terça-feira, fevereiro 05, 2013

Os dias...


Imaginava os dias, uns a seguir aos outros como pessoas esperando numa fila. Cada um sendo único e especial. 

Cada dia tendo vontades, desejos e necessidades. Cada dia sendo individuo carregado de personalidade. Um dia, sendo recordado. Uns mais especiais que outros e no meio de tantos dias, aquele dia que nunca se poderá esquecer.

Dez anos de dias apresentando-se numa fila. Desfilando perante si. Sorrindo ou chorando, sendo maravilhosos e memoráveis ou odiosos e para esquecer.

Todos esses dias. Únicos e insubstituíveis. Partilhados. Uma história escrevendo-se a duas mãos. 
Esses dias seus conhecidos. Dez anos de dias, onde foram felizes e tristes e amaram e gritaram e se feriram e falharam e venceram e fizeram brilhar o mundo.

Num desses dias algo quebrou...continuava sem o reconhecer. Esse dia infame...
E agora todos os dias são perfeitos estranhos para si.

domingo, janeiro 27, 2013

Ensaios II


Desviou o olhar num gesto mole e fixou o linha do horizonte. O sol punha-se num mar de vermelhos."O dia será quente amanhã." pensou, enquanto tentava por momentos  fugir da sua situação.
Continuava sentada naquela cadeira familiar, na mesa onde tomara tantos cafés em tardes de sol, em muitos daqueles domingos em que saiam para passear. 
Lembrava esses dias. Da brisa morna da primavera em tardes de Março, de como se esquecia de que o dia eventualmente iria arrefecer e precisava sempre do seu regaço até chegar a casa. 
As suas mesas de café, os jornais, as revistas tudo espalhado e aquela linha de horizonte. Enorme, a perder de vista, como a perder de vista eram as suas emoções.
Agora, naquele estranho momento que partilhavam tudo isso parecia demasiado longe.
Ouvia apenas um estranho eco distante, por entre explicações e conversas mal resolvidas.
Como se tivessem varrido o chão todo para debaixo do tapete, e agora o tapete desaparecera. Tudo continuava ali.
Atenuado pelo tempo, meio esquecido mas latente, como pequenas brasas que ficam perdidas no meio da cinza, mortas mas capaz de ressuscitar com um sopro na manhã seguinte.

«»

Reparou naquele gesto tão típico nela. O ausentar-se por momentos, como se tudo o resto perdesse de repente a importância e só ela estivesse ali. O olhar fixo num ponto distante, tinha agora a certeza que ela não o ouvia, nem mesmo quando respondia que sim ou que não, ao acaso jurando que tinha prestado toda a atenção.
Sempre fora parte do seu encanto, ser esse ser impenetrável, com essa imaginação galopante e que se ria sozinha perante um qualquer acontecimento imaginário.
Continua a ter aquela mesma expressão algo infantil, mesmo após tantos anos, conseguia ainda reconhecer a  menina que conheceu.

«»

Perguntava-se constantemente remexendo na memória: "Onde, em que ponto...porquê?" 
Em que momento a vibração do ar deixou de lhe arrepiar a pele, em que ponto as palavras deixaram de fazer sentido e no meio de todas aquelas coisas deixaram de se entender. Como se falassem dialectos diferentes de uma mesma língua.
Houve um momento em que algo quebrou e inevitavelmente, nada voltara a ser igual. 
O tempo parou para eles.
E agora ali, olhando de novo aquele espaço tão seu, agora naquela cadeira sua perdia-se a olhar o horizonte para não olhar para ele. 
Conhecia-lhe cada gesto, sentia-lhe o cheiro. O riso,  forma de cada palavra antes mesmo que a pudesse dizer. E toda aquela intimidade, estilhaçada por uma incógnita era demasiado para o seu ser. 

«»

Sabia que aquela era uma conversa que nenhum deles queria ter. Sabia que podia mesmo ser a conversa impossível. Conhecia-lhe o espírito, não podia ter mudado assim tanto. 
Um doce capaz de gelar em segundos e morrer apática antes de dizer uma palavra que não quisesse dizer.
Um ser blindado. Nunca lhe compreendera esse traço, tão díspar daquilo que era. Daquele ar sonhador.
Reconhecia-lhe, mesmo após tanto tempo de separação, aquela expressão distante. 
Um mundo tão grande, uma incapacidade de partilhar. E ainda assim tinha amado-a durante tanto tempo, perdera a contas ao tempo. Reconhecia-lhe o respirar ansioso, sabia que tinha medo de chorar. E ali, toda aquela intimidade estilhaçada tornou-se demasiado para o seu ser.

