domingo, dezembro 16, 2012

Cadernos de Viagem I



Se o que importa não é o destino, mas sim a viagem, começo em modo sem destino nem objectivo.

Sem preconceitos, nem ansiedades ou perspectivas.

Porque as viagens podem ser mais que movimento físico e terreno ou olhares espantados para o admirável mundo novo que há do outro lado.

As viagens podem ser momentos de profunda introspecção, de projecção de nós no vazio, fora da zona de conforto, dos lugares comuns, nós num sítio inesperado, onde somos abstractos e sozinhos, rostos desconhecidos na multidão.

Gosto de viajar, embora seja avessa ao desconforto. A muitas horas de vazio e coisas pouco familiares. 

Mas gosto de aeroportos, daquele movimento. Da mescla de pessoas que se cruzam, uns despachados e senhores do sítio, outros com ar desajeitado de principiante.

Vidas inteiras dentro de malas, sorrisos de quem vai viver as férias da sua vida e choros de quem vai partir sem data para voltar. Tudo misturado com o som que anuncia partidas e chegadas e as luzes dos painéis de informação, que vivem em movimento perpétuo.

A luz das lojas das zonas de embarque e o avião, o céu, o mundo de possibilidades espalhadas pelos corredores. 

Os aeroportos são mágicos por isso, por esse sentimento de possibilidade. Algo sempre a mudar…

Não conheço o sítio para onde vou. Não conheço as temperaturas que vou encontrar, não sei sequer, se o meu espírito tropical vai aguentar o choque térmico.

Mas estou ansiosa por partir. Começar. 

Entrar no avião e ir, simplesmente. 

Estar na viagem.


quinta-feira, dezembro 06, 2012

Divagações sobre o Tempo IX

"No começo, todas as coisas são boas. Mas como é raro, na história dos homens e das pequenas ou grandes cidades, que sejam boas quando chegam ao fim!
Então, tudo se desfaz. Fica só a gordura. Tudo alastra. O tempo desarticula-se. O leite azeda. De noite,  os fios que escorrem do alto dos postes contam histórias de terror no nevoeiro. A água dos canais desaparece por baixo da espuma. As pedras de isqueiro, riscadas, não fazem faísca. As mulheres, tocadas, não têm calor.
O verão, de repente, chega ao fim.
O inverno põe neve nos ossos.
É tempo de nos virarmos para a parede."

A Morte é um acto solitário
Bradbury, R.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

As ruinas...

Foto: Paula Barbosa - Praia do Alamal, Gavião, Alto Alentejo


"Não gostava do frio. Mas podia compreender a beleza nostálgica das cores de Outono. A morte vegetal em tons garridos, os cobres da terra, os castanhos secos espalhados pelo chão. 

Uma lenta decadência, o mundo em desconstrução, morrendo aos poucos na geada. Sucumbindo por fim. 

Quem pensou que o inferno era um sitio quente, não viveu este frio. Este frio amargo que entra nas articulações, que doí nos joelhos. Os músculos que tremem em espasmos incompreensíveis,  os dedos que paralisam nas mãos.

E vem com o Outono. Este frio, adágio do mundo em ruínas."




terça-feira, dezembro 04, 2012

Os dias…



Que passam sem darmos conta. Excitantes, uns a seguir aos outros, cheios, intensos e depois, se esvaecem no tempo, se perdem, deixamos de lhes sentir a essência.

Como um momento alto, um abuso de substancia alucinogénia, os dias, esses dias tão específicos por que lutamos e vivemos, por que esperamos… que inevitavelmente nos abandonam numa ressaca colossal.

A ressaca emocional, um sofrimento silencioso: o tédio da existência.


domingo, novembro 25, 2012

Me, myself & I


Estou ainda maravilhada com esse milagre: o corpo.

O meu, que me responde, que doí. Que está vivo.

Que insiste e prevalece, que quer estar sempre à altura da minha mente, que insiste em não me desapontar, mesmo que doa, mesmo que pareça demais, mesmo que o instinto seja parar, gritar e desistir.

E nesse ponto nos encontramos, sendo o equilíbrio ténue mas estável, sendo ao fim de tantos anos uma coisa só. Eu.

Tendo a certeza de que esta é a mais perfeita projecção que existe de mim. Sem pesos, sem massa, equilibrando-se nas falhas, encontrando nos limites a compreensão. 

Algo que eu posso esticar, trabalhar e sentir. Um corpo em que confiar, o meu.

Imperfeito, caprichoso, tão humano como todos os outros. Pronto a falhar, a ser doente...a abandonar-me e morrer.

Mas meu, sendo eu. Aqui e agora cheio de vida!

E ao fim de tantos anos de incerteza, de conflito e de luta, de imagens distorcidas e de ideias desfocadas, a paz enfim.

Porque corremos juntos. Sempre.


quarta-feira, novembro 21, 2012

Divagações sobre o amor II



"Ainda sentes o que poderíamos ter sido? Todos esses lugares onde não fomos, as palavras que ficaram por dizer? Esses momentos todos só vividos dentro de nós, num qualquer recanto de uma sala de espera, quando sonhar ainda era permitido?

Ou apenas te perseguem as sombras dos dias feios? Desses pecados que cometemos, dos nossos lados negros se confrontando...Os silêncios obscenos, as ideias a fugirem de nós, a quedarem-se esmorecendo, perdendo sentido, cessarem por fim.

Olhas para trás e encontras apenas destroços de ti, misturados com as ruínas de nós. Essa obra sempre em construção, sempre em aperfeiçoamento, sempre perdida de exaustão.

E depois esse outro lado, esse teu lado absurdo de ser, ainda o vês a tomar conta de ti? Esse ser expectante, sempre a desejar mais, impaciente, curioso, sempre insatisfeito...inquietante.

Que vês desse ponto agora? Agora que parece não mais importar. Agora que se disseram os imperdoáveis, que se fizeram as coisas impensáveis.

Que vês agora? para além dessa vontade metafórica de morrer e nascer noutro lado, sendo qualquer outra coisa, existindo para lá desse fracasso.

Porque no esgotar das palavras surge esse fracasso. De todos os esforços, do empenho, de tudo o que foi sincero, ansiado e vivido.

Um enorme fracasso, um mundo destroçado. Ruínas.

Poderias pensar em tantas outras coisas. Mas amei-te. Muito, tanto, todos os dias, mesmo naqueles em que te odiei visceralmente.

Porque não existe em mim apenas luz,  a minha inquietação é cheia de recantos feios, de sentimentos obscuros. A luta é constante... não sou boa de natureza, mas sei. Posso ser melhor, posso racionalizar-me, posso recalcular-me....

