quinta-feira, setembro 27, 2012

Divagações sobre o Tempo VII


Podia ter sido ontem, esse fim de Setembro já tão longínquo.

Numa dessas semanas de tempo instável, de chuvas torrenciais seguidas por um sol aberto e franco. Chegando aqui. Podia estar a ser agora.

O olhar espantado sobre esse mundo todo novo, sobre as possibilidades que se abriam por debaixo dos nossos pés.

Os sonhos a caminharem para se tornarem realidade.

O mundo novo, a liberdade, a escolha, o tempo por nossa conta, só e apenas nosso para fazermos dele o que se quisesse.

Podia estar a ser ainda hoje, essa menina chegando de cabelo apanhado e maquilhagem exagerada. Enxergando-se nesses trapos antigos e ultrapassados, essa expressão de si.

Podia estar as sentir ainda essa sensação doce de colocar a chave na porta de casa, da madrugada e do nevoeiro húmido que subia pelas ruas, e as luzes, as luzes baças, alaranjadas reflectindo nas pedras da calçada.

Podia estar a ser ainda, as nossas vidas congeladas nesse plano, todo o tempo ainda para percorrer o caminho, todas as decisões para serem tomadas, todas as oportunidades ainda à espera para serem nossas.

Podíamos eternamente viver nesse estado de latente euforia, ser jovens. Ser mais que jovens, ser estreantes, ser enérgicos e esperançados, ser sem sombra de dúvida algo que ainda está para acontecer.


terça-feira, setembro 18, 2012

Divagações sobre o Tempo VI



Só mais um dia, sentado no degrau da porta da rua. Olhando quem passa enfiado naquela camisola de cavas, larga e desbotada e naqueles calções estampados.

Mais um dia acenando aos gatos, entretendo o tempo olhando as nuvens, cobiçando as mulheres que passam devagar, temendo escorregar nas pedras da calçada.

Mais um dia. Naquela casa sem janela, naquela rua íngreme, fazendo tempo entre o pequeno-almoço e o meio-dia.

Perdera já a capacidade de inventar maneiras de matar o tempo. Todas as paredes haviam já sido pintadas, a soleira da porta arranjada, o lustro puxado aos azulejos do chão.

Nada mais havia para fazer a não ser sentar-se ali, no degrau. Cuspir de vez em quando um pedaço de tabaco preso no lábio, falar sobre o que vem no jornal com um vizinho que eventualmente espreite à janela a meio da manhã.

Nada mais que observar o tédio dos dias.

Tivera um trabalho em tempos. Levantava-se de manhã cedo. Saia com o almoço, sentia-se cansado. Às vezes sentia-se mal pago, desejava o descanso e o conforto do lar.

Mal dizia o patrão, as dores nas costas, o tempo perdido nessa prisão.

Hoje nada mais tem a fazer que sentar-se no degrau pela manhã.

Não dorme até mais tarde. Não aproveita  a liberdade do ócio, resigna-se à pobreza dos dias.

Vê o tempo a passar, do seu degrau. Quer o mundo mudado, mas mais não consegue fazer para o mudar.

E fica ali, nesse movimento perpétuo, na sua camisola de cavas desbotada, como Sisifo, empurrando a sua pedra... arrastando-se de dentro para fora, de fora para dentro, vivendo resignadamente uma situação que não muda. Nem imaginando que poderia eventualmente mudar...

sábado, setembro 15, 2012

Sobre as manifestações...

São esse momento inédito e desorganizado em que pessoas tão diferentes se juntam.
Gritam, fazem barulho, barafustam e destilam alguma da sua desilusão.
Muitos não saberão bem por que estão ali. Nem tão pouco contra que moinho lutam. Mas a manifestação faz-se desse encontro de vontades, dessa necessidade de contribuir e de tentar, mesmo que de uma forma utópica, mudar o mundo.

***

Sinto-me sempre e invariavelmente emocionada quando ouço o meu povo cantar em uníssono o Hino Nacional. Deve haver, algures dentro de mim, um ser patriótico.

***

Não fui a Lisboa, talvez devesse ter ido. Talvez devesse estar lá e ser mais um número na multidão. Devia gritar palavras de ordem. Jogar pedras para a escadaria do Parlamento, ver petardos a rebentar. Estar ali  exposta e vulnerável, claustrofóbica no meio do medo de ser esmagada.
Mas devia ter ido. Ver a revolução, talvez não a fazer, mas sentir o que paira no ar. Se é esse ambiente pacifico. Se é que há verdadeira revolução pacifica, imaculada e sem sangue, sem dor e sem mágoas que fiquem para a história...

***

Não falei no megafone. Falta-me o jeito.
Mas se falasse teria dito o quão grande é a minha desilusão.
Não só porque afinal o mundo é mais negro do que cresci a acreditar. Porque afinal não vivemos num Estado justo e igualitário. 
Diria da minha desilusão de ver esta terra a definhar porque fomos esquecidos, porque somos poucos e não contamos.
A desilusão de ter apostado no Portugal profundo, na qualidade de vida da província, na promessa que o advento da modernidade nos colocaria sempre mais perto do mundo, mas que afinal, ao fim de uma década nos deixou ainda mais longe.
Podia contar do meu pesar pelo desagravo com que somos desperdiçados todos os dias. O talento, a energia e a vontade de trabalhar. Ou pior, como ao longo dos últimos anos, e apesar de termos estudado tanto, fomos tão mal educados e como o mérito deixou de contar e se transformou em números sem significado.
Diria que sonhei um dia com uma vida digna e desafogada, que me foi prometida em virtude do meu esforço, que era lógica, que era justa, mas que ainda não aconteceu.
Diria que me doí o coração de ver os meus velhotes abandonados às suas dores porque as suas pensões são de miséria e não há um lar decente que os receba, porque embora cada vez haja mais velhos, cada vez há menos dignidade em envelhecer.
Diria que não acredito nessa organização da sociedade, que não sei como se muda mas que algo tem de mudar.
Diria que mais do que triste e desiludida com as dificuldades de agora estou desolada pelos sonhos que vão tardar em chegar, pelo tempo perdido, pela vida gasta...

***
O mundo é tão vasto, a Terra generosa bastaria apenas sermos todos muito mais humanos.

quinta-feira, setembro 13, 2012

Sobre a boa vontade...