«»

O silêncio matava-a por dentro. Não haviam palavras para dizer, o que dizer perante algo irremediavelmente partido? Que debater mais, achar que culpas? E depois de tanto tempo, aquela única pergunta não tinha resposta, que poderiam fazer de si mesmos para além de seguirem vivendo, cada um com os seus pedaços daquilo que tinha sido a sua vida?
Agora que os sonhos se tinham perdido, agora que os melhores anos afinal não estavam mais para vir e não se ouviam mais risos soltos pela casa, misturados com musica, com cheiro de baunilha, nas manhãs frescas de verão quando se debruçava na janela e podiam ainda ser felizes.
Não, não saberiam nunca onde, em que ponto haviam deixado de serem eles mesmos. Como poderiam voltar a ser?

«»

Aquele silêncio. Conhecia-o. Sabia que a conversa findara no vazio das incertezas. Sem respostas. Ela não conseguia ajuda-lo a saber onde deixaram de ser eles mesmos, e sentia que não voltariam a ser.
Desviou então o olhar num gesto mole e fitou o horizonte, o sol desaparecia já, a explosão de vermelhos cessava perante a noite que se instalava engolindo tudo o que se podia ver.
Quando a noite o engoliu, levantou-se então. Ela levantou-se consigo, deram um abraço silencioso e por momentos foram eles mesmos, no aperto daquela intimidade, dos cheiros, dos corações que batem ao mesmo ritmo, de dois corpos que vivem a mesma vida num tempo que congelou.
Teriam ficado ali naquele momento que eliminava todas as perguntas que não tinham respostas, mas crianças  correram atrás de uma bola perdida, um cão ladrou na varanda e o mundo recomeçou a girar e estilhaçou-os de novo.

«» 

Soltou-se daquele abraço num pranto interior. Partiu lentamente por uma rua que não era sua, até que a imagem dele se diluiu engolida pela noite.
Foram iguais a si por momentos, queria ter agarrado esse momento, agarrado em si e nele e não os ter deixado fugir.
Mas gelou. Nas perguntas sem respostas, nos cacos de si que já não se aguentavam mais juntos.
No escuro daquela noite sentiu-se a desaparecer.
Sentiu a certeza que nunca poderiam sarar aquela ferida.






sábado, janeiro 26, 2013

Ensaios I



O Silêncio. Um eco sem cor vibrando pela casa. Todos esses lugares comuns, o pó dos móveis e os papéis abandonados ao acaso.
O cheiro familiar, algo adocicado, misturado com o comer de ontem, perdido na memória do dia.
O escuro da luz neutra, baixa para não ferir os olhos. Tudo no silêncio da casa.
A sua casa, tão sua uns dias, outros completamente indiferente.

Não havia pronunciado uma palavra naquela semana. Foi como se as palavras fugissem de si, se escondessem num qualquer recanto da mente, se recusassem a formar as ideias que cresciam no seu ser.
Quedara-se num canto da casa na penumbra, olhando ao longe um fio fino de paisagem por uma nesga da janela.
E via, no chão de madeira o dia a passar, as horas marcadas por sombras. Dias radiosos de sol pelo brilho do soalho, aquele dia triste de chuva pela triste escuridão da casa.
Pensou que se esquecesse as palavras, se permitisse que elas se esvaíssem de si aqueles sentimentos que a atormentavam desapareceriam também na ausência de significado, na impossibilidade de tradução.
Esperou, inerte. Perdendo um som de cada vez, esquecendo os rabiscos no papel…havia uma semana que não dizia uma palavra.

Quando todas as palavras se perderam por fim, quando não havia mais código nem símbolos, nem formas de se explicar levantou-se por fim.
Aproximou-se da janela, abriu-a. Cheirou o ar e não soube a que cheirava. Nem conseguiu sorrir ao verde das colinas, ao azul do céu.
Não soube como explicar. Perdera as ideias tristes que havia dentro de si…mas sem as palavras perdera também a beleza dos dias.
Sentir nada pareceu-lhe então um horror maior do que sentir algo que ia doer…Não poderia viver em tamanha apatia.

