quinta-feira, dezembro 25, 2014

O ano em que eu ganhei o campeonato familiar...




Lembro-me de ter sido sempre a menina do Papá, que nos idos dos anos 90 me levava a passear ao domingo com sapatos de verniz e vestidos de veludo e me comprava gelados e sempre se ria quando as pessoas lhe perguntavam como se chamava a neta.

Filha tardia, numa situação no mínimo desajustada para a época, enquanto criança nunca me faltou mimo de pai.

Lembro-me do dia em que me ensinou a andar de bicicleta e em como eu, no entusiasmo tirei as mão do volante para lhe acenar e acabei estampada no muro do cemitério e depois, quando finalmente eu aprendi a andar na velha BMX vermelha, lembro-me das grandes voltas que dávamos, 15, 20kms na manhãs de fim-de-semana no caminho do Setil ladeando a Lezíria e vivíamos aventuras, apanhávamos chuva e o meu pai contava-me sempre histórias sobre o mundo e os países todos onde já havia ido e havia sempre algo de novo para falar.

E depois um dia isso desvaneceu-se. De um momento para o outro tornámos-nos seres estranhos. O meu pai descobriu em algum ponto que eu era uma menina e que havia uma discrepância enorme entre a preparação para ser totalmente independente que ele sempre me tentou dar e a conduta daquilo que era para ele uma menina. Porque as meninas não fazem, não vão, não devem.

E eu, enquanto adolescente, como agora, nunca estive interessada nesse tipo de "Não". 

Devo de lhe guardar semelhanças, no fundo.

Só muito mais tarde, já adulta voltámos a encontrar um ponto de interesse comum, a corrida.

Nunca me interessei por desporto, apesar do meu pai sempre ter sido atleta e dos seus esforços, das bicicletas feitas por medida, das muitas provas a que íamos... Fiz basquete uns tempos... fumávamos atrás do pavilhão, enganávamos os pais sobre os horários dos treinos, inventávamos jogos para ir ás afterhours de domingo, frescas acabadas de levantar. Desportos desses...

Quando eu comecei a correr, e foi uma decisão apenas minha, reencontrámos um ponto de acordo, um interesse, algo que nos colocou de acordo apesar dos feitios, das visões díspares do mundo e do que fazem as meninas. E isso foi um elemento pacificador, embora eu nunca mais possa ser uma criança e o meu pai o meu melhor amigo, podemos finalmente conviver.

Tempos depois inventei o campeonato familiar onde o pai apesar da idade quase sempre ganhava. "Paizão 1 - Angie - O ", Mas este ano ganhou menos, este ano em que eu nem estou muito bem, eu ganhei o campeonato familiar.

Mas em vez de me felicitar, depare-me com o peso das décadas no rosto dos outros. Um ano, dois anos, no outro anterior e esse. A cada ano que passa, a cada traço de semblante diferente, a cada desalinho de pensamento o Tempo confronta-nos com a finitude. Ao principio, não com a nossa mas com a dos outros.

O ano em que eu ganho o campeonato familiar, não é o ano da minha "vitória", mas o ano da constatação de que eles não estarão cá sempre. O Tempo novamente.

E quando destilado o que nos resta do tempo? Das pessoas que somos? 

No ano em que perdi a minha avó, em que conscientemente sei que não vou ouvir mais aquela voz, que não haverá nunca oportunidade de dizer o que ficou para dizer, em que os cheiros dos seus lugares apenas causam saudades que se apascentam com memórias, ganhar o campeonato familiar é uma forma do tempo me dizer para ter em atenção à finitude dos outros e em ultima instância, a minha.

O que faço do tempo... que escorre entre os dedos como areia, que escasseia apesar de nos parecer termos todo o tempo do mundo. Que vida quero viver, já que só tenho uma, parece impor-se na reflexão do que deve ser os próximos tempos desta vida.

Porque o tempo acaba-se...para todos um dia. E o meu, rarifica-se a cada dia que passa...

sexta-feira, novembro 07, 2014

O fim da adolescência tardia e outras convulsões...



E eis que aos 30 me deu essa liberdade de espírito, ser adolescente. Sair, sair, rir muito fazer tudo desalmadamente e só não o fazer como se não houvesse amanhã, porque aos 30, amanhã tens de ir trabalhar.

E é bom ser a adolescente que nunca fui. Ter amigos, descobrir cumplicidades, deixar de ser de uma vez por todas o bicho estranho,  de não saber o que fazer com as mãos, deixar de ser socialmente desajeitada porque não gosto de beijinhos de estranhos e nunca sei como cumprimentar as pessoas com quem lido no dia a dia.

Sou assim, amanham-se. Eu há 30 anos que me ando a amanhar, aqui estou. Continuo socialmente desajeita, "but who cares? I don´t!".

Mas a minha adolescência tardia é como todas as outras, eventualmente terá de acabar e este ano, ao entrar em Novembro, também ele brindado por um verão que não queria acabar, deu-me vontade de começar já a fazer planos, a pensar 2015, a colocar metas e a traçar caminhos.

De repente dei de caras com a adulta que quero ser. Com as coisas que quero conquistar.

Nunca em 30 anos me senti adulta, nem em nenhuma das decisões das tantas que já tive de tomar, mesmo nas coisas que mudaram a minha vida, esse debate continuo sobre o tempo e as opções e a pressão desgraçada que é só cá estar uma vez. Não, em 30 anos nunca fui muito adulta. E não tem a ver com a capacidade de tomar decisões certas ou com a responsabilidade que se consegue assumir.

É um outro sentimento, é uma coisa mais interior e instintiva que se alimenta durante tempos, e um dia o espelho devolve-te um outro reflexo.

Ainda não sei se foi uma adulta que vi...mas parece-me mais perto.

***

Hoje acendi a lareira, dos anos todos em que muito contrariada o meu pai me levou no inicio da primavera "à lenha", chegou agora a compensação em forma de lareira alimentada por um pai que tem tempo e vontade para a "acariar".

O gato adora, eu adoro o gato. Não sei porque me deixei viver tantos anos sem um. Um luto extenso, talvez porque o que desapareceu com a gata há tantos anos tivesse sido mais que ela, talvez tinha sido o ultimo fôlego de uma Era. Um dia éramos todos felizes, no outro já não o éramos.

O gato, esse Ser que respira é um rasgo de vida na casa. Abrir a porta e encontrá-lo distorce um pouco a realidade da solidão destas quatro paredes. Que não são as minhas, e por mais que eu as encha e as maquilhe, estarão sempre longe do espaço que eu já construí.
Não são as minhas janelas voltadas para a serra nem o meu terraço sob o vasto céu estrelado do Alentejo.
Custa a desprender-se de mim essa visão, desse sitio já construído. Embora se saiba que o caminho fluí noutras direcções, o saudosismo prende-nos à terra como uma ancora.


***

Então em 2015 eu quero fazer uma maratona...terei disciplina para me preparar?
Em 2015 quero ganhar mais, melhor. Perderei o medo de arriscar?

Ideias....para uma ano que ainda está longe de chegar.
É isso que as pessoas adultas fazem não é? Planos.....


sábado, setembro 20, 2014

Da força de vontade e outros fantasmas…


A força de vontade é um músculo invisível, ainda assim um músculo. Que se trabalha de forma incansável ou ele fica flácido e incapaz de funcionar.

