quarta-feira, setembro 11, 2019

Um dia de Setembro




Em Portugal, uma criança que tenha nascido NO dia do 9/11 poderá votar nas eleições legislativas de Outubro.
Nesse dia eu tinha 17 anos e procrastinava enfastiada no sofá  à espera do início do ano lectivo. Vimos aquilo na TV em directo e marcou-nos a ferros quentes, a angústia nunca mais nos largou.
Agarrou-nos antes da angústia de ser adulto, antes do aquecimento global passar a ser a crise climática e a angustia do tédio existencial se transformar no vazio de não sabermos o que será o mundo com mais 2ºC.
Os anos que se seguiram e que se continuam a suceder levam-nos para longe do conforto, da segurança da prosperidade.
Ficámos para sempre em alerta. Quebrou-se a confiança no futuro.
São apenas 18 anos. Neles a guerra do Iraque, a Internet, as redes sociais, a crise dos media, o tsunami do Índico, a crise do subprime, mais ataques terroristas. A fome na Venezuela, o êxodo de África afogado no Mediterrâneo, os fogos fatais em Portugal, os glaciares a descongelar e o mar a subir, o Ébola, as árvores na Amazónia a tombar de todas as formas e duas décadas adentro do século XXI, continuamos angustiados.
Perdemos a inocência num dia de Setembro.


terça-feira, agosto 06, 2019

FMM Sines ou a procura dos Mundos


Ir ao FMMSines não é bem ir a uma festival, é ir ao encontro das nossas ansiedades primárias.
É ir a um local questionar o que somos, que vida estamos a viver. É confrontarmo-nos com tantas outras opções. Notar o quanto nos aburguesamos desde os tempos em que queríamos engolir o mundo de uma vez, dança-lo todo numa noite, ser sempre o melhor que achávamos que poderíamos ser,  ainda que sem qualquer mérito ou consideração.

Quando nos sentamos no passeio a gabar caravanas ou a ouvir o babilónico som ambiente, questionamos. Quem são estas pessoas? De onde vêm, que se passou entretanto? Que fixação é esta com cães rafeiros que se assemelham na higiene aos seus próprios donos?

Quem são? Quando decidiram sair da abundância e do conforto para esta vida despida?

E eu? Quando é que decidi ter uma vida convencional, corresponder?

***

O chão do castelo está sempre revestido de ervas frescas, alfazema e hortelã pimenta entrelaçadas no pasto que ao cair da noite, com a chegada da maresia, libertam um odor agradável, campestre que nos faz sentir um pouco mais ligados à terra, como se os nossos pés se prolongassem em raízes profundas e fossemos imovelmente dali.

As muralhas marcam a linha do horizonte e depois disso só um imenso céu, negro e estrelado. Um manto que nos cobre e por baixo dele o palco, as luzes, o barulho das pessoas que balançam nas suas raízes. Pessoas excêntricas, normais, os sós e os seres sociais. Os que visivelmente tiraram a roupa estilizada e se mascararam de Sines e os que no seu melhor fato não sabem onde vieram parar. O castelo pulsa com todos, ainda antes do primeiro acorde, enquanto só as diferentes línguas são música, a cerveja vagueia pelos copos e os fumos brincam de mão em mão. 

Imagino que no inicio, assim que houve consciência o Homem juntou dois sons e criou o ritmo. Rudimentar mas apaziguador, repetitivo e natural como o próprio bater do seu coração.
E depois o sangue a pulsar nas veias, a ansiedade, o medo, a paz e todas as outras nuances da alma humana se começaram a reflectir nesse ritmo e isso é a música.

Em Sines, o primordial encontra-se com o erudito. E isso é musica universal, uma linguagem genética que nos coloca a todos com o sangue a pulsar ao mesmo ritmo. Em paz e em êxtase ao mesmo tempo. Cansados e ainda assim transbordantes de energia, bebados de tudo e experienciando a mais clara das sobriedade. 
A musica a ser comunhão.