Quedou-se então perante a janela aberta e lembrou-se de um som de cada vez, prenunciando-o ao vento. Esforçou-se pelas noites, contando as estrelas, dando-lhes nomes. Até que uma frase se formou,  depois um conceito, e o coração apertado criou a dor e o desgosto que vivia em si tornou vivo.

E ainda assim, doendo que estava a sua alma, cheirou o ar e cheirava a terra molhada pela geada da manhã, sorriu à beleza do verde das colinas e viu a aurora nascer, o milagre de um novo dia.
Pensou então na sua ingenuidade. 
Pior que sentir tamanho desgosto, é não sentir nada.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

A arte de passar pela chuva sem se molhar...




O dilúvio era bíblico, um exagero de dias cinzentos, opressivos e entediantes.

O cheiro a bafío alastrava pelas escadas,  a vida dentro da casa hibernava naquela atmosfera de estufa onde a humidade era descontrolada. A roupa molhada espalhada, o caos doméstico, a vida suspensa esperando por uma trégua.

As janelas fechadas, chorando a indiferença dos dias, engarrafando o ar estagnado, barrando os sons do mundo.

Estava nesse torpor dos dias, sendo indiferente, existindo apenas. Imaginando areias douradas e distantes ou os raios de sol beijando as encostas da serra. Estava nesse tédio revendo a vida, olhando pequenos instantâneos.

"Havia sempre passado pela chuva sem se molhar." Pensou.

Vivendo em mar de águas calmas. Sem exageros, sem extremos, sem extravagâncias.

Sem grandes riscos...sem grandes recompensas.

Nesses instantâneos de coisas, de pequenas vitórias festejadas em descrição, de derrotas vividas no silêncio, encontrou-se nessa apatia geral.


Essa forma estranha de se mover na lentidão, no escuro do quarto, sem tocar nos móveis. Sem fazer cair os bibelôs. Esse passo em silêncio, planeado...essa apatia que impossibilita a extravagância.

Os rasgos de génio ou as tristezas capazes de arruinar a vida.

Essa apatia geral de sentido. Como se na chuva ocupasse só aquele estranho vazio onde nada cai, e o dilúvio chegasse até si em segunda mão, molhando-lhe apenas os pés, quando a terra encharcada se recusa a engolir mais água.

Abatia-se sobre si essa ideia opressiva de resignação perante a vida. Não a sensação de falha, só a poderia sentir se tentasse.

Mas essa sensação de apatia, de tédio de quem não falha porque não tentou.
Não gritara alto, nunca ralhara a ninguém...nunca fugira ou insistira em ficar. Sentia pouco, ou muito...de mansinho...na apatia.

E então o tempo existente na sala pesou sobre si. Tornou-se espesso, o tempo impregnado de água, frio.

O tempo perante si, ecoando pelas paredes num tic-tac apressado, passando ao ritmo a que o sangue lhe corria nas veias.

Aflito. O tempo afligindo-se por fim. Ansiando... "obriga-te, sai do ponto vazio, ocupa espaço...ignora a arte de passar pela chuva sem te molhares...."

domingo, janeiro 20, 2013

2013...

O ano já se instalou, veio de mansinho, ocupou o espaço que é seu.

Reclama o tempo que está a passar.
As datas que se aproximam, os seus significados.
2013.

2013 seria o ano.
Assim será outra coisa qualquer.

Outra coisa indefinida, cinzenta, vazia.

Poderia dar-lhe o significado. Mas há dias em que não nos reconhecemos para além do vazio deixado por esse momento de perda.

2013 seria qualquer coisa especial...assim não será nada.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Au revoir Montreal ...

Dizer adeus, mesmo que seja apenas um até breve nunca é fácil, já devia saber.
Já devia conseguir aceitar.

Eu, que sempre vivi entre casas. Entre famílias. Entre férias e meses de escola. Eu e as escovas de dentes espalhadas pelos distritos, uma vida de malas feitas, de momentos de ausência, de coisas irrecuperáveis, perdidas.

E ainda assim, dizer este adeus foi mais doloroso, o mais sentido, será talvez mais longo até breve dito até aqui.

Sempre adorei a minha mana mais velha. Sempre. E sempre vivemos separadas. E mesmo assim, pude estar sempre lá.

No primeiro dia da escola. Quando entrou para a universidade, quando arranjou o primeiro emprego, quando nasceu o primeiro filho....

Não vou estar quando nascer o segundo, desta vez é longe a distância...dói de pensar nos meses, nos anos de primeiras coisas que não vou ver... Essa perda, de todas as oportunidades, de sorrisos, de pequenas zangas...essas palavras esquisitas e as reconciliações. 