Testamo-lo todos os dias com pequenos nadas, com respostas negativas a tentações, com pequenos esforços sem nexo como subir pelas escadas e depois traímos o treino com a famosa frase “dias não são dias…” E não são, isto quando não a dizemos todos os dias.

Isto para dizer que a força de vontade treina-se. É um treino exigente que quando levado demasiado a sério pode transformar a nossa vida numa coisa ascética e fundamentalista, mas que quando é descurado simplesmente nos foge das mãos. Dias não são dias, comes o doce hoje, amanhã bebes mais um copo e porque não, a vida é um mar de coisas boas [que tendencialmente te fazem mal] fumas um desses cigarros. 

Os dias tornam-se semanas que se acumulam em meses. O teu músculo está fraco. Não é uma palavra que sai menos vezes. E porquê, porquê dizer não ao que nos faz feliz, aos momentos, aos sítios, à vida que está a ser vivida, agora e aqui. Se isso nos faz sentir bem? Se estamos felizes? Dizes sim.

Um dia, acordas e precisas do “músculo” funcional, e ele está flácido. É nesse momento que se faz a diferença, ou percebemos  que dias não são dias e recomeçamos o treino, ou deixamo-nos dessas merdas e aceitamos que não queremos saber.

Dias são sempre dias, cada pequena decisão que tomamos tem consequências imediatas no que somos, no equilibro ténue da balança perfeita que é o nosso corpo.

Inicias então a “dieta”. A “dieta” é a metáfora perfeita para a força de vontade necessária para a vida. Deixar um vicio é uma dieta, deixar um mau hábito é uma dieta, os pressupostos são os mesmo, deixares de fazer algo que gostas. Se deixas de fazer algo que gostas é porque em algum ponto isso te estava a prejudicar, privaste-te em prol do bem maior.

O início da “dieta” é doloroso, tens fome. Sempre. Não inventem. Apetece-te coisas. Tens fome. É ai que entra o “músculo”. É ai que te apercebes, afinal, qual é o tamanho da tua força de vontade.

Sou conhecedora de dietas. De uma forma muito lata já fiz de todas, já tive vícios, já tive maus hábitos, já tive peso a mais, já tive que em muitas situações me corrigir e me reorientar.

Não são fáceis, eles implicam quase todos os sectores da nossa vida, gastam muita energia. Intrigam as pessoas à nossa volta, por vezes isolam-nos, por vezes deprimem-nos, por vezes são a descoberta do admirável mundo novo.

Mas são difíceis. Tens “fome”. Seja do que for que te aconchega a alma.

Mas ai entra o teu “músculo”. Força de vontade é comer um quadrado de chocolate e ficar satisfeito sabendo que o resto da tablete está na gaveta.

Este foi um grande verão. Fui feliz e fiz o que queria fazer, não disse tantas vezes não. E isso deixou-me com pouca energia, uns quilitos a mais e uma balança desequilibrada que eu tenho de voltar a equilibrar.
Setembro sempre foi para mim um mês de mudança, de recomeçar. Muito mais que o ano novo, para mim Setembro é o mês de fazer a vida avançar.


Por isso, estou oficialmente de “dieta”. E estou confiante, tenho um bom “músculo”. Tem provas dadas, mais que não seja porque eu passo a vida a testar-lo!

quarta-feira, setembro 03, 2014

O cheiro e o som do silêncio



Moro no 3ª andar, subo e desço sempre pelas escadas apesar de haver elevador. Pressinto que os vizinhos acham que é uma forma de ser antissocial e de os evitar naquele cubículo abafado, eu acho que não faz sentido nenhum correr 10kms ao fim da tarde e depois ir de elevador até casa.

***

Lembro sempre da minha janela com vista para a serra, o ar fresco de fim da tarde, o suão quente e seco no topo do verão e o silêncio das ruas a ecoar na calçada. Esse silêncio diferente em cada sítio onde se mora. Em Portalegre sepulcral, cheio de ecos das encostas e pequenas especificidades das casas de portas abertas diretamente para a rua. O silêncio dos passos que batem pela noite dentro nas ruas vazias, das gritarias estudantis do fim do Setembro logo após a sensação de total esquecimento que é Agosto.

Em Grândola o silêncio é um silêncio fresco que cheira a brisa longínqua de mar. A vento salgado a girar nas copas das árvores, gritando por vezes debaixo de um céu negro e estrelado. O cheio a terra, a pó. A rebanho de ovelhas e as cigarras que gritam com os cães a perderem-se em ecos pela imensidão daquele noite plana. O silêncio de Grândola é um silêncio ancestral.

Aqui o silêncio é um silêncio de sombras que passam nas janelas. De roupa que oscila no sétimo andar. De cadeiras que se empilham no bar da esquina ás 10h da noite e de carros que travam nos cruzamentos na madrugada de quem está a chegar depois da noite virada a trabalhar.

E um silêncio ambíguo, porque se ecoa nas larguezas da Lezíria depois afunila numa promessa de civilização.

Nestes silêncios podes sentar-te ao fresco, sem nada ouvir e ouves sempre um pulsar, os sítios respiram cadenciadamente, como se tivesse corações que batem, sangue a correr nas artérias e principalmente, uma alma.

É essa alma por que nos apaixonamos, essa alma só se encontra no “silêncio”.

***

São então as trivialidades que fazem de um sítio casa. O cheiro, o primeiro que sentes quando colocas a chave na porta da rua e pões o pés no o teu hall de entrada, o cheiros que vais encontrando andar a andar, a cada degrau adivinhando o jantar do vizinho, ou o cão angustiado que o dono não levou à rua, o tipo que colocou o lixo à porta. O perfume intenso da vizinha que vai sair, o cheiro a riso juvenil da malta de baixo que está a fazer um jantar.

***

O cheiro e o som do silêncio. Quando amares os que sentes, estás em casa.


quarta-feira, agosto 13, 2014

Andar distraída…



A vida passa, são os dias. Esses que nos consomem o tempo. As horas, a que temos de estar como e aonde, a queimar pela pele secando-nos as ideias.

Com esse frenesim de estar vivo, de respirar, de dormir, de comer, de estimular e abstrair uma mente a ficar mole de cansada, um dia reparamos numa falta de brilho num qualquer reflexo de espelho. Sabes, tens a certeza que estás distraída com coisas.

Essa distração não é pensada, nem desejada e no fundo, bem no fundo, achas que a estás combater nesse jogo de sobrevivência, porque te expões e te ofereces à vida, fazes coisas que desejas, aproveitas no éter das semanas os dias que são teus.

Essa distração é mais profunda, é do foro existencial. Estás distraída nas respostas que tens de dar às questões iniciais. Afinal quem sou eu, o que faço aqui?

A distração perante as perguntas sem resposta é um facto inevitável na vida. Tendes, pendes, resvalas. Acabas por passar por lá, porque respiras no conforto do imediato. E só quando começas a subir na pirâmide te apercebes, que há mais necessidades a suprimir.

Tenho andado distraída.

Reparei.