Posso um dia superar esse fracasso. Quem sabe, um dia perdoar-me por ter fracassado. Por não ter sido boa o suficiente. Não fui boa o suficiente na maior parte das vezes...

Eu sei."









segunda-feira, outubro 29, 2012

Divagações sobre o Amor I


"O raciocínio de Leroy é seco como uma lâmina, e Chantal está de acordo: o amor, enquanto exaltação de dois indivíduos,  o amor como fidelidade, apego apaixonado a uma só pessoa, isso não existe. E se existe, é apenas como autopunição, cegueira voluntária, fuga para um convento. Pensa que, mesmo que exista, o amor não deve existir, e esta ideia não a torna amarga; antes pelo contrário, sente uma felicidade que se espalha por todo o corpo."

A Identidade
Milan, K.

sábado, outubro 20, 2012

O tempo




"O tempo tudo consome
Não tenho nada em meu nome..."

007 - O fascinio



Lembro-me de no inicio da adolescência passar longas tardes de fim-de-semana a ver filmes da saga 007. Lembro-me de os ver vezes sem conta, em sessões da tarde repetidas ano após ano pelo recém aberto canal privado, a SIC.

Lembro-me que pouco mais havia para fazer.

Lembro-me de brincar com uma prima aos espiões, de fazermos documentos fingidos em que eu sempre me chamava Tantiana Romanova uma personagem do From Russia With Love.

Lembro-me de sempre me lembrar destes filmes. De serem parte do meu imaginário cinematográfico, do Bond ser o meu galã, muitos antes do cinema Noir e do Bogart não deixar espaço para ninguém (desculpa lá Robert Mitchum).

Tenho e li o Casino Royal do Ian Fleming. Discutimos entre amigos sobe a melhor musica, o melhor actor e vamos desmontando 5 décadas de fascínio.


Não será o melhor que o cinema fez, mas será talvez o fascínio mais prolongado, aquele que superou as mudanças de protagonista, as evoluções tecnológicas, o maravilhoso mundo novo.


Talvez porque 007 sempre foi à frente do seu tempo. Sempre nos mostrou possibilidades. E depois, quem não gosta de um vilão dúbio, que é bom mas mau. Que ama e que mata, que usa e seduz, mas que no fim salva sempre o mundo?


Bond, James Bond, foi tudo em 5 décadas, só não poderia ser um herói do Noir.

Porque não há um Homme Fatal? 

Ou terá sido ele enganado por uma Femme Falale no Casino Royal?




terça-feira, outubro 16, 2012

Divagações sobre o Tempo VIII


"Este «E assim passa o tempo.» é uma frase fundamental. O problema deles é o tempo, fazer com que o tempo passe, que passe por si mesmo, sozinho, sem esforço da parte deles, sem serem obrigados a atravessá-lo, quais caminhantes esgotados, e é por essa razão que ela fala, porque as palavras que debita fazem o tempo mexer-se discretamente, ao passo que quando tem a boca fechada o tempo imobiliza-se, como uma espécie de enorme e pesada escuridão (...)"

A Identidade
Kundera, Milan

domingo, outubro 14, 2012

O elogio da preguiça.


Saber nada fazer é uma arte.
Sentar e descontrair. Desligar. Deixar de pensar no trabalho que nos espera, evitar o sentimento de culpa pela inactividade.
Sentir de bom grado o metabolismo a abrandar.
Preguiçar é uma arte.

É uma arte desligar a parte de nós que pensa, que se preocupa.
Apreciar o filme idiota de domingo, refastelar no sofá até que nos doam as costas.

É uma arte, que ainda estou a aprender a dominar...


domingo, outubro 07, 2012

Anatomia de uma prova

Nunca se está realmente pronto para partir. Pelo menos eu nunca estou. Ou não fui à casa de banho, ou ainda estou a abrir a boca com sono - levantar às 6h da manhã não é o meu forte - ou o pequeno almoço não caiu bem, o que seja, são sempre tensos os minutos em que se está parado, no meio da multidão que se aperta à espera de ouvir o tiro de partida.

Partir do meio da cidade tem, num entanto uma sabor doce. Correr pelas estradas onde voam carros durante a semana, gozar a largura das Avenidas, sentir o pulsar lento das ruas num domingo de manhã e tudo isto correndo, por entre esforço, choques de adrenalina e um prazer imenso - daquele que sente quem gosta realmente de correr - é de facto bom!

Os primeiros quilómetros, apesar da prática e da sabedoria popular nos dizer que devemos partir com calma, são sempre feitos acima do que deviam. Porque se está fresco, porque o plutão saiu desembestado pelas avenidas e porque nos sentimos bem e somos capazes. As fachadas de uma cidade estranha passam por nós como casas familiares, o público grita, eu não os percebo - ainda hoje não os percebo, raios leio o El Pais, mas congelo quando um espanhol abre a boca - mas é bom, animo falado, espectáculo mais bonito.

Normalmente desestabilizo no 3º quilometro e levo mais dois a voltar a encontrar ritmo. Baixo a velocidade, há um ligeiro descontrolo respiratório e depois se tudo correr bem vou recuperando até uma zona de conforto. É nessas alturas que surgem os primeiros pensamentos obscuros, aqueles que nos minam por dentro e que transformam qualquer dor menor num suplicio. Se a voz diz que não vamos conseguir é ai que temos de deixar de a ouvir.

Normalmente corro sozinha nas provas, mas hoje tive companhia de um dos Lobos ACP. O que foi bom, foi motivador, é mais fácil desistir ou afrouxar o esforço quando se vai sozinho, com alguém que nos marca o ritmo é sempre melhor e hoje fez toda a diferença.

Perto do 7ºkms ia cheia de dores nos joelhos, articulações e cheia de calor. Felizmente a organização deu-nos água, muita água e eu tomei vários banhos pelo caminho.

Sair de Badajoz em direcção a Elvas é algo ingrato. Após as largas avenidas dos arredores da cidade entramos na antiga estrada nacional. E embora não seja muito pronunciado, vamos a maior parte do tempo a subir. Subir e subir não é o sonho de quem corre e nota-se nos tempos que se foi fazendo.

O pequeno almoço fez questão de dizer que existia causando algum desconforto, e os joelhos a queixarem-se de tanto alcatrão. E o sol quente no rosto, a aridez dos campos e os quilómetros todos que ainda haviam para fazer iam mexendo com a psique, mais pensamentos obscuros, mais um daqueles - não sei bem se vou conseguir, se ninguém estivesse a ver encostava já aqui, o típico mas porque é que eu me meto nestas coisas?! - enfim, uma série de sentimentos que têm de ser contrariados passada após passada, e com uma grande dose de teimosia. Vais conseguir pois!