Todas as vezes que rimos até nos doer a barriga, quando choramos sem razão, quando sorrimos de alegria. 

A vida vai fluir, acontecer. Lá longe, entre ecrãs. Cresceremos sendo diferentes.
O meu puto vai crescer ouvindo apenas o meu eco.

Lembrar-se-á que acordava a tia pela manhã com pequenos gritinhos de alegria? Verá fotos um dia. 

Um inverno, naquele que aconteceu a maior tempestade de neve de sempre, a tia veio. Brincou no tapete da sala, cantou bossa nova para o menino dormir, acordou pela manhã com um abraço cheio de energia...

Porra, posso chorar o resto da viagem, posso fazer o avião todo se comover com a minha nostalgia... Estou em perda. 

Merda, só podemos viver uma vida... Só podemos estar num sítio, ser uma vez. Escolher, sabendo da perda, sabendo como poderia ser diferentes tudo o resto, todas as outras opções, as outras vidas que podíamos estar a viver. 

Devíamos esquecer...devíamos ser felizes na ignorância dos nossos dias.
Nunca, sinto...poderei me conformar com tempo.

domingo, dezembro 30, 2012

Cadernos de viagem V




Nevou como não nevava há 45 anos. A cidade jaz literalmente debaixo de meio metro de neve. A vida passa a ser tudo menos fácil, quando se tem de "cavar" o caminho até casa... 

Ainda assim a vida prossegue, ao ritmo dos limpa-neves, das pessoas que com as suas pás limpam passeios e criam caminhos sobre o manto branco. 

Os carros patinam sobre a estrada, mas seguem cuidadosos para o seu destino e as artérias pulsam lentas, abrindo caminho, até voltaram ao normal, como num corpo que se atrofiou, sofreu um ataque cardíaco e agora luta para se recuperar.

Fora da cidade o manto branco possui os montes, as florestas e toma como suas as águas dos lagos, dos ribeiros que pararam de correr e se negam a chegar ao mar.

Florestas inteiras de pinheiros mansos, tristes sobe o peso do gelo, os seus ramos murmuram sons do norte. Sem pássaros, sem vida que se veja. Um silêncio polar. De uma beleza triste, se podermos encontrar beleza no desolamento, no frio gelado, na paz do silêncio, na ausência aparente de vida... 


A norte, nas pistas de Ski tremem luzes pelas montanhas mostrando caminho àqueles que se atrevem a descer nos fins de tarde gelados, aqueles que brincam e riem alto como se estivessem deitados na areia da praia. Ali, tudo aquilo, esse frio gelado, a ser ignorado... Menos dez, sensação térmica menos 15, totalmente intolerável a seres vindos do sul. 

O Sol surge alguns dias, forte, como se viesse reclamar um lugar que é seu. Surpreendente na sua intensidade, tão fugaz, tão inconsequente que o manto branco apenas brilha e se torna eterno debaixo dos nossos pés.

A falta constante de sol torna as pessoas pálidas, as ruas iguais na monotonia das cores. O branco predomina nos jardins, nos parques, nas feridas abertas na malha urbana, a vida pintada de branco e da neve suja das estradas, um contraste total ao conforto, à beleza sóbria e vivida do interior das casas. 

Depois da tempestade, do vento forte que varreu as ruas criando vagas brancas, esse mal soprado por um céu cinzento e ameaçador, acalmam-se os espíritos. Limpam-se os telhados que vergam com o peso do gelo. Passeia-se em cima de lagos gelados. 

Abraça-se essa condição, inverno intenso, penoso e suspira-se pelos meses que virão,anseia-se.


Sabemos já neste ponto da vida...depois da tempestade, virá a bonança. O melhor ainda está para vir.

terça-feira, dezembro 25, 2012

Cadernos de viagem IV

Mundo dos emigrantes é uma estranha fusão entre o país de origem e o país que os acolhe.

Uma fusão entre gerações nascidas em Portugal e aquelas que já são mais daqui.

Há mesa, fala-se numa língua e responde-se noutra. Come-se daquilo que se comeria lá na terra, mas mistura-se com algo criado aqui.

São pessoas do mundo, mas no centro do mundo parece estar sempre Portugal.

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O Natal é mesmo das crianças. São elas que fazem o caos organizado, é nelas que se sente a emoção do desembrulhar os presentes. Pequenos, grandes, úteis  ou inúteis, roupinhas quentinhas, um mundo de objectos desnecessários um esforço monetário apenas para lhes ver brilhar os olhos na noite natal.