Há dias em que ela nos faz falta, mas não a conseguimos ter.

E depois, depois de termos sido impacientes, pouco disponíveis para os outros, de não termos dado tudo o que poderíamos dar, sobra essa sensação amarga.
Afinal fomos maus, egoístas.

Afinal o mundo só nos quer bem e nós temos um umbigo demasiado grande e absorvente.

Essa descoberta constante da nossa própria falta de altruísmo deixa-nos assim encalhados nos nossos próprios defeitos, aqueles que achávamos que estávamos a limar. 

Esses anos todos de lapidação, afinal pouco mais fizeram desse diamante em bruto que é a nossa alma.

Queríamos, de alguma forma que algo nos chegasse sem que tivéssemos de dar algo em troca. O nosso tempo, a nossa boa disposição, a nossa concordância com disparates, a alteração do nosso modo de vida, o nosso espaço.

Queríamos não ter de deitar conversa fora, de não estar à mercê do tempo.
Queríamos por vezes gozar o simples prazer da solidão, o conforto do silêncio. Existir apenas.

Mas temos de ter boa vontade. Ser com os outros, dispor de nós, retribuir, integrar, agradecer...

Às vezes falta-me tudo isso, admito. 
Não gosto que falte. Não gosto de ser mal agradecida, de não corresponder... mas não posso, não consigo ser, invariavelmente aquilo que o mundo precisa que eu seja.




segunda-feira, setembro 10, 2012

Sobre a Vida...



"Porque se quiséssemos um termo de comparação para a vida , o melhor seria o de um metropolitano, atravessando o túnel a cinquenta milhas à hora - e deixando-nos do outro lado sem um gancho sequer no cabelo! Cuspidos aos pés de Deus, inteiramente nus! Rolando por campos de tojo como embrulhos de papel pardo atirados para dentro de um marco de correio! E os cabelos puxados para trás pelo vento como a cauda de um cavalo nas corridas. Sim, são coisas destas que podem dar a ideia da rapidez da vida, a destruição e reconstrução perpétuas; tudo tão contigente, tão apenas por acaso..."

"A Marca na Parede"
Woolf,  V.

Divagações sobre o tempo V


E ser for isso que nos espera? Só e apenas a desconstrução do mundo como o conhecemos?

Se já passaram os dias dourados, se depois disto, de toda essa conversa de surdos, se depois do esforço e da indignação não nos sobra mais nada que dias cinzentos de inverno?

E se teremos desde já de sentir falta dos sítios onde nunca fomos, dos sonhos que não concretizamos, dos risos dos momentos de ócio que não poderemos gozar?

E se nos sobra só a depressão dos dias, a poeira de uma Era que nos chegou enganada, fora do seu tempo, indesejada por gerações e empurrada para a frente até ficar encalhada entre nós?

E nós, desencorajados, demasiado conscientes, demasiado instruídos e derrotados apenas possamos nos arrastar pelos anos, maldizendo o destino, sobrevivendo, azedando no espírito a revolta por todas as promessas terem sido quebradas, pelo mundo ser afinal um sitio cruel.

E se é só isso? Aquecimento global, tempestades, secas, desemprego, subnutrição, má educação e um fosso cada vez maior entre esse conceito de ter ou não ter. Ser ou não ser. Privilegiado de nascença ou indecorosamente plebeu?

E se séculos de evolução social desembocarem nessa terrível constatação que somos cada vez mais desiguais?

E se todas essas coisas adquiridas a que nos acostumamos,  todos esses direitos, esses confortos, essas certezas deixarem de o ser?

Que pensaremos então?

E se de facto, nessa organização social, com as evoluções tecnológicas, a sua demografia invertida e este novo modo de vida, não existe por principio mais trabalho para todos?

E se o problema não for a nossa austeridade, mas o mundo. Sim, esse mundo que gira e se transforma e continua a caminhar... não sabe bem para onde... não se sabe bem como...

Esse mundo que ainda descobre que já se fizeram todos os carros, já se construíram todas as casas e os LCDs não podem ficar mais finos?

Esse mundo que ainda descobre que evoluiu tanto, que nos excluiu...

Que pensaremos então? Quem seremos? De que cor será o futuro?

Que poderemos nós continuar a desejar?



quarta-feira, setembro 05, 2012

Lolita


"Um misto de ingenuidade e fingimento, encanto e vulgaridade, amuos azuis e jovialidade rósea, Lolita, quando lhe apetecia, tornava-se uma garota exasperante. Eu não estava, de modo algum, preparado para os seus excessos de tédio desorganizado e interesse tenso e veemente, nem para o seu estilo desleixado, melancólico, de olhar apático, e tão-pouco para aquela espécie de palhaçada difusa, que ela julgava denunciar uma personalidade «dura», à maneira de um garoto vadio."

Lolita
Nabokov, V.

terça-feira, setembro 04, 2012

Divagações sobre o Tempo IV



Era meio da manhã, o sol era quente mas não impiedoso. Era já Setembro e a brisa refrescara trazendo prenúncios de um Outono ainda distante.

Encostavam-se todos ao balcão de mármore branco, encardido pelo tempo e pelos copos de tinto.
O salão era amplo. Nunca teria sido bonito, mas sim o possível de se fazer. O gosto duvidoso da mistura de azulejos de fim de linha, a magistral lareira reinando sobre a sala, trono que os actuais Lcd’s queriam roubar, a cor ocre das paredes, os alumínios usados das janelas.

As cadeiras e mesas de café em ferro, de pés mancos sempre a entornarem os copos a quem se atreve a colocar os cotovelos em cima do tampo.
Todo esse cenário envolto numa névoa do tempo e fumo só perceptível depois de se entrar pela cortina de fitas.

Tudo parou ali.

Os homens sorvem o café com um cheirinho, sorriem abertamente num triste cenário de dentes podres e tabaco e as senhoras, oscilam o seu peso pelas cadeiras no ócio da manhã.

O trânsito lá fora é irregular, as casas dispersas, o mundo ritmado pelo som das notícias na televisão.

Os campos estão vazios, os tractores encostados, as festas de Agosto acabadas, os emigrantes retornados para longe.