Passar o 10º quilometro a roçar os 50 minutos foi motivador, deu-nos esperança de conseguir baixar o meu tempo da meia para 1h50m,  e por isso manteve-se o ritmo.

Vê-se a maior parte do tempo Elvas ao longe, no cimo do seu monte. É reconfortante e ao mesmo tempo um desespero, a meta está tão perto, mas tão longe ainda . Depois dos 10 kms, a sensação é de contagem decrescente, sente-se "que agora já falta correr menos do que corri até aqui" e para mim é sempre ponto de viragem, porque 10 kms é uma distância confortável para mim, a partir dai é que vamos ver onde está a força de vontade, a capacidade de correr e os treinos que se tem feito.

Não foi fácil, só aos 18kms tive a certeza que ia acabar. Mesmo vendo aquela subida desgastante pela frente, mesmo com o calor e as dores e um ligeiro arrastar de pés. Foi aos 18kms que eu pensei - já cheguei aqui, agora nem que vá de gatas!.

A prova foi mais dura do que eu esperava bem mais desgastante do que a meia-maratona de Mérida que havia feito em Março passado. Desisti da 1h50m ao avistar a subida da entrada de Elvas, que foi feita a custo, sempre a correr, mas a sofrer admito.

Por tudo isso ao avistar o estádio e o pórtico da meta, foi como renascer. Porque se sente ali que o objectivo está cumprido, porque se antevê a chegada, porque o nosso corpo começa a encher-se de sentimentos bons e todas as dores e agruras passam para segundo plano.
Estica-se o passo, sorri-se para a fotografia e chega-se com a certeza que ganhamos - mais que não seja, o nosso desafio!

quinta-feira, setembro 27, 2012

Divagações sobre o Tempo VII


Podia ter sido ontem, esse fim de Setembro já tão longínquo.

Numa dessas semanas de tempo instável, de chuvas torrenciais seguidas por um sol aberto e franco. Chegando aqui. Podia estar a ser agora.

O olhar espantado sobre esse mundo todo novo, sobre as possibilidades que se abriam por debaixo dos nossos pés.

Os sonhos a caminharem para se tornarem realidade.

O mundo novo, a liberdade, a escolha, o tempo por nossa conta, só e apenas nosso para fazermos dele o que se quisesse.

Podia estar a ser ainda hoje, essa menina chegando de cabelo apanhado e maquilhagem exagerada. Enxergando-se nesses trapos antigos e ultrapassados, essa expressão de si.

Podia estar as sentir ainda essa sensação doce de colocar a chave na porta de casa, da madrugada e do nevoeiro húmido que subia pelas ruas, e as luzes, as luzes baças, alaranjadas reflectindo nas pedras da calçada.

Podia estar a ser ainda, as nossas vidas congeladas nesse plano, todo o tempo ainda para percorrer o caminho, todas as decisões para serem tomadas, todas as oportunidades ainda à espera para serem nossas.

Podíamos eternamente viver nesse estado de latente euforia, ser jovens. Ser mais que jovens, ser estreantes, ser enérgicos e esperançados, ser sem sombra de dúvida algo que ainda está para acontecer.


terça-feira, setembro 18, 2012

Divagações sobre o Tempo VI



Só mais um dia, sentado no degrau da porta da rua. Olhando quem passa enfiado naquela camisola de cavas, larga e desbotada e naqueles calções estampados.

Mais um dia acenando aos gatos, entretendo o tempo olhando as nuvens, cobiçando as mulheres que passam devagar, temendo escorregar nas pedras da calçada.

Mais um dia. Naquela casa sem janela, naquela rua íngreme, fazendo tempo entre o pequeno-almoço e o meio-dia.

Perdera já a capacidade de inventar maneiras de matar o tempo. Todas as paredes haviam já sido pintadas, a soleira da porta arranjada, o lustro puxado aos azulejos do chão.

Nada mais havia para fazer a não ser sentar-se ali, no degrau. Cuspir de vez em quando um pedaço de tabaco preso no lábio, falar sobre o que vem no jornal com um vizinho que eventualmente espreite à janela a meio da manhã.

Nada mais que observar o tédio dos dias.

Tivera um trabalho em tempos. Levantava-se de manhã cedo. Saia com o almoço, sentia-se cansado. Às vezes sentia-se mal pago, desejava o descanso e o conforto do lar.

Mal dizia o patrão, as dores nas costas, o tempo perdido nessa prisão.

Hoje nada mais tem a fazer que sentar-se no degrau pela manhã.

Não dorme até mais tarde. Não aproveita  a liberdade do ócio, resigna-se à pobreza dos dias.

Vê o tempo a passar, do seu degrau. Quer o mundo mudado, mas mais não consegue fazer para o mudar.

E fica ali, nesse movimento perpétuo, na sua camisola de cavas desbotada, como Sisifo, empurrando a sua pedra... arrastando-se de dentro para fora, de fora para dentro, vivendo resignadamente uma situação que não muda. Nem imaginando que poderia eventualmente mudar...

sábado, setembro 15, 2012

Sobre as manifestações...

São esse momento inédito e desorganizado em que pessoas tão diferentes se juntam.
Gritam, fazem barulho, barafustam e destilam alguma da sua desilusão.
Muitos não saberão bem por que estão ali. Nem tão pouco contra que moinho lutam. Mas a manifestação faz-se desse encontro de vontades, dessa necessidade de contribuir e de tentar, mesmo que de uma forma utópica, mudar o mundo.

***

Sinto-me sempre e invariavelmente emocionada quando ouço o meu povo cantar em uníssono o Hino Nacional. Deve haver, algures dentro de mim, um ser patriótico.

***

Não fui a Lisboa, talvez devesse ter ido. Talvez devesse estar lá e ser mais um número na multidão. Devia gritar palavras de ordem. Jogar pedras para a escadaria do Parlamento, ver petardos a rebentar. Estar ali  exposta e vulnerável, claustrofóbica no meio do medo de ser esmagada.
Mas devia ter ido. Ver a revolução, talvez não a fazer, mas sentir o que paira no ar. Se é esse ambiente pacifico. Se é que há verdadeira revolução pacifica, imaculada e sem sangue, sem dor e sem mágoas que fiquem para a história...