Aqui, num país rico, essa profusão de prendas é ainda maior. O desperdício chocante, de papel de embrulho, de caixas de cartão, de mil e um brinquedos, o carro grande, o pequeno, o eléctrico, o que funciona a corda... tudo mas tudo em grande escala.

Não falamos de consumismo se não falarmos no "American Way of Life", tudo o resto somos nós, lá na terrinha a sonhar que podemos fazer mais do que realmente podemos, é até queremos.

Menos por vezes é mais... mais simples, mais verdadeiro, mais responsável, mais importante... 

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O Natal é sobretudo excesso. Excesso de comer, de beber, de prendas. Excesso.
De açúcar nos doces, nas opções do menu, do tamanho dos pratos, excesso. Lá na nossa terra, no outro lado do mundo, na casa da nossa família ou na casa da família dos outros.

Mas também é desculpa para estarmos juntos, para dizermos aos nossos o quanto gostamos deles. Para sermos, por momentos melhores com os outros.

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28 anos depois houve neve no meu Natal. E todo um imaginário infantil fez, por fim, sentido.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Cadernos de Viagem III

Podemos sentir o pulsar de uma cidade apenas andando de Metro.
As linhas que se cruzam, os nomes das estações, os anúncios nas carruagens ou os sons dos lugares.
As pessoas que entram e saem ao som daquela voz roufenha que debita incessantemente nomes de estações entre o abrir e fechar de portas.
Estações novas e estações velhas, com artistas que tocam instrumentos e nos estendem a mão.

Em Montreal o Metro também pulsa assim. É antigo, com um ar escuro como toda a cidade.
Os edifícios aqui tem esse ar simples, desprendido. Como se nada que não seja fulcral existisse dentro dos tijolos acastanhados.

Não sei se já vi um Canadiano, não sei como eles são. No Metro a mistura é enorme. Chineses, muitos. E muçulmanos, mulheres de burca que se destacam do mar de latinos.

A luta contra o frio também é desigual.
Para aqueles que não são de cá sobressai o "over dressing". Esta sou eu. De gorro, de luvas. de botas que podem sobreviver ao Polo Norte e uma casaco digno de esquimó. 

Naqueles que são de cá sobressai um certo desprendimento. Afinal, dentro dos edifícios o conforto é total. Roupa leve e um casaco digno parece ser o correcto. Mas há quem use T-shirt e ténis, quando outros se arrepiam de frio.

Depois da neve há gelo. E o gelo é pior que a neve. Escorrega. É uma armadilha inesperada, brilhante e fatal para os distraídos.
Olhar para onde se põe os pés é obrigatório!

Hoje fiz a primeira visita à parte velha da cidade. A Place D'Armes ou o Old Port, passando pela Place Jacques Cartier.
É uma mistura de edifícios oitocentistas com um certo ar europeu. Faz lembrar o velho mundo, renovado e organizado em ruas largas e rectas.
Há bandeiras de todo mundo espalhadas pelos edifícios e tropeça-se em muitos restaurantes. Portugueses, italianos, chineses, franceses, de sushi misturados com a velha McDonald's, a Starbucks ou o Burguer King.

Cheira constantemente a comer nas ruas, a comer daquele que não faz bem. E na mão das pessoas que passam há muito café quente, em doses XXL.

E afinal há café bom, mesmo desses grandes. Aguados e tão distantes do nosso expresso.

O café é assim, grande e quente, para se beber devagar, aquecendo aos poucos por dentro. Sendo o par perfeito para os dias frios que se vivem aqui!

terça-feira, dezembro 18, 2012

Cadernos de Viagem II



Uma viagem de avião que demora 8 horas é basicamente um domingo de ressaca. Sofá, filmes maus e comida pior.

Sentamos inanimados ate que os ossos doam. Há almofada e manta e monitor e o controlo da programação. É sentar e descontrair.

Nesta viagem sentou-se a meu lado um casal português. Idosos, retornados de uma via inteira de trabalho no estrangeiro, iam de visita aos filhos. Ambos largos, americano XXL, grisalhos e com ar de vizinhos do lado.

Na América deviam ser os portugueses numa qualquer comunidade perdida do Connecticut.