Nada mais a fazer.

No ócio do tempo, no aborrecimento da existência, nesse tédio de coisas que não se tem para fazer se perderiam todos por ali. Deitando conversa fora, falando de um mundo conhecido pelo telejornal, dizendo lugares comuns. Falariam depois da vida dos outros, queixaram-se da sua própria vida até que o sol do meio-dia os chamasse para um desejado almoço.

Esse cenário, num ápice aparecendo aos olhos dos forasteiros. Aqueles que encostam no tasco à beira da estrada para um café salvador do marasmo da condução por estradas secundárias feitas de pisos novos e vazias. Daquelas que atravessam grandes extensões de mata, quilómetros e quilómetros de solidão.

Essas estradas que nos levam de uma região para outras, onde pequenos pormenores na vegetação ou nos hábitos das pessoas nos dizem que não estamos mais onde estávamos.

Pensou de repente em todos esses sítios desconhecidos, perdidos no mapa. Em todas essas pessoas cuja voz nunca se ouve, nem mundo profundo onde as leis dos Homens são diferentes, onde as mulheres se eclipsam antes dos trinta.

Fez-se silêncio à sua entrada. Pediu um café em voz baixa que pareceu ecoar pelos recantos do salão em ondas de choque abissais. As cabeças voltaram-se num silêncio profundo. Observaram o elemento estranho a si. Os calções indecentes, a figura esguia e o esgar de espanto por estar tanta gente naquele sitio e depois, como que por ordem divina, todos voltaram à sua vida habitual ignorando o forasteiro. Falando alto, bebendo, rindo de algo sem piada, simplificando a vida, vivendo-a ao segundo. 

Segundos que se transformam em minutos e depois horas, que todas juntas farão dias. Dias que serão anos sem significado, passados no mesmo balcão de mármore que estará apenas mais encardido da próxima vez que lá se parar.

terça-feira, agosto 28, 2012

Divagações sobre o Tempo III


Rodeavam todas uma mesa estafada de esplanada. No seus trajes andrajosos de pessoas que já viveram muito e não vão em modas.
Aqueles padrões, ninguém lhes diz que já não se usam?
Isso e as permanentes, em cabelos detalhadamente penteados e pintados de louro platinado...
E estavam ali prostradas com todo o vagar do mundo, numa terra onde as ondas de calor se conseguem ver a emergir dos paralelos do passeio. Jogando conversa fora, avaliando a sua solidão, comprando pão de manhã num ritual interminável.
A vida sendo simples, simplificando-lhes o espírito.

***
Vagueava então nessa sensação de que devia estar a fazer algo, embora não houvesse realmente nada para fazer. Nada para além da espera.
A espera dos dias, que se transformam em horas e horas que ganham significado físico a cada minuto que passa.

***

Nesse vagar, nesse torpor tépido do estio, de olhos bem abertos, espírito crítico e aguçado, tudo ganhava então outra dimensão.
Esses pormenores da interioridade, todas essas coisas para além do verde das colinas e do silêncio das tardes.
Essa falta de mundo, e no entanto, ali estava um mundo inteiro, tamanha contradição.

*** 
O tédio que se instalava por vezes em si era medonho. Porque era um tédio paralisante, negativo. Daqueles tédios que nos impedem de pensar, de agir. E todos os nossos sinais vitais se reduzem a uma respiração pausada, um suspiro profundo.
Devia estar a fazer alguma coisa, embora não haja realmente nada para fazer…

*** 
Pelas pedras da calçada continuam, em movimentos lentos, pessoas que sobem e descem a rua principal. Ou o que resta dela. Ruinas caídas, montras estagnadas, rostos vazios por detrás de balcões tantas vezes encerados.
Nesse torpor do estio, para onde vão todos? Sentar-se num qualquer banco de jardim e ver a vida passar?

*** 

Nem uma aragem, nem ponta de fresco, só esse ar parado, essa atmosfera pesada. Essa opressão que não nos permite pensar.
E o silêncio. Esse silêncio entrecortado amiúde pelos ruídos da cidade. Um carro que passa trepidante na rua de baixo, um latido arreliado ao longe, um grito abafado de criança que perde a bola num movimento menos pensado.
As portas fechadas, pessoas encerradas em quatro paredes largas, protegendo-se do calor, fechando nessa garrafa monumental o tédio da existência.

*** 
E subsiste essa sensação, essa angustia... essa quase certeza de que devíamos todos estar a fazer qualquer coisa…embora paire no ar essa sensação de que simplesmente não podemos fazer mais nada....



segunda-feira, agosto 27, 2012

Histórias da Estrada





Não sou sou assim tão inocente, não acho que no mundo as pessoas apenas se unem porque estão ternamente apaixonadas.


Percebo a prostituição. Num bar, numa discoteca ou num ambiente de distracção.

Compreendo o Flirt, a necessidade de se procurar algo que não se tem no corpo de outra pessoa. Seja prazer, seja juventude ou apenas um momento de consolação.

O sexo é de cada um e cada um faz dele o que a sua mente lhe permitir.

No entanto, há uma forma de prostituição que a mim, mais que tudo o resto me deixa perplexa.

Lembro-me ainda em criança, olhar com curiosidade para as senhoras que se prostravam junto à estrada em Águas de Moura a caminho de Setúbal, ou na recta de Pegões.

Depois durante muitos anos desapareceram.

Para voltarem de novo agora, na recta entre Grândola e Alcácer do Sal.

Não entrando pelos dramas pessoais de cada pessoa, não querendo nem sequer avaliar se estas mulheres estão ali de livre e espontânea vontade ou se do outro lado da mata está um chulo qualquer a guardá-las, pergunto-me sempre. 

Quem são os clientes?


Quem vai, descansado no seu carro, a meio de um dia de trabalho, olha para o lado durante uma travagem e pensa: “olha ali uma louraça? Hummm”. 



E depois, tão simples como “quanto custas?”

E que recebe em troca do seu dinheiro? Para além de um sensação fugaz e esgares de nojo, de alguém com dores de pernas por causa dos vertiginosos saltos e que nas últimas duas horas provavelmente já atendeu outras pessoas, igualmente com impulsos estranhos e repentinos?