***

Não falei no megafone. Falta-me o jeito.
Mas se falasse teria dito o quão grande é a minha desilusão.
Não só porque afinal o mundo é mais negro do que cresci a acreditar. Porque afinal não vivemos num Estado justo e igualitário. 
Diria da minha desilusão de ver esta terra a definhar porque fomos esquecidos, porque somos poucos e não contamos.
A desilusão de ter apostado no Portugal profundo, na qualidade de vida da província, na promessa que o advento da modernidade nos colocaria sempre mais perto do mundo, mas que afinal, ao fim de uma década nos deixou ainda mais longe.
Podia contar do meu pesar pelo desagravo com que somos desperdiçados todos os dias. O talento, a energia e a vontade de trabalhar. Ou pior, como ao longo dos últimos anos, e apesar de termos estudado tanto, fomos tão mal educados e como o mérito deixou de contar e se transformou em números sem significado.
Diria que sonhei um dia com uma vida digna e desafogada, que me foi prometida em virtude do meu esforço, que era lógica, que era justa, mas que ainda não aconteceu.
Diria que me doí o coração de ver os meus velhotes abandonados às suas dores porque as suas pensões são de miséria e não há um lar decente que os receba, porque embora cada vez haja mais velhos, cada vez há menos dignidade em envelhecer.
Diria que não acredito nessa organização da sociedade, que não sei como se muda mas que algo tem de mudar.
Diria que mais do que triste e desiludida com as dificuldades de agora estou desolada pelos sonhos que vão tardar em chegar, pelo tempo perdido, pela vida gasta...

***
O mundo é tão vasto, a Terra generosa bastaria apenas sermos todos muito mais humanos.

quinta-feira, setembro 13, 2012

Sobre a boa vontade...


Há dias em que ela nos faz falta, mas não a conseguimos ter.

E depois, depois de termos sido impacientes, pouco disponíveis para os outros, de não termos dado tudo o que poderíamos dar, sobra essa sensação amarga.
Afinal fomos maus, egoístas.

Afinal o mundo só nos quer bem e nós temos um umbigo demasiado grande e absorvente.

Essa descoberta constante da nossa própria falta de altruísmo deixa-nos assim encalhados nos nossos próprios defeitos, aqueles que achávamos que estávamos a limar. 

Esses anos todos de lapidação, afinal pouco mais fizeram desse diamante em bruto que é a nossa alma.

Queríamos, de alguma forma que algo nos chegasse sem que tivéssemos de dar algo em troca. O nosso tempo, a nossa boa disposição, a nossa concordância com disparates, a alteração do nosso modo de vida, o nosso espaço.

Queríamos não ter de deitar conversa fora, de não estar à mercê do tempo.
Queríamos por vezes gozar o simples prazer da solidão, o conforto do silêncio. Existir apenas.

Mas temos de ter boa vontade. Ser com os outros, dispor de nós, retribuir, integrar, agradecer...

Às vezes falta-me tudo isso, admito. 
Não gosto que falte. Não gosto de ser mal agradecida, de não corresponder... mas não posso, não consigo ser, invariavelmente aquilo que o mundo precisa que eu seja.




segunda-feira, setembro 10, 2012

Sobre a Vida...



"Porque se quiséssemos um termo de comparação para a vida , o melhor seria o de um metropolitano, atravessando o túnel a cinquenta milhas à hora - e deixando-nos do outro lado sem um gancho sequer no cabelo! Cuspidos aos pés de Deus, inteiramente nus! Rolando por campos de tojo como embrulhos de papel pardo atirados para dentro de um marco de correio! E os cabelos puxados para trás pelo vento como a cauda de um cavalo nas corridas. Sim, são coisas destas que podem dar a ideia da rapidez da vida, a destruição e reconstrução perpétuas; tudo tão contigente, tão apenas por acaso..."

"A Marca na Parede"
Woolf,  V.

Divagações sobre o tempo V


E ser for isso que nos espera? Só e apenas a desconstrução do mundo como o conhecemos?

Se já passaram os dias dourados, se depois disto, de toda essa conversa de surdos, se depois do esforço e da indignação não nos sobra mais nada que dias cinzentos de inverno?

E se teremos desde já de sentir falta dos sítios onde nunca fomos, dos sonhos que não concretizamos, dos risos dos momentos de ócio que não poderemos gozar?

E se nos sobra só a depressão dos dias, a poeira de uma Era que nos chegou enganada, fora do seu tempo, indesejada por gerações e empurrada para a frente até ficar encalhada entre nós?

E nós, desencorajados, demasiado conscientes, demasiado instruídos e derrotados apenas possamos nos arrastar pelos anos, maldizendo o destino, sobrevivendo, azedando no espírito a revolta por todas as promessas terem sido quebradas, pelo mundo ser afinal um sitio cruel.

E se é só isso? Aquecimento global, tempestades, secas, desemprego, subnutrição, má educação e um fosso cada vez maior entre esse conceito de ter ou não ter. Ser ou não ser. Privilegiado de nascença ou indecorosamente plebeu?

E se séculos de evolução social desembocarem nessa terrível constatação que somos cada vez mais desiguais?

E se todas essas coisas adquiridas a que nos acostumamos,  todos esses direitos, esses confortos, essas certezas deixarem de o ser?

Que pensaremos então?

E se de facto, nessa organização social, com as evoluções tecnológicas, a sua demografia invertida e este novo modo de vida, não existe por principio mais trabalho para todos?

E se o problema não for a nossa austeridade, mas o mundo. Sim, esse mundo que gira e se transforma e continua a caminhar... não sabe bem para onde... não se sabe bem como...

Esse mundo que ainda descobre que já se fizeram todos os carros, já se construíram todas as casas e os LCDs não podem ficar mais finos?

Esse mundo que ainda descobre que evoluiu tanto, que nos excluiu...

Que pensaremos então? Quem seremos? De que cor será o futuro?

Que poderemos nós continuar a desejar?



quarta-feira, setembro 05, 2012

Lolita


"Um misto de ingenuidade e fingimento, encanto e vulgaridade, amuos azuis e jovialidade rósea, Lolita, quando lhe apetecia, tornava-se uma garota exasperante. Eu não estava, de modo algum, preparado para os seus excessos de tédio desorganizado e interesse tenso e veemente, nem para o seu estilo desleixado, melancólico, de olhar apático, e tão-pouco para aquela espécie de palhaçada difusa, que ela julgava denunciar uma personalidade «dura», à maneira de um garoto vadio."

Lolita
Nabokov, V.

terça-feira, setembro 04, 2012

Divagações sobre o Tempo IV



Era meio da manhã, o sol era quente mas não impiedoso. Era já Setembro e a brisa refrescara trazendo prenúncios de um Outono ainda distante.