É uma distração boa. Subtil. Reveste-se de dias quentes e leves. Leves, leves como um sorriso aberto numa tarde de verão. Leve…insustentavelmente leve.

É uma distração procrastinadora. A distração que nasce da inercia. Como quando estamos tão ocupados a ver a beleza em nossa frente e não vemos o acidente na esquina.

A distração é necessária. Reparei nela.

Ajuda-nos a sentir essa quantidade necessária de frustração, essa quantidade que apaga brilhos.


Andar distraída é isso… juntar, juntar….juntar peso, peso até que a nossa leveza se torne insustentável e comecemos de novo a pensar a sério no que é suposto fazermos com a nossa vida.

segunda-feira, julho 14, 2014

Estar viva...no Alive...

(Por a tocar...e depois ler...com banda sonora...)

Do espaço fez-se multidão. Apertados no escuro, vendo a cada momento menos lugar para respirar,embriagando-nos nos cheiros, de fumo, de gente, de comida e de bebida, no cheiro adocicado da expectativa.

Já disse antes, um concerto daqueles que se espera, que se ansiou ao longo do tempo pode transformar-se numa espécie de comunhão, entre todos os que estão a senti-lo e quem está no palco.

Comunhão destas vi poucas.... The National na Aula Magna nos idos de 2008... Chet Faker no sábado no Alive.

É nesse momento que sabes que é algo de especial. Quando todas as coisas estão na dose certa dentro da tua cabeça, quando à tua volta o mundo se move a um ritmo que podes acompanhar. Quando a temperatura ambiente se sente na pele como um beijo abafado de gente, saturado mas viril. Quando não tens espaço, mas o espaço não faz falta ao entusiasmo, e quando toca o primeiro acorde e o publico se levanta em coro, o mundo transforma-se nesse espaço transcendente, onde realmente a musica funde todas as partes do teu corpo numa peça só. (Nin, A.).

Podes fechar os olhos ai e continuar a ver, o show de luz e cada decibel debitado pela coluna é um pulsar de sangue nas tuas veias, um pulsar conhecido a cada estrofe que podes cantar de memória.
Tu e a expectativa consumada, a bombear no teu corpo por um coração emocionado.

Uma e outra vez. Mudando ao ritmo, a cada voz forte, quando chega AQUELA musica.

Um concerto é isto. A mim sabe-me a isto. A estar viva, muito mais viva uma e outra vez que o meu sangue circula a ritmos diferentes crescendo, expandindo, criando memória na minha mente. 

Fugindo mais uma vez da fealdade....procurado o belo. Porque se há A Grande Beleza...é estar vivo e sabe-lo!

1000....

Este é o post mil....73 dos quais não passaram do rascunho. São linhas perdidas, textos que eu achei que podia escrever, mas não podia.

Porque os textos, juntar as palavras certas, aquelas que traduzem a sério uma emoção, não são inventados, são sentidos. São vividos.

Feliz por viver pela segunda vez as coisas aqui... desde 2006...

segunda-feira, junho 30, 2014

“An important question which should be answered; is it possible to be happy and lonely in the meantime?” Camus, A.



Muitas das pessoas que conheço e admiro vivem sós. Não são jovens acabados de sair da adolescência, são adultos com vidas feitas, com percursos profissionais consolidados. São pessoas que têm casa e vivem num ambiente aparentemente cuidado e não num caos da solidão.

São homens e mulheres. São pessoas interessantes. 
São pessoas com histórias, são pessoas vividas. São pessoas cultas e que sabem estar.
Porque é que, no percurso das suas vidas, não encontraram par?

Ser uma família de um, é uma escolha consciente, uma fatalidade, está o amor romântico de facto a morrer, ou andamos demasiado ocupados para o procurar?


***

Acontece na vida de todos, acho eu. Momentos de paixão adolescente. Achamos, não, temos a certeza de que encontrámos a nossa alma gémea, que a vida nunca mais poderá ser a mesma após aquela revelação.

Dias de angustias e incertezas, perguntas sem resposta, experimentação, tentativas de ler o futuro em expressões fechadas, preces para que haja do outro lado correspondência e depois, quase invariavelmente, um mar de desilusão. Noites mal dormidas, dias de neblina.

Mas porquê a insistência nesse sentimento pueril, se no fundo, estamos bem como estamos?

É-nos mesmo difícil imaginar que podemos ser felizes percorrendo a vida sozinhos? É-nos mesmo intrínseco sentirmos essas forças de atração, intoleráveis, incontroláveis e na maior parte das vezes totalmente inúteis e não correspondidas?

As paixões são ou não necessárias, podemos eliminá-las? Decidir que não, jamais nos voltaremos a deixar consumir pelo que é na realidade um instinto básico. Um absurdo na sua essência.


***

A pergunta que se impõe é então essa precisamos mesmo de outro para sermos felizes? Ou podemos, construindo um caminho consolidado de auto-conhecimento viver uma vida feliz e equilibrada abrindo a porta para uma casa onde não vive mais ninguém?

***
Há minha volta constroem-se dois mundos então. O mundo dos que encontraram par, dos que casam, dos que têm filhos e se mudam para a vivenda T3. Uns, mais equilibrados que outros, transformam isso num passo na sua vida, e não a sua vida. Outros não conseguem mais parar de falar em fraldas.

O outro mundo são todos os outros, que continuam a calçar os mesmos ténis de pano para ir aos festivais de verão. A fazer a festa de sábado à noite, talvez de forma mais requintada, mais adulta, mas os mesmo. Viajando no passado iria reconhece-nos a todos há 10 anos atrás.

Tudo isso não é bom, nem é mau. São vidas.

***

Na minha vida, questiono-me sempre sobre as possibilidades que não estou a aproveitar. Sobre todos os cenários que estou a perder, sobre os sítios onde havia de ter ido, sobre as escolhas, as pequenas e as grandes que fazemos a cada dia.

As escolhas que fazem com que tropecemos em alguém na esquina de uma rua, ou que a percamos para sempre na curva da vida.

O tempo sempre a atormentar-me. O tempo que passa numa única linha contínua sem possibilidade de retornar.

E depois, à aleatoriedade de tudo isto, resolvemos juntar a irracionalidade de sentimentos básicos. Parece funcionar tão bem para uns, o que falha com os outros?

Cada vez mais convencida…. a vida é mesmo um absurdo….

segunda-feira, junho 09, 2014

"Live fast, worry no more"



Percebi então a dinâmica dessa nova vida. Não ter tempo. 

Não ter tempo de sentar e pensar.

De se olhar no espelho e ver para lá da imagem reflectida.

Não ter tempo de aquecer o lugar no sofá ou de espreguiçar-se pela manhã na cama.

Esse ritmo de entrar e sair deixando apenas o caos à passagem. Passando pela casa em que se habita como se fosse uma qualquer quarto de hotel. Noite a dentro, manhã cedo fora.

Vivendo depressa, saindo. Sempre de saída, sempre com pressa.

Tropeçando no cesto da roupa por passar e olhando com o desdém de quem ainda tem de ir ligar o ferro para depois se afligir tropeçando no cesto da roupa suja a transbordar.