Não se vai lá ouvir as modas, nem ser contracultura. Vai-se lá assumir a beleza da diferença. A qualidade do que é bem feito, não importa onde vem nem o quão diferente pode ser de nós, da nossa percepção ou dos parâmetros que nos regem.
Vai-se ao Castelo de Sines viajar. Encontrar Mundos, dentro e fora de nós.
Por isso que voltamos todos os anos. 
Ainda não descobrimos tudo.





quarta-feira, julho 03, 2019

Morreu o Avô.

Morreu o Avô.
O Avô não vive nas nossas memórias da infância. Nunca contou um história, nunca nos ensinou nada para a vida. O Avô não é referência, nem modelo, mas o avô existia.
O Avô vivia à vontade dele, há anos no silêncio dos dias e da sua limitação. 
Diz-se na venda que não havia outro para cavar a terra como ele, o Tigre do Isaías. Chegava ao balcão com duas laranjas no bolso e bebia um litro de tinto. 
Ouço que noutros tempos os carros recorrentes nos caminhos para o Algarve abrandavam o passo a seguir às bombas da Móbil, não fosse ele andar por ali a ziguezaguear encostado à pasteleira ferrugenta.
A bomba já não se chama Móbil, a estrada tem semáforos, há autoestrada....O Tigre já não passa.
O Avô usava um desses chapéus de feltro negro à maltês e tinha os dedos curtos e grossos, como pequenos troncos nodulosos de árvore, retorcidos e exaustos saindo de mãos que nunca faziam festas.
Nos últimos anos sentava-se à esquina da casa a abismar, e fazia-me "espécie". Em que pensaria ele naquela forma de sono acordado... meditava? Revivia memórias? Pensaria tudo aquilo que não podia dizer? Desmontava o mundo?
Quando era criança o Avô trazia melancias no verão, daquelas grandes e riscadas que comíamos sentadas em bancos no quintal com o sumo a escorrer pelos cotovelos para o alguidar no chão. A seguir migávamos as cascas para as galinhas e tomávamos banho com água fria chupada do poço pela motor da rega que hoje teima em não funcionar.
No fim do outono trazia batatas doces que se assavam no lume de chão na casinha mascarrada entre os potes de barro de aquecer água e a lenha incandescente. 
O Avô dizia que tinha bom ouvido, tão bom que ouvia as sementes a germinar debaixo do chão, mas ligava o rádio  bem alto às primeiras horas da madrugada.
Este inverno ensinou-me a cortar lenha num cavalete e danou-se sempre que lhe roubei o trabalho, mesmo que lhe faltasse o equilíbrio e a mim não me faltassem braços.
Dizia que tinha mais dinheiro que terra, mas que importa, não levou nada.
Não levamos nada, nem as memórias. 
Deixamos tudo. 
O banco vazio na esquina da casa, o silêncio nas madrugadas, as laranjeiras por regar e a certeza que não dissemos, não fizemos, não vivemos tudo o que havia para tentar.
O Avô morreu. 
Não passou a ser melhor, nem pior, não é uma referência, não nos ensinou nada para a vida.
Existe com uma caricatura do passado, um lembrança das nossa raízes humildes, do muito que crescemos desde os tempos da terra revolta à enxada. Quando as pessoas só tinha dois nomes próprios, os nossos Avós vão para a terra com lápides resumidas.
Aqui jaz Marino José.
Viveu sempre à sua vontade.






segunda-feira, julho 01, 2019

...

Ontem, sentada num banco de espera de estação do Oriente, bebendo o meu sumo de laranja natural acabado de espremer para uma garrafa de plástico de uso único, observado o rebanho de pessoas indo e vindo. Muitas,  mastigando, bebendo, consumindo, carregando malas, correndo ao desvario ou apenas existindo ali ao ritmo a que os comboios trepidavam nos carris... Ocorreu-me que somos mesmo capazes de estar condenados. A engrenagem não tem travão.
Todo e qualquer esforço noutro sentido é como rolar a pedra de Sísifo.