Encostavam-se todos ao balcão de mármore branco, encardido pelo tempo e pelos copos de tinto.
O salão era amplo. Nunca teria sido bonito, mas sim o possível de se fazer. O gosto duvidoso da mistura de azulejos de fim de linha, a magistral lareira reinando sobre a sala, trono que os actuais Lcd’s queriam roubar, a cor ocre das paredes, os alumínios usados das janelas.

As cadeiras e mesas de café em ferro, de pés mancos sempre a entornarem os copos a quem se atreve a colocar os cotovelos em cima do tampo.
Todo esse cenário envolto numa névoa do tempo e fumo só perceptível depois de se entrar pela cortina de fitas.

Tudo parou ali.

Os homens sorvem o café com um cheirinho, sorriem abertamente num triste cenário de dentes podres e tabaco e as senhoras, oscilam o seu peso pelas cadeiras no ócio da manhã.

O trânsito lá fora é irregular, as casas dispersas, o mundo ritmado pelo som das notícias na televisão.

Os campos estão vazios, os tractores encostados, as festas de Agosto acabadas, os emigrantes retornados para longe.

Nada mais a fazer.

No ócio do tempo, no aborrecimento da existência, nesse tédio de coisas que não se tem para fazer se perderiam todos por ali. Deitando conversa fora, falando de um mundo conhecido pelo telejornal, dizendo lugares comuns. Falariam depois da vida dos outros, queixaram-se da sua própria vida até que o sol do meio-dia os chamasse para um desejado almoço.

Esse cenário, num ápice aparecendo aos olhos dos forasteiros. Aqueles que encostam no tasco à beira da estrada para um café salvador do marasmo da condução por estradas secundárias feitas de pisos novos e vazias. Daquelas que atravessam grandes extensões de mata, quilómetros e quilómetros de solidão.

Essas estradas que nos levam de uma região para outras, onde pequenos pormenores na vegetação ou nos hábitos das pessoas nos dizem que não estamos mais onde estávamos.

Pensou de repente em todos esses sítios desconhecidos, perdidos no mapa. Em todas essas pessoas cuja voz nunca se ouve, nem mundo profundo onde as leis dos Homens são diferentes, onde as mulheres se eclipsam antes dos trinta.

Fez-se silêncio à sua entrada. Pediu um café em voz baixa que pareceu ecoar pelos recantos do salão em ondas de choque abissais. As cabeças voltaram-se num silêncio profundo. Observaram o elemento estranho a si. Os calções indecentes, a figura esguia e o esgar de espanto por estar tanta gente naquele sitio e depois, como que por ordem divina, todos voltaram à sua vida habitual ignorando o forasteiro. Falando alto, bebendo, rindo de algo sem piada, simplificando a vida, vivendo-a ao segundo. 

Segundos que se transformam em minutos e depois horas, que todas juntas farão dias. Dias que serão anos sem significado, passados no mesmo balcão de mármore que estará apenas mais encardido da próxima vez que lá se parar.

terça-feira, agosto 28, 2012

Divagações sobre o Tempo III


Rodeavam todas uma mesa estafada de esplanada. No seus trajes andrajosos de pessoas que já viveram muito e não vão em modas.
Aqueles padrões, ninguém lhes diz que já não se usam?
Isso e as permanentes, em cabelos detalhadamente penteados e pintados de louro platinado...
E estavam ali prostradas com todo o vagar do mundo, numa terra onde as ondas de calor se conseguem ver a emergir dos paralelos do passeio. Jogando conversa fora, avaliando a sua solidão, comprando pão de manhã num ritual interminável.
A vida sendo simples, simplificando-lhes o espírito.

***
Vagueava então nessa sensação de que devia estar a fazer algo, embora não houvesse realmente nada para fazer. Nada para além da espera.
A espera dos dias, que se transformam em horas e horas que ganham significado físico a cada minuto que passa.

***

Nesse vagar, nesse torpor tépido do estio, de olhos bem abertos, espírito crítico e aguçado, tudo ganhava então outra dimensão.
Esses pormenores da interioridade, todas essas coisas para além do verde das colinas e do silêncio das tardes.
Essa falta de mundo, e no entanto, ali estava um mundo inteiro, tamanha contradição.

*** 
O tédio que se instalava por vezes em si era medonho. Porque era um tédio paralisante, negativo. Daqueles tédios que nos impedem de pensar, de agir. E todos os nossos sinais vitais se reduzem a uma respiração pausada, um suspiro profundo.
Devia estar a fazer alguma coisa, embora não haja realmente nada para fazer…

*** 
Pelas pedras da calçada continuam, em movimentos lentos, pessoas que sobem e descem a rua principal. Ou o que resta dela. Ruinas caídas, montras estagnadas, rostos vazios por detrás de balcões tantas vezes encerados.
Nesse torpor do estio, para onde vão todos? Sentar-se num qualquer banco de jardim e ver a vida passar?

*** 

Nem uma aragem, nem ponta de fresco, só esse ar parado, essa atmosfera pesada. Essa opressão que não nos permite pensar.
E o silêncio. Esse silêncio entrecortado amiúde pelos ruídos da cidade. Um carro que passa trepidante na rua de baixo, um latido arreliado ao longe, um grito abafado de criança que perde a bola num movimento menos pensado.
As portas fechadas, pessoas encerradas em quatro paredes largas, protegendo-se do calor, fechando nessa garrafa monumental o tédio da existência.

*** 
E subsiste essa sensação, essa angustia... essa quase certeza de que devíamos todos estar a fazer qualquer coisa…embora paire no ar essa sensação de que simplesmente não podemos fazer mais nada....



segunda-feira, agosto 27, 2012

Histórias da Estrada





Não sou sou assim tão inocente, não acho que no mundo as pessoas apenas se unem porque estão ternamente apaixonadas.


Percebo a prostituição. Num bar, numa discoteca ou num ambiente de distracção.

Compreendo o Flirt, a necessidade de se procurar algo que não se tem no corpo de outra pessoa. Seja prazer, seja juventude ou apenas um momento de consolação.

O sexo é de cada um e cada um faz dele o que a sua mente lhe permitir.

No entanto, há uma forma de prostituição que a mim, mais que tudo o resto me deixa perplexa.

Lembro-me ainda em criança, olhar com curiosidade para as senhoras que se prostravam junto à estrada em Águas de Moura a caminho de Setúbal, ou na recta de Pegões.

Depois durante muitos anos desapareceram.

Para voltarem de novo agora, na recta entre Grândola e Alcácer do Sal.

