de Badajoz, dos caramelos dos toureiros e das sevilhanas.

Depois visitei Madrid e ai conheci uma Espanha mais cosmopolita, mais cheia de vida e de pessoas pelas ruas. De miúdas demasiado produzidas a passear na Gran Via e de rapazes com camisas bordadas.

A Espanha de parques largos e viçosos onde se se pode correr, as cidades de alamedas largas e ar organizado e muitas, mesmo muitas esplanadas, sítios vividos, pessoas na rua.

Ainda assim a Espanha interior. Onde o ar é rarefeito nas noites quentes de verão, a vida segue ao ritmo das "siestas" e das tapas a seguir onde tudo isso é empurrado com cañas.

Ainda assim, a vida desses sítios foi sempre vista com esse filtro conhecido dos roteiros de turistas, das sugestões do melhor sitio para visitar ou das conversas orientadas por quem já lá havia ido.

Vemos a vida dos sítios através do vidro. O resto do mundo é um aquário.

Visitar Barcelona foi diferente. Porque Barcelona é uma outra Espanha. Porque visitei pelas mãos de quem lá vive. Por momentos eu estive dentro do aquário, e vi o pulsar das ruas, e comprei fruta na esquina, e respirei o ar das noites sufocantes do mediterrânio.

Há um contraste entre o plano das Ramblas e a trabalhosa subida ao Montjüic ou ao Park Güel. As ruas planas e largas cheias de arvoredo e as vistas desafogadas sobre uma cidade que desemboca no mar, numa orla marítima de areal curto, num mar sem marés onde o sol se põe nas nossas costas.

As vistas cheias de pontos de referencia, a Sagrada Família a impor-se perante um mar de casas e de ruas paralelas, numa cidade bem desenhada e organizada. Barcelona.

A cidade da fruta espalhada pelas lojas de rua, muitas. E exóticas e apetitosas em forma de Smooties frescos e garridos.  O mercado La Boqueria, essa overdose de cores e sabores e tão pouco tempo para provar. Quem diria que havia tantas frutas e tão diferentes, todas numa banca fresca numa tarde de verão? La Boqueria, poderia lá ir todos os sábados de manhã só para a cheirar.


E depois essa mistura de tudo, os restaurantes, os brunchs de domingo, o sushi ou o Vietnamita, o vegetariano e o Indiano ás portas de uma praça cheia de tapas e pinchos. As possibilidades. Viver num sitio com possibilidades. Pareceu-me que tudo podia acontecer ali.

A cidade móvel e rápida a pé, de bicicleta, de metro, de autocarro. A praia ali à mão, a praia à distância de meia dúzia de estações de comboio. As possibilidades.

Noites quentes. Quentes de vestido leve e corpo suado pela madrugada fora. Quentes de gente na rua, nas esplanadas e copos de sangria ou gin tónico em copos desproporcionais.

Dias ainda mais quentes, quentes de pessoas de biquini na relvas dos jardins. Muitas garrafas de agua vendidas por marroquinos que vagueiam pelos parques, e as escondem e sacos de plástico opacos, e as vendem por 1€ num mercado paralelo que deve valer uns milhares...

Barcelona é tudo isso e mais.
Para mim foi também um reencontro. Com pessoas que adoro. Com pessoas que fazem parte da minha vida de uma forma constante, são ADN. Por vezes temos simplesmente de nos voltar a conhecer, de nos dar a oportunidade. Somos todas tão diferentes, os anos moldaram-nos, mas o barro continua a ser o mesmo.
Delicioso reencontro. 

P.S. Adoro-vos meninas, não o disse muito ao longo da ultima década. Estou feliz, o universo trouxe-vos de volta.



"Só há um único problema verdadeiramente filosófico, e isso é que fazer com a nossa vida?"


Camus afirmou que o único problema verdadeiramente filosófico seria o suicídio. Perguntou-se a certa altura se devia beber um café ou tirar a própria vida, visto tudo isto ser um absurdo.
O absurdo da existência, o desalinho dos nossos dias, uma deriva que talvez não valesse a pena viver. 

Para mim, a único problema verdadeiramente filosófico é o que fazer com tanta vida.

Como escolher, quem ser, onde viver, o que fazer com o tempo que nos resta quando o relógio impiedoso não para de rodar.

Quando viajamos é-nos aberta uma janela para outros mundos. Nesse espaço de tempo podemos-nos imaginar a caminhar por outras ruas, a comer noutros sítios, a ser outras pessoas vivendo vidas distantes.

Quando voltamos à vida normal sobra-nos essa sensação agridoce, estarei eu a viver a vida certa?
Aquela que eu quero, a mais completa, aquela que aproveita o melhor de mim?

Essa linha temporal única é realmente madrasta, porque nos obriga a uma escolha de circunstancias e nos encaminha para caminhos e de forma involuntária estamos a viver, não a vida que podemos, mas a que nos é possível.

Como queremos viver o tempo que nos resta é então a única pergunta a que temos de responder. Quem queremos ser, onde viver, o que fazer a seguir, que tipo de pessoas somos, com quem queremos estar.

Que vida queremos ter, quando só temos uma hipótese de acertar?

sexta-feira, julho 12, 2013

O treino



O cheiro a pinho pela manhã era familiar. Misturava-se de forma terna com o cheiro que se elevava da terra, evaporado com os primeiros raios de sol que queimavam a camada fresca do orvalho.

O dia estava cinzento, de uma cor outonal em pleno verão, um dia morno beijado por uma brisa fresca que trazia uma certa humidade.

O terreno era plano, uns troços de alcatrão velho entre-cortado pelos estradões poeirentos secos pelos ventos do estio.

