domingo, agosto 12, 2012

Divagações sobre o tempo I


Deixaria de ser assim, tão-somente mergulhada em dúvidas, tentando na sobriedade descortinar o sentido da vida, essa coisa, esse ideal inexistente.
Pois não pode haver sentido, se no fim somos finitos e imensamente sós.
Deixaria de se questionar, de pensar de mais, de perder o momento, essa reserva que a acompanhara, essa prisão, esse medo de viver e de facto, ali, abandonada a um canto só, rendida aos sons quentes do jazz, bebendo vinho branco enquanto cozinhava o almoço, uma ideia lhe surgiu. 
Seria tudo aquilo que poderia ser.

Lembra-se de um dia ter acordado de manhã e achado que seria feliz. Já crescida, muito depois da felicidade ser desmitificada dentro de si. Muito depois ainda, de ser um objectivo.

A felicidade não é algo de concreto, nem palpável, nem se doma, nunca se sabe como a encontrar e às vezes ela vem até nós sem esforço, tropeçamos nela. Outras procuramos, com força e só encontramos frustração.
Desistira já dela. Mas era sempre maravilhosa essa sensação de tropeçar nesse sentimento sempre novo, numa manha de sol ao abrir a janela depois de uma noite bem dormida.

Numa música desconhecida mas celestial. Num qualquer objectivo cumprindo apesar de fútil e fácil.
A felicidade numa tarde morna de Outono. Num passeio na cidade.
E sim, a felicidade nessa sensação de esperança.
Afinal, poderemos ser tudo aquilo que quisermos ser.

E o queremos nós ser? Uma versão melhorada de nós mesmos? Algo diferente? Uma personagem de romance, ter uma vida de filme?
Que queremos ser? Caseiros, familiares, trabalhadores? Maiores que a vida, admirados ou ermitas?
Que queremos afinal? Se podermos ser tudo o que quisermos, o que queremos é então o sentido da vida.

O querer é difícil. Queremos tudo, ao mesmo tempo, sem filtro nem distinção.
O querer, essa força magnifica é a energia da vida.
Travamo-la apenas com essa outra obsessão: a consciência.
A consciência, essa cabra.
Sempre murmurando coisas, uma voz de fundo. Como música ambiente da vida.
Decide o certo e o errado. Os pecados. Essa nossa educação judaico-cristã. Tão ocidentais.

Somos tão livres como livre é a nossa consciência.

Continuava languidamente sorvendo o almoço, ouvindo notas sensuais, bebendo vinho branco, pensando. Poderia fazer tudo o que quisesse. Mas saberia viver com isso?
Mas que quer? Que pode ser?
Nessa vida una e indivisível. Nessa linha de tempo irreproduzível. Nesse exacto segundo que não voltará a existir?

Nesse mundo de oportunidades perdidas.
Como poderá ser tudo o que quer ser, se só vive uma vez, e a vida é finita e gasta a tentar perceber o quer afinal?
O tempo, esse fardo que não se carrega, mas que passa em cadência sentida.
O tempo que não se repete e é insuportável, insustentável. De uma insustentável leveza. O tempo.

Há dez anos. Sim existe há dez anos. Como é possível?

Há dez anos não poderia nunca ser sozinha. A ansiedade, o tempo. Tic tac, tic tac, passando, sentido no relógio. A finitude dos dias que não se podem perder.
“Vamos miúda, levanta-te, corre. Há algo no mundo a acontecer e tu, sim tu, não estás lá. É irrepetível. Corre. Faz tudo o que a tua consciência permitir. Corre. EXISTE”

Faz recordação dos dias, sente o tempo, faz dele físico, sente-o. Os segundos como bafos quentes na pele. Um vento suão numa tarde quente de verão num qualquer sitio suado.
Com ritmos de fundo, com pessoas que saltam ritmadas, com coisas bonitas, cheias de vida. Cores e luzes na noite.
O tempo ai seria pastoso, lento a reter-se em ti, e o tempo podia ser tudo o que quisesses que ele fosse. O mundo, muito para além de ti.
Os dias, as horas, os meses e os anos arrumados e vividos.
O tempo resolvido.

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