domingo, maio 15, 2016

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E se de repente se juntassem todas as casas que habito
Em salas seguidas, de janelas abertas e brisa nos cortinados
Cada canto recriado, cada memória, o cheiro… até o sinto
Eu vagueando por ali, contando a vida num livro de recados

Quantas portas seria preciso atravessar
As salas, as cozinhas, os alpendres sobre ao jardim
Os quartos dormindo na bruma, os lençóis por mudar
Espaços que habito... onde vivem os pedaços de mim

Tantas as casas, o cheiro impregnado
As pessoas, o comer nos tachos, os gatos
Se elas se alinhassem, os espaços lado a lado
Habito tantas casas, vou comendo em tantos pratos...

E se de repente se tornassem todas numa
uma grande casa, viva... a respirar
eu vagueando leve como uma espuma
habitando...o espaço etéreo...o Lar.

domingo, janeiro 31, 2016

32 para a semana…



E ainda não me refiz de ter nascido.
Ainda não defini o divino e estou tentada a não o acreditar… estranho, como sempre vivi uma vida tão secular e, no entanto, o mundo a rodar tantas atrocidades a acontecer, esta ideia tão clara que não sei em que acreditar, por vezes a certeza de que não há como acreditar.

A minha fase existencialista a resvalar para um ateísmo embaraçado, ainda pouco informado, mas latente… fase que ao me afastar de qualquer tipo de pensamento religioso, coloca a questão da religião num centro nevrálgico onde ela nunca esteve na minha vida.

Não desisti do amor, mas defini-o de tantas outras maneiras que ás vezes acho que não vou encontrar ninguém que me possa amar. Neste mundo de Egos, o teu e o meu, o de todos nós, nem sei bem como tal coisa se processa, qual o processo químico, de que silêncio abdicar, o que dar mais. O cinismo nessa área não é mais latente, instalou-se. Das minhas paixões platónicas sai pouco amor. Não sei ainda se sou eu que não sei dar, ou se não sei receber. Se os dois...

Ainda não me sinto em casa. Em lado nenhum, exceto quando me cheira a mar. E nestas três décadas esta é a casa mais perto do mar que alguma vez tive.

Não estou apaixonada pelo dia-a-dia. Elevo-me do tédio existencial a todo o momento para simplesmente viver, como que nunca refeita de uma promessa gloriosa que nunca se cumpriu, parecia haver mais para viver enquanto crescia. Fazer as pazes com o quotidiano, como os movimentos pendulares dos dias, com o almoço e o jantar é difícil, assim como é difícil focar a mente numa qualquer tarefa que exija 8 horas por dia. O trabalho no formato em que ele existe é algo de anti-natural para mim.

Insurgi-me com mais força contra os fretes… faço-os cada vez menos. Compreendo, de forma clara que mesmo que seja intangível o tempo é a coisa mais preciosa que tenho. O tempo que por estes dias se sente a passar como areia fina a escorrer por entre os dedos.

Por isso toda e qualquer perda é demais. Por isso o tempo que damos aos outros é uma dádiva maior, e o tempo que os outros nos dão uma oferta que devemos receber com o coração.

Não aceitei ainda por completo essa coisa do tempo, e continuo a senti-lo em perda diária. De todas as possibilidades que não se materializam e de todas as escolhas que não faço. Idealmente viveríamos em realidades paralelas, a sermos tudo aquilo que poderíamos ser, a melhor versão de nós sempre em teste.

Mas aos 32 anos acho que posso aceitar a transformação do tempo em memórias. A vida que já se pode contar, nem tudo aconteceu ontem, nem toda a gente se conhece de agora. E isso também é uma dádiva.

Por isso a poucos dias dos 32 anos, nesse estado de alma algo adolescente que não se desprende de mim, acho que sou melhor pessoa do que era aos 22.

Prometo-me tentar ser melhor aos 42.


Talvez nunca venha a saber bem o que quero… mas por esta altura vou tendo ideias claras do que não quero.


Aos 32 anos, parece-me um avanço!


P.S. Percebi agora que o Blogue faz em agosto 10 anos... é de alguma forma assustador...

