sexta-feira, janeiro 08, 2016

Notas de 2016 I


"Acordar para mim não é um simples ato da vida. É como se um tornado me roubasse ao mundo dos sonhos e me cuspisse na realidade. Uma violência, todos os dias. Levantar-me e ir correr, faz-me sentir como um borrego acabado de nascer, que ainda cambaleante se levanta e dá uma volta à mãe. Inicio o dia a nascer, todos os dias, com enorme violência.Não é por isso mau feitio ou indisposição. O que me acontece pela manhã é uma exaustão momentânea, como se eu estivesse a digerir toda esta nova informação, a luz do dia o espanto de estar viva."

 IN Angie Notes

segunda-feira, novembro 02, 2015

Simpatia inacabada...


Tenho esta simpatia inacabada
pela vida, por respirar
uma paixão desapegada
sinto-a ainda por consumar

E a cada dia que vivo
a cada overdose de sentir
busco em tudo o motivo
esta dúvida anda-me a consumir

Há mais? É isto?
a minha vida a acontecer
belisco-me a ver se existo
quero tanto viver...

Está inacabada
a minha paixão de viver
vagueio sem estrada
nunca sei que caminho fazer....

sexta-feira, outubro 30, 2015

De ontem...



Dos despojos de ontem
não sobra nada
são o entulho de anos
espalhados pela pedra da calçada.

Na luz baça da noite
nas paredes por caiar
na sombra de mim, deixa-me que te conte
que ainda anda por aqui a vaguear

Isso tudo, esse sentimento de perda
de perda de coisas que já não se quer
O entulho na passagem, apertada
a sombra de uma vida que não se pode viver

Dos despojos de ontem
não sobra nada
empilhemos o entulho
façamos uma escada...

domingo, outubro 04, 2015

Metades...


Não quero encontrar a outra metade
vivo-me por inteiro, um todo
efervescente, vivo de vontade
há dias que podia engolir o mundo

Queria sentir e partilhar
dançar de olhos fechados no escuro
arder nas palavras sem precisar de as falar
ter noutro corpo um lugar seguro

E rir, sem jeito nem razão
receber sem pedir, afogar-me no prazer de dar
outro todo comigo em rota de colisão
acidentando-nos até o tempo acabar....




quarta-feira, setembro 23, 2015

Mar

Já não é o mesmo mar
esse que hoje senti
onde me deixei afundar
não chegou bem a mim

Ainda que o sol esteja quente
e o estio mal acabado
é qualquer coisa que se sente
não é o mesmo mar salgado

Vem num arrepio
sente-se na pele
este é um mar frio
sinto já saudades dele

Não é o mesmo mar...
que não nos afogue essas ideias
algures... o verão estará só a começar
aqui mergulhamos em nostalgias...










quarta-feira, setembro 16, 2015

De morrer...


Medo...só de ter uma morte desgraçada
que me exploda a cabeça
e eu não consiga pensar em nada
que me prendam as pernas, fique tropeça

Que me afogue nos meus pulmões
sem coração para respirar
que nem consiga maldizer com palavrões
tamanha falta de ar

Medo...só que a vida tenha sido miserável
que não se me fulmine de vez a alma
e eu fique nesse estado inimaginável
um vegetal secando com calma

Medo..só de não me poder valer
de habitar um corpo que não é meu
dele me abandonar, deixar-se morrer
castigar-me...diluindo o eu

Ficar desalojada
essa desencarnação
O meu corpo, casa ocupada...
pensa ao ritmo que bate o coração...



terça-feira, agosto 25, 2015

A casa imaginada...


Vivo numa casa imaginada
cujas paredes vou moldando
não tem telhado, nem chão...nada
e da janela vê-se um mundo que estou pintando

Não tem cheiro seu
cheira a todas as casas onde vivi
a um canto solarengo de céu
ás vezes quase que cheira a mim

Na rua uma loja com maças
um café de esquina
onde me sentar pelas manhãs
bebendo canecas de cafeina

Um bom dia sorrindo
uma porta familiar
um cão correndo
um sitio onde descansar

A casa imaginada
todas as casas onde vivi
uma casa inventada
que só existe dentro de mim.

Uma casa que é errante
que está em todo o lado
como um mau amante
tudo é apenas imaginado...



segunda-feira, agosto 17, 2015

Os dias...