Seguia num passo lento, mas confiante. Não tinha nada a provar nesse final de manhã, nem tempos para fazer, nem lugar onde ir. Corria despreocupadamente só porque precisava de acordar, fazer o sangue circular nas veias, sentir-se um pouco viva.

Conhecia bem os caminhos, cada curva, cada árvore. Podia, percorrer aquele espaço de olhos fechados e ainda assim, a cada volta olhava o mundo com um espanto de quem olha para o desconhecido.

Cada casa. A forma estranha como as pessoas vivem os seus espaços, as hortas certinhas e limpas, os quintais caóticos e desordenados. os pequenos mundos de cada um confinados num terreno, aquele terreno que os traduzia.

Ofegava dentro da blusa encharcada, cheia de cheiros. Não pertencia realmente ali. Pensava que estar num sitio onde já se viveu lhe legitimava a presença, mas não, era uma estranha a correr na estrada.

Uma curiosidade, daquelas que obrigam as pessoas a abrandar o passo e a olhar vagarosamente tentado reconhece-la para lá daquelas vestes exóticas.

Murmuravam por vezes "ah é a neta da vizinha, aquela que está para fora", como se estar fora fosse uma condição maliciosa. Distante, algo que dotasse aquela figura a desaparecer no dobrar da esquina duma existência de outra espécie.

Os cães ladravam-lhe por detrás das redes dos quintais, alguns com fúria. Mantinha um ritmo certo, embora lento, o seu corpo ensopado, dores antigas a gritar.

Sentia-se perder em longas ausências. Com a mente a vaguear. Nada acontecia naquele espaço de gente vagarosa, de caminhos de areia, tão próximo do mar mas ainda longe.

Passou  um carro apressado que a obrigou a chegar mais à berma, uma senhora de idade que apitava a cada soleira de porta que via. Viu-a chegar ao fundo da sua rua. Apitou para uma casa perdida no silêncio e inverteu a marcha.

Estugou o passo, que lhes queria? Fez-lhe sinal para a abrandar, e antes que lhe fizesse qualquer pergunta, a senhora disse-lhe pelo vidro aberto, "sou apenas uma vendedora" e partiu sem esperar resposta. Deixou atrás de si um cheiro a peixe passado pelo calor.

"A senhora vende peixe"- pensou. "Num carro simples, com a canastra no banco de trás?"

Caminhava agora a passo lento, tentando regularizar o folego, tentando alcançar a sua casa ao fundo da rua.

A senhora vendia peixe, sem câmara frigorífico, sem bata branca. Essa ideia não a deixava. Vendia peixe nos montes remotos como se se tivesse lembrado naquele mesmo dia dessa forma mágica para sobreviver.

Parou em frente ao seu portão de ferro forjado, abriu-o com um movimento enérgico, enquanto entrava pelo quintal a dentro aquela imagem não a largava, a velha vendedora de cabelo atado num carrapiço ao alto da cabeça, a canastra no banco detrás. 

Os cães agitaram-se puxando as correntes à sua passagem algo ausente. Depois instalou-se um silêncio

"Somos pobres" pensou. "Quando é que isso aconteceu?"





terça-feira, julho 02, 2013

A chorona


Chorava por tudo e por nada. Lágrimas, era algo que a invadia como consequência óbvia de vagas de raiva ou de nervos. Ou de filmes lamechas ou de situações tristes mas de uma beleza rara.

No entanto, nunca conseguia verter uma lágrima quando alguém morria. De forma embaraçante o rio secava dentro de si. Num mar de calma e paz, mas seco. Pleno de nostálgica contemplação, sem crises, nem gritos. Nem lágrimas.

Recebia sempre a notícia dessa forma impessoal, petrificando-se num silêncio embaraçoso. E esse desconforto aparente crescia ao mesmo tempo que as pessoas à sua volta se agitavam, esbracejando, decidindo a quem avisar a seguir.

O seu rosto perdia expressão, tornava-se num deserto. E por mais estranho que parecesse havia uma onda de paz que invadia a sua alma enquanto relembrava rostos e pequenos momentos, as idiossincrasias das pessoas, o pequeno tique do rosto, o cheiro específico que nos avisava que estava a chegar.

E o desconforto alastrava na falta de lágrimas e alarme, na ausência das palavras de pesar, naquelas estranheza de não saber o que fazer com as mãos nem como estar. Contemplando a amargura dos outros em rostos inchados e descaídos, alarmava-a não conseguir chorar. Como se a apatia fosse crime, como se a única maneira social de expressar a revolta dos momentos fosse verter um rio.

Não havia ainda compreendido o definitivo de tudo aquilo. A perda. Essa coisa perpétua e intransponível, morrer. Isso que nos acontecerá a todos e que todos lamentam naquele mar de lugares comuns ditos sem entoação à entrada das salas claras e frias onde se vela o caixão aberto.

Essa perda total de possibilidade. Esse esgotar, esse tornar impossível. A certeza absoluta de que o que não foi dito nem feito jamais terá lugar depois desse evento: a morte. 

Da consciência, do corpo, da alma ou de qualquer outra entidade em que se queira acreditar. A morte em si, em definitivo, tão certa e esperada e no entanto, esse absoluto mistério.

Continuava de mãos desocupadas, seca por dentro, sentada num desses bancos corridos de madeira, desenhados para o desconforto das noites de vigia. Ouvia, os outros, os vivos a falar das vidas que restam, uma ou outra lembrança, às vezes um suspiro.

Choraria um dia talvez. Um dia quebraria. No dia que percebesse a finitude de tudo quem sabe. Talvez no dia em que se confrontasse com o seu próprio fim. Ou talvez chorar não fosse tão importante.

Porque é importante? Se era chorona? Se chorava ao finalizar um romance, se chorar era só isso. Lágrimas, uma expressão biológica.