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Notas de 2016 I


"Acordar para mim não é um simples ato da vida. É como se um tornado me roubasse ao mundo dos sonhos e me cuspisse na realidade. Uma violência, todos os dias. Levantar-me e ir correr, faz-me sentir como um borrego acabado de nascer, que ainda cambaleante se levanta e dá uma volta à mãe. Inicio o dia a nascer, todos os dias, com enorme violência.Não é por isso mau feitio ou indisposição. O que me acontece pela manhã é uma exaustão momentânea, como se eu estivesse a digerir toda esta nova informação, a luz do dia o espanto de estar viva."

 IN Angie Notes

segunda-feira, novembro 02, 2015

Simpatia inacabada...


Tenho esta simpatia inacabada
pela vida, por respirar
uma paixão desapegada
sinto-a ainda por consumar

E a cada dia que vivo
a cada overdose de sentir
busco em tudo o motivo
esta dúvida anda-me a consumir

Há mais? É isto?
a minha vida a acontecer
belisco-me a ver se existo
quero tanto viver...

Está inacabada
a minha paixão de viver
vagueio sem estrada
nunca sei que caminho fazer....

sexta-feira, outubro 30, 2015

De ontem...



Dos despojos de ontem
não sobra nada
são o entulho de anos
espalhados pela pedra da calçada.

Na luz baça da noite
nas paredes por caiar
na sombra de mim, deixa-me que te conte
que ainda anda por aqui a vaguear

Isso tudo, esse sentimento de perda
de perda de coisas que já não se quer
O entulho na passagem, apertada
a sombra de uma vida que não se pode viver

Dos despojos de ontem
não sobra nada
empilhemos o entulho
façamos uma escada...

domingo, outubro 04, 2015

Metades...


Não quero encontrar a outra metade
vivo-me por inteiro, um todo
efervescente, vivo de vontade
há dias que podia engolir o mundo

Queria sentir e partilhar
dançar de olhos fechados no escuro
arder nas palavras sem precisar de as falar
ter noutro corpo um lugar seguro

E rir, sem jeito nem razão
receber sem pedir, afogar-me no prazer de dar
outro todo comigo em rota de colisão
acidentando-nos até o tempo acabar....




quarta-feira, setembro 23, 2015

Mar

Já não é o mesmo mar
esse que hoje senti
onde me deixei afundar
não chegou bem a mim

Ainda que o sol esteja quente
e o estio mal acabado
é qualquer coisa que se sente
não é o mesmo mar salgado

Vem num arrepio
sente-se na pele
este é um mar frio
sinto já saudades dele

Não é o mesmo mar...
que não nos afogue essas ideias
algures... o verão estará só a começar
aqui mergulhamos em nostalgias...










quarta-feira, setembro 16, 2015

De morrer...


Medo...só de ter uma morte desgraçada
que me exploda a cabeça
e eu não consiga pensar em nada
que me prendam as pernas, fique tropeça

Que me afogue nos meus pulmões
sem coração para respirar
que nem consiga maldizer com palavrões
tamanha falta de ar

Medo...só que a vida tenha sido miserável
que não se me fulmine de vez a alma
e eu fique nesse estado inimaginável
um vegetal secando com calma

Medo..só de não me poder valer
de habitar um corpo que não é meu
dele me abandonar, deixar-se morrer
castigar-me...diluindo o eu

Ficar desalojada
essa desencarnação
O meu corpo, casa ocupada...
pensa ao ritmo que bate o coração...



terça-feira, agosto 25, 2015

A casa imaginada...


Vivo numa casa imaginada
cujas paredes vou moldando
não tem telhado, nem chão...nada
e da janela vê-se um mundo que estou pintando

Não tem cheiro seu
cheira a todas as casas onde vivi
a um canto solarengo de céu
ás vezes quase que cheira a mim

Na rua uma loja com maças
um café de esquina
onde me sentar pelas manhãs
bebendo canecas de cafeina

Um bom dia sorrindo
uma porta familiar
um cão correndo
um sitio onde descansar

A casa imaginada
todas as casas onde vivi
uma casa inventada
que só existe dentro de mim.