Os dias...vividos em espanto
o oxigênio extinguindo-se... acabando
o tempo que se perde...tanto
Roçando-nos na pele...queimando

Os dias, que esperamos deles?
das horas, dos minutos contados?
essa sensação de perda na pele
esse mar de sonhos inquinados

E de novo os dias incessantes
manhã, tarde, noite, madrugada...
nós perdidos a vive-los errantes
mas sem os dias...não nos sobra nada...

quinta-feira, agosto 06, 2015

As ondas...


Mergulhar nessa parede de água violenta
no liquido primordial, não ter peso
o coração batendo de forma lenta
soltando na mente tudo em que penso

E por momentos essa aflição
a extinção da vida na falta de ar
o abandono, a lentidão
a paz do silêncio no mar

As ondas crescendo da caricia
até à violência, batendo
no nosso corpo frágil e sem malicia
que com gozo ao perigo vai cedendo

As ondas brilhando ao sol
pratas, brancos, ouro nas areias
e o corpo batido, como que fugindo do anzol
perde-se no azul, onde não há coisas feias

E nas ondas, nessa falta de ar
o coração agora batendo com aflição
morre-se e nasce-se...essa sensação...
rolando na maré com ânsia de respirar.




segunda-feira, agosto 03, 2015

Agosto...



Será que vivemos outro Agosto?
Que a história se escreve
que se esgota o desgosto
num qualquer vinho que se bebe...

Será que ainda vamos cá estar?
sem respostas, só duvidando
sem vontade nem forma de perguntar
com o silêncio nos enganando...

Vivemos outro Agosto?
Consegues imaginar?
A este sinto-lhe o gosto
Que estarás tu a pensar....

Uma mala...



Queria  que vida coubesse toda numa mala
leve, mas sem fundo
Que desse para agarrar e levá-la
Sair sem raízes para o mundo

Ser a única bagagem
Uma mala que eu pudesse carregar
Sem plano nem mapa, só coragem
Sem casa para onde telefonar

Uma vida dessas leves
Sem problemas nem resoluções
Noites longas e dias breves
Sem expectativas nem ilusões.

Uma mala só de histórias
Sem trabalhos nem ralações
Uma mala de boas memórias
Existir nos dias, não ter preocupações....


terça-feira, julho 28, 2015

O cansaço...

O cansaço dos dias acumulando-se nos pés.
As noites pouco dormidas
Os dias corridos e acabados no limite da fé.
O cansaço destas vidas.

Os dias que não podem ser um qualquer dia
Essa ilusão de significado
Das horas, de estimulo perpétuo
O cansaço acumulado sobre essa ideia de alegria.

E o vazio do cansaço, que não nos deixa sossegar
A negação da procrastinação
A repulsa do inútil, do tempo perdido a pensar
O cansaço vivido na negação.

Um dia que é um dia qualquer
O cansaço assim sendo desperdiçado
E nós gastando a vida sem saber....
Um dia que não foi O dia... acabado.







quarta-feira, julho 08, 2015

Os tempos que vivemos...


O meu pai sempre me disse que a geração dele tinha sido privilegiada pelos tempos.

Nascido em 1942 era ainda um bebé de fraldas quando acabou a segunda guerra mundial. Caminhou descalço para a escola e viu o advento da televisão, primeiro a preto e branco no café da terra e depois a cores e depois na casa de todos.

Viu os carros a começar a circular pelas estradas esburacadas de macadame e os aviões a aterrar quando viajar era um luxo impensável.

Passou da salgadeira para os frigoríficos, do tanque para as maquinas de lavar, das cabanas para as casas compradas pelo banco e vendidas, 20 anos depois, pelo triplo.

O meu pai viu o mundo prosperar. E há duas décadas que me diz que isto vai rebentar. Sempre me disse, "Ângela, nunca o mundo viveu tantos anos de paz,"

Eu sempre tive mais em que pensar...

***


Um dia destes, numa manhã calma de semana entra-me duas clientes, munidas de mala Louis Vuitton e um aparato de indumentária digna de um qualquer vídeoclipp de Rap dos States. Entram-me pela loja e gastam em 15 minutos 1800€ em 6 garrafas de vinho. Pagam em notas lambidas à minha frente. 

Acho bem. Eu só tenho trabalho porque há pessoas que podem gastar dinheiro à bruta em coisas sem sentido.

Não é isso que me choca. O que me choca é que haja quem beba ao almoço garrafas de vinho que custam metade do meu ordenado como se fosse um copo de água, e que as comprem à dúzia com a mesma displicência com que eu vou ao supermercado comprar um pack de cervejas. Com menos, que eu regateio nas prateleiras o preço.