Não há sedução, não há história. Não há corpos bonitos, nem luxúria. Não há quarto de hotel com espelhos e veludos.

Nada, apenas o mato aberto, uma mulher enojada e um homem obtuso cuja mente se reduz a instintos básicos. Prazer e sobrevivência.

Não entendo por isso o impulso.

Mas vejo-o. A crescer na estrada.

Seja porque estamos em crise, ou porque as máfias de leste traficam mais pessoas, ou porque do Brasil vieram mulheres mais libertas que as de cá.

Vejo, nas cadeiras vazias junto a montes de lixo num cenário degradante, vejo em mulheres de saltos altos e mini-saia que fumam enquanto esperam. E porque esperam...por um dia bom?

E que será isso?

Divagações sobre o tempo II


São dez anos tempo suficiente?
Para esquecer, amenizar, perdoar ou sanear os acontecimentos e ainda assim acharmos que afinal, naquele tempo éramos felizes?

Dez anos, um rio imparável, sempre a correr.

Quantas tempestades, quantos pequenos nadas, quantos traumas inesquecíveis.
Quanta felicidade e tristeza nas nossas vidas.

Dez anos de construção e destruição do nosso eu. Dez anos de fantasmas.

E ainda assim, no momento do reencontro, caras conhecidas e familiares. Gestos que se repetem, vozes que soam de forma igual. O mundo inteiro de diferenças.

Quem seremos nós ali, em dez anos de ausência?

Em que nos transformamos?
Quem és tu? O que pensas da vida? Onde achas que vais?

Poderei algum dia recuperar dez anos de inexistência?
Poderei ser eu de forma diferente? Sem a vontade crónica de cortar os pulsos nos intervalos da aulas? Sem a paixão desses anos adolescentes, sem o drama da existência,  sem os rodeios das vidas paralelas, sem os pequenos truques, sem o ar ausente e a mania que sabia alguma coisa do mundo?

Ou não, em dez anos somos simplesmente qualquer coisa muito, mas muito diferente?



segunda-feira, agosto 20, 2012

Voltar a casa...

Voltar a casa é sempre esse novelo de sensações. Os lugares que conhecemos, as pessoas com quem já partilhamos coisas, um misto de cumplicidade e desconhecimento total de vidas que continuaram a decorrer sem nós.

Pensamos por momentos no que poderia ter sido se nos tivéssemos abandonado por ali. Vivendo essa outra vida. Indo a todos aqueles lugares, sendo outras pessoas.

Quem seriamos? Se poderíamos pensar assim, ouvir as mesmas músicas? Ter lido os mesmos livros?

Teríamos outros amigos, seríamos mais ou menos conscientes de nós, teríamos mais vida familiar?

Todas essas perguntas por responder, olhando a ansiedade com que nos recebem. 
Como se recebe alguém que abalou há tanto tempo, alguém que nunca chega realmente a estar. 
A quem se fazem perguntas de circunstância, de quem se gosta realmente muito, mas que nunca chegamos realmente a conhecer.

E todos esses olhares de interrogação quando se conta as novidades, essa mística que tentamos impor às nossas vidas, contando tudo ligeiramente melhor do que aquilo que é. Os olhares de desapontamento ou de admiração...

Os lugares da infância são assim.
Um misto entre o sitio onde queremos muito voltar e o sitio de onde gostaríamos de fugir.
O sitio de tantas promessas por cumprir, onde o espelho nos devolve essa outra imagem, gravada há anos daquilo que achávamos que poderíamos ser...

Somos sempre, invariavelmente diferentes.

Sobre os pensamentos...

Descobriu nesse dia o lado obscuro dos pensamentos.

Que eles existem, remoem-se dentro de nós de forma torrencial. Tornam-nos ansiosos, azedos, mais felizes ou sonhadores.

Motivam-nos para o bem ou para o mal. Movem imaginariamente o mundo.

Mas serão apenas isso, pensamentos. Inúteis, privados. Improváveis, estúpidos, megalómanos ou simplesmente coisas simples.

Pensamentos. Pequenas sinapses dentro dos nossos insondáveis cérebros.

Serão apenas isso, coisas imateriais dentro de nós até ao dia que sejam ditos. Que se materializem em palavras, que alguém as ouça. Que sejam inapagáveis da linha do tempo.

Assim que os pensamentos se tornem memórias partilhadas, serão reais, inesquecíveis... imperdoáveis.



domingo, agosto 12, 2012

Divagações sobre o tempo I


Deixaria de ser assim, tão-somente mergulhada em dúvidas, tentando na sobriedade descortinar o sentido da vida, essa coisa, esse ideal inexistente.
Pois não pode haver sentido, se no fim somos finitos e imensamente sós.
Deixaria de se questionar, de pensar de mais, de perder o momento, essa reserva que a acompanhara, essa prisão, esse medo de viver e de facto, ali, abandonada a um canto só, rendida aos sons quentes do jazz, bebendo vinho branco enquanto cozinhava o almoço, uma ideia lhe surgiu. 
Seria tudo aquilo que poderia ser.

Lembra-se de um dia ter acordado de manhã e achado que seria feliz. Já crescida, muito depois da felicidade ser desmitificada dentro de si. Muito depois ainda, de ser um objectivo.

A felicidade não é algo de concreto, nem palpável, nem se doma, nunca se sabe como a encontrar e às vezes ela vem até nós sem esforço, tropeçamos nela. Outras procuramos, com força e só encontramos frustração.
Desistira já dela. Mas era sempre maravilhosa essa sensação de tropeçar nesse sentimento sempre novo, numa manha de sol ao abrir a janela depois de uma noite bem dormida.

Numa música desconhecida mas celestial. Num qualquer objectivo cumprindo apesar de fútil e fácil.
A felicidade numa tarde morna de Outono. Num passeio na cidade.
E sim, a felicidade nessa sensação de esperança.
Afinal, poderemos ser tudo aquilo que quisermos ser.

E o queremos nós ser? Uma versão melhorada de nós mesmos? Algo diferente? Uma personagem de romance, ter uma vida de filme?
Que queremos ser? Caseiros, familiares, trabalhadores? Maiores que a vida, admirados ou ermitas?
Que queremos afinal? Se podermos ser tudo o que quisermos, o que queremos é então o sentido da vida.