Ia abandonar-se ao silêncio do deserto, seco, amargo e esperançoso. Olhando uma miragem, agarrando-se a um resquício de imaginação, criando continuidade para aquele fim. Sem se dar ao luxo dessa banalidade, chorar.



terça-feira, junho 11, 2013

Ensaios VII


Que se passa com as paragens de autocarro? Lugares escuros e húmidos, como cavernas urbanas.
A antítese do aeroporto. Da luz, dos espaços brancos e arejados.

A paragem do autocarro é esse sítio de ar estagnado, do cheiro a borracha queimada e a casas de banho usadas.

A alcatrão, que escorre pelas paredes enegrecidas de betão inacabado.
Que se passa com as paragens de autocarro?

Lugares escuros, com pessoas tristes. De gosto discutível e trajes estranhos, carregando quase sempre fardos demasiado grandes para si, dentro de malas apertadas que parecem impossíveis de carregar.
E esse cheiro a dióxido de carbono, essa neblina negra que se cola na pele, esse desconforto.

Num a aeroporto existe essa sensação de possibilidade, de dinamismo, de vidas que estão a acontecer. Paira no ar essa sensação de esperança.

Na paragem de autocarro desfilam os condenados, os fugitivos, coisas más podem acontecer nesse sítio. Essa espécie de caverna, nesse ecossistema urbano, quase subterrâneo.

A paragem de autocarro.



quarta-feira, maio 29, 2013

Ensaios VI

"Blessed are the hearts that can bend they shall never be broken."

Camus, A.

Esperamos que passe. Um dia há-de passar.
Esse travo amargo de boca, essa certeza de que algo ficou perdido entre nós e a verdade dos momentos.
Ente nós e os outros. Entre nós e a vida que estava a passar.

Inevitavelmente perdido. Num qualquer vazio de tempo onde ficamos condenados à nostalgia. A esse travo amargo que não passa.

Como se a vida se estivesse extinguido e nada mais houvesse para além disso. De um luto perpétuo, do qual só poderemos desejar que um dia passe.

Extintos e passivos dentro de nós mesmos, remoendo a certeza de que não podia ser diferente. Desejando ingenuamente que fosse.

Esperamos apenas que passe. As horas, os dias, quem sabe os anos. Esperemos que não dure para sempre.
Que se recupere, que se sobreviva.

Que um único erro, não cresça e ganhe raízes, como um tumor, que um único erro não seque tudo em seu redor e nos mate, de incertezas.






segunda-feira, maio 06, 2013

Momentos de comunhão


Há num concerto um linguagem universal que nos une.  A todos os que lá estão, os que sabem a letra de cor   aos que apenas batem o pé ao som de ritmos mais ou menos desconhecidos. Os sóbrios, aos alcoolizados, aos viajantes dos fumos que por lá passam e de tudo o mais, une adolescentes e gente vivida, todos num mesmo recinto, cantando num coro emocionado.

Um concerto, quando é bem executado, quando os que estão no palco amam aquilo que estão a fazer e isso se consegue sentir a cada segundo, a qualquer distância do recinto é um momento de comunhão extraordinário. 

Tudo o que sentimos quando soa a nossa música favorita e as 10.000 pessoas que ali estão a cantam todos juntos, num coro que se eleva sem amplificação e se mistura com as vozes do palco, momentos desses são inesquecíveis e a única coisa capaz de explicar as horas que aceitamos passar de pé, as filas intermináveis para a cerveja ou as inarráveis casa de banho dos festivais!

Ontem no Nght & Day nos jardins da Torre de Belém sentiu-se tudo isso quando os The XX subiram ao palco. E foi realmente um concerto brilhante, com uma plateia rendida desde o primeiro momento e uma banda feliz em palco.

Mas houve mais, houve muita e boa electrónica de John Talabot ao DJ Set do Jamie XX e a noite a fechar com James Murphy.

E houve gente bonita num cenário coroado pela torre de Belém. Portugueses, mas também muitos estrangeiros, numa noite morna de primavera.

Há concertos que guardaremos na memória. The XX será um deles!


domingo, abril 28, 2013

Ensaios IV

"Estava a afogar-se em si. Naquele charco escuro de emoções indecifráveis. Sentia o ar a faltar-lhe, engasgava-se na sua própria saliva e por momentos a sua vista toldou-se, o mundo cobriu-se de negro, poderia estar a morrer naquele momento, afogada nas suas entranhas acossadas."




É sempre mais fácil ser-se mau, sentir coisas feias, espumar de raiva enquanto se imagina que o mundo uniu forças para nos maltratar.

Dá-nos força espernear até ao fim, gritar coisas infames, achar que doí um pouco menos se espalharmos a dor.

E depois, como se fossem pequenos picos de adrenalina pode parecer-nos mais fácil estar vivos se formos significantes, se nos for permitido dizer, sentir, pensar o que bem nos apetecer.

Iliba-nos, ser simplesmente maus, porque só o podemos ser em resposta, porque nos livra de culpa, somos maus, porque nos fizeram ser assim.

Deixar ir, perdoar, aceitar, começar de novo, amar em silêncio aquilo que já não podemos ter, nem ser é difícil. É um esforço constante, é exigente, é pura abnegação. 

Deve ser por isso que há tanto mal no mundo, ser-se mau é fácil, é simples e instintivo. Está em todos nós, é visceral.

Ser-se realmente bom, humilde, viver em paz é uma obra nunca acabada, é um caminho longo feito contra a corrente. É a mente todos os dias a lutar contra o sangue que nos pulsa nas veias, contra um coração que bate apertado e explode por vezes dentro de peito. 

Dentro de nós, é essa luta consciente. Entre aquilo que somos e o melhor que podemos ser...

sexta-feira, abril 19, 2013

Ensaios III


A estrada tortuosa está ladeada de pequenos muros de granito. Pequenas pedras empilhadas à força de braços, o labor de gerações limpando terrenos, abrindo campo, criando espaço.