Vivendo depressa, sem tempo de olhar. Abrindo frigoríficos vazios, vendo caixas de fruta mirrada e cada vez menos vontade de pensar.

Dia adentro todo fora.

Sem tempo para pensar, nem resolver problemas pequenos quanto mais para ter problemas filosóficos, amoroso, familiares ou o raio do carro que se avariou na estrada ou a perna que doí acima do joelho ou quem sabe as contas que se acumulam na carteira para pagar.

Viver depressa, num qualquer caos de coisas por fazer, de horas mortas em quilómetros de estrada e um mundo de funções inúteis, que se repetem e que cada vez têm menos sentido.

Mas que interessa o sentido?

Vivendo depressa sem tempo para pensar, o absurdo instala-se.


Não há mais duvida existencial, só uma existência, rápida e sem tempo para se questionar…

segunda-feira, maio 12, 2014

"Tem que doer, pois se não doer como sabemos que estamos vivos (Apeles)"

"I assess the power of a will by how much resistance, pain, torture it endures and knows how to turn to its advantage. " Friedrich Nietzsche




Doí sempre. Doí porque estás bem e queres fazer o teu melhor e doí porque não estás preparada e queres chegar ao fim, nem que seja de rastos.

Doí-te quando sentes que não tens mais espaço no peito para respirar ou quando o teu coração se transforma numa bomba em sobreaquecimento pronta a rebentar.

Doí enquanto sentes as pernas, doí-te quando ficam tão dormentes que já não dás passos e apenas tens espasmos que numa impossibilidade técnica te continuam a impulsionar para a frente.

Correr uma meia maratona dói. [ponto]

Não tem uma explicação. Quem não corre não pode entender, porque não tem explicação.

Como explicar a alguém que podes simplesmente ultrapassar o limiar da dor porque não queres desistir?

E que cada passo que dás em direção à meta é uma pequena vitória interior.

Como explicar que as conversas que tens contigo mesma, a análise, todo esse tempo é um espaço de auto-conhecimento e reflexão inesgotável, que acabas sempre melhor do que começaste…mesmo que pareças um farrapo?

Não sou grande atleta. Não tenho nem tempo, nem disponibilidade para o ser. E existe um lado hedonista do meu ser que, para além de correr, gosta de um outro tipo de boa vida. Ou de má, depende sempre de como a estamos a viver. Se não dormes  o suficiente, se não comes com tino, se vais bebendo coisas para além da água, se vives… corres, mas não corres a mesma conta.

Mas tudo isso não me fatiga o espirito, nem a prova em si, o aparato de domingo, não é o que me fascina. Faço-o porque é estimulante e porque corres com outros, alargas outros horizontes. Conheces cidades e serras. 

Conheces cidades que despem as avenidas de carros para te receber. Numa perspetiva completamente diferente dos espaços e do pulsar das artérias. Vais a sítios onde não irias, e essa descoberta exterior é também um desafio aos sentidos. Nas serras, os cheiros a mato, a erva molhada pela manhã nas provas de trail, ou ao bafo salgado das vertentes que estendem junto ao mar.

Seja onde for, é sempre uma overdose para os sentidos. É sempre uma sensação de se estar viva para além do torpor dos dias. E de superação.

Por isso sofres, porque nessa balança de equilíbrio delicado ganhas sempre mais do que o que perdes. Não desistes porque a frustração de não acabar é mais difícil de aguentar do que aquela dor estupida que se te meteu nos joelhos.

E mesmo que te falte tudo, na via sacra dos últimos quilómetros, te falte hidratação, te falte a alimentação, que te falte a energia, nunca te falta o coração.

Cada meta atingida é uma vitória íntima.


Não se explica, não sei explicar isso a ninguém.

terça-feira, maio 06, 2014

O culto (egocentrico) da imagem.



Desde que aderi ao instagram tirei 1066 fotografias. Muitas delas são versões de mim. Uma espécie de coleção: "Anita na praia, Anita no campo. A Anita vai ao restaurante, a Anita aprende a correr."

Já me questionei sobre essa torrente de imagens produzidas com a facilidade de um clique, assim como já me questionaram sobre o porquê de o fazer, às vezes até de forma depreciativa.

No entanto, depois de pensar sobre essa depreciação não vejo o porquê.

Não tenho filhos, nem cão, nem gato, nem namorado. Que mais sobra para fotografar se não Eu e os sitios onde vou.
Se fotográfo para o (m)eu feed e se com ele alimento a minha timeline?

Se são os meus espaços, onde eu construo uma narrativa, ainda que em boa parte seja um simulacro da realidade, qual é o problema do culto da minha imagem. O facto de ser autoinduzido?

Entretanto, percebi também que criava na mente das pessoas um mapa virtual da minha vida. Alguns sentem que sabem de tudo o que eu faço. Dos sítios onde vou, do que como, do que penso.

Esta perceção fez-me refletir sobre o poder das imagens e das construções. Uma timeline do facebook é uma narrativa, como que um argumento que se vai escrevendo diariamente. Podemos, não ter a perceção de que o fazemos, mas criamos uma história.

A nossa história. Só contamos aquilo que queremos, como faríamos se conversássemos com alguém na mesa de café.

Vou a muitos sítios que não estão no facebook. Penso muito para além do que desabafo no facebook, o facebook é a fotonovela das coisas boas, temperada com um ou outro desaire e uma série de mensagens subliminares partilhadas apenas com aqueles que conhecem os nossos códigos.

Ainda assim, uma construção. Que quando bem orientado pode levar as pessoas a pensar exactamente aquilo que pretendemos que pensem de nós.

E como as massas são fáceis de manipular, à escala da esfera privada, as redes sociais são a ultima ferramenta de formatação de mentes.


"A Anita vai ao cinema, a Anita aprende a cozinhar, a Anita faz-vos pensar naquilo que ela quiser… A Anita leu um artigo de jornal, A Anita vai a um concerto…."

Um dia destes conversava com alguém sobre o facto de que o facebook e a partilha de fotos ou simples pensamentos me ajudam a reduzir a sensação de solidão. Quando vives só o silêncio entre paredes pode ser avassalador. Por maior que seja a tua paz interior, o confronto com outros, a troca de palavras, um simples "like" ocupa espaço no teu tempo, faz-nos sentir acompanhados como se vivos no pensamento de alguém por breves segundos.

É a nossa humanidade a sobrepor-se a um estado racional. A nossa necessidade de criar memória e de partilha-la. É isso, esse culto de imagem que nos embala.

segunda-feira, abril 28, 2014

"Joie de vivre"


"Há um ponto na consciência onde acaba a nossa persona social e começa o nosso eu. Um ponto onde se acaba a culpa, onde se acalma a ansiedade e se apagam preconceitos.

Ultrapassado esse ponto invade-nos uma sensação morna de felicidade. Cresce no centro do corpo e se eleva fazendo ruborescer as faces.

Podemos chegar lá de muitas formas. Mas uma vez que lá chegamos devemos saber que é um sítio vicioso. 

Que é humano querer sempre mais do que é bom.
Mas como é insustentável essa leveza de ser…não podemos permanecer lá muito tempo sob pena de se ficar irremediavelmente perdido...