A riqueza extrema não me afeta per si. O que a torna obscena é a pobreza de todos os outros. É a sua existência isolada e principalmente o fosso, sem ponte, que existe entre os que tem demais e os que cada vez têm menos.

As minha ideias de esquerda perderam-se há muito. Percebi ao longo dos anos que o cool de ser de esquerda se esgota na discussão dos costumes, Sou de esquerda sempre que se fala em aborto, em legalização de drogas ou de qualquer tipo de escolha pessoal. A minha geração não tinha mais pelo que lutar e essas foram as nossas lutas. As propinas, os charros e outras quantas liberdades sociais.
Mas quando cresces, pagas impostos, e vês as merdas que por ai acontecem endureces um pouco a forma de encarar o dito estado social.
No entanto, quando alguém gasta em 6 garrafas de vinho aquilo que eu valho em 3 meses de trabalho algum desse espirito reacionário acorda, porra, que mundo é este?!

***

Hoje na rádio ouvi que regredimos em termos de poder de compra 25 anos, estávamos ao nível de 1990.

O terrível que é andar para trás... lembro da emoção da entrada do euro em 2001. Do admirável mundo novo e de toda a minha adolescência completamente despreocupada em relação ao dinheiro. O melhor estava para vir. Desde que pude trabalhei no Verão, assim que pude fui autônoma e sempre me sustentei com vagar.

E hoje, 14 anos depois sou muito menos capaz de o fazer do que quanto tinha 17...

*** 

A meio dos anos 2000 participei em intercâmbios, viajei. Eramos cidadãos Europeus - outro admirável mundo novo.

Conectávamos com os outros, com culturas e modos de vida. A multiculturalidade demandava que socializássemos com pessoas diferentes. Com os muçulmanos da Turquia que queriam entrar da mesma forma que socializamos com a malta mais barulhenta da Europa que vinha de Itália ou com os soldadinhos de chumbo da Polônia. Desfazer estes esterótipos era a ordem  do dia e dos milhares de euros gastos nas férias pagas.
E desfizemos. Arranjamos amigos para a vida, sentimos-se próximos.

E como nos sentimos agora que queremos expulsar os Gregos?
Que vamos sentir quando decidirem nos expulsar a nós?

Que sentimos realmente em relação a isto tudo?

Mal leio noticias, não percebo nada de mercados de divida e cada vez me esforço mais para manter a minha mente num qualquer nível avançado de ignorância.

Mas deu-me vontade de chorar quando recebi o alerta do voto maioritário no Não na Grécia no telemóvel. Não porque discorde deles... mas porque lhes entendo a dimensão histórica. Porque um dia nos havemos de lembrar desse momento.

Não vejo televisão, não compro jornais e leio de enviesado as Newsletters que recebo.
Nunca pensei, em algum momento da minha vida - acadêmica até - ter medo das noticias.
As noticias, a verdade. Um dia achei que ia fazer mesmo isso....

O melhor afinal já tinha passado.

***


O fosso entre os pobres e ricos é estrutural, Nunca antes na história ele despareceu realmente. Talvez nos anos pós-guerra nuns Estados Unidos a florescer no baby boom e no sonho americano, da casa com alpendre e balouço oscilando ao sol enquanto espera o Ford que há-de chegar do trabalho.

Não me queixo dessa ilusão. A minha educação burguesa preparou-se para trabalhar. Nunca faltou nada, sempre fui privilegiada - e continuo a ser das mais variadas formas - mas sempre soube que isso tinha contrapartidas.

A unica coisa que me queixo a sério desta vida, não é o quanto trabalho, mas o tão pouco o meu trabalho vale.

Mais valia termos sido sempre pobres.

Uma vez que vimos a beleza, nada do que é feio nos basta...

Há dias, que nem o mito de Sísifo nos consola...












quarta-feira, junho 24, 2015

Histórias da Cidade I



Os dias longos do inicio de verão tinham esse dom de a deixar bem disposta. Sair do trabalho com luz, sentir as ruas vibrantes da cidade ainda cheias de um dia que teima em não acabar. Apinhadas de gente, de táxis, de eléctricos e os seus sons metálicos, de tuk-tuks e outras invenções com motores berrantes todos fundindo-se nos sons das esplanadas e com as gaivotas guinchando junto ao rio.