Uma casa que é errante
que está em todo o lado
como um mau amante
tudo é apenas imaginado...



segunda-feira, agosto 17, 2015

Os dias...



Os dias...vividos em espanto
o oxigênio extinguindo-se... acabando
o tempo que se perde...tanto
Roçando-nos na pele...queimando

Os dias, que esperamos deles?
das horas, dos minutos contados?
essa sensação de perda na pele
esse mar de sonhos inquinados

E de novo os dias incessantes
manhã, tarde, noite, madrugada...
nós perdidos a vive-los errantes
mas sem os dias...não nos sobra nada...

quinta-feira, agosto 06, 2015

As ondas...


Mergulhar nessa parede de água violenta
no liquido primordial, não ter peso
o coração batendo de forma lenta
soltando na mente tudo em que penso

E por momentos essa aflição
a extinção da vida na falta de ar
o abandono, a lentidão
a paz do silêncio no mar

As ondas crescendo da caricia
até à violência, batendo
no nosso corpo frágil e sem malicia
que com gozo ao perigo vai cedendo

As ondas brilhando ao sol
pratas, brancos, ouro nas areias
e o corpo batido, como que fugindo do anzol
perde-se no azul, onde não há coisas feias

E nas ondas, nessa falta de ar
o coração agora batendo com aflição
morre-se e nasce-se...essa sensação...
rolando na maré com ânsia de respirar.




segunda-feira, agosto 03, 2015

Agosto...



Será que vivemos outro Agosto?
Que a história se escreve
que se esgota o desgosto
num qualquer vinho que se bebe...

Será que ainda vamos cá estar?
sem respostas, só duvidando
sem vontade nem forma de perguntar
com o silêncio nos enganando...

Vivemos outro Agosto?
Consegues imaginar?
A este sinto-lhe o gosto
Que estarás tu a pensar....

Uma mala...



Queria  que vida coubesse toda numa mala
leve, mas sem fundo
Que desse para agarrar e levá-la
Sair sem raízes para o mundo

Ser a única bagagem
Uma mala que eu pudesse carregar
Sem plano nem mapa, só coragem
Sem casa para onde telefonar

Uma vida dessas leves
Sem problemas nem resoluções
Noites longas e dias breves
Sem expectativas nem ilusões.

Uma mala só de histórias
Sem trabalhos nem ralações
Uma mala de boas memórias
Existir nos dias, não ter preocupações....


terça-feira, julho 28, 2015

O cansaço...

O cansaço dos dias acumulando-se nos pés.
As noites pouco dormidas
Os dias corridos e acabados no limite da fé.
O cansaço destas vidas.

Os dias que não podem ser um qualquer dia
Essa ilusão de significado
Das horas, de estimulo perpétuo
O cansaço acumulado sobre essa ideia de alegria.

E o vazio do cansaço, que não nos deixa sossegar
A negação da procrastinação
A repulsa do inútil, do tempo perdido a pensar
O cansaço vivido na negação.

Um dia que é um dia qualquer
O cansaço assim sendo desperdiçado
E nós gastando a vida sem saber....
Um dia que não foi O dia... acabado.







quarta-feira, julho 08, 2015

Os tempos que vivemos...


O meu pai sempre me disse que a geração dele tinha sido privilegiada pelos tempos.

Nascido em 1942 era ainda um bebé de fraldas quando acabou a segunda guerra mundial. Caminhou descalço para a escola e viu o advento da televisão, primeiro a preto e branco no café da terra e depois a cores e depois na casa de todos.

Viu os carros a começar a circular pelas estradas esburacadas de macadame e os aviões a aterrar quando viajar era um luxo impensável.

Passou da salgadeira para os frigoríficos, do tanque para as maquinas de lavar, das cabanas para as casas compradas pelo banco e vendidas, 20 anos depois, pelo triplo.

O meu pai viu o mundo prosperar. E há duas décadas que me diz que isto vai rebentar. Sempre me disse, "Ângela, nunca o mundo viveu tantos anos de paz,"

Eu sempre tive mais em que pensar...