quarta-feira, junho 05, 2019

Corpo


O corpo, um corpo de mulher.
Líquido. As lágrimas, o suor,
a urina e o sangue, a pele.
O cheiro, a libido, a dor, o prazer
Tocar-se, sofrer, desejar
Corpo que a mente não acompanha
Mente que se expande, a sabedoria
Corpo que encolhe, que mirra.
O medo, a falha, a ansiedade
A marca nova no rosto, a cor mortiça
O cabelo que caí, a estria no peito
O corpo, líquido. A dismorfia.
A fome, a gula, o jejum. A raiva.
A insatisfação, o sono, a insónia
O desconforto, a volúpia, a imaginação
A cólica, o dorido, a impossibilidade, a doença,
a desintegração, a finitude.
Um corpo. O corpo.
De mulher, líquido.
Constante mutação.

quarta-feira, julho 25, 2018

Folhas perdidas - I

Há uns anos as folhas de papel em branco passaram a ser assustadoras. O mundo passou a ser escrito em ecrãs, partilhado freneticamente e à mesma rapidez com que se lembra, tudo se esquece.

Até de nós mesmo nos esquecemos na cadência repentina dos dias, as tarefas, as obrigações, os fretes e pelo meio tudo aquilo que fazemos para nos esquecermos do miserável que é não termos qualquer controle sobre os nossos dias.

Há dias que acordo e só queria uma pequena cabana com porta que abrisse diretamente para o mar. Queria poder andar descalça e semi despida e não ouvir nada, nem ninguém. Poder ficar a sentir a rotação da terra debaixo dos pés nus, a maré em ondas mornas, os sussurros do mundo trazidos pelo vento.

Depois há os outros dias, dias em que nada me chega. Não há simplicidade nem isolamento no brilho do mundo quando somos dragados para o seu interior, para as arenas da urbanidade onde debaixo dos nossos pés calçados nada se sente, porque vivemos a levitar. As luzes, as cores e toda essa torrente de informação que nos atropela e nunca, mas nunca nos deixa tempo para a destilar, o tempo passa nessa espécie de alucinação que não nos deixar pensar só nos permite continuar sem nunca por os pés no chão, somos levados em ombros, nem sabemos para onde estamos a ir.



O sono...


Não sei descansar
não aceito o tempo perdido
esta sede... a alma em ebulição

O meu corpo não tem palavra, só grito
Nunca sofro de cansaço...
só desfaleço de exaustão.

quinta-feira, julho 12, 2018

Dois mil dez oito, ou o voltar a casa



A casa fica num fundo de rua onde o alcatrão acaba. Antigamente o alcatrão nem lá chegava, hoje vivemos com ares de modernidade, um pé no asfalto outro na terra batida ouvindo os pássaros gritando pela manhã enquanto discutem os detalhes das suas vidas.

O aroma do pinhal mistura-se por vezes com o da terra remexida nas manhãs que acordam a cacimbar. De tempos a tempos, os canhões da plantação de mirtilos disparam para afastar animais famintos, nunca antes se haviam ouvido, mas este ano os Javalis desceram da serra e começaram a fuçar pela mata rasa nas madrugadas. 

Ao meio da tarde os velhos sentam-se à esquina da casa numa meditação pouco esclarecida, em silêncio remexendo as bainhas das camisolas e murmurando histórias, questionando a memória, revivendo toda a vida num lugar solitário que parece ser cativo. As velhas perpetuam o manto preto debaixo das batas e o lenço na cabeça a amparar o chapéu de palha, não importa qual for a estação.
 
No fim da tarde ouvem-se os motores da rega, os tratores que voltam e de noite, um cão longínquo pode uivar, de resto o silêncio, as cigarras e o breu do mato. 

Por esta altura o sol deveria se por em chamas por detrás do pinhal, mas 2018 não nos trouxe verão nem melancias, só as melgas e as formigas e os tomates ainda por amadurecer por debaixo da rama.

Quando eu era criança andávamos por aqui de pés descalços na areia, nas tardes quentes do verão fechavam-se os estores porque ninguém poderia aguentar a brisa quente das três da tarde no Estio. 

Quando abríamos a porta, só por curiosidade, a luz forte do dia encandeava-nos os olhos, os pés ardiam na soleira da porta escaldante e o ar rareava nessa massa quente que nos era dada a respirar.

Ansiávamos pelo fim da tarde e pelas guerras de mangueira com a água gelada saída do poço. Lembra-me o cheiro da fruta, da terra molhada depois da rega, das voltas de bicicleta depois do jantar e dos gelados na esplanada da Chaminé onde íamos a pé gastar tempo à noite porque não se conseguia estar em casa.