No inverno,  essas pequenas pedras ficam manchadas de verdes. Escuros e claros, tufos de musgo indisciplinado e as oliveiras entristecidas pendem sobre  as silvas que crescem ao sabor da humidade que paira nos pontos sombrios.

As casas caiadas, estão também elas manchadas, de pedra, musgo e de anos de abandono. Por detrás da fachada da frente nascem barracões, por entre caminho empedrado e ao acaso, são plantados vasos de flores, casotas de cães e alfaias que ficam perdidas no tempo e no desuso.

Na maior parte das vezes a estrada tropeça em casas vazias, denunciadas pelas ervas que crescem à porta. Outras vezes, há apenas ausência de vida. Estão já esgotados os risos infantis e os latidos dos cães, presos nos terrenos, ecoam desoladamente sozinhos.

Ao longe pode ver-se o serpentear da estrada. E vê-se que sobe, curva contra curva pelo vale até desaparecer para lá do topo da colina

O sitio parecia esquecido pelos Homens. Onde o dia ainda se fazia ritmado pelo bater do relógio da torre da Igreja.

Num desses lugarejos onde os homens ficam velhos encostados ao mármore encardido do balcão e as mulheres se apagam dentro de uma bata às flores encardida. Bata que um dia substituem pelo negro perpétuo enterrando-se em vida.
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Mantinha-se sentada à empena da casa, encolhida numa cadeira baixa de pau, aproveitando a medo o pouco sol doentio.

Tapava a cabeça com um xaile coçado de malha, herdara de alguém da família. Peça pesada, de um negro sepulcral, um sinal da sua condição de vida.

Observava o silêncio dos seus dias. Era tal a quietude do sitio que poderia adivinhar quem lá vinha pelo trepidar da estrada. Conhecia-os a todos. Aos poucos que por aí passavam, contornando os muros de granito subindo às hortas, conduzindo gado.

Lembrava-se de quando era jovem e ainda brincavam crianças na eira, os seus gritos infantis ecoavam pela encosta replicando-se pelas casas , contornando o adro da igreja.

Lembrava-se de si. De si antes do negro do xaile.
De ser mais alta, antes de se curvar perante o peso do tempo. Dos passos leves e ágeis, dessa alegria ingénua de viver ao ritmo de cada dia.

Fitava a suas mãos enrugadas.Os mesmos dedos longos e tortos, a aliança que nunca tivera coragem de tirar, as suas mãos, agora as mãos de uma velha sentada à empena da casa ao sol de inverno.
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Estavam mais homens à porta do que dentro do café. Estava frio, e o sol doentio de inverno batia na empena da casa à altura dos joelhos e fugia a passos largos para se por por detrás da colina.

Estava encostado à soleira da porta e brincava com as fitas velhas e sebentas. Observava ao longe a velha de negro.
Sempre sozinha. Sentada no banco baixo, encostado à parede caiada, de xaile pesado pela cabeça.

Não lhe lembrava de a ter visto noutro sitio, como se tivesse sido ali colocada já velha, já curvada pelo tempo, já coberta de um luto perpétuo, já esquecida pelos dias.

Impressionava-se ás vezes por aquela solidão. A solidão que não conhecia. Na qual não pensava, mas que temia. Qual seria a sua história? A história desse luto, desse silêncio. Não podia deixar de se perguntar.
Espreitava a rua meio a medo, meio dentro meio fora. Fugindo de todas aquelas vozes alteradas, do fumo do tabaco que se misturava no ar com o azedume do vinho a martelo.

E ali, no meio de tanta gente comparou-se com a velha do xaile negro. Naquele dia de inverno, encostado à soleira da porta, queimando mais um cigarro olhou de novo a empena da casa. Mais um dia na vidas dos sós....

E sentiu por momentos, como se tivesse companhia.

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quarta-feira, abril 10, 2013

"Começar a pensar é começar a ser atormentado" Camus, A.



Quando era adolescente achava que era de esquerda. Ser adolescente no virar do milénio era isso.
Ser-se despreocupado, muito liberal e intrinsecamente livre. Se eles defendiam o aborto, a despenalização das drogas e outros assuntos fracturantes da sociedade era com eles que estávamos  porque nada mais havia para defender.

No interior das nossas casas de classe média a vida prosperava e dava para os gastos, o futuro estava traçado numa qualquer universidade, bastava-nos fazer a nossa parte. Podíamos então ser rebeldes sem causa, apolíticos, amorais e despreocupados. As discussões de mesa de café poderiam ser sobre tudo, sobre futuro, o ultimo concerto unplugged da MTV, ou aquele filme ou a festa de logo à noite. Nunca, jamais sobe essa questão de fundo: "Quem somos nós, que fazemos aqui, que país é este onde vivo?"

Filhos dos que viveram a revolução de Abril, calhou-nos a sina de ser a geração dos acomodados, sem ideais nem ideologias.

Crescemos ao mesmo tempo que a web evoluía, que os telemóveis vieram para ficar, nesse novo mundo em que a informação está à distância de um clique, nesse mundo onde tudo é acessível, escolhemos não nos preocupar.

Quando passamos de adolescentes para jovens universitários era suposto termos começado a pensar. Observar o mundo.

Mas o admirável mundo académico não mais foi que um convite à boémia e à aprendizagem acrítica de uma qualquer ciência.

Devíamos estar a falar do mundo nas meses de café, mas como poderíamos falar de um mundo que não conhecíamos? Tivemos quatro anos para viver de forma livre. Para acabar as cadeiras em serviços mínimos nas sucessivas épocas de exames, para gastar os trocos em minis e esperar que não nos chumbassem por faltas.