O querer é difícil. Queremos tudo, ao mesmo tempo, sem filtro nem distinção.
O querer, essa força magnifica é a energia da vida.
Travamo-la apenas com essa outra obsessão: a consciência.
A consciência, essa cabra.
Sempre murmurando coisas, uma voz de fundo. Como música ambiente da vida.
Decide o certo e o errado. Os pecados. Essa nossa educação judaico-cristã. Tão ocidentais.

Somos tão livres como livre é a nossa consciência.

Continuava languidamente sorvendo o almoço, ouvindo notas sensuais, bebendo vinho branco, pensando. Poderia fazer tudo o que quisesse. Mas saberia viver com isso?
Mas que quer? Que pode ser?
Nessa vida una e indivisível. Nessa linha de tempo irreproduzível. Nesse exacto segundo que não voltará a existir?

Nesse mundo de oportunidades perdidas.
Como poderá ser tudo o que quer ser, se só vive uma vez, e a vida é finita e gasta a tentar perceber o quer afinal?
O tempo, esse fardo que não se carrega, mas que passa em cadência sentida.
O tempo que não se repete e é insuportável, insustentável. De uma insustentável leveza. O tempo.

Há dez anos. Sim existe há dez anos. Como é possível?

Há dez anos não poderia nunca ser sozinha. A ansiedade, o tempo. Tic tac, tic tac, passando, sentido no relógio. A finitude dos dias que não se podem perder.
“Vamos miúda, levanta-te, corre. Há algo no mundo a acontecer e tu, sim tu, não estás lá. É irrepetível. Corre. Faz tudo o que a tua consciência permitir. Corre. EXISTE”

Faz recordação dos dias, sente o tempo, faz dele físico, sente-o. Os segundos como bafos quentes na pele. Um vento suão numa tarde quente de verão num qualquer sitio suado.
Com ritmos de fundo, com pessoas que saltam ritmadas, com coisas bonitas, cheias de vida. Cores e luzes na noite.
O tempo ai seria pastoso, lento a reter-se em ti, e o tempo podia ser tudo o que quisesses que ele fosse. O mundo, muito para além de ti.
Os dias, as horas, os meses e os anos arrumados e vividos.
O tempo resolvido.

domingo, agosto 05, 2012

Correr de noite... nas margens da Lagoa de Óbidos


Partir do castelo é um momento mágico. Descer a calçada num aperto de multidão, sentir a euforia que paira no ar.

 Tanta gente ainda cheia de energia, tantas pragas que ainda não se rogaram, tantas dores que ainda não foram sentidas, ali, no momento da partida, onde ainda todos achamos que vamos conseguir chegar ao fim inteiros, respira-se alegria.

Depois são os primeiros quilómetros, de muita gente ainda em grupo, as escadas para a ermida, o mato, o canavial, os pomares, o areão, a ribeira onde nos afundamos até aos calcanhares, as margens da Lagoa...

Sim, as margens da Lagoa, as luzes reflectidas no espelho de água, tantos pirilampos espalhados pela noite, a Lua  quase cheia, num esplendoroso luar de Agosto.

As luzes de pequenas terras desconhecidas ao longe, um mundo inteiro a girar indiferente àquele esforço enorme que cada um de nós está a fazer.

E depois essa overdose de sentidos, de cheiros, de sons, de texturas e cores...

Correr de noite é algo de mágico.

As dores, os músculos que não respondem, as bolhas nos pés e essas mazelas todas perdem-se à passagem pela pequena porta da muralha.

Porque às vezes tem simplesmente de doer... só assim sabemos que estamos vivos!

De volta ao Noir: Rebecca (1940)


É sempre difícil ver um filme baseado num livro de que gostamos realmente muito. As expectativas são altas. Conhecemos demasiado  bem a história, vivemo-la, atribuímos rostos às nossas personagens, desenhamos cenários na nossa mente, sentimos os cheiros descritos, estivemos, em alguma parte da nossa mente lá.

E depois há os pequenos pormenores que não aparecem no filme, ou porque não há tempo na curta narrativa ou pura e simplesmente porque são momentos que não se  traduzem em imagens.

Hitchcock fez um bom trabalho com o romance de Daphe Du Maurrier, apesar de ter sido um trabalho ingrato. 

O romance é denso, mergulhado numa atmosfera Noir complexa, com descrições longas de lugares e pessoas. Mas o que mais me agradou no escrita de Du Maurrier foi a sua capacidade de criar tensão entre as suas personagens. E tensão criada simplesmente pelos espaços, por memórias de uma casa ou de situações.

Rebecca é um livro Noir, que gira em torno de uma mulher que ocupa cada momento da história, embora já tenha morrido. E a tensão provocada pela sua lembrança é algo sempre presente no livro.

No filme, há apenas dois momentos em que esta sensação de quase perfeição se sente, sendo o momento em que Mrs. Danvers tenta induzir a frágil Mrs. de Winter ao suicídio a melhor conseguida. 

Não é o melhor de Hitchcock, mas vale a pena ver. No entanto, leiam o livro. Ai sim, está o verdadeiro prazer desta história.

"Mrs. Danvers: Go ahead. Jump. He never loved you, so why go on living? Jump and it will all be over... "

terça-feira, julho 24, 2012

De volta ao Noir: The Blue Dahlia (1946)


The Blue Dahlia não é um filme notável.  Pelo menos quando o comparamos com outros escritos por Raymond Chandler, autor de “The BIg Sleep” ou de “Double Indemnity” .
Mas é um belo Noir, nas suas sombras, nas noites de chuva. Nas personagens atípicas e até mesmo na sua vítima. Uma mulher.

Mais que não seja, vale a pena ver porque tem Verónica Lake  e os mitos merecem a devida vénia.
Das muitas imagens dos tempos áureos de Hollywood que nos povoam a mente, Veronica Lake é uma das que sobressai.
O seu olhar lânguido, misterioso e longínquo, os cabelos louros, um misto de perigo e de charme. Tudo na sua imagem parece dizer “You know  I’m no good.”, mas essa aura é no entanto irresistível.
O protótipo da Femme Fatale.
A essência do Noir.



sexta-feira, julho 20, 2012

Correr de noite...