Atravessava o Terreiro do Paço vinda da Rua da Prata e sentia-se sempre engolida por todo aquele espaço em frente ao rio, pela amplitude dos sons e a ligeira sensação trepidante debaixo dos pés a cada novo carro rolando nos paralelos. 

Desistiu mais uma vez do elétrico, o 15E ia demorar mais 6 minutos a chegar a mais uma paragem no seu caminho até Algés, era o que informava o monitor, e a paragem estava cheia de gente, respirou fundo e seguiu a pé.

Entre o cais das colunas e o cais do Sodré vivem-se fins de tarde pachorrentos, esponjados  pela praia de cimento.

Os cheiros do rio, os tabacos, os carros apressados e uma promessa de mar que vem de longe criam um odor exótico que só se entende ouvindo a mescla de línguas que sobrevivem abafadas pelo rolar dos carros nos ripados de madeira e aço por cima do rio.

Ia de passo largo pensando nisso tudo e no comboio que tinha de apanhar. Ia contando as luzes que se acendiam na outra margem, invejando os ténis da miuda sentada no muro, rindo das tentativas de tirar fotografias dos desconhecidos, agoniando-se com o vinho de pacote partilhado pelo casal junto à água, pensando em  nada.

Avançando pelos sinais de perigo avisando que se pode escorregar e cair ao rio até ao pequeno largo onde um pequeno grupo se prepara para tocar.

A guitarra de blues soa ainda no ensaio dos acordes e à sua passagem a bateria começa a bater ritmada marcando-lhe os passos.

Juntos aos muros do rio as pessoas juntam-se nas mesas de esplanada e nas cadeiras de lona existindo de forma despreocupada.

Sentiu-se por momentos muito viva, como se tudo aquele cenário lhe pertencesse, como se não fosse a sair do trabalho para apanhar o comboio suburbano a caminho de casa onde chegará demasiado tarde para jantar.

No ritmo dessa bateria, desse espirito jovem brilhando à beira rio os seus anos deixaram de contar e o seu passo ganhou um porte de confiança, como se fosse apanhar uma carruagem dourada a caminho de um futuro excitante pelo o qual mal pudesse esperar.

O ar cheirava a limas e a hortelã e os copos bonitos passavam nas mãos dos que se iam sentar nas cadeiras de lona com vista para o desaguar do rio no mar.

Nesse momento de mindfullness, essa conjugação de cheiros, de sons e de fantasia, a vida pareceu-lhe ser tudo o que podia ser.

Com os passar dos metros o ritmo da bateria tornou-se distante até ser indistinto dos sons da cidade. Parou no fim do passeio junto a uma sarjeta suja para deixar passar o autocarro que se apressava para o Restelo e ouviu distinto o soar dos avisos da estação. Saiu de letargia, correu e tropeçou no velho à estrada da estação, deixou-o a protestar para num passe de mágica entrar por portas que se começavam já a fechar.

Encontrou lugar sentada e respirou fundo enquanto na outra margem a luz do dia se substituía pelas luzes da noite.

Apanhara a carruagem certa, e ainda assim esta chegaria demasiado tarde para jantar.



sábado, maio 23, 2015

Eu e ...o vinho.



Eu e o vinho temos uma "coisa", falamos muito desde cedo. Eu é que levei muito tempo a compreende-lo.

Porque saber beber vinho é um caminho que se faz caminhando, uma aprendizagem ao longo da vida, um processo de envelhecimento em cascos de carvalho francês, uma maturação lenta enquanto os cheiros do dia a dia nos aproximam de cheiros, de tons e a estória dos homens nos ensina os processos de fabrico, as singularidades de cada região até ao pormenor de cada casa.

O vinho é um universo que não acaba e eu ainda nem saí desta galaxia. Mas quero sair. Quero viajar.

Quero saber de castas, de regiões, de acidez, de mineralidade, de processos de envelhecimento e de todo o pequeno pormenor, por mais peculiar que possa ser.

Daqui e de outras terras, porque o vinho é uma idioma universal.

De tudo o que o vinho nos tem para oferecer o torpor do álcool é o menos interessante, o vinho é vida dentro de uma garrafa.

Vivemos muitas vidas enquanto saboreamos vinho. Só isso explica a paixão.

E não é isso que procuramos a todo o momento, viver outras vidas?

Seja num bom livro, num filme ou num vinho extraordinário?