Não entrando pelos dramas pessoais de cada pessoa, não querendo nem sequer avaliar se estas mulheres estão ali de livre e espontânea vontade ou se do outro lado da mata está um chulo qualquer a guardá-las, pergunto-me sempre. 

Quem são os clientes?


Quem vai, descansado no seu carro, a meio de um dia de trabalho, olha para o lado durante uma travagem e pensa: “olha ali uma louraça? Hummm”. 



E depois, tão simples como “quanto custas?”

E que recebe em troca do seu dinheiro? Para além de um sensação fugaz e esgares de nojo, de alguém com dores de pernas por causa dos vertiginosos saltos e que nas últimas duas horas provavelmente já atendeu outras pessoas, igualmente com impulsos estranhos e repentinos?

Não há sedução, não há história. Não há corpos bonitos, nem luxúria. Não há quarto de hotel com espelhos e veludos.

Nada, apenas o mato aberto, uma mulher enojada e um homem obtuso cuja mente se reduz a instintos básicos. Prazer e sobrevivência.

Não entendo por isso o impulso.

Mas vejo-o. A crescer na estrada.

Seja porque estamos em crise, ou porque as máfias de leste traficam mais pessoas, ou porque do Brasil vieram mulheres mais libertas que as de cá.

Vejo, nas cadeiras vazias junto a montes de lixo num cenário degradante, vejo em mulheres de saltos altos e mini-saia que fumam enquanto esperam. E porque esperam...por um dia bom?

E que será isso?

Divagações sobre o tempo II


São dez anos tempo suficiente?
Para esquecer, amenizar, perdoar ou sanear os acontecimentos e ainda assim acharmos que afinal, naquele tempo éramos felizes?

Dez anos, um rio imparável, sempre a correr.

Quantas tempestades, quantos pequenos nadas, quantos traumas inesquecíveis.
Quanta felicidade e tristeza nas nossas vidas.

Dez anos de construção e destruição do nosso eu. Dez anos de fantasmas.

E ainda assim, no momento do reencontro, caras conhecidas e familiares. Gestos que se repetem, vozes que soam de forma igual. O mundo inteiro de diferenças.

Quem seremos nós ali, em dez anos de ausência?

Em que nos transformamos?
Quem és tu? O que pensas da vida? Onde achas que vais?

Poderei algum dia recuperar dez anos de inexistência?
Poderei ser eu de forma diferente? Sem a vontade crónica de cortar os pulsos nos intervalos da aulas? Sem a paixão desses anos adolescentes, sem o drama da existência,  sem os rodeios das vidas paralelas, sem os pequenos truques, sem o ar ausente e a mania que sabia alguma coisa do mundo?

Ou não, em dez anos somos simplesmente qualquer coisa muito, mas muito diferente?



segunda-feira, agosto 20, 2012

Voltar a casa...

Voltar a casa é sempre esse novelo de sensações. Os lugares que conhecemos, as pessoas com quem já partilhamos coisas, um misto de cumplicidade e desconhecimento total de vidas que continuaram a decorrer sem nós.

Pensamos por momentos no que poderia ter sido se nos tivéssemos abandonado por ali. Vivendo essa outra vida. Indo a todos aqueles lugares, sendo outras pessoas.

Quem seriamos? Se poderíamos pensar assim, ouvir as mesmas músicas? Ter lido os mesmos livros?

Teríamos outros amigos, seríamos mais ou menos conscientes de nós, teríamos mais vida familiar?

Todas essas perguntas por responder, olhando a ansiedade com que nos recebem. 
Como se recebe alguém que abalou há tanto tempo, alguém que nunca chega realmente a estar. 
A quem se fazem perguntas de circunstância, de quem se gosta realmente muito, mas que nunca chegamos realmente a conhecer.

E todos esses olhares de interrogação quando se conta as novidades, essa mística que tentamos impor às nossas vidas, contando tudo ligeiramente melhor do que aquilo que é. Os olhares de desapontamento ou de admiração...

Os lugares da infância são assim.
Um misto entre o sitio onde queremos muito voltar e o sitio de onde gostaríamos de fugir.
O sitio de tantas promessas por cumprir, onde o espelho nos devolve essa outra imagem, gravada há anos daquilo que achávamos que poderíamos ser...

Somos sempre, invariavelmente diferentes.

Sobre os pensamentos...

Descobriu nesse dia o lado obscuro dos pensamentos.

Que eles existem, remoem-se dentro de nós de forma torrencial. Tornam-nos ansiosos, azedos, mais felizes ou sonhadores.

Motivam-nos para o bem ou para o mal. Movem imaginariamente o mundo.

Mas serão apenas isso, pensamentos. Inúteis, privados. Improváveis, estúpidos, megalómanos ou simplesmente coisas simples.

Pensamentos. Pequenas sinapses dentro dos nossos insondáveis cérebros.

Serão apenas isso, coisas imateriais dentro de nós até ao dia que sejam ditos. Que se materializem em palavras, que alguém as ouça. Que sejam inapagáveis da linha do tempo.

Assim que os pensamentos se tornem memórias partilhadas, serão reais, inesquecíveis... imperdoáveis.



domingo, agosto 12, 2012

Divagações sobre o tempo I


Deixaria de ser assim, tão-somente mergulhada em dúvidas, tentando na sobriedade descortinar o sentido da vida, essa coisa, esse ideal inexistente.
Pois não pode haver sentido, se no fim somos finitos e imensamente sós.
Deixaria de se questionar, de pensar de mais, de perder o momento, essa reserva que a acompanhara, essa prisão, esse medo de viver e de facto, ali, abandonada a um canto só, rendida aos sons quentes do jazz, bebendo vinho branco enquanto cozinhava o almoço, uma ideia lhe surgiu. 
Seria tudo aquilo que poderia ser.

Lembra-se de um dia ter acordado de manhã e achado que seria feliz. Já crescida, muito depois da felicidade ser desmitificada dentro de si. Muito depois ainda, de ser um objectivo.

A felicidade não é algo de concreto, nem palpável, nem se doma, nunca se sabe como a encontrar e às vezes ela vem até nós sem esforço, tropeçamos nela. Outras procuramos, com força e só encontramos frustração.
Desistira já dela. Mas era sempre maravilhosa essa sensação de tropeçar nesse sentimento sempre novo, numa manha de sol ao abrir a janela depois de uma noite bem dormida.

Numa música desconhecida mas celestial. Num qualquer objectivo cumprindo apesar de fútil e fácil.
A felicidade numa tarde morna de Outono. Num passeio na cidade.
E sim, a felicidade nessa sensação de esperança.
Afinal, poderemos ser tudo aquilo que quisermos ser.