"Correr de noite, tornou-se assim numa experiência sem paralelo. De noite o silêncio da cidade é ritmado pela nossa respiração e apenas perturbado pelos latidos longínquos de uma qualquer matilha invisível de cães.
De noites os espaços são amplos, vazios. 
As estradas são largas, as sombras longas, as estrelas luzes. 
A brisa é fresca... as pessoas apenas vultos, a imaginação livre. 
A cidade pulsa apenas ao nosso ritmo, a cada passada sonoramente dada sobre o alcatrão.
De noite acharam todos que somos ainda mais loucos, perdidos, algum tipo de assombração galopante.
Ainda que não haja a energia do sol, a sinceridade do dia, correr de noite é um mundo oculto de coisas a descobrir. 
Mais que física, uma experiência sensorial."




Sobre o pecado...


"Adão sozinho não pecou. Acrescente Eva, e acrescente a tentação. Acrescente um segundo homem e torna o adultério possível. Com a adição de sexo ou pessoas, acrescenta-se o pecado. Se os homens não tivessem braços, não poderiam estrangular com as mãos. Não existiria esse especifico pecado de assassínio. Acrescente braços e acrescenta a possibilidade de uma nova violência. As amebas não podem pecar porque se reproduzem por fissão. Não cobiçam companheiras nem se assassinam umas às outras. Acrescente sexo às amebas, e braços e pernas, e terá assassínio e adultério. Acrescente um braço, ou uma perna, ou uma pessoa, ou retire qualquer delas, e acrescentará ou subtrairá possível mal. Se em Marte houver cinco novos sentidos, órgãos ou membros invisíveis cuja existência não podemos conceber... não poderá consequentemente haver cinco novos pecados?

Bradbury, R. "Crónicas Marcianas"

quinta-feira, julho 19, 2012

Autobiografia do mês de Julho.




O mês de Julho, esse híbrido entre as férias e o trabalho.

Dias quentes entre noites frescas, ondas de calor no alcatrão e essa sensação de possibilidade.
Em Julho coisas podem acontecer.

Como em 2007,  que fui ao Festival Músicas do Mundo de Sines.

Apaixonei-me pelo "Amor em Tempos de Cólera" e pela "Crónica de uma Morte anunciada" de Gabriel Garcia Marques. Vi o "Scoop" do Woody Allen e um Noir antigo, "Gilda" e um Noir pós-moderno "A Dalia Negra."

Ou como em Julho de 2008 em andava cheia de opiniões sobre a imprensa regional, e vi cinema independente, a "Estação" e "The Savages" ou o "Breackfast on Pluto". E vi o blockbuster "Iron Man."

Li a "Desgraça" de J.M. Coetze.

Ouvi The National e P.J. Harvey.


No Verão de 2009 só via a Revista, a minha vida era a Pormenores, o meu blogue o espelho disso.

Julho de 2010 teve Sines novamente. Vi Céu e Saff Benda Bilili... Vi o "Breakfast at Tiffany's", reli o "Orlando" da Virginia Wolf e empolguei-me com a série Millennium nas páginas de "Os Homens que Odeiam as Mulheres".

Vi o "Sexo e a Cidade", o "Robin Wood", "Rachel Get Maried"... Ouvi Morphine.

No ano passado só havia olhos para a horta. Para os meus morangos, para as saladas de tomate e para as alfaces.

Nesta espécie de autobiografia dos meus meses de Julho, revivi cada página de livros que me apaixonaram. Sentei-me de novo no cinema saltando da cadeira a cada susto, ecoaram na minha mente acordes de musica.

Recordar permite-nos isto. Montar um puzzle feito de inúmeras peças que explica o nosso caminho.

É olhar para trás e sentir que afinal houve vida.

É olhar para a frente e imaginar o muito de vida que ainda há para viver.

O tempo continua ainda a ser um mistério para mim, essa ilusão. A inevitabilidade do tempo, dos dias que passam... a perda constante.

Fazer este exercício é sentir que atrás de si o tempo deixa um rasto de memórias..a sua personificação, algo que é quase palpável... não o tempo em si, mas uma memória dele.

quarta-feira, julho 18, 2012

O tempo...


"No ar daquela noite havia um cheiro a tempo. Sorriu e aprofundou mentalmente a ideia. Ali estava um pensamento. A que cheirava o tempo? A pó, relógios e pessoas. E se uma pessoa pensava  a que soava o tempo, soava a água a correr numa caverna escura, a vozes a chorar, a terra a cair em tampas arqueadas de caixas e a chuva. E, indo mais longe, como parecia o tempo? O tempo parecia neve a cair silenciosamente num quarto escuro, ou como num filme mudo num cinema antigo, cem milhões de caras a cair  como aqueles balões do Ano Novo, a cair, a cair em nada. Era assim que o Tempo cheirava, parecia e soava. E naquela noite - Tomás pôs a mão fora da janela, ao vento - quase se podia tocar no tempo."

Bradbury, R. "Crónicas Marcianas"

quarta-feira, junho 27, 2012

Horta no Terraço Série II




A vida dá umas voltas estranhas, destrói-nos as certezas expõe-nos aos fracassos e no entanto continua a abrir caminho para novos desafios.

Começar de novo é por isso a palavra de ordem.

A horta no terraço foi durante mais de um ano o meu passatempo preferido. Lembro-me das grandes alegrias. Da primeira alface colhida, dos morangos que surgiam espaçados, vermelhos, pequenos e muito doces.

Das saladas de verão com tomates que fiz crescer de pequenas sementes. As ervas de cheiro, a hortelã, um mundo de cheiros pela manhã depois da rega.

As preocupações dos fins-de-semana fora, a razia que foram as férias, e mesmo assim com muito cuidado e carinho consegui recuperar os morangueiros, replantar as alfaces, num movimento perpétuo de dar e receber para com a terra. Pouca, nos meus vasos, um cantinho de mundo.

Operou-se então uma mudança de casa, um abandono vergonhoso do meu trabalho, um momento de inaptidão para dar e receber e a horta padeceu pela falta de água e de cuidados.

Os gatos fizeram o resto e transformaram os meus vasos numa casa de banho de luxo.

Mas vou começar de novo. Recuperei os vasos, estou a planear espaços. Hoje comprei o substrato, uns pés de alface.