Devo ter este ar complacente, as pessoas falam comigo, não porque querem conversar, mas porque querem falar, ouvir-se. Querem que alguém lhes acene com a cabeça num gesto de concordancia, mesmo que seja um simples acto de simpatia, apenas e só. Uma condescenencia.

Este retornado e dos arrependidos, um daqueles que continua a viver o sonho americano. Portugal e apenas aquele pais perdido onde tudo vai mal.

A conversa não ia mal, mas o velhinho grisalho era algo xenófobo e ate racista...o que me desconsertou. Como pode alguém que viveu toda a sua vida sendo sendo estrangeiro num outro pais pensar assim?

Todos os outros emigrantes tinham algo de errado e eram o mal daquela grande nação...ser português e então uma espécie de posto, que maus são os de Porto Rico, ou os pretos...

Eu sou condescendente, podia dizer-lhe o quanto me parece estranha essa posição. Mas quem sou eu, não sei, não vi. Ouço e analiso. No mundo há gente que pensa de tudo.

Num avião desses, em que vamos emparedados em bancos de três, as horas são lentas e o tempo imperceptível num fuso horário sempre em mutação.

Há sol por cima das nuvens. Um mar delas brancas a perder de vista e um eventual rasgo de azul a lembrar que la por baixo há uma imensidão de oceano. Horas de vazio, sem chão em que e melhor não pensar.

Entre filmes e series e musica o tempo passou pesado no corpo. Chegar a Newark foi um alivio. Newark e um aeroporto a perder de vista. Com comboio que nos leva entre terminais. De noite, na partida o mar de luzes e lindo, organiza aquele transito de aviões em linha para partir. Como numa qualquer estrada.

O café era mau, o WiFi não se deu com o meu samsung e havia gente, muita gente pelos corredores.

Não consinto no meu dia-a-dia ver tanta gente junta. De tantas cores e feitios. As malas que trazem, as roupas que vestem. Pequenos pormenores que nos denunciam, que nos permitem adivinhar de onde vem. Os gestos largos ou discretos, um ligeiro sotaque no inglês, ou talvez um apenas traço tao especifico na fisionomia. Esse ar latino ou chinês que os trai nas filas da alfandega e da problemas na imigração. Ter um ar ocidental, limpo, europeu ajuda. Ninguém me deu outra coisa que não sorrisos. Ninguém fez perguntas desnecessárias ou revistas inapropriadas. Mas e longo o processo, de fila em fila, decalça os sapatos, calça os sapatos, passa no detector de metais vezes sem conta. Oferece sem mais as tuas impressões digitais completas para as bases de dados do FBI e entras. All Clear.

Exausta por fim, a caminho de Montreal num mini-avião da embraer, que parte atrasado e treme, Meu Deus treme com a turbolencia.

Num daqueles tremores que nos lançam o estômago no vazio e nos da uma vontade inédita de rezar.

Quando se avista a linha da costa de Montreal e já outro dia em Portugal.

A cidade imensa por debaixo de nos, as luzes a perder de vista um sabor a natal nos prédios.

Avista-se o Old Port que morre numa cortina de mar gelado.

Ve-se neve pelos parques e são brancos os jardins.

Começa assim a viagem. Neste dia tão longo que não há memoria. Com esta admiração pelo mundo, com todas estas imperfeições, com as pessoas, cada pessoa sendo um mundo em si.

Há momentos na vida que nos deixam assim, a sentir que no fim de tanta turbolencia, o melhor esta mesmo para vir.





P.S. A falta de acentos e outros erros devem-se ao desconhecimento do modo de funcionar deste Macbook. Mas vou trabalhar nisso!

domingo, dezembro 16, 2012

Cadernos de Viagem I



Se o que importa não é o destino, mas sim a viagem, começo em modo sem destino nem objectivo.

Sem preconceitos, nem ansiedades ou perspectivas.

Porque as viagens podem ser mais que movimento físico e terreno ou olhares espantados para o admirável mundo novo que há do outro lado.

As viagens podem ser momentos de profunda introspecção, de projecção de nós no vazio, fora da zona de conforto, dos lugares comuns, nós num sítio inesperado, onde somos abstractos e sozinhos, rostos desconhecidos na multidão.

Gosto de viajar, embora seja avessa ao desconforto. A muitas horas de vazio e coisas pouco familiares. 

Mas gosto de aeroportos, daquele movimento. Da mescla de pessoas que se cruzam, uns despachados e senhores do sítio, outros com ar desajeitado de principiante.