***


Um dia destes, numa manhã calma de semana entra-me duas clientes, munidas de mala Louis Vuitton e um aparato de indumentária digna de um qualquer vídeoclipp de Rap dos States. Entram-me pela loja e gastam em 15 minutos 1800€ em 6 garrafas de vinho. Pagam em notas lambidas à minha frente. 

Acho bem. Eu só tenho trabalho porque há pessoas que podem gastar dinheiro à bruta em coisas sem sentido.

Não é isso que me choca. O que me choca é que haja quem beba ao almoço garrafas de vinho que custam metade do meu ordenado como se fosse um copo de água, e que as comprem à dúzia com a mesma displicência com que eu vou ao supermercado comprar um pack de cervejas. Com menos, que eu regateio nas prateleiras o preço.

A riqueza extrema não me afeta per si. O que a torna obscena é a pobreza de todos os outros. É a sua existência isolada e principalmente o fosso, sem ponte, que existe entre os que tem demais e os que cada vez têm menos.

As minha ideias de esquerda perderam-se há muito. Percebi ao longo dos anos que o cool de ser de esquerda se esgota na discussão dos costumes, Sou de esquerda sempre que se fala em aborto, em legalização de drogas ou de qualquer tipo de escolha pessoal. A minha geração não tinha mais pelo que lutar e essas foram as nossas lutas. As propinas, os charros e outras quantas liberdades sociais.
Mas quando cresces, pagas impostos, e vês as merdas que por ai acontecem endureces um pouco a forma de encarar o dito estado social.
No entanto, quando alguém gasta em 6 garrafas de vinho aquilo que eu valho em 3 meses de trabalho algum desse espirito reacionário acorda, porra, que mundo é este?!

***

Hoje na rádio ouvi que regredimos em termos de poder de compra 25 anos, estávamos ao nível de 1990.

O terrível que é andar para trás... lembro da emoção da entrada do euro em 2001. Do admirável mundo novo e de toda a minha adolescência completamente despreocupada em relação ao dinheiro. O melhor estava para vir. Desde que pude trabalhei no Verão, assim que pude fui autônoma e sempre me sustentei com vagar.

E hoje, 14 anos depois sou muito menos capaz de o fazer do que quanto tinha 17...

*** 

A meio dos anos 2000 participei em intercâmbios, viajei. Eramos cidadãos Europeus - outro admirável mundo novo.

Conectávamos com os outros, com culturas e modos de vida. A multiculturalidade demandava que socializássemos com pessoas diferentes. Com os muçulmanos da Turquia que queriam entrar da mesma forma que socializamos com a malta mais barulhenta da Europa que vinha de Itália ou com os soldadinhos de chumbo da Polônia. Desfazer estes esterótipos era a ordem  do dia e dos milhares de euros gastos nas férias pagas.
E desfizemos. Arranjamos amigos para a vida, sentimos-se próximos.

E como nos sentimos agora que queremos expulsar os Gregos?
Que vamos sentir quando decidirem nos expulsar a nós?

Que sentimos realmente em relação a isto tudo?

Mal leio noticias, não percebo nada de mercados de divida e cada vez me esforço mais para manter a minha mente num qualquer nível avançado de ignorância.

Mas deu-me vontade de chorar quando recebi o alerta do voto maioritário no Não na Grécia no telemóvel. Não porque discorde deles... mas porque lhes entendo a dimensão histórica. Porque um dia nos havemos de lembrar desse momento.

Não vejo televisão, não compro jornais e leio de enviesado as Newsletters que recebo.
Nunca pensei, em algum momento da minha vida - acadêmica até - ter medo das noticias.
As noticias, a verdade. Um dia achei que ia fazer mesmo isso....

O melhor afinal já tinha passado.

***


O fosso entre os pobres e ricos é estrutural, Nunca antes na história ele despareceu realmente. Talvez nos anos pós-guerra nuns Estados Unidos a florescer no baby boom e no sonho americano, da casa com alpendre e balouço oscilando ao sol enquanto espera o Ford que há-de chegar do trabalho.