E o queremos nós ser? Uma versão melhorada de nós mesmos? Algo diferente? Uma personagem de romance, ter uma vida de filme?
Que queremos ser? Caseiros, familiares, trabalhadores? Maiores que a vida, admirados ou ermitas?
Que queremos afinal? Se podermos ser tudo o que quisermos, o que queremos é então o sentido da vida.

O querer é difícil. Queremos tudo, ao mesmo tempo, sem filtro nem distinção.
O querer, essa força magnifica é a energia da vida.
Travamo-la apenas com essa outra obsessão: a consciência.
A consciência, essa cabra.
Sempre murmurando coisas, uma voz de fundo. Como música ambiente da vida.
Decide o certo e o errado. Os pecados. Essa nossa educação judaico-cristã. Tão ocidentais.

Somos tão livres como livre é a nossa consciência.

Continuava languidamente sorvendo o almoço, ouvindo notas sensuais, bebendo vinho branco, pensando. Poderia fazer tudo o que quisesse. Mas saberia viver com isso?
Mas que quer? Que pode ser?
Nessa vida una e indivisível. Nessa linha de tempo irreproduzível. Nesse exacto segundo que não voltará a existir?

Nesse mundo de oportunidades perdidas.
Como poderá ser tudo o que quer ser, se só vive uma vez, e a vida é finita e gasta a tentar perceber o quer afinal?
O tempo, esse fardo que não se carrega, mas que passa em cadência sentida.
O tempo que não se repete e é insuportável, insustentável. De uma insustentável leveza. O tempo.

Há dez anos. Sim existe há dez anos. Como é possível?

Há dez anos não poderia nunca ser sozinha. A ansiedade, o tempo. Tic tac, tic tac, passando, sentido no relógio. A finitude dos dias que não se podem perder.
“Vamos miúda, levanta-te, corre. Há algo no mundo a acontecer e tu, sim tu, não estás lá. É irrepetível. Corre. Faz tudo o que a tua consciência permitir. Corre. EXISTE”

Faz recordação dos dias, sente o tempo, faz dele físico, sente-o. Os segundos como bafos quentes na pele. Um vento suão numa tarde quente de verão num qualquer sitio suado.
Com ritmos de fundo, com pessoas que saltam ritmadas, com coisas bonitas, cheias de vida. Cores e luzes na noite.
O tempo ai seria pastoso, lento a reter-se em ti, e o tempo podia ser tudo o que quisesses que ele fosse. O mundo, muito para além de ti.
Os dias, as horas, os meses e os anos arrumados e vividos.
O tempo resolvido.

domingo, agosto 05, 2012

Correr de noite... nas margens da Lagoa de Óbidos


Partir do castelo é um momento mágico. Descer a calçada num aperto de multidão, sentir a euforia que paira no ar.

 Tanta gente ainda cheia de energia, tantas pragas que ainda não se rogaram, tantas dores que ainda não foram sentidas, ali, no momento da partida, onde ainda todos achamos que vamos conseguir chegar ao fim inteiros, respira-se alegria.

Depois são os primeiros quilómetros, de muita gente ainda em grupo, as escadas para a ermida, o mato, o canavial, os pomares, o areão, a ribeira onde nos afundamos até aos calcanhares, as margens da Lagoa...

Sim, as margens da Lagoa, as luzes reflectidas no espelho de água, tantos pirilampos espalhados pela noite, a Lua  quase cheia, num esplendoroso luar de Agosto.

As luzes de pequenas terras desconhecidas ao longe, um mundo inteiro a girar indiferente àquele esforço enorme que cada um de nós está a fazer.

E depois essa overdose de sentidos, de cheiros, de sons, de texturas e cores...

Correr de noite é algo de mágico.

As dores, os músculos que não respondem, as bolhas nos pés e essas mazelas todas perdem-se à passagem pela pequena porta da muralha.

Porque às vezes tem simplesmente de doer... só assim sabemos que estamos vivos!

De volta ao Noir: Rebecca (1940)


É sempre difícil ver um filme baseado num livro de que gostamos realmente muito. As expectativas são altas. Conhecemos demasiado  bem a história, vivemo-la, atribuímos rostos às nossas personagens, desenhamos cenários na nossa mente, sentimos os cheiros descritos, estivemos, em alguma parte da nossa mente lá.

E depois há os pequenos pormenores que não aparecem no filme, ou porque não há tempo na curta narrativa ou pura e simplesmente porque são momentos que não se  traduzem em imagens.

Hitchcock fez um bom trabalho com o romance de Daphe Du Maurrier, apesar de ter sido um trabalho ingrato. 

O romance é denso, mergulhado numa atmosfera Noir complexa, com descrições longas de lugares e pessoas. Mas o que mais me agradou no escrita de Du Maurrier foi a sua capacidade de criar tensão entre as suas personagens. E tensão criada simplesmente pelos espaços, por memórias de uma casa ou de situações.

Rebecca é um livro Noir, que gira em torno de uma mulher que ocupa cada momento da história, embora já tenha morrido. E a tensão provocada pela sua lembrança é algo sempre presente no livro.

No filme, há apenas dois momentos em que esta sensação de quase perfeição se sente, sendo o momento em que Mrs. Danvers tenta induzir a frágil Mrs. de Winter ao suicídio a melhor conseguida. 

Não é o melhor de Hitchcock, mas vale a pena ver. No entanto, leiam o livro. Ai sim, está o verdadeiro prazer desta história.

"Mrs. Danvers: Go ahead. Jump. He never loved you, so why go on living? Jump and it will all be over... "

terça-feira, julho 24, 2012

De volta ao Noir: The Blue Dahlia (1946)


The Blue Dahlia não é um filme notável.  Pelo menos quando o comparamos com outros escritos por Raymond Chandler, autor de “The BIg Sleep” ou de “Double Indemnity” .
Mas é um belo Noir, nas suas sombras, nas noites de chuva. Nas personagens atípicas e até mesmo na sua vítima. Uma mulher.

Mais que não seja, vale a pena ver porque tem Verónica Lake  e os mitos merecem a devida vénia.
Das muitas imagens dos tempos áureos de Hollywood que nos povoam a mente, Veronica Lake é uma das que sobressai.
O seu olhar lânguido, misterioso e longínquo, os cabelos louros, um misto de perigo e de charme. Tudo na sua imagem parece dizer “You know  I’m no good.”, mas essa aura é no entanto irresistível.
O protótipo da Femme Fatale.
A essência do Noir.



sexta-feira, julho 20, 2012

Correr de noite...