Alguns de nós líamos livros ou víamos filmes pelas madrugadas de copos, aprendemos coisas.

Li Milan Kundera e ele falou da Primavera de Praga e a esquerda deixou de ser livre para mim. Como li Philip Rooth a imaginar a América sob uma conspiração de direita, e a direita não poderia nunca ser atractiva para mim. Li Orwell e qualquer sistema que limitasse a liberdade dos cidadãos era o fim, li Garcia Márquez e nas suas histórias a  inquietude de uma América do sul que não se conseguia encontrar no meio de ditaduras e golpes de estado e as guerras pelo poder tornaram-se impensáveis para mim. Li Camus, o absurdo da vida que explicava tudo isso…

Conhecia assim um mundo romanceado dos sistemas. A minha geração não leu manifestos, não sabe o que disseram os filósofos,  espera única e simplesmente que  vida flua como um rio, desresponsabilizando-os dos estragos da corrente.

Chegamos ao dia de hoje neste impasse, a não compreensão do mundo que nos rodeia. Porque estamos nós a viver esta crise?

Quem é a direita, quem é a esquerda? Que sentido fazem hoje sistemas políticos herdados de um mundo pós-revolução industrial? Renovados no pós-guerra? Que sentido fazem, estas definições, baseadas na organização do trabalho, quando o paradigma de trabalho mudou tanto, ao ponto de ser irreconhecível?

Ainda assim, deveríamos saber quem é quem. Porque é desesperante não saber de que lado estar, em quem acreditar, que teoria defender.

Hoje, jovens adultos somos inertes, porque sofremos de iliteracia politica crónica.  Porque não nos preocupamos, porque não fomos educados para nos preocupar, porque o mundo contemporâneo criou-nos esta sensação de liberdade falsa, uma sensação que não incluía deveres. Apenas direitos.

Hoje já não sou de esquerda. Mas não sei que possa ser. Não acreditando numa organização politica que considero desenquadrada, nem numa democracia desajustada retrograda e ultrapassada que posso fazer eu?

Continuar a viver e a votar no mal menor? Aceitar que não percebo o que ouço, que há coisas no mundo da política que simplesmente não têm explicação? Estão no limiar do absurdo…

Mais desesperante do que acreditar no lado errado...é mesmo não ter no que acreditar.



quinta-feira, março 07, 2013

A ressaca

"O álcool parece ser único estimulo que Pavelov não poderia explicar. Voltamos a ele, mesmo conhecendo o único resultado possível, a execrável ressaca." 



CAPITULO I 
Acordar 

Não acordou, foi antes violentamente arrancada de um túmulo profundo onde jazia a sua mente inerte. O vazio profundo de repente trazido à confusão da realidade, num inspirar de ar ofegante, como se só naquele momento o seu corpo tivesse tomado consciência do importante que era respirar.

Lutou algum tempo contra a incerteza de saber onde estava, quem era, como fora ali parar. Ficou por uma fracção de segundo revendo os últimos momentos de vida, em flashes, como dizem que fazem aqueles que estão prestes a morrer. Mas as suas horas não tinham nexo, não vinham organizadas numa cronologia, eram apenas lapsos de si, ou de alguém,  alguém dono dos despojos sepultados naquele lugar lubrege, bafiento e de cheiro indefinido mas desagradável. 

Um misto de suor alcoolizado e saliva gasta, misturada com várias nuances de tabaco exaladas pelo cabelo, pelas roupas espalhas pelo chão e pela sua própria pele que estava baça e seca com o trigo no pico do Verão. 

Engoliu então em seco, e foi invadida por um sabor acido e amargo no qual conseguia ainda reconhecer traços de gin. À língua seca, e a esse sabor que sabia ser perpétuo por um dia, juntava ainda uma dor aguda e gritante que se lhe instalava nas fontes, um peso morto na parte de trás da nuca e um mal estar corporal generalizado. Uma espécie de constipação que lhe pesava nas pernas, embora ainda não se tivesse levantado.

Recusava-se a mexer, parecia que se o fizesse alguma bomba explodiria dentro do seu crânio,  no entanto, a bexiga gritava também e a sua mente confusa teve de ceder.

Em movimentos penosos e lentos, pousou os pés no chão. Um alivio, entre-cortado por uma tontura nauseada, reconheceu o seu tapete, felpudo, macio e quente. Ao mesmo tempo que caia sobre o seu corpo defunto o peso dos excessos, respondia a primeira pergunta. "Onde estou? No meu quarto." 

E a cada passo que dava o peso do seu corpo magoado abatia-se sobre si. Uma dor abdominal consistente com um estômago deslavado, uma sede que prometia nunca ficar saciada e aquela confusão mental, que a deixou perplexa a olhar para o  espelho, tentando reconhecer-se no reflexo embaciado.


Capitulo II
Viver

A falta de sono acabava-lhe com a tolerância. Para si, para com os outros e  para com o mundo. Ainda mais naquele estado desorganizado de ideias, aquela meia amnésia  baralhada que a afectava.

Avaliava cada rosto com esperança ténue de reconhecer alguma expressão, alguma dica de que a tinham visto na noite anterior. Algum vislumbre de uma conversa que não se conseguia lembrar ou algum olhar de lado que significasse algo de embaraçoso que a sua mente resolvera simplesmente apagar.

Mas o mundo padecia todo de uma apatia generalizada e inexpressiva, e a sua mente baralhada e ansiosa por se lembrar afundava-se em considerações auto-recriminatórias sobe as suas opções.

Ainda assim preferia o silêncio àquelas conversas banais, a ter que dar assistência a pedidos, a explicar situações  ou a ter de esforçar-se para ser um ser social.