O tempo "engarrafado"? Sensações que não são nossas mas que podemos viver?

Eu e o vinho temos essa "coisa", e andamos a namorar há algum tempo.

Decidi declarar-me.

Um dia foi o jornalismo, hoje é o vinho. Espero um dia poder harmoniza-los.



terça-feira, abril 28, 2015

A Liberdade...e o meu gato.



O meu Gato fixava longamente a rua que ficava para lá da janela fechada. Na rua, na terra desconhecida chilreavam pássaros que saltavam da ameixeira para o limoeiro sem lhe ligar.
Ao fim da tarde, à hora do comer, saiam dos buracos, do meio das laranjeiras, dos quintais dos vizinhos, os gatos despenteados a que damos sustento, gatos vadios, que se punham a fitar o meu gato, deitados de ar satisfeito no meio do terreno, e o meu inerte olhava-os de volta pelo vidro.
Na rua, há o gato preto. O gato preto não gosta do meu. É velho e matreiro e sai nas janeiras para as gatas voltando escanzelado e ferido. Não gosta do meu e assim que pode deu-lhe uma tareia à altura.
Lá fora há perigo, e ainda assim, o meu gato perdido nas nostalgias do mundo desconhecido perdia as tardes imaginando como seria.

***

Pensei então que não há nada mais transversal à vida do que essa necessidade, esse instinto de liberdade.
Na rua há fome, na rua há insegurança, há perigos e outros gatos pouco amistosos, na rua há frio em contraponto á manta fofa do sofá, há chuva sem abrigo. Há incerteza e aventura.

Em casa há proteção.
Mas nessa senda por onde corre o nosso instinto, antes a liberdade cravada de fome e frio, do que a insipidez da vida passada atrás do vidro.

***

O gato aprendeu então a fazer deslizar a janela entreaberta, encolheu-se e passou. Colocou os pés na terra, explorou o quintal, o nosso, depois o do vizinho. Voltou é certo, mas não voltou para ser fechado, voltou para ter a liberdade de sair quando quiser, não lhe abrimos a porta, ele desliza a janela, ele sai sozinho.


***

Algo maravilhoso é essa coisa, esse livre arbítrio. Uma escolha pensada, a auto-exposição ao perigo. O certo é que quando confrontados, não nos falte a coragem, antes preferimos ser livres do que viver protegidos.

E como diria Camus, "A liberdade mais não é que uma oportunidade para sermos melhores", deixemos-se de coisas, nada é mais valioso do que sermos livres.


P.S. 41 anos depois do 25 de Abril ainda ouço por ai saudosistas da outra Era. Dantes desgostava-me a ignorância, de forma penosa. Hoje, enche-me de ira, porque uma grande parte da ignorância é voluntária, pior que não saber, é não querer saber...

segunda-feira, abril 13, 2015

[Terra...]



7 horas de terra. De terra encharcada, de terra seca, de terra queimada e pisada, de cheiro a terra.

De terra nas mãos, de joelhos na terra, passada após passada, um mundo inteiro de terras.

De encostas a afogarem-se no rio, de margens que crescem do leito até ao céu, de planícies de terra que é areia, de areia que são pedras, de pedras parindo terra fértil e escura.

7 horas de eucaliptos, de pinheiros, de pastagens e de charcos. De sítios onde não passam Homens todos os dias, de riachos protegidos de folhas em que não lhes chega o sol, de empenas que não se sobem, contornam-se.

Terra, terra, tantas terras, tantas cores, tantos cheiros…tanto mundo em 7 horas de terra.

segunda-feira, março 30, 2015

[Gente...]



Adoro este barulho de fundo. Gente, gente.

Jazz e gente a falar indulgentemente das suas vidas.

Os amores, o trabalho. A conversa de trás que cruza com a da frente.

Burburinho da vida.


o jazz no fundo, os talheres no prato.

o copo que se enche.

Gente.

Dessa gente anónima que não te quer saber. Dessa que não te vê no canto da mesa.
E o cheiro de gente?

O cheiro a comer. A muitos comeres, misturando o molho de soja com o bife de vaca do talho.

O doce com o salgado.

O perfume de homem com o de cabelo lavado.

As laranjas na banca.

O cheiro a gente usada pelo dia de trabalho.

Tantas, tantas histórias anónimas. tantas vidas por contar...

Tudo nestes metros quadrados de gente sentada a mastigar...

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

A distopia Laboral...