Nem tudo tem remédio e os meus morangueiros não terão nova vida. Mas outros nascerão em seu lugar.

Não é a melhor altura para plantar, fazer nascer… mas também isso é um desafio. Planear, montar, esperar que cresça, ver o mundo a tomar forma.

Tudo a renascer.

terça-feira, junho 19, 2012

Meu Mundo em desconstrução...




A certeza das coisas deixou de ser o dia-a-dia. O toque do despertador é igual, mas o vazio, a ausência e a incerteza é algo completamente novo.

Houve tempos em que achei que a total autonomia devia ser bom, o livre arbítrio, a ausência de culpas para com os outros, a não justificação. Mas na verdade ser-se só, deambulando pode ser também uma desconstrução de nós, a perda de propósito, a ausência de significado, um enorme vazio.

Há dias em que o vazio é uma folha em branco. A folha em branco é esperança. É um mundo que se pode escrever, é um caminho novo que se pode trilhar. É tudo aquilo que quisermos que seja.

Noutros a folha em branco é pura angustia. Sincera impotência para a preencher.

Á minha volta nada mais é como era suposto ser, nas noticias o mundo está prestes a derrocar, os anos ficam para trás sem se cumprirem, e eu, descobri que não sei nada sobre mim.

Havia uma voz de fundo, que me recusei a ouvir, que foi crescendo, crescendo até não se aguentar mais. 

Crise, com letras garrafais. Que se lixe a deles. A crise está realmente em mim. Nas certezas que passaram a ser dúvidas.

Num futuro conhecido estilhaçado e numa busca que parecia resolvida mas que só agora começou.

Um pântano, portanto. Um daqueles algo juvenil, uma crise de meia-idade na juventude. Uma porta aberta para livros obscuros, torpores alcoólicos e muitas horas de prostração solitária olhando janelas abertas para o mundo.

Se no fim, dos cacos se fizer vida, vale a pena sempre mudar, sofrer e cumprir o nosso desígnio de insatisfação.

Se assim for, que se destrua o mundo. Com raiva… 

quarta-feira, abril 04, 2012

Noticias da Horta: Primeiros rebentos

As primeiras chuvadas fizeram desabrochar as minhas sementes! Já há verde nos meus copinhos!

segunda-feira, março 26, 2012

Noticias da horta: a sementeira

O tempo continua seco, mas as temperaturas subiram e resolvi avançar com a sementeira.
Este ano consegui as desejadas sementes de tomate cereja. Mal posso esperar por ver pequenos pontos verdes dentro dos meus copinhos.

Fiz uns quantos que depois pretendo dar a outros "hortelões". Espero que a primavera traga chuva e ajude as hortas desta terra a vingar.

sexta-feira, março 02, 2012

Uma atenção especial do Reservatório de sensações

Afinal ainda chegam coisas boas pelos CTT [ultimamente só entregam facturas :P]. Uma surpresa muito especial da Ana Filipa, que conduz um blogue amigo. Também ela uma curiosa destas coisas da terra, também ela a abrir caminho por esse mundo desconhecido daquilo que se pode fazer crescer com as nossas mãos.

Obrigada.
Adorei receber sementes, vou adorar planta-las e ver as plantas a crescer.
Este ano, vai haver girassóis no meu terraço.

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Second Round: The wall

Ainda ficam a sobrar muitos buracos por onde os bichanos podem entrar, mas é um começo.
De um lado uma "parede" de Tijolo e assim que tiver oportunidade, um acrescento de plástico amarelo do outro, a ver se consigo tornar os vasos inacessíveis sem os asfixiar.

Tentei recuperar as duas mudas de alface arrancadas, espero que sobrevivam aos maus tratos.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Noticias da horta: Gatos - 1 A.M. - O

Pois é, logo na primeira noite os bichanos voltaram e até se lamberam com o "tempero",
Limão e pimenta preta não é coisa que assuste gastos alentejanos.

De volta à pesquisa. Os bichanos que me aguardem para o segundo round.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Noticias da horta: afastar os bichanos


Como era esperado, vasos plantados de fresco no terraço são uma festa para os bichanos das redondezas e hoje de manhã lá estavam duas mudas de alface esgravatadas e maltratadas!
Para além de ser incomodo o cheiro, ainda me dão cabo da horta!
Eu adoro gatos, mas os bichanos das redondezas não me estão a retribuir na mesma medida.
Comecei a investigar e a primeira tentativa de os afastar dos meus vasos começa hoje.
Espalhei cascas de limão e pimenta preta pela terra e à volta dos vasos.

Os artigos que li diziam também que eles não gostam de reflexos e que garrafas de plástico meio cheias de água também os podem afugentar.

Outra sugestão passavam por usar borras de café.

A primeira fase de espantar gatos começou hoje. Vou estar atenta e ver se vale a pena periodicamente "temperar" a horta ou se terei de passar a um plano B.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Horta no Terraço 2012


O inverno continua a ser gelado mas cheio de sol por aqui.
As condições não têm sido as melhores e a horta tem estado um pouco ao abandono. As geadas maltrataram muito os morangueiros e as ervas de cheiro, os gatos dos vizinhos trataram de vandalizar o resto.

Como Fevereiro já vai a meio e os dias estão visivelmente maiores, sendo que as previsões meteorológicas indicam uma subida da temperatura, resolvi começar lentamente a mexer na horta e a preparar os meus vasos para a Primavera que se avizinha.

Hoje as compras foram simples, uns quantos pés de alface frisada e roxas, pés de coentros e salsa e finalmente encontrei sementes de tomate cereja.

Comprei também o plástico amarelo para a estufa, que segundo me indicaram será uma melhor opção pois a cor amarela torna a luz mais forte e beneficia as plantas nesta altura em que o sol ainda anda meio tímido.

Falta-me ainda resolver a questão dos gatos, espero que as alfaces sobrevivam até amanhã! Os bichanos ficam loucos com a terra fresquinha acaba da regar!

Comprei também um pouco de composto para reforçar os vasos e tentei misturar com terra que tenho estado ao longo do ano a "fazer" num balde com restos de plantas e outras terras já usadas.