Mas ninguém parecia disposto a dar-lhe esse beneficio. Insistiam em perguntas, em revisões ou em tarefas urgentes e o seu ser ensonado e confuso vergava perante um estômago dorido, uma cabeça pesada e um hálito vergonhoso. Podia senti-lo.

"Porquê?"-  perguntava-se. 
"Porque não me deixam estas pessoas velar a minha morte prematura, num silêncio franciscano em reclusão, em jejum de pão e água, ou aspirinas e vitamina C."

Ao longo do dia a esperança esgotava-se em si com o cansaço, os olhos pesados, a paciência perigosamente no limite, a confusão insuflada pela frustração da amnésia, a língua ainda mais encortiçada e aquele sabor intragável que não desaparecia.

A sede insaciável pedia mais agua, mas o seu estômago não mais a queria. E num ou noutro momento de clarividência vinha-lhe uma ideia. "Estive aqui. Disse algo ali, tropecei em alguém, quem era aquela tipa?"

E quando por fim chega o final da tarde, e arrasta o seu cadáver pestilento  para casa, há já um pequeno guião da noite. Vislumbra já quem é, imagina porque está ali e aceita que se a sua mente se esqueceu, ninguém reclamou, não deve ter sido importante.

Capitulo III
Dormir

"Há dias que simplesmente tens de viver" pensava. Por mais que se deseje deitar e só acordar depois de amanhã.

Arejára o quarto e mudára os lençóis. transformara o cheiro bafiento e alcoolizado em perfeita harmonia de amaciador de flores e incenso. 

O seu corpo maltratado deitava-se agora numa alcova confortável esticava-se exausto pedindo um sono reparador.

Na mente imperava ainda um névoa de confusão. "Tinha sido boa a noite anterior? Havia se divertido?" 
Tentava reviver esses momentos, o escalar de entusiasmo, os membros que se soltam e as palavras que ficam fáceis.

Os risos colectivos das piadas que não diria noutra ocasião e os pensamentos partilhados num ambiente de cumplicidade entre amigas.

A música que cresce dentro de si, pulsando, acelerando o sangue que bombeia o seu coração e as luzes frenéticas liderando todo o movimento em volta de si.

Podia reviver esses momentos, mesmo na névoa dos acontecimentos. Lia em cada um desses momentos a fado do dia seguinte e ainda assim, durante a sua vida esses dias execráveis continuavam a acontecer. A si e aos que a rodeiam. Até mesmo àqueles que reclamam não ter ressacas e aguentar todo o álcool do mundo.

Pensava que nunca poderia ser alcoólica  jamais aguentaria acordar assim todas as manhãs. Mas em última análise, isso seria a sua ultima preocupação quando começasse a beber.

"Inexplicável". O Álcool parece ser então um condicionante que não conseguimos apreender. Da acção surge sempre o mesmo resultado. E o resultado é mau.

Pensava  "valerá o mal que faz pelo bem que sabe?"

 Ou a nossa necessidade de alienação não tem limites?

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Os dias...


Imaginava os dias, uns a seguir aos outros como pessoas esperando numa fila. Cada um sendo único e especial. 

Cada dia tendo vontades, desejos e necessidades. Cada dia sendo individuo carregado de personalidade. Um dia, sendo recordado. Uns mais especiais que outros e no meio de tantos dias, aquele dia que nunca se poderá esquecer.

Dez anos de dias apresentando-se numa fila. Desfilando perante si. Sorrindo ou chorando, sendo maravilhosos e memoráveis ou odiosos e para esquecer.

Todos esses dias. Únicos e insubstituíveis. Partilhados. Uma história escrevendo-se a duas mãos. 
Esses dias seus conhecidos. Dez anos de dias, onde foram felizes e tristes e amaram e gritaram e se feriram e falharam e venceram e fizeram brilhar o mundo.

Num desses dias algo quebrou...continuava sem o reconhecer. Esse dia infame...
E agora todos os dias são perfeitos estranhos para si.

domingo, janeiro 27, 2013

Ensaios II


Desviou o olhar num gesto mole e fixou o linha do horizonte. O sol punha-se num mar de vermelhos."O dia será quente amanhã." pensou, enquanto tentava por momentos  fugir da sua situação.
Continuava sentada naquela cadeira familiar, na mesa onde tomara tantos cafés em tardes de sol, em muitos daqueles domingos em que saiam para passear. 
Lembrava esses dias. Da brisa morna da primavera em tardes de Março, de como se esquecia de que o dia eventualmente iria arrefecer e precisava sempre do seu regaço até chegar a casa. 
As suas mesas de café, os jornais, as revistas tudo espalhado e aquela linha de horizonte. Enorme, a perder de vista, como a perder de vista eram as suas emoções.
Agora, naquele estranho momento que partilhavam tudo isso parecia demasiado longe.
Ouvia apenas um estranho eco distante, por entre explicações e conversas mal resolvidas.
Como se tivessem varrido o chão todo para debaixo do tapete, e agora o tapete desaparecera. Tudo continuava ali.
Atenuado pelo tempo, meio esquecido mas latente, como pequenas brasas que ficam perdidas no meio da cinza, mortas mas capaz de ressuscitar com um sopro na manhã seguinte.

«»

Reparou naquele gesto tão típico nela. O ausentar-se por momentos, como se tudo o resto perdesse de repente a importância e só ela estivesse ali. O olhar fixo num ponto distante, tinha agora a certeza que ela não o ouvia, nem mesmo quando respondia que sim ou que não, ao acaso jurando que tinha prestado toda a atenção.
Sempre fora parte do seu encanto, ser esse ser impenetrável, com essa imaginação galopante e que se ria sozinha perante um qualquer acontecimento imaginário.
Continua a ter aquela mesma expressão algo infantil, mesmo após tantos anos, conseguia ainda reconhecer a  menina que conheceu.