Não me queixo dessa ilusão. A minha educação burguesa preparou-se para trabalhar. Nunca faltou nada, sempre fui privilegiada - e continuo a ser das mais variadas formas - mas sempre soube que isso tinha contrapartidas.

A unica coisa que me queixo a sério desta vida, não é o quanto trabalho, mas o tão pouco o meu trabalho vale.

Mais valia termos sido sempre pobres.

Uma vez que vimos a beleza, nada do que é feio nos basta...

Há dias, que nem o mito de Sísifo nos consola...












quarta-feira, junho 24, 2015

Histórias da Cidade I



Os dias longos do inicio de verão tinham esse dom de a deixar bem disposta. Sair do trabalho com luz, sentir as ruas vibrantes da cidade ainda cheias de um dia que teima em não acabar. Apinhadas de gente, de táxis, de eléctricos e os seus sons metálicos, de tuk-tuks e outras invenções com motores berrantes todos fundindo-se nos sons das esplanadas e com as gaivotas guinchando junto ao rio.

Atravessava o Terreiro do Paço vinda da Rua da Prata e sentia-se sempre engolida por todo aquele espaço em frente ao rio, pela amplitude dos sons e a ligeira sensação trepidante debaixo dos pés a cada novo carro rolando nos paralelos. 

Desistiu mais uma vez do elétrico, o 15E ia demorar mais 6 minutos a chegar a mais uma paragem no seu caminho até Algés, era o que informava o monitor, e a paragem estava cheia de gente, respirou fundo e seguiu a pé.

Entre o cais das colunas e o cais do Sodré vivem-se fins de tarde pachorrentos, esponjados  pela praia de cimento.

Os cheiros do rio, os tabacos, os carros apressados e uma promessa de mar que vem de longe criam um odor exótico que só se entende ouvindo a mescla de línguas que sobrevivem abafadas pelo rolar dos carros nos ripados de madeira e aço por cima do rio.

Ia de passo largo pensando nisso tudo e no comboio que tinha de apanhar. Ia contando as luzes que se acendiam na outra margem, invejando os ténis da miuda sentada no muro, rindo das tentativas de tirar fotografias dos desconhecidos, agoniando-se com o vinho de pacote partilhado pelo casal junto à água, pensando em  nada.

Avançando pelos sinais de perigo avisando que se pode escorregar e cair ao rio até ao pequeno largo onde um pequeno grupo se prepara para tocar.

A guitarra de blues soa ainda no ensaio dos acordes e à sua passagem a bateria começa a bater ritmada marcando-lhe os passos.

Juntos aos muros do rio as pessoas juntam-se nas mesas de esplanada e nas cadeiras de lona existindo de forma despreocupada.

Sentiu-se por momentos muito viva, como se tudo aquele cenário lhe pertencesse, como se não fosse a sair do trabalho para apanhar o comboio suburbano a caminho de casa onde chegará demasiado tarde para jantar.

No ritmo dessa bateria, desse espirito jovem brilhando à beira rio os seus anos deixaram de contar e o seu passo ganhou um porte de confiança, como se fosse apanhar uma carruagem dourada a caminho de um futuro excitante pelo o qual mal pudesse esperar.

O ar cheirava a limas e a hortelã e os copos bonitos passavam nas mãos dos que se iam sentar nas cadeiras de lona com vista para o desaguar do rio no mar.

Nesse momento de mindfullness, essa conjugação de cheiros, de sons e de fantasia, a vida pareceu-lhe ser tudo o que podia ser.

Com os passar dos metros o ritmo da bateria tornou-se distante até ser indistinto dos sons da cidade. Parou no fim do passeio junto a uma sarjeta suja para deixar passar o autocarro que se apressava para o Restelo e ouviu distinto o soar dos avisos da estação. Saiu de letargia, correu e tropeçou no velho à estrada da estação, deixou-o a protestar para num passe de mágica entrar por portas que se começavam já a fechar.

Encontrou lugar sentada e respirou fundo enquanto na outra margem a luz do dia se substituía pelas luzes da noite.

Apanhara a carruagem certa, e ainda assim esta chegaria demasiado tarde para jantar.