Lembro-me do meu primeiro dia de trabalho. Era uma pequena de 13 anos e fui atrás da irmã mais velha porque queríamos muito ganhar dinheiro no verão para gastar na feira de Agosto.
Fomos para a apanha do tomate, eu durei meio dia e ganhei 1000 escudos.

Mas a minha desistência não me deixou desempregada, passei o resto do verão a ser a secretária da irmã, colada ao telefone fixo com ordens para dizer que "A Mana foi para a praia", e pago ao telefonema. Outros tempos.

No ano a seguir enchi-me de coragem e fui, fui as duas semanas. Que orgulho, comprei as minhas primeiras botas Yellow Cab, uns escandalosos 11 contos de sapatos e fez-se a feira, sem se pedir cá esmolas a ninguém, porque aos 14 anos já se quer mandar na carteira.

No ano a seguir trabalhei todo o mês no café da aldeia. Ganhei 60 contos limpos, com almoço e jantar. Nesse café já havia trabalhado a minha irmã, e duas décadas antes a minha mãe. Ter 15 anos e trabalhar no café é aturar de tudo, mas em 1999 60 contos davam para brincar o ano lectivo todo, davam para o tabaco, para as noitadas e para as compras na Zara nas visitas ocasionais a Lisboa, em 1999 eu senti-me pela primeira vez rica, abri a minha primeira conta no banco, céus como a independência era boa.

A partir daí sempre trabalhei, e sempre evoluí no trabalho. No verões seguintes fazia os três meses de férias grandes no restaurante de praia. No ultimo ano que lá trabalhei, em regime de alimentação e casa paga, ganhei 600€ limpos por mês mais uma média de 25€ de gorjetas por semana, sem  contar com o que me era dado directamente. Em 2002, com 18 anos e o 12º ano acabado de fazer eu ganhava mais do que em muitos trabalhos me oferecem agora.

***

Nos últimos 13 anos, entre a licenciatura, o mestrado e cursos laterais devo ter passado 7 anos dentro das salas de aula. 

Depois de 2006 fui o Gabinete de marketing de uma Universidade que abandonei porque o meu patrão me assediava descaradamente, trabalhei um ano de forma ilegal num jornal da terra, fui sócio-gerente de uma empresa, dei aulas no Ensino Superior, dei formação profissional, andei a promover vinho, carreguei muitas caixas dele, que a bem dizer parece que ganho menos a fazer isso do que ganhava quando só queria dinheiro para as fichas dos carros de choque.

Amanhã é o meu ultimo dia de trabalho, embora eu esteja de férias há várias dias. Mas amanhã, oficialmente acaba-se um ano em que eu trabalhei muito, investi, acreditei e vesti uma camisola que muitas vezes senti vestir sozinha. O mundo do trabalho é ingrato, somos mal mandados de mais para ser verdade na maior parte do tempo. Infelizmente. 

Hoje fui à terceira entrevista em duas semanas. Jogada mais uma vez para uma sala de ar rarefeito, cheio de pessoas enfadadas e recebida por alguém enérgico e despachado. Passam-me de novo um formulário para as mãos, o qual recebo com total indiferença e preencho de forma displicente como fiz questão de dizer a quem me entrevistou. Não é suposto a pessoa com quem eu vou falar ter lido o meu currículo?

Numa das entrevistas anteriores esse formulário ia ao ponto exaustivo de recolha de dados pessoais e financeiros que me pareceu a pura invasão de privacidade.

Quando me telefonaram ontem eu insisti: "É comercial? Veja, vou de propósito a Lisboa, se é uma oferta para comercial não estou interessada." 

Mas pelos vistos, estas empresas devem ganhar comissão à entrevista, mas assegurada de que havia mais opções lá fui eu juntar-me a uma sala cheia de gente indiferenciada. Novos e velhos, de todas as cores todos nós a responder anúncios para Técnico de Comunicação e Marketing e a sermos convidados para fazer parte de uma grande projecto de vida, que é vender pacotes de Telecomunicações de porta a porta.

Entrei, ouvi. Disse que me parecia mal que me tivessem mentido sobre a proposta a que ia, que não tenho a menor vocação para comercial, e vim embora.