«»

Perguntava-se constantemente remexendo na memória: "Onde, em que ponto...porquê?" 
Em que momento a vibração do ar deixou de lhe arrepiar a pele, em que ponto as palavras deixaram de fazer sentido e no meio de todas aquelas coisas deixaram de se entender. Como se falassem dialectos diferentes de uma mesma língua.
Houve um momento em que algo quebrou e inevitavelmente, nada voltara a ser igual. 
O tempo parou para eles.
E agora ali, olhando de novo aquele espaço tão seu, agora naquela cadeira sua perdia-se a olhar o horizonte para não olhar para ele. 
Conhecia-lhe cada gesto, sentia-lhe o cheiro. O riso,  forma de cada palavra antes mesmo que a pudesse dizer. E toda aquela intimidade, estilhaçada por uma incógnita era demasiado para o seu ser. 

«»

Sabia que aquela era uma conversa que nenhum deles queria ter. Sabia que podia mesmo ser a conversa impossível. Conhecia-lhe o espírito, não podia ter mudado assim tanto. 
Um doce capaz de gelar em segundos e morrer apática antes de dizer uma palavra que não quisesse dizer.
Um ser blindado. Nunca lhe compreendera esse traço, tão díspar daquilo que era. Daquele ar sonhador.
Reconhecia-lhe, mesmo após tanto tempo de separação, aquela expressão distante. 
Um mundo tão grande, uma incapacidade de partilhar. E ainda assim tinha amado-a durante tanto tempo, perdera a contas ao tempo. Reconhecia-lhe o respirar ansioso, sabia que tinha medo de chorar. E ali, toda aquela intimidade estilhaçada tornou-se demasiado para o seu ser.

«»

O silêncio matava-a por dentro. Não haviam palavras para dizer, o que dizer perante algo irremediavelmente partido? Que debater mais, achar que culpas? E depois de tanto tempo, aquela única pergunta não tinha resposta, que poderiam fazer de si mesmos para além de seguirem vivendo, cada um com os seus pedaços daquilo que tinha sido a sua vida?
Agora que os sonhos se tinham perdido, agora que os melhores anos afinal não estavam mais para vir e não se ouviam mais risos soltos pela casa, misturados com musica, com cheiro de baunilha, nas manhãs frescas de verão quando se debruçava na janela e podiam ainda ser felizes.
Não, não saberiam nunca onde, em que ponto haviam deixado de serem eles mesmos. Como poderiam voltar a ser?

«»

Aquele silêncio. Conhecia-o. Sabia que a conversa findara no vazio das incertezas. Sem respostas. Ela não conseguia ajuda-lo a saber onde deixaram de ser eles mesmos, e sentia que não voltariam a ser.
Desviou então o olhar num gesto mole e fitou o horizonte, o sol desaparecia já, a explosão de vermelhos cessava perante a noite que se instalava engolindo tudo o que se podia ver.
Quando a noite o engoliu, levantou-se então. Ela levantou-se consigo, deram um abraço silencioso e por momentos foram eles mesmos, no aperto daquela intimidade, dos cheiros, dos corações que batem ao mesmo ritmo, de dois corpos que vivem a mesma vida num tempo que congelou.
Teriam ficado ali naquele momento que eliminava todas as perguntas que não tinham respostas, mas crianças  correram atrás de uma bola perdida, um cão ladrou na varanda e o mundo recomeçou a girar e estilhaçou-os de novo.

«» 

Soltou-se daquele abraço num pranto interior. Partiu lentamente por uma rua que não era sua, até que a imagem dele se diluiu engolida pela noite.
Foram iguais a si por momentos, queria ter agarrado esse momento, agarrado em si e nele e não os ter deixado fugir.
Mas gelou. Nas perguntas sem respostas, nos cacos de si que já não se aguentavam mais juntos.
No escuro daquela noite sentiu-se a desaparecer.
Sentiu a certeza que nunca poderiam sarar aquela ferida.






sábado, janeiro 26, 2013

Ensaios I



O Silêncio. Um eco sem cor vibrando pela casa. Todos esses lugares comuns, o pó dos móveis e os papéis abandonados ao acaso.
O cheiro familiar, algo adocicado, misturado com o comer de ontem, perdido na memória do dia.
O escuro da luz neutra, baixa para não ferir os olhos. Tudo no silêncio da casa.
A sua casa, tão sua uns dias, outros completamente indiferente.

Não havia pronunciado uma palavra naquela semana. Foi como se as palavras fugissem de si, se escondessem num qualquer recanto da mente, se recusassem a formar as ideias que cresciam no seu ser.
Quedara-se num canto da casa na penumbra, olhando ao longe um fio fino de paisagem por uma nesga da janela.
E via, no chão de madeira o dia a passar, as horas marcadas por sombras. Dias radiosos de sol pelo brilho do soalho, aquele dia triste de chuva pela triste escuridão da casa.
Pensou que se esquecesse as palavras, se permitisse que elas se esvaíssem de si aqueles sentimentos que a atormentavam desapareceriam também na ausência de significado, na impossibilidade de tradução.
Esperou, inerte. Perdendo um som de cada vez, esquecendo os rabiscos no papel…havia uma semana que não dizia uma palavra.

Quando todas as palavras se perderam por fim, quando não havia mais código nem símbolos, nem formas de se explicar levantou-se por fim.
Aproximou-se da janela, abriu-a. Cheirou o ar e não soube a que cheirava. Nem conseguiu sorrir ao verde das colinas, ao azul do céu.
Não soube como explicar. Perdera as ideias tristes que havia dentro de si…mas sem as palavras perdera também a beleza dos dias.
Sentir nada pareceu-lhe então um horror maior do que sentir algo que ia doer…Não poderia viver em tamanha apatia.