"Correr de noite, tornou-se assim numa experiência sem paralelo. De noite o silêncio da cidade é ritmado pela nossa respiração e apenas perturbado pelos latidos longínquos de uma qualquer matilha invisível de cães.
De noites os espaços são amplos, vazios. 
As estradas são largas, as sombras longas, as estrelas luzes. 
A brisa é fresca... as pessoas apenas vultos, a imaginação livre. 
A cidade pulsa apenas ao nosso ritmo, a cada passada sonoramente dada sobre o alcatrão.
De noite acharam todos que somos ainda mais loucos, perdidos, algum tipo de assombração galopante.
Ainda que não haja a energia do sol, a sinceridade do dia, correr de noite é um mundo oculto de coisas a descobrir. 
Mais que física, uma experiência sensorial."




Sobre o pecado...


"Adão sozinho não pecou. Acrescente Eva, e acrescente a tentação. Acrescente um segundo homem e torna o adultério possível. Com a adição de sexo ou pessoas, acrescenta-se o pecado. Se os homens não tivessem braços, não poderiam estrangular com as mãos. Não existiria esse especifico pecado de assassínio. Acrescente braços e acrescenta a possibilidade de uma nova violência. As amebas não podem pecar porque se reproduzem por fissão. Não cobiçam companheiras nem se assassinam umas às outras. Acrescente sexo às amebas, e braços e pernas, e terá assassínio e adultério. Acrescente um braço, ou uma perna, ou uma pessoa, ou retire qualquer delas, e acrescentará ou subtrairá possível mal. Se em Marte houver cinco novos sentidos, órgãos ou membros invisíveis cuja existência não podemos conceber... não poderá consequentemente haver cinco novos pecados?

Bradbury, R. "Crónicas Marcianas"

quinta-feira, julho 19, 2012

Autobiografia do mês de Julho.




O mês de Julho, esse híbrido entre as férias e o trabalho.

Dias quentes entre noites frescas, ondas de calor no alcatrão e essa sensação de possibilidade.
Em Julho coisas podem acontecer.

Como em 2007,  que fui ao Festival Músicas do Mundo de Sines.

Apaixonei-me pelo "Amor em Tempos de Cólera" e pela "Crónica de uma Morte anunciada" de Gabriel Garcia Marques. Vi o "Scoop" do Woody Allen e um Noir antigo, "Gilda" e um Noir pós-moderno "A Dalia Negra."

Ou como em Julho de 2008 em andava cheia de opiniões sobre a imprensa regional, e vi cinema independente, a "Estação" e "The Savages" ou o "Breackfast on Pluto". E vi o blockbuster "Iron Man."

Li a "Desgraça" de J.M. Coetze.

Ouvi The National e P.J. Harvey.


No Verão de 2009 só via a Revista, a minha vida era a Pormenores, o meu blogue o espelho disso.

Julho de 2010 teve Sines novamente. Vi Céu e Saff Benda Bilili... Vi o "Breakfast at Tiffany's", reli o "Orlando" da Virginia Wolf e empolguei-me com a série Millennium nas páginas de "Os Homens que Odeiam as Mulheres".

Vi o "Sexo e a Cidade", o "Robin Wood", "Rachel Get Maried"... Ouvi Morphine.

No ano passado só havia olhos para a horta. Para os meus morangos, para as saladas de tomate e para as alfaces.

Nesta espécie de autobiografia dos meus meses de Julho, revivi cada página de livros que me apaixonaram. Sentei-me de novo no cinema saltando da cadeira a cada susto, ecoaram na minha mente acordes de musica.

Recordar permite-nos isto. Montar um puzzle feito de inúmeras peças que explica o nosso caminho.

É olhar para trás e sentir que afinal houve vida.

É olhar para a frente e imaginar o muito de vida que ainda há para viver.

O tempo continua ainda a ser um mistério para mim, essa ilusão. A inevitabilidade do tempo, dos dias que passam... a perda constante.

Fazer este exercício é sentir que atrás de si o tempo deixa um rasto de memórias..a sua personificação, algo que é quase palpável... não o tempo em si, mas uma memória dele.

quarta-feira, julho 18, 2012

O tempo...


"No ar daquela noite havia um cheiro a tempo. Sorriu e aprofundou mentalmente a ideia. Ali estava um pensamento. A que cheirava o tempo? A pó, relógios e pessoas. E se uma pessoa pensava  a que soava o tempo, soava a água a correr numa caverna escura, a vozes a chorar, a terra a cair em tampas arqueadas de caixas e a chuva. E, indo mais longe, como parecia o tempo? O tempo parecia neve a cair silenciosamente num quarto escuro, ou como num filme mudo num cinema antigo, cem milhões de caras a cair  como aqueles balões do Ano Novo, a cair, a cair em nada. Era assim que o Tempo cheirava, parecia e soava. E naquela noite - Tomás pôs a mão fora da janela, ao vento - quase se podia tocar no tempo."

Bradbury, R. "Crónicas Marcianas"

quarta-feira, junho 27, 2012

Horta no Terraço Série II




A vida dá umas voltas estranhas, destrói-nos as certezas expõe-nos aos fracassos e no entanto continua a abrir caminho para novos desafios.

Começar de novo é por isso a palavra de ordem.

A horta no terraço foi durante mais de um ano o meu passatempo preferido. Lembro-me das grandes alegrias. Da primeira alface colhida, dos morangos que surgiam espaçados, vermelhos, pequenos e muito doces.

Das saladas de verão com tomates que fiz crescer de pequenas sementes. As ervas de cheiro, a hortelã, um mundo de cheiros pela manhã depois da rega.

As preocupações dos fins-de-semana fora, a razia que foram as férias, e mesmo assim com muito cuidado e carinho consegui recuperar os morangueiros, replantar as alfaces, num movimento perpétuo de dar e receber para com a terra. Pouca, nos meus vasos, um cantinho de mundo.

Operou-se então uma mudança de casa, um abandono vergonhoso do meu trabalho, um momento de inaptidão para dar e receber e a horta padeceu pela falta de água e de cuidados.

Os gatos fizeram o resto e transformaram os meus vasos numa casa de banho de luxo.

Mas vou começar de novo. Recuperei os vasos, estou a planear espaços. Hoje comprei o substrato, uns pés de alface.

Nem tudo tem remédio e os meus morangueiros não terão nova vida. Mas outros nascerão em seu lugar.

Não é a melhor altura para plantar, fazer nascer… mas também isso é um desafio. Planear, montar, esperar que cresça, ver o mundo a tomar forma.

Tudo a renascer.