Vidas inteiras dentro de malas, sorrisos de quem vai viver as férias da sua vida e choros de quem vai partir sem data para voltar. Tudo misturado com o som que anuncia partidas e chegadas e as luzes dos painéis de informação, que vivem em movimento perpétuo.

A luz das lojas das zonas de embarque e o avião, o céu, o mundo de possibilidades espalhadas pelos corredores. 

Os aeroportos são mágicos por isso, por esse sentimento de possibilidade. Algo sempre a mudar…

Não conheço o sítio para onde vou. Não conheço as temperaturas que vou encontrar, não sei sequer, se o meu espírito tropical vai aguentar o choque térmico.

Mas estou ansiosa por partir. Começar. 

Entrar no avião e ir, simplesmente. 

Estar na viagem.


quinta-feira, dezembro 06, 2012

Divagações sobre o Tempo IX

"No começo, todas as coisas são boas. Mas como é raro, na história dos homens e das pequenas ou grandes cidades, que sejam boas quando chegam ao fim!
Então, tudo se desfaz. Fica só a gordura. Tudo alastra. O tempo desarticula-se. O leite azeda. De noite,  os fios que escorrem do alto dos postes contam histórias de terror no nevoeiro. A água dos canais desaparece por baixo da espuma. As pedras de isqueiro, riscadas, não fazem faísca. As mulheres, tocadas, não têm calor.
O verão, de repente, chega ao fim.
O inverno põe neve nos ossos.
É tempo de nos virarmos para a parede."

A Morte é um acto solitário
Bradbury, R.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

As ruinas...

Foto: Paula Barbosa - Praia do Alamal, Gavião, Alto Alentejo


"Não gostava do frio. Mas podia compreender a beleza nostálgica das cores de Outono. A morte vegetal em tons garridos, os cobres da terra, os castanhos secos espalhados pelo chão. 

Uma lenta decadência, o mundo em desconstrução, morrendo aos poucos na geada. Sucumbindo por fim. 

Quem pensou que o inferno era um sitio quente, não viveu este frio. Este frio amargo que entra nas articulações, que doí nos joelhos. Os músculos que tremem em espasmos incompreensíveis,  os dedos que paralisam nas mãos.

E vem com o Outono. Este frio, adágio do mundo em ruínas."




terça-feira, dezembro 04, 2012

Os dias…



Que passam sem darmos conta. Excitantes, uns a seguir aos outros, cheios, intensos e depois, se esvaecem no tempo, se perdem, deixamos de lhes sentir a essência.

Como um momento alto, um abuso de substancia alucinogénia, os dias, esses dias tão específicos por que lutamos e vivemos, por que esperamos… que inevitavelmente nos abandonam numa ressaca colossal.

A ressaca emocional, um sofrimento silencioso: o tédio da existência.


domingo, novembro 25, 2012

Me, myself & I


Estou ainda maravilhada com esse milagre: o corpo.

O meu, que me responde, que doí. Que está vivo.

Que insiste e prevalece, que quer estar sempre à altura da minha mente, que insiste em não me desapontar, mesmo que doa, mesmo que pareça demais, mesmo que o instinto seja parar, gritar e desistir.

E nesse ponto nos encontramos, sendo o equilíbrio ténue mas estável, sendo ao fim de tantos anos uma coisa só. Eu.

Tendo a certeza de que esta é a mais perfeita projecção que existe de mim. Sem pesos, sem massa, equilibrando-se nas falhas, encontrando nos limites a compreensão. 

Algo que eu posso esticar, trabalhar e sentir. Um corpo em que confiar, o meu.

Imperfeito, caprichoso, tão humano como todos os outros. Pronto a falhar, a ser doente...a abandonar-me e morrer.

Mas meu, sendo eu. Aqui e agora cheio de vida!

E ao fim de tantos anos de incerteza, de conflito e de luta, de imagens distorcidas e de ideias desfocadas, a paz enfim.

Porque corremos juntos. Sempre.


quarta-feira, novembro 21, 2012

Divagações sobre o amor II



"Ainda sentes o que poderíamos ter sido? Todos esses lugares onde não fomos, as palavras que ficaram por dizer? Esses momentos todos só vividos dentro de nós, num qualquer recanto de uma sala de espera, quando sonhar ainda era permitido?

Ou apenas te perseguem as sombras dos dias feios? Desses pecados que cometemos, dos nossos lados negros se confrontando...Os silêncios obscenos, as ideias a fugirem de nós, a quedarem-se esmorecendo, perdendo sentido, cessarem por fim.