Mas sair e encarar a realidade dá-nos esta sensação de ressaca emocional....

Pagamos sempre, de qualquer forma os excessos da vida."

***

Há dias difíceis a segunda-feira costuma ser um deles. A sensação de descanso do fim-de-semana transforma-se num cansaço pesado quando temos dias realmente vividos. Durante os dias que somos livres não paramos e depois chegamos aqui. Se há algo que detesto na vida moderna, nos dias de semana, no trabalho...é esta sensação de que alguém é dono do meu tempo.

***

A sensação de ressaca emocional é algo que se agrava ao longo da vida. Porque vamos degustando novas sensações, mais e mais e aprendemos que a vida pode ser surpreendente, emocionante e cheia de aventura. Queremos isso todos os dias. Estímulos.
Gostos, cheiros, emoções.

E quando um dia é apenas um dia, só mais um dia. Uma espécie de papel branco que não se vai preencher nem encher de história cresce-nos este amargo de boca, um tédio existencial, o sentimento de desperdício, de tempo, de vida. "Hoje não estou a ser tudo aquilo que posso ser. Não estou a aprender, não estou a ser feliz ou a sofrer. Não estou."
Essa linha plana a seguir a altos e baixos cria esta sensação física de ressaca, banhada de ansiedade, vazio.

A ressaca emocional agrava-se há segunda-feira. Mesmo ontem éramos livres...hoje estamos  de volta ao mundo real.

***

A ressaca emocional dá-se porque se provou esse "joie de vivre". Porque se nos encheu o palato e sabores, porque o sol bateu-nos morno na face. Porque dançamos de olhos fechados em noites de deslumbre.
Porque abraçamos pessoas e sentimos corações a baterem ao mesmo ritmo que o nosso.
Porque vimos a beleza dos dias que acabam em noites suadas, ridas em conjunto e vividas muito para além dos limites.

A ressaca emocional é a paga por se estar embriagada pelos dias, a afogar-se constantemente nesta vontade imensa de viver...

A mãe natureza é perfeita...tal como se o álcool não desse ressaca andaríamos perpétuamente bêbados....Se não houvesse essa persona social... o nosso eu pensaria apenas em "viver com prazer".


quarta-feira, abril 09, 2014

“I would rather live my life as if there is a god and die to find out there isn't, than live my life as if there isn't and die to find out there is.” ― Albert Camus




Poderia perder a fé, mas como se perde algo que não se tem? Ou que se tem de uma forma tão abstrata e absurda que nunca se conseguiu tocar?

Meu pai disse-me um dia que quando morrêssemos íamos para a terra, que seria um nada, que para lá da vida havia apenas a morte. Crê a sério na nossa finitude. Disse-me que as pessoas acreditam em algo porque lhes dá conforto, criamos um sentimento de possibilidade, acrescenta-nos sentido.

***

No outro dia  a minha tia confidenciou-me ao ouvido, enquanto caminhávamos atrás do carro, a passos lentos, de cabeça baixa, sussurrando trivialidades para esquecer a caminhada.

      Tia: “Sabes, a tia em maio vai fazer um retiro. Em Beja.”
      Eu: “Um retiro tia, desses de ficar em Silêncio?”
      Tia: “Sim, são três dias. Estás lá, rezas. É tão bom, faz tão bem à tia.”

Ficamos no silêncio, dando passos. De braço dado. Brilharam-lhe os olhos de satisfação no meio daquela tristeza.
Em contraponto à descrença, o braço que segurava no meu dava passos de fé. Os meus eram só passos.
Em que se acredita, quando não se acredita em nada?

***

Nunca soube lidar com a perda de alguém. Isso reflecte-se num comportamento que roça a apatia. Lágrimas que não caem, palavras desajeitadas que nunca são ditas na altura certa. Abraços estranhos que se recebe com reticências e um mundo de coisas que são um tédio existencial. Tudo isso transformando o meu coração numa enorme pedra. Fria e impossível de compreender.
Às vezes acho que sou uma miúda muito, muito esquisita…

***

Continuo no embaraço de não saber os gestos e de repetir como que com um engasgo as ladainhas. Não entendo a aquela comunhão, nem a reverência. Respeito, mas não faço parte.

***

Kierkegaard alegou que o indivíduo é o único responsável em dar significado à sua vida e em vivê-la de maneira sincera e apaixonada, apesar de admitir que existem muitos obstáculos e distracções. 
O desespero, a ansiedade, o absurdo, a alienação e o tédio atravessam amiúde o nosso caminho.
Da escola existencialista continua a assombrar-me Camus e o absurdo da vida.
Imaginar Sísifo feliz é uma imagem que me persegue, e que ao mesmo tempo me abre portas para a aceitação das provações, porque se Sísifo puder encontrar sentido na sua tarefa inglória, incessante e sem sentido, também eu poderei dar sentido aos dias.

Se aceitarmos a falta de sentido, o absurdo da nossa existência, não há porque tentar explicar a morte, ela simplesmente existe. As nossas perdas são só fruto de um acaso, de situações, do simples facto de estarmos vivos.

Até certo ponto acho isso mais reconfortante que acreditar no juízo final, no céu e na terra. Não creio que exista explicação para o sofrimento que existe e se espalha bem mais rápido que as bênçãos no mundo.
Com diria o velho Woody, se ”Deus existe, espero que tenha uma boa desculpa.”.

Espero sinceramente que exista…apesar de tudo, pior que acreditar na coisa errada… é não acreditar em nada.


***

Demos passos largos e lentos. Olhando os pés, num cortejo pejado dos olhares de quem pára à beira dos passeios. Nem véus pretos, nem choros altos. Só silêncio, céu negro e um ar abafado.
O cheiro adocicado de flores que murcham depressa demais, morrem antes do tempo...como se mais alguma coisa precisasse de morrer com a parte de nós que parte.
Os passos, lentos. O cheiro do fumo de escape dum carro já passado que entorpece quem respira. As pedras gastas da calçada.
A terra remexida. O cheiro a sebes, a flores murchas, a lexivia que alguém esfregou no mármore.
A imponência...o branco...o limite entre o céu e a terra marcado no horizonte pelo muro alto, o muro que cria silêncio.

As pessoas entraram e saíram, deram sentimentos. Trataram-me como se me conhecessem... talvez tenham andado comigo ao colo... eu só me questiono sobre quem são, porque prestam respeito. Eu não era daquela terra.

Segundo Garcia Marquez...agora já sou...





domingo, março 30, 2014

A estrada perdida...