O primeiro passo está dado. Vou esperar uns dias e começar a sementeira dos tomates cereja. No que depender de mim, haverá muitas saladas biológicas este Verão.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Cat People (1942)


Woman at pet shop: You can fool everybody, but laudie dearie me, you can't fool a cat. They seem to know who's not right

Jacques Tourneur cria aqui uma atmosfera de suspense, nas sombras, nas imagens que não se vêem mas presentem-se.
Um bom jogo de luzes e sombras, um argumento simples mas consistente prende-nos neste filme curto - tem pouco mais de 1hora - mas que passa a bom ritmo.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

The Naked City (1948)

O final da década e 40 do século passado foi sem dúvida um tempo entusiasmante para os amantes do cinema. O Noir estava no seu auge, o cinema reinventava-se a cada nova película, o Star System estava montado e o mundo era brilhante e glamouroso.
The Naked City é um desses Noir narrado em voz off com a peculiaridade, para a época, de ter um toque documental, fazendo um esforço para retractar o quotidiano da cidade de Nova Iorque.
Filmado nas ruas da cidade, The Naked city reclama para si uma áurea de autenticidade, quer-nos apenas contar uma das muitas histórias da cidade num dia de Verão.
E nesse dia na cidade, onde na época viviam 8 milhões de pessoas, destaca-se o assassinato de Jean Dexter.
A receita é conhecida, um crime, vários suspeitos, o policial incansável e a dama indefesa. Mas funciona na plenitude até à sequência final.
Simples e empolgante como um bom filme deve ser.


quinta-feira, janeiro 05, 2012

E se eu gostasse muito de morrer


Os livros que nos falam de locais conhecidos provocam um misto de sentimentos. Por lado, reconhecemos os cantos da casa, por outro afecta-nos que esses cantos não sejam tão perfeitos vistos de outros ângulos.

Rui Cardoso Martins com certeza sabe do que fala quando fala da sua terra. No entanto, a sua terra não é já esta onde eu vivo.

Reconheço-a nas entrelinhas, nas ideias peculiares, na sua originalidade provinciana.
Mas infelizmente já nem isso é como era.

O fio condutor da narrativa é essa sombra, o suicídio. As mil histórias delirantes que existem por aqui, nestas terras onde o vento suão enlouquece as pessoas nas noites secas de verão.

O suicídio como banalidade, como solução, como piada entre gerações, o suicídio por engano ou como filosofia de vida.

História peculiar, caricata por vezes e até incomoda para aqueles que se reconhecem nas entrelinhas.
Vale a pena ler, nem que seja para perceber o quanto evoluímos.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Em 2012...

Quero poder ser uma melhor pessoa.

Quero ter mais paz de espírito.
Quero aprender a dar mais e a esperar menos.
Quero conseguir aceitar o tempo.
Quero correr mais e mais depressa.
Quero que a horta cresça verde e viçosa.
Quero que a crise me deixe em paz.
Quero ter mais trabalho.
Quero fazer uma tese de mestrado decente.
Quero ter a liberdade de sonhar.
Quero ter força para tornar sonhos em realidade.
Quero ser mais feliz.


sexta-feira, dezembro 30, 2011

2011 - O ano da confrontação.

Os anos tornam-se cada vez mais diferentes - e difíceis.
Confrontam-me com realidades para as quais muitas vezes não me sinto preparada, que se revestem de uma enorme injustiça ou que, por outro lado, são avassaladoras de tão boas que são.

2011 confrontou-me com a beleza de ver um bebé crescer. Mesmo que de longe, mês a mês. Cada sorriso, cada choro, cada dia é uma emoção. Cada problema, cada necessidade um medo acrescido de nunca vir a ter a disponibilidade emocional para levar a cabo tal empreitada e acabar por ficar assim, para tia.

2011 confrontou-me com o declínio do corpo, o arrastar da mente e o definhar da vida. Os sentimentos contraditórios que nos assolam quando vemos os nossos entes queridos votados a uma cama, sem serem mais senhores de si. Arrancados da sua casa de décadas e, embora tratados dentro das melhores condições possíveis, sentindo-se completamente abandonados.
Não devíamos nunca, jamais viver para além da dignidade do nosso corpo. Grande é esse castigo da natureza.

2011 confrontou-me com novos desafios profissionais, como o medo de falhar, com o prazer de conseguir, com a certeza de que poderemos sempre dar o nosso melhor e sentir prazer nisso. Só precisamos de uma oportunidade.

2011 confrontou-me mais e mais com essa grande verdade: acções têm consequências. E no fim, podemos ser sempre tudo o que quisermos ser, basta só estar disposto a pagar por isso...

2011 confrontou-nos com o medo do futuro. Com a incerteza, a instabilidade e um 2012 obscuro.

2011 confronto-me com o facto de que o mundo tal como o conhecemos pode não ficar para sempre assim. E a mudança é dolorosa, desconcertante, assustadora, imprevisível, todos essas coisas que não queremos na nossa vida.

Ainda não consegui sentir se essa mudança abrupta, apesar de dolorosa, é boa ou não.

2011 confrontou-me mais e mais comigo. EU, a minha vontade, os meus desejos, a minha existência, os meus medos e fraquezas. O difícil, o tão difícil que é dividir-me com alguém, integrar-me no mundo, abdicar, ceder, desejar menos, partilhar mais, ser em comunhão. Olhar o bem comum, aceitar os sacrifícios, esperar por dias melhores...controlar-me, aceitar.

Em 2011 o tempo passou, ainda mais rápido por entre os dedos, como pequenos grãos de areia. E esse sentimento de perda continuou a existir. Porque se há algo que não consigo ainda entender é esse esgotar do tempo, essa perda de possibilidade, a vida que nunca poderemos voltar a viver, a escolha que não podemos voltar a fazer, esse ser finito, limitado, estático que somos, apenas vivendo...

terça-feira, dezembro 13, 2011

Sintra


Adora casas velhas. Imponentes, caídas, ocupadas por ervas daninhas que crescem na humidade de um inverno que parece não acabar.




quarta-feira, dezembro 07, 2011

The Black Keys

domingo, novembro 27, 2011

Fado Património Imaterial da Humanidade

quinta-feira, novembro 24, 2011

quarta-feira, novembro 16, 2011

"O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."
Kudera, M. A insustentável leveza do ser