Quedou-se então perante a janela aberta e lembrou-se de um som de cada vez, prenunciando-o ao vento. Esforçou-se pelas noites, contando as estrelas, dando-lhes nomes. Até que uma frase se formou,  depois um conceito, e o coração apertado criou a dor e o desgosto que vivia em si tornou vivo.

E ainda assim, doendo que estava a sua alma, cheirou o ar e cheirava a terra molhada pela geada da manhã, sorriu à beleza do verde das colinas e viu a aurora nascer, o milagre de um novo dia.
Pensou então na sua ingenuidade. 
Pior que sentir tamanho desgosto, é não sentir nada.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

A arte de passar pela chuva sem se molhar...




O dilúvio era bíblico, um exagero de dias cinzentos, opressivos e entediantes.

O cheiro a bafío alastrava pelas escadas,  a vida dentro da casa hibernava naquela atmosfera de estufa onde a humidade era descontrolada. A roupa molhada espalhada, o caos doméstico, a vida suspensa esperando por uma trégua.

As janelas fechadas, chorando a indiferença dos dias, engarrafando o ar estagnado, barrando os sons do mundo.

Estava nesse torpor dos dias, sendo indiferente, existindo apenas. Imaginando areias douradas e distantes ou os raios de sol beijando as encostas da serra. Estava nesse tédio revendo a vida, olhando pequenos instantâneos.

"Havia sempre passado pela chuva sem se molhar." Pensou.

Vivendo em mar de águas calmas. Sem exageros, sem extremos, sem extravagâncias.

Sem grandes riscos...sem grandes recompensas.

Nesses instantâneos de coisas, de pequenas vitórias festejadas em descrição, de derrotas vividas no silêncio, encontrou-se nessa apatia geral.


Essa forma estranha de se mover na lentidão, no escuro do quarto, sem tocar nos móveis. Sem fazer cair os bibelôs. Esse passo em silêncio, planeado...essa apatia que impossibilita a extravagância.

Os rasgos de génio ou as tristezas capazes de arruinar a vida.

Essa apatia geral de sentido. Como se na chuva ocupasse só aquele estranho vazio onde nada cai, e o dilúvio chegasse até si em segunda mão, molhando-lhe apenas os pés, quando a terra encharcada se recusa a engolir mais água.

Abatia-se sobre si essa ideia opressiva de resignação perante a vida. Não a sensação de falha, só a poderia sentir se tentasse.

Mas essa sensação de apatia, de tédio de quem não falha porque não tentou.
Não gritara alto, nunca ralhara a ninguém...nunca fugira ou insistira em ficar. Sentia pouco, ou muito...de mansinho...na apatia.

E então o tempo existente na sala pesou sobre si. Tornou-se espesso, o tempo impregnado de água, frio.

O tempo perante si, ecoando pelas paredes num tic-tac apressado, passando ao ritmo a que o sangue lhe corria nas veias.

Aflito. O tempo afligindo-se por fim. Ansiando... "obriga-te, sai do ponto vazio, ocupa espaço...ignora a arte de passar pela chuva sem te molhares...."

domingo, janeiro 20, 2013

2013...

O ano já se instalou, veio de mansinho, ocupou o espaço que é seu.

Reclama o tempo que está a passar.
As datas que se aproximam, os seus significados.
2013.

2013 seria o ano.
Assim será outra coisa qualquer.

Outra coisa indefinida, cinzenta, vazia.

Poderia dar-lhe o significado. Mas há dias em que não nos reconhecemos para além do vazio deixado por esse momento de perda.

2013 seria qualquer coisa especial...assim não será nada.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Au revoir Montreal ...

Dizer adeus, mesmo que seja apenas um até breve nunca é fácil, já devia saber.
Já devia conseguir aceitar.

Eu, que sempre vivi entre casas. Entre famílias. Entre férias e meses de escola. Eu e as escovas de dentes espalhadas pelos distritos, uma vida de malas feitas, de momentos de ausência, de coisas irrecuperáveis, perdidas.

E ainda assim, dizer este adeus foi mais doloroso, o mais sentido, será talvez mais longo até breve dito até aqui.

Sempre adorei a minha mana mais velha. Sempre. E sempre vivemos separadas. E mesmo assim, pude estar sempre lá.

No primeiro dia da escola. Quando entrou para a universidade, quando arranjou o primeiro emprego, quando nasceu o primeiro filho....

Não vou estar quando nascer o segundo, desta vez é longe a distância...dói de pensar nos meses, nos anos de primeiras coisas que não vou ver... Essa perda, de todas as oportunidades, de sorrisos, de pequenas zangas...essas palavras esquisitas e as reconciliações. 

Todas as vezes que rimos até nos doer a barriga, quando choramos sem razão, quando sorrimos de alegria. 

A vida vai fluir, acontecer. Lá longe, entre ecrãs. Cresceremos sendo diferentes.
O meu puto vai crescer ouvindo apenas o meu eco.

Lembrar-se-á que acordava a tia pela manhã com pequenos gritinhos de alegria? Verá fotos um dia. 

Um inverno, naquele que aconteceu a maior tempestade de neve de sempre, a tia veio. Brincou no tapete da sala, cantou bossa nova para o menino dormir, acordou pela manhã com um abraço cheio de energia...

Porra, posso chorar o resto da viagem, posso fazer o avião todo se comover com a minha nostalgia... Estou em perda. 

Merda, só podemos viver uma vida... Só podemos estar num sítio, ser uma vez. Escolher, sabendo da perda, sabendo como poderia ser diferentes tudo o resto, todas as outras opções, as outras vidas que podíamos estar a viver. 

Devíamos esquecer...devíamos ser felizes na ignorância dos nossos dias.
Nunca, sinto...poderei me conformar com tempo.