Saiu para o ar da noite meio entorpecida agora que a adrenalina da festa se estava a esgotar. Atrás si fechava-se o mundo numa noite serrada Iluminada por estrelas baças.
As luzes iam-se esgotando e com elas o burburinho de pessoas que abandonavam o local, umas cambaleantes, outras efusivamente alcoolizadas, outras ainda silenciadas pelas exaustão.
O frio da noite era-lhe mais familiar do que o frio do dia, tremeu-lhe o corpo por debaixo da fina camisa de seda, mas sentiu-se libertar em pequenos espasmos, como se o frio lhe trouxesse de volta a consciência. Havia ainda aquele cheiro de pinhal, de pinho molhado, de terra fresca coberta pelo orvalho de uma manhã que não tardaria a chegar. Rebeca caminhava descalça carregando uns sapatos torturadores nas mãos, tateada o chão frio com cautela e os seus pés estavam já dormentes quanto alcançou o carro.
Lutou com a pequena mala para encontrar a chave, o frio continuava a entrar-lhe pelo corpo e havia pisado algo que lhe magoou o pé direito, enquanto procurava manter o equilíbrio entre o cansaço e o torpor alcoolizado.
Sentia-se como alguém que vinha da festa, um travo amargo na boca, a vista pesada e a cabeça cheia de emoções que ainda não tinha tido tempo de absorver, de espremer e retirar o sumo. Tantas caras, tantas conversas cruzadas, o êxtase da dança, a música a correr nas veias e um coração a bater ritmado.
A mistura de sabores, de comida, de bebida, de perfumes e tabacos. As cores e os brilhos. As festas daquele lado afastado da região eram sempre memoráveis. Pecavam pela viagem longa, pela estrada deserta que atravessa o pinhal, denso e obscuro. Um espaço quase encantado e ao mesmo tempo tenebroso pela escuridão.
Mas Rebeca colocou as mãos firmes no volante. Ligou o Radio, I´m derenged do Bowie começou a tocar, pareceu-lhe providencial, até casa seria uma espécie de estrada perdida, minutos longos de encantamento Lynchiano.

***

Rebeca sabia que conduzir não trazia ao de cima o melhor dela. O seu temperamento pacifico alterava-se quando punha as mãos num volante. Impacientava facilmente com outros condutores e era dada a pequenas provocações na estrada. Era ainda agressiva na forma como manejava o carro, gostava de velocidade, gostava de sentir a maquina a vergar-se pela perícia das suas mãos.
Gostava de fazer curvas perigosamente e de jogar a sorte usando pés pesados no acelerador.
A noite continuava fresca, Rebeca levava uma pequena fresta do vidro aberta para respirar, pisava o acelerador com convicção, “derenged” ecoava a um ritmo frenético a a estrada afunilava entre riscas brancas perante a sua percepção meio toldada.
Mas o ritmo do som cadenciava um coração aflito que lhe bombeava o sangue nas veias, o sangue de um corpo cansado e sujo, intoxicado, fazia crescer em si um frenesim interior.

“I'm deranged
Deranged my love
I'm deranged down down down
So cruise me babe cruise me baby…”

Ecoava, pensava se não estava mesmo demente. Rebeca achava que se alguém ficasse demente na estrada seria esta a musica que o e enquadrava.
E o que era demente naquele fim de noite escuro e fresco? A contínua vontade de acelerar e começar a fazer curvas apertadas de sentir o carro a derrapar na gravilha para lá do alcatrão quando media mal o caminho e saída da estrada.

“And the rain sets in
It's the angel-man
I'm deranged”

Ou seria demente puxar o travão de mão, ali só porque sim, Rebeca pensava nisso enquanto acaraciava o manipulo do travão, como se fosse uma arma letal. Letal e atraente, quase irristivel. Por vezes sentia essa curiosidade animal, “E se eu puxasse o travão de mão, que aconteceria?” O carro rodaria sob si na estrada, ela perderia o controle da maquina que derraparia até embater numa dessas arvores gigantescas, ou capotaria por uma dessas bermas ladeadas de barrancos, o seu corpo quebraria das mais variadas formas entre metal retorcido e frio ou ardente do fogo, rasgando-lhe a carne. E o sangue continuaria a ser bombeado, ainda quente ao ritmo de Bowie, mas para fora de si como que drenando-a de vida. Séria isso, seria assim? Rebeca continuava com a mão pousada no travão, afagando-o como se fosse a alavanca a puxar em caso de emergência. A estrada continuava a estreitar-se entre as linhas brancas, curvando-se perante um percursos acidentado pelo capricho do pinhal.
Carregava como mais convicção no acelerador, pisava o travão ao entrar na curva, doí-lhe o pé magoado e descalço, mas era indiferente a adrenalina crescia-lhe encadeada pelas luzes que se aproximavam vindas de frente, na imensidão do pinhal do silêncio daquela noite fresca e depois de quilómetros de demente solidão tinha companhia na estrada.

“The clutch of life and the fist of love
Over your head
Big deal Salaam
Be real deranged Salaam
Before we reel
I'm deranged”

"Derenged" continuava a ecoar, Rebeca distribuía a mão direita inclemente entre as mudanças que metia com convicção e o travão. E acelerava, abriu um pouco mais a janela e sentiu o ar a uivar no topo das árvores, da frente não baixaram os máximos, a estrada entre as duas linhas deixou de afunilar no meio da velocidade para se transformar num grande clarão.
Rebeca deixou de saber de si, e soltando a caixa de mudanças, puxou o pé ferido para o travão pé que lhe escorregou no sangue quente que não reparou lhe corrida da ferida.


I'm deranged… fechava em acordes frenéticos, depois um embate ensurdecedor, depois o silêncio cortado por um coração que batia…bombeando sangue quente para fora do corpo, drenando-lhe a consciência... Rebeca lembra ainda do travão de mão...dessa curiosidade insatisfeita antes de se ausentar de si.

quarta-feira, março 26, 2014

Será que quero mesmo voltar a estudar Jornalismo?



Quanto mais leio sobre jornalismo e jornalistas...mais me convenço que devia ter tirado um curso de agricultura, é que as couves podem ter coração, mas não chegam a ter umbigo...

Não há no mundo profissional classe operária mais incapaz de se distanciar de si mesmo, de se relativizar.
Os jornalistas deste mundo passam mais tempo a debater-se do que a debater os problemas que se passam lá fora. 

Depois correm rios de tinta (espera…acabou a tinta, agora são só zeros e uns!) por causa do comentário de domingo e da conduta do Rodrigo dos Santos ou por causa da reportagem sobre o Tipo do Kit e das Marés Vivas que vêm a Portugal. A esta última chama-se “infotainment”, goste-se ou não, que há para debater sobre isso?

No entanto é irresistível empolar discussões, dá-nos um sentimento de importância.

Porque num mundo onde o papel do jornalista se vem desvanecendo, gastas que estão as páginas de jornal que já nem para enrolar peixe servem, nesse mundo de jornalistas sentados, de pessoas pouco curiosas, de histórias copiadas e embaladas como numa linha de montagem. O jornalista não é mais um Ser importante. É um tipo sentado na linha de produção, que pica o ponto para entrar, que tem de mostrar produtividade. É um tipo como os outros, e não precisamos de muitos anos na escola para fazer copy/past e interpretar o corretor de erros do word.

Quando iniciei o Doutoramento no ano passado, ia cheia de perguntas e queria muito encontrar respostas. Depois percebi que num programa de doutoramento em Ciências Sociais é suposto encontrar mais perguntas e coloca-las a um nível filosófico que transcende a interpretação do dia a dia e se situa no éter das questões eternamente por responder.

A pouco mais de um mês de decidir se quero fazer o reingresso no Doutoramento, de decidir se devo pedir aos senhores para me aceitarem de volta, debato-me com esta questão. Quero mesmo voltar a estudar jornalismo?