Olhas para trás e encontras apenas destroços de ti, misturados com as ruínas de nós. Essa obra sempre em construção, sempre em aperfeiçoamento, sempre perdida de exaustão.

E depois esse outro lado, esse teu lado absurdo de ser, ainda o vês a tomar conta de ti? Esse ser expectante, sempre a desejar mais, impaciente, curioso, sempre insatisfeito...inquietante.

Que vês desse ponto agora? Agora que parece não mais importar. Agora que se disseram os imperdoáveis, que se fizeram as coisas impensáveis.

Que vês agora? para além dessa vontade metafórica de morrer e nascer noutro lado, sendo qualquer outra coisa, existindo para lá desse fracasso.

Porque no esgotar das palavras surge esse fracasso. De todos os esforços, do empenho, de tudo o que foi sincero, ansiado e vivido.

Um enorme fracasso, um mundo destroçado. Ruínas.

Poderias pensar em tantas outras coisas. Mas amei-te. Muito, tanto, todos os dias, mesmo naqueles em que te odiei visceralmente.

Porque não existe em mim apenas luz,  a minha inquietação é cheia de recantos feios, de sentimentos obscuros. A luta é constante... não sou boa de natureza, mas sei. Posso ser melhor, posso racionalizar-me, posso recalcular-me....

Posso um dia superar esse fracasso. Quem sabe, um dia perdoar-me por ter fracassado. Por não ter sido boa o suficiente. Não fui boa o suficiente na maior parte das vezes...

Eu sei."









segunda-feira, outubro 29, 2012

Divagações sobre o Amor I


"O raciocínio de Leroy é seco como uma lâmina, e Chantal está de acordo: o amor, enquanto exaltação de dois indivíduos,  o amor como fidelidade, apego apaixonado a uma só pessoa, isso não existe. E se existe, é apenas como autopunição, cegueira voluntária, fuga para um convento. Pensa que, mesmo que exista, o amor não deve existir, e esta ideia não a torna amarga; antes pelo contrário, sente uma felicidade que se espalha por todo o corpo."

A Identidade
Milan, K.

sábado, outubro 20, 2012

O tempo




"O tempo tudo consome
Não tenho nada em meu nome..."

007 - O fascinio



Lembro-me de no inicio da adolescência passar longas tardes de fim-de-semana a ver filmes da saga 007. Lembro-me de os ver vezes sem conta, em sessões da tarde repetidas ano após ano pelo recém aberto canal privado, a SIC.

Lembro-me que pouco mais havia para fazer.

Lembro-me de brincar com uma prima aos espiões, de fazermos documentos fingidos em que eu sempre me chamava Tantiana Romanova uma personagem do From Russia With Love.

Lembro-me de sempre me lembrar destes filmes. De serem parte do meu imaginário cinematográfico, do Bond ser o meu galã, muitos antes do cinema Noir e do Bogart não deixar espaço para ninguém (desculpa lá Robert Mitchum).

Tenho e li o Casino Royal do Ian Fleming. Discutimos entre amigos sobe a melhor musica, o melhor actor e vamos desmontando 5 décadas de fascínio.


Não será o melhor que o cinema fez, mas será talvez o fascínio mais prolongado, aquele que superou as mudanças de protagonista, as evoluções tecnológicas, o maravilhoso mundo novo.


Talvez porque 007 sempre foi à frente do seu tempo. Sempre nos mostrou possibilidades. E depois, quem não gosta de um vilão dúbio, que é bom mas mau. Que ama e que mata, que usa e seduz, mas que no fim salva sempre o mundo?


Bond, James Bond, foi tudo em 5 décadas, só não poderia ser um herói do Noir.

Porque não há um Homme Fatal

Ou terá sido ele enganado por uma Femme Falale no Casino Royal?




terça-feira, outubro 16, 2012

Divagações sobre o Tempo VIII


"Este «E assim passa o tempo.» é uma frase fundamental. O problema deles é o tempo, fazer com que o tempo passe, que passe por si mesmo, sozinho, sem esforço da parte deles, sem serem obrigados a atravessá-lo, quais caminhantes esgotados, e é por essa razão que ela fala, porque as palavras que debita fazem o tempo mexer-se discretamente, ao passo que quando tem a boca fechada o tempo imobiliza-se, como uma espécie de enorme e pesada escuridão (...)"

A Identidade
Kundera, Milan