Na outra semana fui jogada para uma sala de adversários onde era suposto me apresentar em Inglês, fazer o tal "Elevator Pitch" e discursar sobre como pensava internacionalizar uma Start Up que ainda nem está bem "nacionalizada". Nessa sala de gente estudada a fervilhar de ideias e experiências, de anos vividos no estrangeiro e de nomes de multinacionais cintilantes escritos no topo do currículo vi a triste realidade de uma Era onde o talento se juntou por lutar por ordenados que começam nos "650€ e poderiam chegar aos 800€ conforme a experiência demonstrada".

Isto, para viver em Lisboa onde a renda de um T1 começa nos 450€ e não se sabe onde acaba.

Foi um fim de tarde chuvoso, um vento forte e gelado a vir do mar. Sai de lá com a certeza que não voltaria. Eu, se tivesse de escolher não escolheria a mim. Basta ouvir, ver. 13 anos a entrar e a sair da escola e nunca antes me tinha sentido ultrapassada pelas necessidades de um mercado de trabalho que se transforma muito mais rápido do que nós nos conseguimos reciclar.

Balançando pela descida à chuva como cheiro a mar de fundo, lembrou-me os fins de tarde do fim de verão, das marés vivas e das trovoadas de Agosto. 

Pensei: "De todos os trabalhos que tive, nunca foi tão fácil saber do meu lugar no mundo, nunca fui tão necessária e recompensada como quando trabalhei no restaurante da praia..."

Ironias da vida.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Dos limites e outras fronteiras...



Há uns anos a verdadeira questão residia no auto-conhecimento. Quem sou, como sou? Como reajo, se me tremem as mãos de nervoso perante os grandes momentos da vida? Define-te em poucas palavras, perde-te num mar de texto, sabes afinal quem és?

Sabes, como irás decidir nas pequenas contrariedades, conheces-te perante cada situação. E esse mar de dúvidas poderia ocupar grande parte do pensamento, gerar frustração por uma resposta contrária ao esperado ou uma reacção descabida. Nessas tantas vezes em que não nos reconhecemos.

***

Hoje a questão coloca-se quase sempre sobre os limites. Sabes onde estão? És capaz de? Nessa tua mente torcida, nesse espaço etéreo das ideias, és capaz de? Fronteiras, metas, limites, superação.

***

Deu-me então para pensar há uns tempos que sei exactamente quem sou, como se tivesse tido um encontro imediato com esta pessoa, como se tivessemos ficado numa longa conversa de café ao fim de tarde e ela me tivesse contado os seus mais recônditos segredos, admitindo as suas vergonhas. Como se num confessionário ela me tivesse explicado a natureza da sua maldade ao mesmo tempo que abria o coração enorme para mostrar as coisas boas.

A natureza das suas buscas, as idiossincrasias da sua moralidade. Essa luta interior entre o correto para o mundo e o correto para si. Conversamos tão longamente que nos podemos fundir e finalmente serenar numa outra busca. Os limites.

***

Nos últimos anos deu-me para ser a cínica das relações. Daquelas que se compõem de homens e mulheres, de hormonas e de esperanças e expectativas e quase inevitavelmente da antítese brutal de tudo isso. Dos corações partidos, das expectativas nunca alcançadas, do desgaste, da perda.
Uma parte de mim atingiu esse limite e matou o romance. Não a paixão, não o carinho, não a confiança. Mas o romance é o óbito da década.

***

De todas as vidas que eu poderia ter vivido está a calhar-me esta, que é de uma estrema liberdade interior e de igual responsabilidade. Nas pequenas e grandes decisões, apenas essa conversa de café que eu fiz comigo mesma serve de guião. Esse conjunto de pequenas directivas capazes de definir-me e que me permitem reconhecer-me naquilo que decido fazer, seja a coisa certa, seja os erros todos a que conscientemente decidimos nos entregar.


***

O tempo, a consciência da vida, dos dias e das horas a passar apareceu-me nessa conversa. Confrontou-me com uma certa apatia e essa apatia encheu-me de medo. De medo dessa pessoa que não chora nos funerais, que nunca é arrebatada de ficar sem ar, que não quebra, que não se entrega a nada por inteiro, não porque tem medo, mas simplesmente porque nada a faz sentir-se assim. Nunca está à beira de salvar o mundo, nem de o perder, um batimento cardíaco sem alterações, E no entanto, sempre completamente ultrapassada pela beleza da vida...

Nessa conversa interior falamos disso, de soltar, de viver, viver...de experienciar. De provar, de transgredir e de chegar o mais perto possível do meu conceito de estar VIVA.

***

2014 será na minha biografia o ano em que me conheci. 2015 o ano de sair da apatia.