Quero mesmo pegar no trabalho académico de toda a minha vida adulta e voltar?
Continuo entusiasmada com os modelos de negócio para os News Media e continuo a achar fascinante a entrada nesse admirável mundo novo? 

Tenho o que é necessário, gosto mesmo disto?

Ou é uma paixão platónica…daquelas que nutrimos ao longe….destinada a nunca ser consumada?



sexta-feira, março 21, 2014

“Frankly My dear... I don´t Give a Damn”


Lembro-me de que quando era pequena achava que a vida das pessoas não existia para além de mim. Um dia, numa das muitas vezes que o meu pai me foi buscar a casa da mãe, numa dessas viagens que começavam comigo a soluçar colada ao vidro do carro, vi-as a desaparecer no afunilar de uma rua. As suas vidas ficavam então inanimadas, inexistentes. Todos os seres funcionavam como figurantes do palco que era a minha existência. 

A fase egocêntrica. Eu no centro do mundo, o mundo dos outros a confluir no meu. Isso aconteceu quando eu tinha seis anos. 

 *** 

Enquanto crescemos apercebemo-nos da nossa insignificância no girar do mundo. Se eu desaparecesse todos os outros seres continuariam a respirar. A viver, não seriam inertes nem incapazes, a minha existência é tão só uma figuração na vida dos outros. 

O meu mundo, uma irrelevância. A inversão do princípio da nosso existência é um processo lento e doloroso. Escusamos-mos a aceitar que não somos especiais, nem únicos, nem sequer necessários. Somos peças. Somos até, salvo raras excepções, peças desnecessárias. 

Como formigas num formigueiro. Soldados, mantendo a engrenagem viva, ocupando espaço. Sendo um escudo. 

***

Quando eu digo que não gosto muito de pessoas, sei que às vezes sou mal interpretada. Adoro pessoas, as minhas pessoas. 

Depois há um mundo de pessoas que são um mar de angústia, de frustração de incógnitas e preocupações. As pessoas, na generalidade, as pessoas desconhecidas são más notícias. São difíceis de ler impossíveis de antecipar. 

As pessoas têm razões que a própria razão desconhece. As pessoas são difíceis. Às vezes gostava de ter de novo seis anos, gostava que a vida das outras pessoas se eclipsa-se no virar da esquina. Gostava de não ter de pensar no que elas vão a pensar para casa. O egocentrismo da infância, era então uma santa ignorância. 

*** 

E um dia estamos tão cansados desse jogo de leituras, de rostos e expressões. De expectativas. Das nossas por cumprir, das dos outros incumpridas. 

De nós esperando, dos outros à espera. Cansados de achar coisas, de esperar, as expectativas matam-me. 

Que só nos apetece dizer “Frankly my dear, I don´t give a damn”. 

E ansiar ser capaz de deixar de me importar de vez…

quarta-feira, março 19, 2014

A beleza...

A beleza de uma tarde de sol e vento fraco, apenas uma brisa.

Do silêncio dos sítios que vivem e respiram. Com gente dentro, e um mundo inteiro lá fora.
A beleza dos sons, dos que sobressaem do silêncio em harmonias perfeitas. Capazes de nos emocionar, de nos enraivecer ou de nos fazer sonhar.
A beleza dos sabores crescendo-nos na boca. Desdobrando-se em notas e memórias.
A beleza de palavras conjugadas da forma certa, expressando na plenitude o nosso ser.

A beleza das coisas mais simples que podemos ser…
Estou fascinada pela beleza das pequenas coisas...

segunda-feira, março 17, 2014

"There is no love of life without despair of life." Camus, A,


Há dias em que parece que o mundo nos dragou a alma, chegamos a casa vazios. Questionando, uma e outra razão. Desejando coisas que não podemos ter, desejando respostas, certezas, indicações e uma via aberta para a vida. Há dias em que nos deparamos connosco. E apesar de termos a certeza que estamos a fazer o melhor que podemos, temos a certeza que não sabemos o que estamos aqui a fazer.


***

Sai para a rua e respirei. Ar frio e vivo a encher-me os pulmões, quase a queimar de vida.  Essa necessidade eléctrica de me mexer, essa energia pouco positiva a transbordar, a querer sair e abandonar-me.
Esse momento de conexão, em que as imagens e os dias se rebobinam na nossa mente ao ritmo da passada, cadenciando com o baque das pedras da calçada. Um e outro assunto a ser arrumado no seu respectivo lugar. Problemas a surgirem e a fugirem de nós. Correr e pensar.
Pensar enquanto o frio da noite substitui o frio do dia. Enquanto os cheiros da escuridão se instalam e se sobrepõe aos cheiros do movimento.
E sinto-o, um coração que bate e se esforça e se supera. Sinto que tenho sangue nas veias e que o posso fazer circular.
Sai para a rua e respirei, respirei fundo.  
É como sentar e pensar. Sentamos e pensamos cada vez menos.
Vivemos nesse ritmo de coisas a sucederem-se sem parar. A entrar e a sair de casas, de sítios, de peças de roupa.
A nossa vida invadida pela vida de outros. Todas as versões de nós a existirem ao mesmo tempo, a trabalharem, a viverem. Todas, ao mesmo tempo. Nem uma a parar para pensar. 


                                                                                 ***

"Porque estás aqui comigo?" - perguntou-lhe olhando-o nos olhos, num tom desafiador
"Olha para ti, podes estar com quem quiseres, podes escolher. És bonito, és charmoso. És relativamente jovem e desimpedido. Porquê comigo?
Eu que sou um significante nada. Que não sou bonita nem feia. Nem alta nem baixa. Que falo baixo e me fica tanto por dizer.
Logo eu, a desenquadrada, eternamente deslocada onde quer que esteja. Eu? Que nem sou assim fã de pessoas e só agora estou a aprender a viver. Questiono-me e espanto-me. Queria saber."

***

Inquieta-me as pessoas. O vazio que lhes vejo, o mar de inquietações. Imagino o seu interior debatendo-se com o dia a dia, incessantemente sem parar, sem momentos de silêncio, sem se sentarem para pensar.
Inquieta-me o escuro, essa vontade que me surge de as salvar, de as retirar da inercia da vida, desse quotidiano que achamos que temos de viver. Inquieta-me que me inquiete.
Porque revejo os pequenos nadas nas duvidas da sua existência. Da minha própria existência e insatisfação.
Como Sissifo, carregando a pedra pesada que é a nossa mente, ela sempre rolando, recuando, dizendo-nos que não.

***
Que andam as pessoas a fazer? Porque escolhemos o que escolhemos, porque o fazemos?
Continuamos no absurdo da vida?
E essa ausência de explicação... a incerteza. É incessante. As duvidas, o desconforto. Deviam ser boas, deviam ser motivantes. As dúvidas lançaram homens ao mar e descobriram novos mundos.
Estaremos acomodados no dia que descobrirmos todas as certezas.
As dúvidas são inquietação.
A inquietação é criadora.
Criamos inquietos.
Vivemos. Inquietos e cheios de dúvidas.
Estamos vivos.
(Mesmo sem saber o que estamos aqui a fazer.)





segunda-feira, março 10, 2014

A Síndrome da solidão.