As décadas que nos separam desses dias são tão longas, mas tão curtas que ao mesmo tempo que conseguimos fechar os olhos e as tocar, nada em nós é mais igual. E embora seja o mesmo sol que bate nos chapéus de feltro preto e sejam os mesmos copos de três servidos nos balcões de mármore manchados e gastos dos tascos, a vida tal como a concebíamos mudou.

A verdade é que agora,  o alcatrão chega-nos à porta de casa.

domingo, janeiro 14, 2018

A terceira década...





Lembro-me de desejar tão fortemente ser adulta, da liberdade que achei que isso ia ser. Da certeza que traria a todas as decisões, das certezas. Ser adulto seria ter certezas, de quem somos, para onde vamos de tudo o que é suposto fazer a seguir.
Acontece que ser adulto é a mesma confusão que era ser adolescente. Talvez pior, porque quando somos adultos, é suposto saber. Eu não sei.
É uma merda!

***

O cinismo pós-adolescente que ainda não é adulto é endémico e preenche todos os espaços vazios entre as nossas células, não nos deixa mais respirar.
Primeiro acaba-se Deus, depois foge-nos o Amor e um dia acordamos a desejar intensamente apenas nos alimentar-nos de raízes e viver descalços numa cabana de apenas uma divisão com uma única porta que abra para o lado do mar.
Num mundo de apaixonados, ser cínica da vida é um acto solitário. Há pessoas apaixonadas pelo seu trabalho de tal forma que não têm vida, há outros cuja vida é tão apaixonante que não chegam a ter um trabalho e pelo o meio há outros que se apaixonam de morte por projeções, personagens ou coisas que encontram pelo caminho. São normalmente sombras adultas de adolescentes ainda em formação e as paixões são tão intensas e mediatizadas como só a Era do Ego nos permite. Todos nós, exercitando o livre arbítrio, tão adolescente como outrora, tão à deriva de motivos, a acordar todos os dias pela manhã, a fazer a comutação entre a cama e essa abreviação de vida, as horas vendidas, o trabalho. E se em nada disso se consegue encontrar sentido, onde ele estará?

***

A crer que em qualquer virar da esquina encontramos o absurdo, já dizia Camus, que nada disto se justifica para além das trocas da aleatoriedade, que quem ardeu nos fogos estava só na hora errada no sitio mal escolhido, que quem fica enterrado nas lamas das cheias simplesmente exerceu mal o poder de escolha e devia ter ido ao cinema em vez de ficar em casa, a acharmos que nada do que façamos nos vai salvar da roleta russa da vida, para quê tanto desperdício de energia?
E ainda assim, não nos conformamos, qual é o sentido?

***

Agora que era suposto sermos adultos e o mundo não é mais o mesmo o que fazemos? O ano que vem não é de crescimento, nas noticias os Reis do mundo medem-se, “o meu botão é maior que o teu”, os ursos polares vagueiam esfomeados em cubos de gelo derretidos, o inverno enjoa-nos de gelado num mundo supostamente aquecido. A comida não tem sabor, ou tem? Será dos aditivos de combustível? Ou das mutações transgénicas? Quem sabe se é da vida que se esvaí antes mesmo de o ter sido confinada em cubículos escuros e sem ar. Entretanto, enquanto escolhemos entre o bife de vaca marinado em antibióticos ou um estilo de vida biológico que nunca vamos conseguir pagar, afogamo-nos na anemia da vida, esse sangramento grave e perene. “É falta de ferro menina, coma um bife.”. Ou é só falta de vida, que de tanto ferro mal tratado jaz enferrujada?


***
Seremos então adultos daqui a dez anos? Outra década, diz que quem entra nos “entas” já não volta para trás. Teremos certezas? Porque os trinta são os novos vinte e quem sabe, quando formos todos descontinuados por um qualquer programa informático e os zeros e uns fizerem tudo por nós, quem sabe se por essa altura sentados de frente para um sol poente por cima do mar possamos pensar-nos de uma vez por todas. Ou não, é o absurdo.

Dizia o poeta que “boa é a vida”, de facto...valha-nos o vinho!


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