Eu vivo sozinha. Esta é a minha casa. Ninguém me chateia eu não chateio ninguém. A minha família vive noutras cidades, ao longo dos anos os amigos mais chegadas foram indo embora, cada um para a sua vida, dispersando pelo mundo.

Embora eu conheça muita gente e tenha muitos e bons amigos, estou, na prática, sozinha. Aqui, em Portalegre ou em qualquer outro lado do mundo.

Isso não é um problema na maior parte do tempo. Sempre fui muito autónoma, há poucas coisas na vida que eu faço com os outros que não posso fazer sozinha, não morro de solidão, nem me aborreço, considero que tenho recursos e uma vida interior capaz de me entreter por muitos e bons dias.

Treino sozinha com a mesma vontade com que vou ao estádio treinar com a equipa, cozinho para mim como se tivesse de alimentar a família, saio e passeio, não fico em casa só porque não tenho com quem ir.
Não sou uma solitária, tenho amigos, convido-os a vir a minha casa, combino cafés, saímos para beber um copo, vamos a consertos. Eu vivo com outros, eles só não vivem na minha casa.
Eu vivo sozinha. [Ponto] Isso não é um problema para mim, parece às vezes ser para os outros.

Esta conversa porque no outro dia parti a cabeça, fiquei atordoada e não havia lá em casa  ninguém para ver se era grave, para me amparar na queda. Eu tenho dois telemóveis e três dispositivos ligados em permanência à internet, nunca estás virtualmente só, mas depois precisas de ir perguntar à farmácia do lado se se vê o cérebro ou se podes ir treinar.  Tudo bem, é o preço a pagar, como tudo na vida há prós e contras. Eu sei os contras, há que os contornar.

Mas isto deve ser socialmente estranho, digo. Se não, pelos vistos é algo que merece uma certa compaixão, porque “coitadinha, não tem ninguém que a venha cá buscar? Uma menina tão bonita…aiii diga lá, não têm um amigo?”

Quando me dizem que não devo ir sozinha a conduzir até ao hospital eu acho que devo chamar um táxi. Mas a Enfermeira continuou a insistir, que eu devia arrancar algum amigo do trabalho, chamar um ente querido do outro ponto do país ou quiçá mandar vir a minha mana do Canadá para me ver levar 3 pontos.
Eu tenho a certeza no meu coração que se precisa-se que alguém lá fosse bastava um telefonema, podia começar no topo da lista, mas é realmente necessário chamar alguém para fazer algo que eu posso fazer sozinha?

Porque é que alguém tem de perder meio-dia de trabalho quando com 3€ eu simplesmente pago um táxi?

Hoje confrontaram-me novamente com essa “doença” de que padeço. “ A sério, não tem ninguém que lhe possa ir lá receber o técnico?”  E de novo esse olhar de compaixão. “Coitada, não tem cá ninguém…pobre rapariga.”

Porque é que tomar decisões, fazer coisas e estar-se sozinha, sendo-se menina ou uma jovem mulher adquire em certos momentos essa aura de desgraça? Tenho de ser dependente de algo ou de alguém, preciso de alguma certificação social?

É assim tão estranho no mundo de hoje, um mundo em que estamos em constante rotação, entrando e saindo, mudando…

Parece então doença, uma síndrome. Uma daquelas coisas que não se sabe de onde vem e que nos afeta a nível funcional. Que não afetaria se todos fizessem o trabalho como esperado, às horas planeadas.

Se não houvessem expressões de desapontamento, nem olhares de pena.

Não, não sofro de autocomiseração. Estou aqui sozinha. Isso é diferente de estar aqui solitária!


quinta-feira, março 06, 2014

Cadernos da Cidade Nova I


Mudei-me para aqui,  bem podia ter sido para Marte, que eu à Lua ainda conheço as fases. Deste sítio nada. Só o lugar que ocupa no mapa e o semblante visto ao longe, no cimo da colina. 

Este sitio é como aquela pessoa com quem toda a vida nos cruzamos na rua e nunca soubemos quem é. Dissemos-lhe bom dia, boa tarde, um sorriso num dia de verão, mais nada.

Hoje subi a encosta a correr, entrei na artéria principal e continuei pelo planalto, pelas ruas estreitas, pelas vielas, pelo reino do gótico. Não conheces as ruas antes de lhes ter pisado a calçada, antes de sentires a mistura do ar, do cheiro do jantar que se desprende das casas ou do pão que torra no café. Esse cheiro da vivência que envolve o das árvores, os escapes e a neblina que sobe do rio em fim de tarde.

Não conheces os sítios antes de os sentires a pulsar, a vibrar debaixo dos pés antes de distinguires os sons, e veres as esquinas, os sítios onde não foste mas podes ir.

Correr. Aqui, ou no outro lado do Atlântico continua a ser a maneira mais fiel de conhecer uma cidade.

***

Estou a ressacar de pessoas. Ainda que a rua esteja cheia de Humanidade, eu preciso de pessoas, das minhas. De pessoas de quem eu não posso duvidar, de expressões conhecidas, de gargalhadas altas e sinceras, de ter espaço e de ser eu. Eu entre os meus pares, entre tantos anos de afinidades, de cumplicidade. Estou a ressacar das minhas pessoas.

Aqui em Marte são todos desconhecidos. Hoje vi esplanadas, achei-as interessantes, talvez me vá lá sentar. Ai pensei nessa coisa complexa que é conhecer pessoas, da espontaneidade. Antigamente isso era fácil, na escola ou  nas noites de copos, o amigo que apresenta o outro amigo, um mundo de tempo e possibilidades.

E agora, como se conhecem pessoas? Como se descobre afinidades? Agora que a paciência é pouca, o tempo ainda menos e a nossa exigência maior. Crescemos e não temos mais tempo para o erro, não temos mais espaço para a desilusão, para escrutinar rostos ou desvendar personalidades. Pisar terrenos movediços, pessoas. As pessoas são difíceis. E como descobrir pessoas no meio de tanta Humanidade?

*** 

Depois conhecemos pessoas que têm muros altos, são autênticas fortalezas. Um império solene, vivem na mais perfeita solidão.

Que não nos permitem entrar, mas que nos convidam a espreitar cá de fora. Que embora nos mostrem a riqueza do seu ser, nos emprestem por momentos a chave e nos deixem permanecer por instantes, no fim do dia sempre vão encerrar as suas portas.

São normalmente encantadores. Falam muito, comunicam pouco. Prendem-nos por momentos nessa áurea misteriosa. E nós por instantes achamos que vamos conseguir entrar, estamos já apaixonados por esse admirável mundo interior…presos. Porque são intensas, e saborosas tornam-nos insaciáveis...

Mas são fortalezas. Estão perpétuamente encerradas.
Só nos resta a certeza que nunca se darão a nós, devemos parar antes que se tornem corrosivas.

Em tempos achei que queria ser assim, auto-suficiente e  inalcançável.

Não sei mais se quero. Conhecer alguém e permitir que nos conheçam é um processo maravilhoso de criação de laços.

Orgulhosamente sós…é com viver “La grade Belleza”, freneticamente no agora. 
Uma vida sem estória no meio de tantas histórias.